A partir dos anos 90 do século passado, os estudos sobre a História dos municípios, do poder local e das respectivas elites dirigentes foram impulsionados e renovados. Segundo Nuno Gonçalo Monteiro, estes temas têm sido bastante estudados e por isso foram produzidos várias monografias, dissertações de mestrado e de doutoramento, bem como um considerável conjunto de textos de síntese. Inicialmente, estavam voltados para o Antigo Regime (séculos XVI a 1834) e só mais recentemente surgiram para a época contemporânea (MONTEIRO, 1996: 11).
Em finais da década de noventa, surgem os primeiros estudos sobre as elites do Estado Novo. Em 1997, Maria Antónia F. Pires de Almeida publicou o seu estudo sobre as elites de Avis, entre 1886 e 1941 (ALMEIDA, 1997), resultante da sua tese de mestrado apresentada no ISCTE. Segundo a autora, a escolha do tema foi influenciada, sobretudo, pela leitura da dissertação de doutoramento de Hélder Fonseca da Universidade de Évora sob o título Economia e Atitudes Económicas no Alentejo Oitocentista. A autora teve como objectivos principais a descrição da mentalidade, do modo de vida e das relações sociais das elites de Avis. O limite temporal estabelecido (de 1886 a 1941) fundamenta-se, segunda a autora, na importância de analisar o comportamento das elites avisenses face à sucessão de regimes políticos que em poucos anos se verificou em Portugal: Monarquia, República e Estado Novo. Para tal, a investigadora percorreu vários arquivos: nacionais (por exemplo o Arquivo do Ministério do Interior e das Corporações), regionais e locais (por exemplo o Arquivo da Câmara Municipal de Avis) e ainda documentos pertencentes a arquivos particulares. A autora utilizou porém muitas outras fontes, tais como: lápides e jazigos do cemitério de Avis, fotografias de família, literatura e imprensa (local, regional e
nacional). Para além destas fontes, ainda recorreu a testemunhos orais, trabalhando desta forma em História Oral. Este trabalho é um contributo para a história social das elites locais alentejanas e contemporâneas, desde a monarquia até à consolidação do Estado Novo, a opção de estudar um longo bloco cronológico permitiu realizar uma análise de longa duração muito interessante.
Alguns anos depois, a mesma autora publicou um artigo sobre as elites municipais entre 1941 e 1974 (ALMEIDA, 2003), um estudo de caso sobre as continuidades e rupturas das elites locais no distrito de Portalegre. Este constitui mais um contributo para o conhecimento das elites alentejanas do século XX, que veio enriquecer a classificação das elites locais em Portugal continental, a autora chegou à conclusão de que os proprietários fundiários ao longo do período estudado foram perdendo poder político no distrito rural, por causa da Reforma Agrária, e que com a Revolução de 1974 foram afastados desse âmbito de forma definitiva. Os objectivos deste estudo são os seguintes: i) conhecer o grupo que constitui o poder local; ii) caracterizá-lo sociologicamente, iii) e analisar o seu comportamento político entre 1941 e 1974. Para tal, centrou a sua análise no poder e nos seus agentes a nível local, descendo ao nível das relações inter-individuais e do micro- poder e das relações politicas entre grupos sociais da região em causa. Este estudo vai para além da prosopografia, tendo uma grande componente interpretativa do contexto político. Para a concretização deste estudo, a autora recorreu essencialmente aos arquivos locais, seleccionando fontes produzidas pela Câmara Municipal e Santa Casa da Misericórdia, sendo as instituições políticas e sociais que simbolizam por excelência o poder e o prestígio político e social a nível local.
Com estes dois trabalhos, Maria Almeida deu um importante contributo para o conhecimento das elites políticas locais alentejanas, na época contemporânea. Com base na análise sociológica das elites locais, a autora contribuiu para um melhor conhecimento
das dinâmicas do poder local, caracterizando a elite que ocupa os quadros políticos no Alentejo. Estes trabalhos inserem-se no âmbito da História Local e Regional, chegando mesmo a fazer Micro-História. Podemos situar os seus estudos na dimensão da História Social, que muito contribuíram para a História Política Contemporânea.
Da mesma autora existe ainda um artigo sobre fontes e metodologia para o estudo das elites locais em Portugal (ALMEIDA, 2008). Neste trabalho a autora expõe a metodologia e um vasto conjunto de arquivos e de fontes que podem ser aplicadas no âmbito deste tipo. Este trabalho é muito interessante e pode servir de suporte para todos os que se iniciam no estudo das elites.
Outros contributos para o estudo das elites locais alentejana, têm sido os trabalhos de Manuel Baiôa. Este investigador publicou um artigo sobre o comportamento das elites políticas locais, de Portalegre face ao 28 de Maio (BAIÔA, 1997), tema que não ainda não tinha sido tratado na dimensão local. Por isso, elaborou a análise sobre a cidade de Portalegre e analisou o confronto político que ocorreu na cidade no final da I República. Para além disso, descreveu como decorreu a transição entre regimes, do ponto de vista político, reflectiu sobre o comportamento da imprensa local face ao 28 de Maio e, para finalizar, analisou a composição da nova elite política da Ditadura Militar na cidade. O investigador privilegiou como fontes documentais os periódicos locais e sustentou a sua análise em bibliografia variada. É um trabalho interpretativo que contribui para o conhecimento das elites políticas locais e do seu papel na transição da I República para a Ditadura Militar.
Posteriormente, Manuel Baiôa, publicou a sua tese de mestrado apresentada na FCSH-UNL, que versa sobre as Elites Políticas em Évora no período de transição entre a I República e a Ditadura Militar (1925-1926) (BAIÔA, 2000). O autor teve como objectivo principal estudar as elites políticas na transição da República para a Ditadura Militar na
cidade de Évora. Para tal, reconstituiu o contexto sociopolítico do final da I República, fez uma análise, do ponto de vista legislativo, das eleições de 1925, observou criticamente as elites políticas e partidárias, interpretando-as do ponto de vista ideológico e identificando as práticas políticas e de sociabilidade, desenhando desta forma o perfil sociopolítico das elites eborenses.
Para além disso, o autor estudou o 28 de Maio em Évora, o comportamento face a esse acontecimento e a emergência de uma nova elite política (Governador Civil, Comissão Administrativa da Câmara Municipal e Regedores). O autor cruzou fontes locais e nacionais, assim como uma vasta e actualizada bibliografia.
Um outro contributo para o estudo das elites locais no Estado Novo é a tese de mestrado de Teresa Maria Sancha Fernandes Pereira, apresentada no ISCTE (PEREIRA, 1998). Este estudo dedicou-se à análise prosopográfica da elite local de Lisboa (Governadores Civis, Presidentes e Vereadores da Câmara Municipal) entre 1926 e 1945.
Para tal, analisou as seguintes variáveis: naturalidade, formação, profissão, idade de acesso ao cargo, cargos políticos exercidos antes e depois de serem desempenhados na Autarquia e no Governo Civil de Lisboa, ligações a partidos e ideologias políticas, no sentido de observar os critérios que estavam na base do recrutamento para os respectivos cargos. As fontes seleccionadas contemplam documentos que estão à guarda de arquivos nacionais (por exemplo o Arquivo Oliveira Salazar no ANTT), locais (por exemplo o Arquivo Histórico Municipal de Lisboa) e particulares (por exemplo os Arquivos do Banco Espírito Santo de Lisboa e da Ordem dos Engenheiros). Também usou o periódico Diário de Notícias para consultar as notícias de necrologia e ainda fontes orais.
Maria Teresa Pereira centrou a sua investigação no período da transição da Ditadura Militar para a institucionalização e consolidação do Estado Novo (1926-1945) e privilegiou o estudo biográfico, com a finalidade de elaborar a prosopografia dos quadros
administrativos das instituições já mencionadas. Por isso, este trabalho é um contributo para a História Institucional da cidade de Lisboa e também para a História do Poder Local no Estado Novo.
Também no ISCTE, Venerando António Aspra Matos apresentou uma dissertação de mestrado que versa sobre a elite política de Torres Vedras, no período entre 1907 e 1931, isto é, entre os anos que antecederam a proclamação da República e 1931 (MATOS, 2003). Esta análise tem como objectivo principal caracterizar a formação e evolução das elites políticas republicanas no concelho de Torres Vedras, desde os finais do regime monárquico até aos primórdios do Estado Novo, procurando desta forma perceber o percurso e as tendências que se desenvolveram no interior desse grupo político, sendo portanto um estudo de longa duração, solidamente fundamentado em vasta bibliografia e documentação. Venerando Matos cruzou fontes provenientes de arquivos nacionais, regionais e locais e recorreu à imprensa nacional e local. Saliente-se que pesquisou ainda em 16 periódicos locais.
Esta investigação essencialmente interpretativa, insere-se na dimensão da História Política, nos domínios da História das Elites e dos Partidos, privilegiando a abordagem da História Local e Regional.
Um estudo que também se revela muito interessante para conhecer as dinâmicas do poder local, mas sobretudo sobre o relacionamento entre o poder periférico e o poder central, é o contributo de António Rafael Amaro sobre as elites beirãs e as suas revindicações junto do poder central entre 1890 e 1939 (AMARO, 2004). Este artigo analisa, o papel desempenhado por um conjunto restrito de pessoas, que pela sua posição social, se destacaram na luta pela defesa dos interesses da Beira Alta, o que de acordo com o autor lhe conferiu uma certa identidade como grupo social. Do ponto de vista cronológico, podemos dizer que é um estudo de longa duração, pois a análise abarca três
regimes políticos: a fase final da Monarquia Constitucional, a I República e a fase inicial do Estado Novo (1890 a 1939). Segundo o autor, este período foi marcado pela tensão entre os poderes periféricos e o poder central, devido ao agravamento das desigualdades económicas e sociais entre as regiões administrativas, gerando e agudizando o conflito de interesses entre o poder central e o poder periférico.
O investigador para elaborar este estudo privilegiou a análise de discurso político, captando e identificando a carga ideológica e simbólica. Para tal, tais discursos foram extraídos de: jornais, correspondência oficial, congressos regionais e debates parlamentares. Foi, portanto, um exercício interpretativo, que se situa na dimensão da História Política e se insere no âmbito da História Local e Regional e ainda da Micro- História.
Outro estudo que se centrou na mesma região e, sensivelmente, na mesma época foi a investigação de Regina Gouveia sobre as relações entre as elites beirãs e a imprensa regional, entre 1900 e 1930 (GOUVEIA, 2004). Neste trabalho, resultante da sua tese de doutoramento, a autora pretendeu: i) estudar a história da imprensa local da região beirã entre 1900 e 1930; ii) analisar o movimento jornalístico na região; iii) e demonstrar como as elites utilizaram os periódicos regionais para se promoveram e alcançarem prestígio político e social.
Para realizar esta investigação de cariz essencialmente interpretativo, a autora consultou vários periódicos beirões e privilegiou a análise do discurso.
Este trabalho situa-se na dimensão da História Política e nos domínios da História da Imprensa e das Elites.
No âmbito das elites comerciais e empresariais deste período existe o artigo de Luís Trindade, no qual analisou o posicionamento da burguesia comercial de Lisboa perante a
institucionalização do Estado Novo e a relação que estabeleceu com o Governo durante esse mesmo período (TRINDADE, 1998).
Este estudo situa-se na dimensão da História Política, cuja abordagem se realiza no plano da História Local e Regional e no domínio da História das Elites. Para o desenvolver, o autor privilegiou as fontes produzidas pela Associação Comercial de Lisboa.
A análise de Luís Trindade vem reforçar a teoria de que os grupos económicos, inclusivamente a burguesia comercial da praça de Lisboa, apoiaram a edificação do Estado Novo, porque reconheciam neste projecto político estabilidade e condições favoráveis para desenvolver os seus interesses. Contudo, o apoio vai diminuindo progressivamente. Se por um lado, a burguesia comercial discordava das medidas tomadas pelo Governo, no plano económico e financeiro, por outro lado, não conseguia afirmar a sua posição na esfera política e defender os seus interesses.
A II Guerra Mundial foi o momento fracturante na relação entre o Estado Novo e os diversos grupos sócio-profissionais. O conflito internacional teve repercussões na vida política, económica e social, que agudizaram as querelas já existentes e abriu uma nova fase na história do Estado Novo. Neste sentido, uma parte da burguesia comercial da praça de Lisboa, assim como outros grupos socioeconómicos, passaram a assumir uma atitude oposicionista, juntando-se às vozes mais críticas.
Por último, apresenta-se um estudo sobre as elites locais do Norte do país durante o Estado Novo. É o artigo de Rui Ramos (RAMOS, 1986), que tem como objecto central a análise do desempenho do cargo do governador civil por de Assis Gonçalves em Vila Real (1934-1939), através do qual abordou o tema da elite política local. O autor pretendeu explicar de que forma essa elite foi alterada, isto é, remodelada, com a chegada do Governador Civil Assis Gonçalves à cidade transmontana, seleccionando novas
autoridades administrativas e chefias políticas. Estamos perante um estudo de Micro- História, que contribuiu para: i) a compreensão da dinâmica do poder local no processo de institucionalização do Estado Novo; ii) o estudo das relações entre o Governo central e os governadores civis; iii) o estudo das relações entre o Governo central e os poderes periféricos; iii) e ainda a análise do papel dos governadores civis na institucionalização do Estado Novo
É um estudo interpretativo que revela um pouco as teias do poder local em Trás-os- Montes e a estratégia que o Estado Novo adoptou para se institucionalizar e controlar o poder local.
Para realizar este estudo, o autor seleccionou os relatórios escritos por Horácio de Assis Gonçalves para Oliveira Salazar, durante as funções de Governador Civil em Vila Real entre 1926-1936. Este artigo situa-se na dimensão da História Política, com uma abordagem da História Local e Regional e no domínio da História das Elites.