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Dans le document PENPOINT THE POWER OF (Page 166-169)

A escolha desta técnica de recolha de dados prendeu-se com o facto de propiciar a descrição do fenómeno a estudar e a recolha das opiniões complexas e diversificadas dos participantes num estudo. Estas suas características fazem com que na investigação em Ciências Sociais, a entrevista seja uma técnica muito usada – Moreira vai mesmo mais longe afirmando que a entrevista é “seguramente a técnica mais utilizada na investigação social” (2007: 203) – quer como único meio de recolha de dados quer associado a outras técnicas. Bell, por comparação com outra técnica de recolha de dados – o questionário – afirma que:

A grande vantagem da entrevista é a sua adaptabilidade. Um entrevistador habilidoso consegue explorar determinadas ideias, testar respostas, investigar motivos e sentimentos, coisa que o inquérito nunca poderá fazer. As respostas a questionários devem ser tomadas pelo seu valor facial, (…) mas uma resposta numa entrevista pode ser desenvolvida e clarificada (2008: 118).

Blanchet e Gotman vão ainda mais longe quando afirmam que “l’entretien est un

parcours”, opondo-a ao questionário e salientando o papel fulcral do entrevistador, pois

“alors que le questionnaire avance sur un terrain entièrement balisé, l’interviewer

dresse la carte au fur et à mesure de ses déplacements”172 (1992: 22).

Quando numa investigação se opta pela entrevista para a recolha de dados empíricos tal significa que nos interessa uma informação mais rica e aprofundada expressa nos discursos dos entrevistados, já que a entrevista visa a obtenção de respostas completas, detalhadas e em profundidade – representações sociais, crenças, valores, vivências, interessando, sobretudo, o ponto de vista dos sujeitos, o seu discurso sobre determinado assunto ou acontecimento. Durante a realização da entrevista alguns cuidados devem ser observados, pois as boas entrevistas “caracterizam-se pelo facto de os sujeitos estarem à vontade e falarem livremente sobre os seus pontos de vista” (Bogdan & Biklen, 1994: 136).

Tuckman (1994) alerta-nos para alguns procedimentos a ter em conta quando se realizam entrevistas, nomeadamente a apresentação, aos entrevistados, dos objetivos e a natureza da entrevista, a necessidade de solicitar o seu consentimento para a sua gravação e o dever de acautelar a influência que poderá ter sobre as respostas dadas pelo entrevistado. Aliás, esta influência que o entrevistador pode exercer sobre o entrevistado surge, no quadro 4, como uma das desvantagens a ter em consideração quando realizamos entrevistas.

O investigador deve, então, possuir uma postura empática, aproveitando os silêncios para dirigir o rumo da conversa para os tópicos que interessam e jamais julgar o entrevistado pois “ao pedir a alguém que partilhe parte de si próprio, é importante que não o avalie, para não o fazer sentir diminuído” (Bogdan & Biklen, 1994: 137). Além disso, e tendo em conta que a entrevista é um encontro entre dois ou mais sujeitos (Blanchet & Gotman, 1992), tendo como principal característica constituir-se como um ato de fala (id.,ibid.), ou speech event, segundo Labov e Fanshel (1977), em que um sujeito A pretende extrair uma informação do sujeito B (id.,ibid.), as regras de cortesia e de etiqueta, não podem nunca ser esquecidas pelo entrevistador (Valles, 2007). Um outro pormenor muito importante e a ter em atenção é a linguagem a utilizar com os diferentes entrevistados, sobretudo quando, como é o caso desta investigação, entrevistamos jovens com as características particulares que estes possuem.

172 Enquanto o questionário se desenvolve num terreno completamente definido, o entrevistador dá as

Ao investigador pede-se, também, que evite a parcialidade nas questões que coloca e nas interpretações que realiza, já que a procura da objetividade deve nortear a entrevista. Aliás, um dos inconvenientes que Cohen e Manion (1990) apontam a esta técnica de recolha de dados é precisamente a subjetividade tantas vezes imputada ao investigador. Nesta investigação, reconhecemos que o duplo papel que desempenhamos, e que já referimos, nos pode ter condicionado aquando da realização das entrevistas aos docentes. Com efeito, estes entrevistados são sujeitos com quem convivemos e trabalhamos diariamente e questioná-los sobre temas que são debatidos entre nós inúmeras vezes não se afigurou como uma tarefa fácil de concretizar.

No quadro 4, apresentamos algumas das vantagens e desvantagens que a entrevista pode, eventualmente, apresentar numa investigação, relativamente ao questionário. Parece-nos, contudo, através da sua análise, que as vantagens superam as desvantagens e, daí que a entrevista acabe por constituir-se como uma das principais técnicas de recolha de dados.

Quadro 4 – Vantagens e desvantagens da aplicação da entrevista

Fonte: Gerhardt e Silveira (2009: 73)

A entrevista

Desvantagens Vantagens

Acarreta custos com a aplicação das entrevistas.

Requer mais tempo.

Implica ausência de anonimato. Propicia a influência exercida

pelo aspeto pessoal do entrevistador.

Permite a influência das opiniões pessoais do entrevistador sobre as respostas do entrevistado. Dificuldades na análise dos

dados, no caso das entrevistas abertas.

Não exige que o entrevistado saiba ler e escrever. Apresenta muita flexibilidade, pois o

entrevistador pode facilmente adaptar-se às características das pessoas e às circunstâncias em que se desenvolve a entrevista.

 Possibilita captar a expressão corporal do entrevistado, bem como a tonalidade da voz e a ênfase nas respostas.

Possibilita ao respondente o esclarecimento das questões.

Permite a obtenção de dados com elevado nível de profundidade.

Oferece maior garantia de respostas do que o questionário.

 Possibilita que os dados sejam analisados quantitativa e qualitativamente.

Em relação aos tipos de entrevistas, Erlandson, Harris, Skipper e Allen consideram que “pueden adotar una variedad de formas, incluyendo una gama desde

las que son muy enfocadas, o predeterminadas a las que son muy abiertas”173 (1993: 85-86, citados por Valles, 2002: 38).

Nesta investigação, e tendo em conta os diversos tipos de entrevista, optámos pela entrevista semiestruturada (Afonso, 2005; Bogdan e Biklen, 1994; Flick, 2004). Vásquez e Angulo (2003, citados por Meirinhos & Osório, 2010) apontam como grande vantagem deste tipo de entrevistas a liberdade que permite ao entrevistador, não implicando uma rígida formulação de questões nem uma determinada ordem a seguir na formulação das mesmas. Neste sentido, apontam também Erlandson, Harris, Skipper e Allen, para quem a entrevista mais comum é a “semiestructurada que es guiada por un

conjunto de preguntas e cuestiones básicas a explorar, pero ni la redacción exata, ni el orden de las preguntas está predeterminado”174 (1993: 85-86, citados por Valles, 2002: 38). Assim, este tipo de entrevista caracteriza-se por ser conduzida seguindo um guião “construído a partir das questões de pesquisa e eixos de análise do projeto de investigação. A sua estrutura típica tem um carácter matricial, em que a substância da entrevista é organizada por objectivos, questões e itens ou tópicos” (Afonso, 2005: 99). Contudo, este guião surge como um instrumento orientador, pois apesar de não implicar que o investigador tenha as perguntas previamente elaboradas ou que tenha que seguir uma ordem antecipadamente definida, revela-se, na realidade, uma preciosa ajuda durante o desenrolar da entrevista, possibilitando, simultaneamente, uma grande flexibilidade na ação do entrevistador e permitindo que as mesmas questões (abertas) possam ser colocadas a todos os entrevistados. No seguimento destas orientações construímos os nossos guiões (ver anexo III), que explicamos no capítulo V.

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