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A formação do professor para a educação básica, pensando-o como um intelectual crítico, tem forte relação com o conhecimento da realidade do trabalho para o qual está sendo preparado. Desenvolver uma discussão sobre o conceito de práxis faz-se necessário para a discussão teórica dessa investigação na medida em que sustenta a nossa questão central: como o formador pode mediar o conhecimento teórico com a prática da escola de educação básica? Dessa maneira, apoiamo- nos especialmente nos escritos de Sánchez Vásquez (1915-2011), nascido na Espanha e nacionalizado mexicano, que apresenta sua perspectiva de práxis como categoria central do marxismo, e em
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Dermeval Saviani (2007a), que discute a relação teoria e prática como um problema fundamental da pedagogia.
Como categoria fundamental da filosofia de Marx, o autor (VÁSQUEZ, 2007) mostra que a práxis é uma atividade humana que transforma a sociedade e a natureza, transformando, ao mesmo tempo, o sujeito que a exerce, e como conceito, expressa a unidade da teoria e da prática, conforme Kohan (2005). Desta forma, a prática é uma das dimensões da práxis, e está relacionada às necessidades imediatas e cotidianas, em que não há questionamentos para além dos que aparecem. A práxis caracteriza-se, segundo Vásquez (2007), como atividade social transformadora.
Nesse sentido, o conhecimento sobre a realidade social permite agir para a transformação, e essa mudança tem fundamentação, é orientada por objetivos e se materializa por meio da prática.
A atividade propriamente humana distingue-se das demais atividades, pois há uma projeção de algo e, portanto, é atividade implicada em um grau de consciência, o que é indicado por Vásquez (2007, p. 220) da seguinte forma: a atividade humana “[...] apenas se verifica quando os atos dirigidos a um objeto para transformá-lo se iniciam com um resultado ideal, ou fim, e terminam com um resultado ou produto efetivo, real. A determinação não vem do passado, mas sim do futuro”. Há, portanto, uma projeção do que se pretende alcançar e, por implicar na intervenção da consciência, distingue-se das demais atividades. Para Vásquez (2007), a práxis existe duas vezes e em tempos distintos: “[...] como resultado ideal e como produto real”. Assim, para que se possa falar de atividade humana, o autor entende que é preciso que se formule nela um resultado ideal, ou um fim a cumprir, como ponto de partida, e uma intenção de adequação, independentemente de como se plasme definitivamente, o modelo ideal originário. Há, portanto, uma projeção de intenções que se materializa pela prática, mas que não é a prática rotineira e sem intencionalidade.
A educação escolar como atividade humana também está implicada em uma matriz de projeções. Compreender a realidade social e histórica na qual se inscreve é fundamental para projetar o futuro e agir buscando a transformação. Teoria e prática, ou seja, a práxis, se articulam de modo a construir uma nova configuração.
A práxis é então compreendida como prática social transformadora, não é mero praticismo e nem apenas teorização. Na
práxis, a teoria e a prática são indissociáveis, e, nesse processo, a práxis
é uma prática transformadora e informada teoricamente. A relação teoria e prática implica num constante movimento entre esses dois planos. Para
Vásquez (2007), existem diferentes níveis de práxis, dependendo do grau de consciência do sujeito no curso da prática, e do grau de criação com que transforma a matéria, convertendo-a em produto de sua atividade prática.
Vásquez (2007) mostra ainda que a inadequação entre intenção e resultado evidencia-se tanto na atividade dos indivíduos como na propriamente social. Para o autor,
[...] enquanto os homens não estão conscientes das leis que regem o processo econômico-social, a busca de diferentes fins pelos membros da sociedade dá lugar a atividades diversas dos indivíduos ou grupos sociais nos quais tais fins se contrapõem, se equilibram ou se subordinam entre si produzindo resultados que não estão em conformidade com suas intenções [...] (VASQUÉZ, 2007, p. 221).
Nem todas as relações são, portanto, conscientes e intencionais, como por exemplo, as relações de produção. Para Vásquez (2007), o progresso histórico se caracterizará pela superação dessa não- intencionalidade, pois o que já se registrou historicamente é que, sem intencionalidade, o homem produziu a escravidão, o feudalismo, o capitalismo e o socialismo, e, “[...] ainda que a história registre resultados que ninguém desejou, essa não-intencionalidade é a forma socialmente adotada pelo resultado da atividade desenvolvida pelos indivíduos como seres sociais que atuam conscientemente” (VASQUÉZ, 2007, p. 222).
Toda a atividade humana exige certa consciência de um fim (práxis), e esse fim prefigura idealmente o que ainda não se conseguiu alcançar. Pelo fato de traçar fins, o homem nega uma realidade efetiva, e afirma outra que ainda não existe.
Para compreender o resultado da prática é preciso desvelar sua verdade e sua utilidade. Se essa prática considera a história, que deixa marcas de pensamentos, desejos e necessidades, está implicada em ambições e projeções feitas pela humanidade ao mesmo tempo em que humanizam as pessoas, configura-se então a práxis, que é ao mesmo tempo subjetiva e coletiva e revela conhecimentos teóricos e práticos.
Sob a perspectiva marxiana, a práxis é emancipadora, pois o mundo não muda somente pela prática, requer uma crítica teórica, mas tampouco a teoria pura consegue fazê-lo. É indispensável a íntima conjugação de ambos os fatores. Dessa forma, são os fatos que provam
os alcances da teoria mesma. A prática é fundamento e limite do conhecimento empírico: direito e avesso “de um mesmo pano” (VÁZQUEZ, 2003, p. 305).
A práxis é, portanto, a atividade prática adequada a fins, a algo que se deseja mudar e a algo a se conservar, e por isso tem um caráter teleológico. Por buscar determinados fins, a práxis também se manifesta como produção de conhecimento, na forma de conceitos, hipóteses, teorias ou leis, mediante as quais o homem conhece a realidade (VÁSQUEZ, 2007). O conhecimento humano, em seu conjunto, integra- se na dupla e infinita tarefa do homem de transformar a natureza exterior e sua própria natureza. A relação entre o pensamento e a ação requer a mediação dos fins que o homem propõe, diante das suas necessidades de transformação.
Para Mayoral (2007, p. 8), a práxis carrega um sentido revolucionário, pois tem como objetivo melhorar a sociedade:
Em sua acepção revolucionária, a práxis é uma prática que aspira melhorar radicalmente uma sociedade: tem um caráter futurista; trabalha a favor de um melhor porvir humano. A práxis revolucionária aspira uma ética, aspira viver bem com e para os outros em instituições justas. Isto supõe a mudança das circunstâncias sociais e do próprio ser humano. Os indivíduos são condicionados pela situação social em que se encontram. Esse ser-estar em uma situação provoca suas reações mais ou menos revolucionárias ou, ao contrário, adaptadas a um status quo. Se o comportamento histórico não é previsível, deve sim explicar por que e como arraigam os projetos coletivos.
Na construção dessa vida coletiva, alguns agentes mostram-se importantes para esta análise, como por exemplo, na terceira Tese sobre
Feuerbach, Vázquez (2007) observa que a vida descobre que quem joga
inicialmente o papel de educador também necessita ser educado. Dessa forma, professores e formadores precisam passar por processos formativos para que possam atuar diante de determinados fins que se pretendem alcançar.
Ao nos remeter aos processos educacionais, partimos da compreensão que deles tem a pedagogia histórico-crítica, em que a educação é entendida como mediação no seio da prática social. A prática social é, portanto, ponto de partida e ponto de chegada da prática
educativa e, como método pedagógico, “[...] parte da prática social onde o professor e o aluno se encontram igualmente inseridos, ocupando, porém, posições distintas, condição para que travem uma relação fecunda na compreensão e no encaminhamento da solução dos problemas postos pela prática social [...]” (SAVIANI, 2008a, p. 185). Para atuar diante dos problemas da prática social, é necessário dispor os instrumentos teóricos e práticos para sua compreensão e proposição, em que a adequação a determinados fins orienta a prática, ou seja, torna-se
práxis.
A educação enquanto prática social precisa de suporte teórico e prático para ser efetivada, e de uma teoria que dê elementos para a compreensão das relações sociais, informando a prática, articulando-se num movimento contínuo de suporte entre ambos esses aspectos. Na formação de professores, essa relação favorece à constituição de profissionais críticos do seu trabalho e da realidade social no qual se inserem.
Ao propor a superação do dilema teoria e prática na pedagogia, Saviani (2007a) diz que é necessário termos o entendimento dialético62, que compreende a realidade como um todo articulado composto por elementos que se contrapõem entre si, que agem e reagem uns sobre os outros, num processo dinâmico. Teoria e prática são, nesse contexto, aspectos distintos, mas indissociáveis da realidade:
Teoria e prática são aspectos distintos e fundamentais da experiência humana. Nessa condição podem, e devem, ser consideradas na especificidade que as diferencia, uma da outra. Mas ainda que distintos, esses aspectos são inseparáveis, definindo-se e caracterizando-se sempre um em relação ao outro. Assim, a prática é a razão de ser da teoria, o que significa que a teoria só se constituiu e se desenvolveu em função da prática que opera, ao mesmo tempo, como seu fundamento, finalidade e critério de verdade. A teoria depende, pois, radicalmente da prática (SAVIANI, 2007a, p. 108).
Os problemas de que tratam as teorias foram dados pela prática, assim como à teoria cabe constantemente esclarecer a prática na tentativa de resolver problemas postos pela realidade, tornando a prática
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A lógica dialética foi formulada a partir de Hegel no início do século XIX, segundo Saviani, 2007a.
coerente, consistente, consequente e eficaz. A prática teoricamente informada e tendo por fim a transformação é entendida como práxis para Saviani (2007a).
Entendemos que nos processos formativos a práxis se coloca como irredutível: é uma atividade humana e social, que busca atender a determinados fins de acordo com os contextos nos quais se desenvolve. Para que esses fins possam ser atingidos, o professor, figura chave no processo, precisa ser formado em instituições que estejam em consonância com esses fins. Articular aspectos teóricos e práticos na profissão docente requer, para além da adequação às finalidades propostas, uma formação inicial que contemple esses aspectos, e que forme profissionais que busquem a transformação/emancipação por meio de sua ação. Na formação inicial, o formador é, portanto, um agente essencial nos processos de construção da profissionalidade dos professores que, assim, terão disponível um conhecimento com o qual agir de forma crítica.