7.2 Security aspects of 5G System - Phase 1 (5GS_Ph1-SEC) (Rel-15)
7.2.14 Privacy (not covered by other headings)
Por último, temos a figura que sustenta o corpo da metodologia da resistência, as pernas, a pesquisa comunitária. Maldonado (2011b) sustenta que a cidadania científica é fundamental para que não realizemos uma produção de ciência excludente. Entendo que a metodologia planteada por essa tese parte da produção e ressignificação que os sujeitos em condição de resistência constroem e como articulam estratégias comunicativas para a mobilização social, na elaboração de suas práticas e na tomada de consciência.
Isso explica porque a pesquisa comunitária é um sustentáculo para que se firme a metodologia da resistência. Compreender os mecanismos sociais da resistência via estruturas científicas possibilita entendimentos complexos dos meandros das desigualdades que contornam os sujeitos que estão nas periferias, que não ascendem aos direitos da forma como deveriam. Quando o movimento Lagoas do Norte, pra quem? aplica um questionário complexo para entender o mapeamento das pessoas atingidas pelo PLN, estão produzindo conhecimento científico que geram fatos ordenados, derivados do rigor analítico, do uso de ferramentas da
ciência para perceber os processos de formação, territorialidade e perfil socioeconômico daquelas famílias.
Os resultados operativos dessas ações investigativas sustentam a fortaleza do movimento de resistência e revelam uma organização múltipla sobre a experiência social, sobre a militância política e da realização de pesquisa de forma comunitária. Eu tive a oportunidade de participar da aplicação dos questionários de mapeamento na Avenida Boa Esperança, na região das Olarias. O recurso metodológico é complexo, aponta métricas características do questionário e insere os militantes em um ambiente que os colocam em contato direto com os moradores atingidos. A pesquisa comunitária aproxima os sujeitos em resistência e, ao passo que possibilita a elaboração de práticas, resulta em uma compreensão mais complexa e profunda dos sujeitos, das comunidades que são atingidas pela política pública de reestruturação urbana. No caso do mapeamento realizado pelo Lagoas do Norte, pra quem?, busca-se entender exatamente as características dessas populações que o PLN deseja realocar e como os sujeitos são ou não alheios aos mecanismos utilizados pelo poder público.
O uso da ciência para a sustentação dos movimentos de resistência revelam como a transgressão das lógicas hegemônicas são contundentes nesses espaços de mobilização social. Sabemos que resistir é ato político, e quando ele bate à porta da produção científica como um sujeito atuante, e não apenas como objeto de pesquisa, percebo o reordenamento da lógicas nas múltiplas dimensões que se pretende a metodologia da resistência.
Produzir pesquisa comunitária é estar na contramão de uma lógica científica que percebe o saber somente de cima para baixo (MALDONADO, 2011b). Nesses direcionamentos, a investigação comunitária estratégica produz insumos necessários e suficientes para gerar argumentos para a discussão de uma outra política pública, de uma outra ação política porque está referenciada em ferramentas metodológicas para referir-se aos fenômenos sociais e concretos, aos fenômenos da resistência. Os argumentos da pesquisa comunitária são construídos de forma lógica, epistemológica e confrontam políticas públicas que hipoteticamente também devem estar respaldados em estudos técnicos e em laudos.
Mais do que isso, a noção de pesquisa comunitária também refuta o pensamento normalista da ciência que privilegia investigadores e cientistas. “A ideia anacrônica de pesquisadoras/pesquisadores como entes ‘superiores’, privilegiados pela sociedade, deve ser desmontada na dimensão teórica e ideológica” (MALDONADO, 2011b, p. 6). Ou seja, em uma perspectiva de confrontamento epistemológico questiona-se esse endeusamento dos produtores de ciência e, na vertente de uma metodologia da resistência, destaco o sujeito também como esse articulador, construtor de racionalidades de caráter científico.
Essas associações entre quem produz a ciência tradicionalmente e aqueles que são os objetos de estudos entram na berlinda com o desenvolvimento de pesquisas comunitárias que fortalecem os movimentos sociais de resistência, mas que também alteram os fluxos da produção científica historicamente estabelecidos. Elas rompem com a naturalização de quem está ou não capacitado para produzir cientificamente. Veja que a realização da pesquisa comunitária no Lagoas do Norte, pra quem? é realizada no coletivo, que integra cientistas e pesquisadores, assim como moradores e militantes que não desempenhariam tradicionalmente essa função nos movimentos ou na ciência.
As articulações da pesquisa comunitária acontecem também na esfera da produção científica das instituições. Isso significa dizer que os militantes que são pesquisadores também produzem análises e relatos de experiências que possibilitam a ampliação de vozes científicas sobre a realidade dos atingidos pelo PLN. Artigos científicos, pesquisas que resultam em teses e dissertações também são abarcados por essas pernas para estruturar e fortalecer a compreensão da comunidade em resistência sobre ela mesma.
“A cidadania científica, não obstante, não está configurada só de direitos ela é uma práxis humana; um exercício de criação; um jogo de experimentos mentais; uma produção artesanal, técnica e artística; um conjunto de culturas inventivas; uma realidade social de vida” (MALDONADO, 2011b, p. 8). É a partir dessas configurações que a pesquisa comunitária parte e que os movimentos de resistência incorporam os processos criativos, retóricos e metódicos na compreensão das realidades que vivenciam e de como estão arquitetadas as suas estratégias para resistir e para expressar sobre.
Quando incorporo as investigações comunitárias como as bases fundantes da metodologia da resistência, entendo que é essa perspectiva que sustenta as ações coletivas, que movimentam as interfaces midiáticas, que geram a tomada de consciência e consequentemente a visibilidade necessária para fazer com que um movimento social seja estabelecido. Essa racionalidade integra os processos da ciência, as ações comunicativas e metodologias para pensar os movimentos de resistência. A partir de si reiteram a capacidade integrativa que possui a metodologia da resistência e mais do que isso operacionalizam a dimensão epistemológica, que parte de uma ótica crítica dos modos tradicionais do fazer científico.
Os movimentos de resistência social precisam estar cientes desses atos de confrontação dos sistemas tradicionais e que elementos científicos também são necessários para que as vozes subalternas também ocupem esse espaço. Uma ocupação ativa, não exclusivamente como objeto de pesquisa. A resistência produz pesquisa, produz ciência. A metodologia produz resistência.