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Os construtores investiam parte signifi cativa seus bens na aquisi- ção de ferramentas e escravos especializados, como citado há pouco. As fábricas inventariadas se referem à “ideia de casa ou de ofi cina, relacio- nada ao fazer mecânico, o termo nos serve para designar o conjunto de trabalhadores, equipamentos, materiais e infraestrutura que envolvia os ofi ciais pedreiros e carpinteiros em suas construções”.59 Um exemplo de

uma fábrica está no inventário de Sebastião Martins da Costa, outro im- portante construtor na cidade de Mariana, na segunda metade do século XVIII:

uma morada de casas assobradadas cobertas de telha com seu quintal com muro de pedra com casas de fabrica e des- pejo e outras mais contíguas que partem pela parte do nas- cente com o capitão Domingos Pinto Coelho citas nessa cidade ao pé da igreja do Rosário vistos e avaliados carapi- nas práticos [...] 800$000.60

Observa-se que o espaço da casa também assumia função profi ssio- nal, já que as “casas de fábrica” eram parte de uma moradia. O mesmo nota-se em outras ocupações mecânicas, como é o caso de Custódio José Nunes. Esse ferreiro, que viveu na região de Mariana no decorrer do século XVIII, declara entre seus bens “uma morada de casas térreas cobertas de telha com sua tenda de ferreiro em que [vivia]”.61

Na descrição do “inventário dos bens existentes nessa fazenda, per- tencente ao falecido João de Caldas Bacelar e seu sócio, o Alferes Fran-

59 SILVA, Fabiano Gomes da. Op. Cit., p. 91.

60 AHCSM, Inventários, 2º ofício, códice 89, auto 1923. 61 AHCSM, cód. 165, auto 3372, 1º ofício.

cisco Afonso Lage”, constam uma série de ferramentas que possibilita considerar a existência de uma fábrica nessa localidade. Todavia, os bens de ofício dividiam espaço com terras de culturas, cabeças de porcos e plantações já estabelecidas - ou seja, a agricultura e a pecuária eram ati- vidades paralelas à administração das obras arrematadas por Bacelar.62

O inventário de João de Caldas Bacelar continua a mostrar como os construtores investiam em outras atividades econômicas, como alu- guel de imóveis, além do envolvimento em redes creditícias. Entre os bens listados, acham-se ouro em pó, prata, mesas com gavetas, vinte e nove escravos, ferramentas e estoques relacionados aos ofícios de pe- dreiro e de carpinteiro (martelos de pedreiro, alavancas, enxadas, eixos, compassos, agulha de brocar, caixões de carregar pedra, carros de bois, estoque de ferro), três casas, um rancho, três sesmarias e uma fazenda em sociedade, com terras, casa, paiol, moinho e engenhos de boi; o mon- tante fi nal alcançou 2:300$000 réis. Bacelar foi, igualmente, um grande credor, entre créditos, bilhetes e escrituras mais de 50 devedores foram elencados, o que elevou seu monte-mor para 14:199$299 réis.63

A análise da rede de créditos formada por esses trabalhadores abre margem para compreender como no universo dos trabalhadores o pró- prio ofício se constituía como uma “mercadoria” valiosa. Vale ressaltar que o crédito nas Minas do século XVIII era uma maneira bastante usual de aquisição de bens, representava uma estratégia fundamental para a circulação de mercadorias e também colocava em jogo relações de com- padrio, de amizade ou familiares.64

Mais uma vez, considera-se que diversifi car fontes de renda era uma escolha bem-sucedida em Minas colonial. Douglas Libby e Carla Almei- da constatam que alguns tipos de produção manufatureira começaram a encontrar lugar signifi cativo na economia, sobretudo no fi nal do século

62 AHCSM, Inventários, 1º ofício, códice 92, auto 1928. 63 AHCSM, Inventários 1º ofi cio, códice 154, auto 3244.

64 Júnia Furtado afi rma em relação aos grandes comerciantes por ela estudados: “O mecanismo

de endividamento que a população se encontrava em relação aos comerciantes era enorme”. Cf.: FURTADO, Júnia Ferreira. Homens de negócio: a interiorização da metrópole e o comércio nas Minas setecentistas. São Paulo: Hucitec, 1999, p. 120.

XVIII e início do XIX, período em que a economia mineira convivia, pri- meiramente, de 1750-1779, com o auge-minerador e, em seguida, a fase de 1780 a 1822, com uma acomodação evolutiva. Nessa última etapa, a diversifi cação das atividades produtivas (aquelas além da mineração do ouro, como a agricultura e os ofícios mecânicos) colocava em evidên- cia o crescimento de um mercado interno que caminhava em direção à autossufi ciência.65 Trazendo o enfoque para a temática em questão,

conclui-se que os artesãos “que não mineram as minas se envolvem em serviços diversifi cados em um espaço histórico de indistintas fronteiras entre o rural e o urbano, entre o tradicionalismo da produção e a adapta- bilidade criativa, na emergência de viver do ofício fabril”.66

Essa característica não é exclusiva das Minas. Carlos Lima, analisan- do fortunas de artífi ces no Rio de Janeiro (1790-1808), indica o investi- mento em diferentes negócios como fator principal de enriquecimento. Observa ainda que

a prática da combinação de atividades de natureza diversa não era apenas uma estratégia de acumulação que se ofere- cia aos mais bem sucedidos. Era generalizada o sufi ciente para que se possa afi rmar ter se tratado de uma necessida- de de todos.67

Por fi m, cabe enfatizar que a breve análise empreendida nessas pá- ginas discute essencialmente a inserção econômica e social de um grupo específi co de arrematantes/construtores: aqueles que se destacaram por conseguirem arrematar grande parte das obras públicas que eram su-

65 Subdivisões propostas por Carla Almeida ao analisar o período entre 1750 e1850 em sua disserta-

ção de mestrado. ALMEIDA, Carla Maria Carvalho de. Alterações nas unidades produtivas mineiras: Mariana - 1750-1850. Dissertação de Mestrado, Niterói (RJ): DH - UFF, 1994. Libby objetiva apre- ender as várias atividades que constituem o território mineiro no século XIX, privilegiando o estudo do papel da mão de obra escrava e analisando desde ofi cinas artesanais, passando por pequenas e médias manufaturas, até as fábricas de ouro, ferro e tecidos. LIBBY, Douglas Cole. Transformação

e Trabalho em uma economia escravista: Minas no século XIX. São Paulo: Editora Brasiliense, 1988.

66 MENESES, José Newton Coelho. Artes servis e serviços banais: ofícios mecânicos e as Câmaras

no fi nal do Antigo Regime. Minas Gerais e Lisboa (1750-1808). Tese de Doutorado, Niterói (RJ): DH – UFF, 2003, p.222.

pervisionadas pela Câmara de Mariana, no século XVIII. Esse destaque deveu-se, sobretudo, porque esses arrematantes souberam articular de forma bem-sucedida os recursos que tinham ao seu alcance – ocuparam cargos nas vereações, participaram de irmandades renomadas, diversi- fi caram suas atividades produtivas, estabeleceram uma rede de créditos importante, entre outras estratégias.

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