Segundo Röhr (2010), conceber o vínculo entre educação e espiritualidade implica levar em consideração à integralidade do ser humano, assim como fizeram os gregos ao abarcar as dimensões internas e externas que compõe a totalidade do ser.
Com inspiração nessas origens, a educação compreendida como processo de formação humana propõe em seu fundamento o desenvolvimento de duas vias necessárias ao humano, a de fora para dentro e a de dentro para fora, e nestas bases, conceitua a educação como um processo que deve ser global.
Desta forma, para Rodrigues (2001, p.242),
Educação é o processo integral de formação humana, pois cada ser humano ao nascer, necessita receber uma nova condição para poder existir no mundo da cultura. Esse processo inclui a aquisição de produtos que fazem parte da herança civilizatória que concorreram para que os limites da natureza sejam transpostos. [...] o ser humano, por não receber qualquer determinação por natureza, pode construir o seu modo de vida tendo por base a liberdade da vontade, a autonomia para organizar os modos de existência e a responsabilidade pela direção de suas ações, essa característica do ser humano constitui o fundamento da formação do sujeito ético. Este deve ser o objetivo fundamental da Educação, ao qual devem ser submetidas toda e qualquer prática educativa, aí incluídas as escolares.
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Há referências desse mesmo tipo de articulação entre educação e espiritualidade para formação humana em algumas formulações do renascimento e esclarecimento europeus (POLICARPO JUNIOR, 2010) e Bildung (FREITAS, 2010).
Neste conceito, a educação como um ato intencional deve oferecer o legado dos produtos que fazem parte da herança civilizatória que a geração humana exteriorizou no mundo, aquela que podemos herdar de fora para dentro como participantes de grupos humanos num determinado tempo, espaço e cultura. Bem como, aponta que, por não receber nenhuma determinação a priori, o ser humano pode construir seu modo de vida, pois tem a liberdade da vontade e a autonomia para organizar sua existência, o que consequentemente lhe implica a necessidade de ter responsabilidade, moral e ética nas ações para viver em comunidade.
Neste sentido, a educação como um processo integral preza como fundamental a formação de dentro para fora porque esta se direciona a desenvolver categorias como a liberdade, a autonomia e a responsabilidade em cada sujeito. Para esta finalidade e para tal desenvolvimento, compreende a importância do autoconhecimento e do trabalho com o cultivo das dimensões internas, denominadas por Röhr (2010) de dimensões básicas5, presentes no campo corpóreo de forma integrada, são elas, a dimensão física, sensorial, emocional, mental e a espiritual.
Dentre estas dimensões, centra-se a orientação pedagógica pautada na dimensão espiritual, pois a formação humana encontra nesta dimensão o sentido que lhe rege para a plena humanização do ser (RÖHR, 2010), tendo na espiritualidade o significado ou sentido maior de nossa existência (ESPÍRITO SANTO, 2012), como apontavam os gregos, o trabalho de contínua elevação ao progresso de si na busca do desenvolvimento desses bens seculares e de sua humanização.
Nesta trilha, a educação integral objetiva uma formação que gradativamente possibilite ao educando ir assumindo a responsabilidade por sua própria formação humana e, a partir desta abertura e conhecimento de si, possa assumir o pleno uso das potencialidades duas dimensões física, moral e intelectual (RODRIGUES, 2001), a ponto de conhecer a si, suas emoções e sentimentos e possa criar uma capacidade interna de dirigir a si mesmo e não se torne dominado pelas forças emocionais e por tendências destrutivas (POLICARPO JUNIOR, 2010), estas que por ventura, obstruem a caminhada de humanização do ser.
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Essas dimensões são percebidas como potenciais e não essências fixas e imutáveis, assim, abre-se a possibilidade para emergência de novas dimensões no futuro (WILBER, 2006).
Almeja desta forma, uma aprendizagem voltada para o “saber viver” e o “domínio de si” tendo como dispositivo educativo a prática do “cuidado de si” (FREITAS, 2010). Esta prática se dá através do autoconhecimento de suas dimensões e autodesenvolvimento possibilitado pelo cuidado consigo mesmo, de modo que consiga aprender a sustentar uma vida de autoria, transcendendo os fins atuais da educação e as formas de assujeitamento veiculadas pela sociedade atual (YUS, 2002).
Portanto, apresenta-se um paradigma promotor das dimensões propriamente humanas e para abarcar a integralidade do ser, no que diz respeito ao escopo de nossa pesquisa, conhecer a dimensão corporal revela-se um aspecto fundamental da vida espiritual (POLICARPO JUNIOR, 2010), como vamos tecer a partir de agora.
Para Yus (2002), a educação do corpo pode restabelecer conexões m três eixos, conforme seus estudos: a) o desenvolvimento do eu, b) o desenvolvimento do senso de comunidade e c) a percepção do Todo/Terra, pois se conceitua como um paradigma que resgata a concepção de interconectividade e interdependência, numa lógica em rede, a qual o ser humano está em relação consigo mesmo, com os demais seres humanos e com o todo.
No que concerne ao trabalho centrado no corpo para o desenvolvimento do eu, este ocorre na medida em que se propõe a estabelecer relações com o desenvolvimento das dimensões humanas internas ou básicas e o cultivo delas, como já mencionamos, objetivando promover a cada um, desde a infância, a conhecer a si mesmo, a perceber a si mesmo, a sentir a si mesmo, a refletir sobre si mesmo, a escutar a si mesmo, trilhando de forma atenta e integrada, estabelecendo o vínculo de cuidado intrapessoal.
Esse cuidado consigo é “um modo de viver a própria vida” (POLICARPO JUNIOR, 2010, p.83) que é a relação entre educação e espiritualidade para este autor. Deste modo, a formação humana apresenta-se como um caminho “para estar em íntima conexão com aquilo que somos, com nosso corpo, nossos sentimentos, pensamentos, com o nosso coração e a nossa natureza ampla, [...] precisamos, pois, cuidar desses aspectos”, de forma inteira, saudável e responsável.
Este objetivo corrobora com o pilar aprender a ser proposto à educação para o século XXI do Relatório Jacques Delors (2003) quando atribui à finalidade da educação ser o
desenvolvimento total da pessoa, isto é, espírito, corpo físico, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade, entre outros. Esta base multidimensional implica à função educativa ser capaz de possibilitar a cada um construir a sua própria história com bastante dignidade, o que a nosso ver, só é possível quando os sujeitos cuidam e conhecem a si mesmos em vários aspectos, aprendendo a ser um todo.
Neste processo, Ferreira (2010) sinaliza que a linha integral de formação humana pode auxiliar no autoconhecimento e desenvolvimento interno do educando.
Nessa visão, o processo formativo auxilia no desdobramento das diversas dimensões, buscando favorecer ao educando uma maior compreensão do seu nível de desenvolvimento, de forma a poder encontrar caminhos que o auxiliem no fortalecimento das dimensões já presentes, ampliação daquelas que se encontram pouco desenvolvidas e cuidados para solucionar algum transtorno ocorrido ao longo do desenvolvimento. (FERREIRA, 2010, p.119).
O segundo ponto da educação integral voltada para o corpo (YUS, 2002), se refere ao desenvolvimento do senso de comunidade. Compreende que o corpo é o lócus por onde iremos nos relacionar uns com os outros e a interação não pode ser reduzida exclusivamente pela relação entre as mentes humanas, e sim, por sermos seres integrais, corpos com afetos, sentimentos, emoções, mente, diálogo, entre outros. Portanto, o trabalho exploratório com ele pode promover uma formação que leve em conta a moral e a ética, e que nos permita uma adequada convivência com os outros homens (RODRIGUES, 2001) para o desenvolvimento de uma prática de bem viver.
Esse ponto colabora com o outro pilar da educação para o século XXI, o aprender a viver
juntos, na medida em que se busca desenvolver e cuidar dos vínculos entre nós, a compreensão
mútua, a percepção das interdependências, a necessidade humana do trabalho em grupo e a preparação para lidar com conflitos, desenvolver o respeito às diferenças e às singularidades humanas, culturais e étnicas.
A nosso ver, o desenvolvimento destes aspectos para a convivência perpassa pela autoaceitação, autocompreensão e auto expressão de si mesmo e do outro de forma conjunta. Assim, há um estreito vínculo entre o desenvolvimento intrapessoal e o relacionamento interpessoal, pois ambos se darão através do contato consigo e com o outro. E nesta direção, o
desenvolvimento humano vai ampliando-se até estabelecer-se um senso de comunidade global, como um grande organismo vivo.
O terceiro ponto da educação do corpo é a possibilidade de estabelecer o vínculo com o Todo ou a Terra. Isto ocorre na medida em que se busca operar uma mudança de paradigma rumo a uma concepção ecológica e integral da vida (ESPÍRITO SANTO, 2012) e incluir o conceito de unidade que está em tudo, pois se fundamenta com a percepção de que o ser humano nasce num universo rico de conexões: corpos vegetais, corpos animais, corpos minerais; o que nos revela a rede imbricada de corpos, numa visão de complexidade e interrelação. Um trabalho com este intuito busca promover uma ressignificação do nosso lugar existencial no planeta e na teia da vida.
Nesta visão de corpo integral/orgânico, Policarpo Junior (2010, p.84) indica que quando caminhamos na espiritualidade “passamos também a aceitar com maior clareza e naturalidade o fato de que todas as coisas e seres, a despeito de sua singularidade e inteireza, habitam por um mundo caracterizado por uma imensa rede de mútua dependência e interconexão”, o que nos faz sentir, pensar e agir de modo implicado pelo cuidado com todo nosso entorno.
Por estes fundamentos básicos, a educação do corpo tem bastante importância, na medida em que preza pelo resgate da reconexão e unidade da concepção multidimensional do ser, compreendendo-o como um todo com corpo emocional, corpo físico, corpo social, corpo intelectual, corpo espiritual, corpo eu-outro-comunidade e corpo terra/todo (ESPÍRITO SANTO, 2012; YUS, 2002).
A partir destas considerações, voltando aos pilares da educação, este paradigma apresenta-se fecundo as demais propostas pelo Relatório Jaques Delors (2003) que são “aprender a conhecer”, “aprender a aprender” e “aprender a fazer”.
No concernente ao pilar “aprender a conhecer”, na medida em que a formação humana pretende que aprendamos a entrar em contato com o saber vinculado ao conhecimento de si, já nos põe em outras bases de aprender a conhecer/entrar em contato com o objeto do estudo.
Em consequência, este se atrela ao outro pilar como uma nova forma de “aprender a aprender”. Aprender não apenas com nossas habilidades cognitivas, mas também com as
habilidades do corpo como um todo, o que pode nos abrir a uma nova compreensão do mundo que nos cerca.
E desta forma, o pilar “aprender a fazer” pode ser mais desenvolvido na medida em que conhecer, aprender e fazer tornar-se-ão indissociáveis, pois a ressignificação do olhar para consigo, os demais e o todo rumo a uma percepção mais integrada e mais una, poderá redimensionar toda a compreensão sobre a práxis pedagógica.
Por todos estes aspectos, a educação como formação humana posiciona-se contrária ao paradigma cartesiano das dualidades, na medida em que se direciona a um sentimento de integração e unidade do ser, pois acredita que o sujeito poderá sentir-se menos dividido, e muitas das oposições corpo/mente, eu/outros, eu/mundo, sujeito/objeto se tornam frágeis, permitindo um equilíbrio cada vez maior entre estes aspectos (POLICARPO JUNIOR, 2008).
O interesse de exploração do paradigma da educação integral tem sido uma perspectiva cada vez mais crescente para o século XXI, porque os modelos educativos atuais não têm dado conta das demandas necessitadas para nossa atualidade (YUS, 2002; ESPÍRITO SANTO, 2012), como a questão da violência nas escolas e na sociedade, o baixo rendimento escolar, seres humanos doentes (doenças em diversas ordens), desigualdade social, entre outros.
Dessa forma, a educação com este paradigma quer dar os primeiros passos para reconectar o vínculo fundante com o ser humano como fim educativo e o resgate do trabalho formativo com as dimensões humanas que foram desprivilegiadas pela supremacia da razão, dentre elas destaca Espírito Santo (2011), o retorno da sensibilidade humana, o desenvolvimento de sua inteligência emocional, a reconexão do corpo no cenário formativo e para cada um, e o resgate do vínculo com a espiritualidade.
Diversos autores expressam ser um desafio educativo trabalhar com esta perspectiva de atender as necessidades de uma proposta integral, dando ênfase na pessoa como um todo, diante desses modelos cognitivos reducionistas e dos fins atuais da educação. Entretanto, diversos autores têm aberto o campo da educação integral, entre alguns temos Ferdinand Röhr (2006, 2010), Alexandre Freitas (2005, 2010); Aurino Ferreira (2007, 2010); Policarpo Junior (2008, 2010); Neidson Rodrigues (2001), Rafael Yus (2002), Espírito Santo (2010, 2012), entre outros que têm continuamente desenvolvido pesquisas voltadas a exploração da teoria e da prática da educação integral compreendida como processo de formação humana, buscando trabalhar as
potencialidades humanas esquecidas com a redução do fenômeno humano a um cérebro a ser preenchido por conteúdos.