A observação constitui-se como uma técnica de recolha de dados “particularmente útil e fidedigna, na medida em que a informação obtida não se encontra condicionada pelas opiniões e pontos de vista dos sujeitos, como acontece nas entrevistas e nos questionários” (Afonso, 2005: 91). Analisando a observação sob este prisma, poderá parecer que observar é uma atividade simples de ser realizada. Contudo, observar é muito mais que ver e olhar. Observar é uma tarefa voluntária, consciente; enquanto ver
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é uma atitude passiva, observar constitui-se como uma atitude ativa, em que o observador procura, perscruta, presta atenção. Através da observação, procuramos nomear e caracterizar o que vemos de uma forma concisa, procurando um sentido para o que se vê, passando das perceções e das constatações aos conceitos (Hatzfeld & Spiegelstein, 2000). Observar atividades educativas constitui-se, então, como um processo que envolve todos os sentidos e implica uma grande capacidade de atenção e análise para recolher, de um universo tão vasto, a informação relevante para os objetivos da investigação. Observar é, também, segundo De Ketele “um processo que inclui a atenção voluntária e a inteligência, orientado por um objetivo final ou organizador e dirigido a um objeto para recolher informações sobre ele” (1980, citado por De Ketele & Roegiers, 1993: 22-23). Além disso, a observação torna-se muito útil para conhecer os acontecimentos e o comportamento dos intervenientes, permitindo, assim, realizar inferências difíceis de alcançar através de outras técnicas de recolha de dados, nomeadamente a entrevista.
A observação consiste, então, no contacto e envolvimento direto do investigador com a realidade a estudar (Iturra, 1986), como foi o nosso caso, de modo a que testemunhe ativamente o fenómeno que estuda, mas sem qualquer manipulação ou controle dos sujeitos envolvidos, proporcionando uma proximidade do investigador com as pessoas no contexto natural do seu dia a dia, sem contudo “deixar de representar o seu papel de observador e, consequentemente, sem perder o respectivo estatuto” (Estrela, 1986: 36). Foi esta a atitude que tentámos adotar, enquanto investigadora e docente no contexto em estudo. Daí a nossa concordância com Pérez Serrano para quem quando falamos de observação participante ou interna reportamo-nos a uma observação em que “o observador participa na vida do grupo ou organização que estuda, entrando na conversa com os seus membros e estabelecendo um estreito contacto com eles para que a sua presença não perturbe ou interfira de modo algum com o curso natural dos acontecimentos” (1994: 25, citada por Leite, 2002: 276). Assim, a observação participante e direta implica o envolvimento no grupo que se quer estudar e obriga a que o investigador se adapte às condições que encontra no quotidiano, mantendo um bom relacionamento profissional e pessoal com o grupo alvo da sua observação, mas garantindo, simultaneamente, uma certa distância com esse mesmo grupo, de maneira a que a sua interferência na vida dos observados seja reduzida. Reconhecemos, no entanto, que esta distância foi impossível de manter mercê do nosso duplo estatuto: investigadora e professora das turmas em estudo.
Parece-nos que podemos afirmar que esta técnica de recolha de dados faz uso dos sentidos para a apreensão de determinados aspetos da realidade, pois consiste em ver, ouvir e examinar os factos e os fenómenos que se pretendem investigar. Damas e De Ketele (1985) referem mesmo que observar alguém é lançar um olhar sobre esse alguém, desempenhando, a observação, um importante papel no contexto da descoberta.
Para Miranda e Pereira quando utilizamos a observação como técnica de recolha de dados, temos que ter sempre presente que o objetivo do investigador não deverá ser a recolha de uma grande quantidade de informação e de notas de campo, obtidas sem qualquer critério, mas ter em atenção que “os resultados obtidos respondam às necessidades de pesquisa” (2003: 42) e daí a nossa preocupação em elaborar uma grelha de observação171 que nos ajudasse a estruturar a nossa observação, direcionando-a e orientando-a segundo objetivos previamente definidos.
Nesta investigação, procedemos a uma observação naturalista por se ter desenrolado em ambiente natural – sala de aula – que se constituiu como uma recolha de informações ocorrida num contexto muito específico. Com estas observações pretendíamos proceder à análise de uma realidade concreta (a sala de aula e as situações pedagógicas que aí ocorrem), tentando, desta forma encontrar respostas para as questões formuladas no início da nossa investigação, já que a observação surge como a única técnica de recolha de dados que capta os comportamentos no momento em que eles ocorrem (Quivy & Campenhoudt, 2003), sem a mediação de documentos ou testemunhos. A observação constituiu-se, por isso, como um ato in loco, que nos permitiu descobrir esses comportamentos, situações e fenómenos (geralmente irrepetíveis), no seu local de origem e com os atores que são, simultaneamente, os participantes na investigação.
Como em qualquer investigação a posição adotada pelo investigador é fundamental e o grau de envolvimento deste perante os sujeitos observados pode variar bastante (Carmo & Ferreira, 1998), o nosso envolvimento, até pela nossa posição perante o grupo de observados, foi inevitavelmente grande, apesar de nunca perdermos de vista o estatuto de observador. Tratou-se, por tudo isto, de uma observação participante, implicando um envolvimento ativo (Evertson & Green, 1986, citados por Léssard-Hébert, Goyette & Boutin, 1994: 156) no contexto que estudávamos, em que o
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problema de “acesso físico (ao ambiente em estudo) e acesso social (aos sujeitos da pesquisa)” (Moreira, 2007: 141) nunca estiveram em causa.
Efetivamente, tendo em conta a função da investigadora no contexto em estudo (professora das duas turmas e diretora de turma de uma delas), a compreensão e a inserção no meio a observar revelou-se uma tarefa fácil de levar a cabo, não necessitando de um período de adaptação ou tendo que enfrentar a natural curiosidade a que estaria sujeita se fosse uma estranha a esse ambiente. Moreira, a este propósito, refere que se trata de uma pesquisa manifesta, pois estudam-se “situações em que o próprio observador está integrado” (ibid.). No entanto, a proximidade com os sujeitos da investigação não se encontra isenta de dificuldades, pois, o problema do viés pessoal pode revelar-se de uma forma excessiva nas observações e nos julgamentos efetuados, podendo introduzir erros sistemáticos nos dados recolhidos (Vianna, 2003) e levando a interpretações pouco fiáveis, pois não podemos esquecer que “as pessoas observadas, ao saberem dessa situação, podem tentar de uma forma deliberada criar uma impressão específica” (Id., ibid.: 19). Parece-nos, contudo que não foi o que aconteceu neste caso, apesar dos inúmeros comentários proferidos pelos alunos de uma das turmas, que não conseguiram, nunca, ver em nós a investigadora, mas sim a diretora de turma, e este facto, temos a certeza, alterou o seu comportamento nas aulas observadas, não alterando, no entanto, o trabalho nelas realizado.