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PROCEDIMIENTO PARA EL MODELO PROVISTO DE CONTROL REMOTO

ARRANQUE DEL MOTOR

PROCEDIMIENTO PARA EL MODELO PROVISTO DE CONTROL REMOTO

Uma narrativa oral difundida e presente no imaginário religioso dos vilaboenses é a chegada da grandiosa imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos a essas terras dos Goyazes. A fundação da Irmandade se deu em 1745, creditada ao Padre Dr. João Perestrello de Vasconcelos Spínola, originário da Ilha da Madeira, que, desejoso e

saudoso das procissões penitenciais ibéricas, que fundou uma Irmandade dos Passos, como havia em outras capitais e cidades do Brasil.

De autor desconhecido, sabemos que a imagem foi encomendada em Salvador na Bahia, provavelmente na década de 1740, ainda na primeira metade do século XVIII (BRITTO, 2011, p. 65). Narra-se, tradicionalmente, que a imagem veio carregada por escravos até a cidade de Goiás. Uns falam vinte, outros quarenta escravos, chegando vivos, pouquíssimos. É uma imagem de roca, que imita uma pessoa viva por possuir articulação e vestir roupas, por possuir uma peruca de cabelos naturais, olhos de vidro que imitam olhos de verdade, seguindo a estética barroca de máxima expressividade da dor e do sofrimento:

No espaço religioso e em seus périplos processionais, a imaginária multiplicava a fé, constituindo em instância de mediação e reciprocidade. Nas procissões da América Portuguesa no período colonial, dominavam as imagens de roca e/ou as de vestir. […] Esculturas que atravessavam ruas e se tronaram essenciais para a composição de cenas e inspiração de penitências em memória da Paixão Crística, salpicadas com exagero gestual e teatral. Realismo resguardado pelo tamanho das imagens, com membros articulados, olhos e vidro e lágrimas de resina, cabelos humanos, vestimentas, gotas de sangue ornamentadas por rubis, e pelas cores naturais nas mãos, pés e rosto. Outra estratégia utilizada pelos artistas contratados pelas irmandades era a adoção de irmanes de roca, cujo tronco, resguardado sob as vestes, era feito de armação em madeira, diminuindo os custos, o prazo de confecção e o peso, o que facilitava o transporte. Recursos similares empregados na imagem do Senhor Bom Jesus dos Passos venerada em Goiás (p. 65).

Depois de restaurada provavelmente por Veiga Valle, entre 1850 a 1860 (SIQUEIRA, 2011, p. 148) a imagem recebe pedras preciosas nas gotas de sangue que escorrem pelo rosto de Cristo: pequenos rubis. A historiadora Heliana Angotti Salgueiro analisa a parte policromada da imagem do Senhor dos Passos:

A Carnação é feita a óleo e polida e revela erudição na aplicação dos aparelhos e dos vernizes. Os traços faciais — naturalmente refeitos na encarnação (sic) — são bem elaborados; a barba apresenta os fios bem marcardos. Os filetes de sangue, sem exagero, são pintados. (…) Os olhos de vidro e a cabeça caída comunicam intensa força expressiva no seu realismo (SALGUEIRO, 1983, p. 269).

A imagem de estilo barroco tardio tem tamanho desproporcional ao humano. Suas mãos são grandes e o rosto de Cristo aparece em proporção maior, evocando dor e sofrimento. A imagem e a Irmandade se instalam na Catedral de Sant’Ana e logo após a queda do templo, a partir de 1759, ruindo a capela onde ficava o altar lateral da Irmandade dos Passos, ela se desloca para a Igreja de São Francisco de Paula, em 1833 depois de um périplo pela cidade. A Igreja do santo italiano recebe o ilustre

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inquilino, isso proporciona o espaço necessário para a Irmandade levar para lá não somente o santo, mas seu altar inteiro. Desde então, a Irmandade mantém seus ritos litúrgicos e para-litúrgicos há duzentos e setenta anos, todos de caráter penitencial (BRITTO, 2011). Esse deslocamento foi providencial para que a Irmandade tivesse autonomia e mantivesse ritos próprios, relativamente longe dos olhares dos padres diocesanos. Com sede própria, com o objeto do seu culto próprio, a Irmandade subsiste até hoje e é ela que aciona o imaginário religioso quaresmal do vilaboense:

[…]. Aos poucos, a veneração da imagem do Senhor dos Passos foi conquistando adeptos (além da Irmandade dos Passos na Matriz de Vila Boa foram criadas mais duas congêneres em outros arraiais da Capitania; uma na Matriz de São José do Tocantins55 e outra na Matriz de Nossa

Senhora do Pilar) e ganhando centralidade nos ritos da Paixão […] (p. 65, nota de rodapé minha).

A importância da devoção ao Senhor dos Passos cresce durante todo o século XIX, chegando ao século XX com força. As mudanças da modernização do estado encontraram na figura da Irmandade um ponto de resistência e manutenção das tradições em solo vilaboense. Quando da mudança da capital, na década de 30, um boato que surgiu sobre a mudança da imagem para lá criou uma das cenas mais surpreendentes da história religiosa da Cidade de Goiás, como nos narra Ferreira:

Quando começou a transferência para Goiânia das repartições (Batalhão de Polícia, estabelecimentos de ensino, unidades federais) houve alguém que anunciou que, dentro de uma semana, deixaria também a terra vilaboense a Irmandade do Senhor Bom Jesus dos Passos, trazendo para a nova capital do estado a venerada imagem do Senhor dos Passos, que tem para o habitante da cidade de Goiás a mesma importância, o mesmo valor que a do Divino Pai Eterno para o trindadense ou a do Senhor do Bonfim para o baiano. Tratava-se, como se pode ver, de uma brincadeira de muito mau gosto, mas que, no meio de um povo sofrido, como era na ocasião o vilaboense, não deixaria de ter a repercussão esperada. Marcou-se o dia, ou melhor, a madrugada. Chegou-se mesmo a mencionar o número do caminhão que iria buscar a imagem. Uma força policial de vinte homens se incumbiria da missão que estava planejada com uma riqueza de detalhes surpreendente. Pois bem, nessa noite, mais de cinquenta Irmãos do Passos pernoitaram no camarim da Igreja de São Francisco, bem armados, aguardando o desenrolar dos acontecimentos. Se, por acaso, não conseguissem eles repelir os assaltantes, poriam fogo à Igreja e morreriam todos ao lado da imagem querida. Muitos desses que se encontravam dispostos ao sacrifício já não mais existem (FERREIRA, 1980, p. 151).

Seis décadas e meia após o início da transferência da capital para Goiânia, no ano 2000, quando o Brasil fez 500 anos, o Senhor dos Passos chegou a figurar no catálogo de uma exposição no MASP (Museu de Arte de São Paulo). Houve uma

resistência dos moradores da cidade, principalmente entre os Irmãos dos Passos, para que a imagem não saísse da cidade ou mesmo do estado. Como teve-se acesso aos livros de mesa da Irmandade dos Passos, guardados na sua sede, pôde-se ler as atas de reunião e comprovar os fatos relatados por moradores, devotos e membros da Irmandade. O contar dessa história, da briga do Santo do ano de 2000, ainda é feita com uma certa animação por parte dos colaboradores. Em um relato recebido oralmente56, pôde-se perceber o quanto esse fato é muito vivo na memória de todos

os vilaboenses, porque mobilizou toda a comunidade: agentes do patrimônio e cultura, os oficiais da Igreja e principalmente os devotos e membros da Irmandade. O medo do Santo ir e não voltar era muito grande e a eminência de sua saída se constituiu numa violência simbólica muito grande contra todos da cidade.

De acordo com Tamaso (2007), o fato teria se desenrolado a partir de um comunicado feito pelo bispo à Irmandade dos Passos a respeito da intenção de autorizar a ida para a exposição de um conjunto de imagens sacras goianas vilaboenses, entre elas o Senhor dos Passos, e que duraria três meses a exposição. O comunicado se seu durante a Quaresma. A Festa de Passos e suas três procissões: Depósito, Encontro e Traslado, transcorreu normalmente, mas sob a tensão da possível saída do Santo da igreja da Irmandade. Para os irmãos dos Passos, a saída da imagem era o desejo do episcopado e dos agentes da cultura e patrimônio da cidade e essa decisão não seria exatamente tomada contando com a opinião deles, um fato em particular tornou o fato como coisa certa pelos irmãos:

As procissões do Depósito, do Encontro e da Transladação aconteceram de forma tensa, mas segundo depoimentos ainda não tinha havido nenhum confronto entre os grupos em disputa pela imagem: havia uma discussão na cidade, mas de forma velada. Após a Procissão da Transladação, chegando com a imagem na Igreja de São Francisco, a dúvida era se a imagem seria recolocada no camarim ou se já ficaria embaixo, para ser removida para o caminhão, que a levaria para São Paulo. O provedor teria respondido: “Não, nós não sabemos… vamos deixar por aqui e amanhã a gente resolve”. Um vilaboense comentou que essa posição dele pareceu que seria para levar a imagem. Porque se a imagem ia ficar embaixo ainda, no próprio andor, sem ser transferida para o camarim, significava… pelo menos no nosso entendimento… que não havia necessidade de… não faria esse serviço… para embalar a imagem. Fomos todos embora (p. 680-681).

A Irmandade se organizou junto aos devotos, invadindo a Igreja e acampando dentro do templo para guardar a imagem. Faziam suas refeições dentro do templo,

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revezando-se na guarda da imagem. A cena da década de 1930 se repetia. Chegou- se a noticiar também que numa determinada noite iriam levar a imagem de qualquer jeito. O grandioso sino da Igreja alertava a cidade, tocando de hora em hora, como sinal de que o Senhor dos Passos ainda estava lá:

No dia seguinte, todos os vilaboenses foram surpreendidos com os sinos da Igreja de São Francisco tocando de hora em hora. Os irmãos dos Passos tomaram a igreja, a igreja ficou por conta deles. Organizaram uma vigília para garantir a que imagem não partiria para a Bienal. Revezavam- se noite e dia. Os sinos da Igreja que tocam apenas em três situações — quando morre um irmão dos Passos, em celebrações religiosas e em algumas comemorações civis — tocava de hora em hora, durante o dia, em sinal de protesto da Irmandade. O sino, como um código de comunicação, foi usado no planejamento estratégico dos irmãos: ficou marcado que acaso o sino tocasse no período da noite é que o carro que iria transportar a imagem para a Bienal, estaria na porta com seguranças e tudo mais. Era para que todos os irmãos chegassem na Igreja, para poder expulsar essas pessoas com todas as suas ferramentas…

Uma espécie de plano de guerra era intensamente vivido por cada um dos moradores, tanto aqueles contrários à ida da imagem, quanto àqueles favoráveis. Os irmãos em vigília estavam prontos para se deitarem no chão, na frente do caminhão, impedindo-o assim de levar a imagem da cidade. O sino badalado de hora em hora não deixava ninguém esquecer que havia um conflito aberto em meio à elite vilaboense […] (TAMASO, 2007, p. 681).

Os fatos se desenrolaram sob tensão. A irmandade, em protesto, boicotou a procissão de Nossa Senhora das Dores, causando grande comoção na cidade. O bispo, tendo chegado na cidade no Domingo de Ramos, prometeu resolver o assunto até o dia seguinte, quando comunicou o que havia deliberado:

Dom Eugênio deliberou, por meio de Decreto Episcopal, pela não ida da imagem à Bienal. Outros dois decretos decidiram pelo cancelamento do edital de convocação para as eleições da nova diretoria da Irmandade dos Passos e pela nomeação de uma comissão provisória, que teve como provedor o próprio Dom Eugênio Rixen e, como membros da diretoria vários agentes da cultura e do patrimônio. Foram as 15 imagens sacras dessacralizadas e ficou o Senhor dos Passos.

Dom Eugênio comentou que percebeu que a coisa era mais séria porque era uma coisa emocional. Além disso, destacou “a briga de família e de poder, concretamente… […] Aliás, eu acho que o povo nunca me criticou pessoalmente, mas sempre achou que eu estava sendo manipulado por um grupo” (p. 682-683).

A tese de Tamaso (2007) mostra o processo de transformação da Cidade de Goiás em patrimônio, da gestação ao reconhecimento pela Unesco. Nesse percurso, a autora mostra os movimentos de apropriação cultural, jogos e embates locais de poder, espólios e perdas causados pelos processos, os embates entre grupos opostos, a criação de novas oposições que unem grupos antes beligerantes, a polarização centro-periferia na cidade. Uma das ênfases da autora é na análise das

ações de um grupo de agentes da cultura, patrimônio e tradição da cidade que sofreu uma resistência de diversos estratos da população dos mais populares ao mais tradicionais e abastados. Superficialmente, esse embate parece ser a guerra da ignorância contra a intelectualidade, mas se revelou ser um embate interno que tinha por solo o centro histórico e se referia à democratização da gestão cultural e patrimonial da cidade, claramente monopolizada, o que gerava desgosto na população, mesmo entre os membros de famílias tradicionais (p. 352-359). Esse grupo seria o agente causador da briga do Santo, pois se colocava em lugar de autoridade sobre os bens culturais (p. 679). A análise dessas relações se faz por meio de outra: a relação entre patrimônio e devoção, já discutida na introdução histórica do primeiro capítulo e retomada agora a partir da memória das perdas por que passava a Cidade de Goiás, após os anos de 1930, que criaram um sentimento de preservação de seus bens culturais. A história se apoia nos monumentos patrimoniais como documentos de uma época, escritos de modo concreto e imagético, mais que em linguagem escrita. Tomados como explicação para fatos históricos construídos a partir de pontos de vista diferentes, os patrimônios material e imaterial depunham em favor da história que narrava o atraso goiano. A isso deveria se somar a memória do espólio, a ideia de que o santo da Irmandade poderia ter o fim de várias outras imagens sacras, roubadas, retiradas de seus lugares, recolhidas a museus e nunca mais retornadas à sua origem (TAMASO, 2007, p. 683-684). Aliás, a autora conclui que entre os agentes da cultura e patrimônio e os devotos e irmãos dos Passos havia uma diferença de compreensão do que a autora chamou de valor em torno da Imagem, atrás da disputa de poder pelo santo, de se descobrir quem poderia ou não autorizar a sua saída de seu orago, estava a forma de diferente de ambos os grupos:

Se a memória da espoliação pelos roubos se revelou consciente, entendo que a memória da apropriação cultural, que foi a transferência dos santos para o Museu de Arte Sacra, ainda que não tenha sido declarada, não pode ser desconsiderada. As pessoas responsáveis pela liberação das imagens à Bienal eram as mesmas que carregaram as imagens das Igrejas, dessacralizando-as. Ou seja, ao legitimá-las com o valor das obras sacras, a elite cultural privilegiou o valor da obra de arte para o turista sobrepondo-a ao valor sagrado atribuído pela população local. Contudo, a ressemantização não foi ainda incorporada por grande parte dos vilaboenses católicos, para quem as peças continuam sendo sagradas, têm alma; não são obras de arte, não têm valor monetário, têm o valor da bença que elas dão.

Respondendo ao temor dos irmãos dos Passos resistentes, o Bispo argumentou em favor da liberação das imagens lembrando o valor do seguro: “todas as imagens sacras serão seguradas, cujo valor é em dólar além do transporte ser feito através de uma seguradora contratada pela Bienal, com toda a segurança e climatização adequada”. Os irmãos

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resistentes não queriam saber de seguro. O seguro é justificativa para a lógica econômica, não responde aos anseios da lógica simbólica: acaso acontecesse um sumiço ou qualquer coisa com a imagem do Nosso Senhor dos Passos… esse dinheiro não iria cobrir o valor que aquela imagem tem para as tradições de Goiás. Apenas o valor de uso estava em jogo par aos irmãos dos Passos. O valor de troca que a peça adquiriu no decorrer do processo de patrimonialização, o valor monetário, o novo status de mercadoria cultural, na disso lhes interessava (p. 684-685). E:

Alguns Irmãos dos Passos não saíram imunes. Por terem liderado o motim perderam o título e função de Ministros da Eucaristia. Foram excluídos e lamentam ainda hoje que a elite cultural, bem como a imprensa de Goiânia, não sabia a diferença entre o valor artístico da imagem e o valor de fé (TAMASO, 2007, p. 688).

Ganharam os devotos, a Irmandade. As autoridades envolvidas não puderam levar a imagem para a exposição. No entanto, a apropriação a espoliação haveria de continuar, pois o bispo pôs a Irmandade sob a guarda do grupo que tentou levar a imagem à exposição, embora o prelado tenha impedido a sua saída. Essa ação pode também ter significado uma forma de minimizar o desgaste causado pela briga que durou toda a semana das Dores. O Santo, mesmo tendo alma, também era patrimônio, de propriedade da Diocese, mesmo que sob a guarda dos devotos irmãos dos Passos e os devotos moradores da cidade. Não sabemos o que ocorreu, Tamaso (2007), na narração da briga do Santo, limita-se a apenas dizer que após reuniões com os agentes culturais e assessoria religiosa e jurídica (excluindo a Irmandade), o bispo tomou a decisão de deixar o Santo em sua terra, mas de intervir diretamente na Irmandade. Se por sugestão, demanda ou exigência desse grupo de agentes, não se sabe, não se tem os termos da possível negociação. O que deve ter sido um prejuízo para Irmandade como instituição, no entanto, pareceu ter sido absorvido pelo grupo militante como o preço a ser pago pela vitória conseguida. Não importando que grupo estivesse na gestão da irmandade e do patrimônio que incluía o padroeiro, ele ficou a possibilitar assim o fluxo de sua presença no imaginário vilaboense.

Não se pode deixar de comentar o fato de que, para a fé popular, o Santo tem

alma. O vilaboense atribuiu ao Senhor dos Passos atitudes de quem está vivo, em

carne e osso no meio dele, como se a imagem de madeira pudesse exprimir a sua vontade, pudesse pedir ou questionar coisas. Outras falas recolhidas em campo de pessoas anônimas falam isso. Após a procissão do Depósito, nesse ano corrente, uma moradora questionou se o Santo saiu, apesar da chuva, foi respondido que sim, que se encurtou emergencialmente o trajeto, para que ele não se molhasse. Pelo que a

pessoa perguntou: “mas por que choveu tanto, ele não queria sair? Será que não

queria ficar?” Esse tipo de questionamento demonstra uma proximidade, uma

familiaridade tão grande com a figura, a imagem do Santo que já se lhe atribui vontade, querer, coisa que só quem tem alma pode ter. E não parece ser a mesma alma de Cristo que estaria com seu corpo glorificado nos céus, é a alma do Cristo, a quem concerne se preocupar com o tempo para sair à rua.

Apesar de elaborados, intrincados, complexos, o Santo e a Irmandade são passíveis de compreensão. Devemos levar em consideração que a Irmandade e o culto ao Senhor dos Passos não vieram prontas, são frutos de quase um século até que se estabelecessem seus ritos, símbolos, hinódia, saberes e fazeres de uma para- liturgia própria, além de sua relevância para a coesão social:

Na verdade, a religiosidade foi o fator preponderante que aglutinou os arrivistas no sertão dos Guayazes, tendo, obviamente, como fato precedente que o sentimento religioso e a busca do sagrado, aspectos que uniam todos, contribuíram para se irmanarem, organizando-se em sociedade, e se enraizaram em locais que lhes eram completamente adversos. As irmandades e confrarias conforme seus Compromissos se autodefinem como corpos místicos que, pela união das vontades, se unem entre si para formar um místico governo. O fundamento teológico para a origem dessas associações é a doutrina do Corpo Místico de Cristo, consoante o ensinamento de São Paulo […] (MORAES, 2011, p. 24).

O nascimento da Irmandade se fez num período de conturbadas mudanças. Uma das mudanças que o século XVIII viu nascer foram aquelas do âmbito do conceito da privacidade, e da demarcação de espaços e lugares apropriados para a vida, como o interior das casas e a rua, o seio das famílias, as casas e os locais públicos. Embate que acontecia também entre as autoridades e as camadas populares. Mary del Priore (1997) esclarece bem esse contexto histórico:

Marcada por um tempo, ele mesmo objeto de transformação, vamos pensar a privacidade a partir de diferentes fontes documentais que, no mais das vezes, retratam os ritos de passagem da vida: nascimento, casamento e morte, iluminando o curso ordinário das coisas, suas marcas, sua porosidade entre a casa e a rua, ajudando a compreender as práticas consagradas pelos usos e normas.