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As dimensões de racionalidade que sustentam a metodologia da resistência apresentam um ordenamento lógico possível, expressando uma abertura no entendimento da cidadania

comunicativa para além de eixos – estruturantes em uma racionalidade cartesiana –, para fincadas numa racionalidade aplicada multidimensional, que consegue integrar a facetas da razão e da experiência para entender os meandros comunicativos que engendram movimentos socioculturais que resistem.

A metodologia da resistência é um corpo. Essa é a metáfora que acredito que explique o processo metodológico da constituição da cidadania comunicativa em movimentos de resistência sociocultural. Uma metáfora ontológica, que faz uso da analogia para trazer uma perspectiva abstrata ao âmbito concreto.

Metáfora vem do grego metapherein, que significa “transferência” ou “transporte”. Etimologicamente, é conformada por “meta”, ou seja, mudança e por “pherein” que quer dizer “carregar”. Em outras palavras, a metáfora é a transferência de sentido de uma coisa (os movimentos de resistência) para outra (metodologia da resistência em práxis cidadã comunicativa). Pensar a metodologia da resistência como uma metáfora do corpo é associar seus processos de ordenamento científico a partir da corporeidade que é assinalada nos próprios movimentos sociais de resistência.

Os resistentes do Lagoas do Norte, pra quem? usam seus corpos para produzir comunicação e isso é feito de forma literal quando ocupam espaços, mas também em seu sentido figurado quando fazem uso de estratégias comunicativas para resistir. Assim, a racionalidade aplicada na metodologia da resistência usa esse perfil arquetípico do corpo para explicar os processos do espírito e da prática. Então, o corpo da metodologia da resistência é múltiplo, formado por figuras metodológicas autônomas, mas integradas por um ente da razão.

O esquema corpóreo expresso em círculo reitera a noção de figura, ao passo que concreta as intersecções em conjunto que as figuras metodológicas representam na constituição da metodologia da resistência para a cidadania comunicativa. Eles significam ciclos contínuos em uma autoconstrução da práxis cidadã comunicativa, também de maneira pictográfica se inserem as multidimensões que compõem a metodologia proposta.

O movimento circular é figurativo, significando as ações da resistência como múltiplas, sem fluxos unilaterais ou de cima para baixo. “A proliferação de teorias é benéfica para a ciência, ao passo que a uniformidade lhe debilita o poder crítico. A uniformidade, além disso, ameaça o livre desenvolvimento do indivíduo” (FEYERABEND, 1977, p. 45). Essa afirmação quer dizer que é a multiplicidade o caminho percorrido pela perspectiva de metodologia que está sendo constituída.

Figura 28 – Esquema figurativo da metodologia da resistência

Fonte: Elaborada pela autora. Arte: John Willian Lopes.

Os fluxos da cidadania comunicativa da resistência são críticos e não se alinham com os padrões hegemônicos da produção da visibilidade midiática, estão na ordem da multiplicidade do processo produtivo da ciência.

A metáfora é para a maioria das pessoas um mecanismo da imaginação poética e do florescimento retórico – uma questão extraordinária da linguagem. Além disso, a metáfora é normalmente vista como característica da linguagem por si só, uma questão de palavras, em vez de pensamento ou ação. [...]. Nós descobrimos que, pelo contrário, a metáfora é generalizada na vida cotidiana, e não apenas na linguagem, mas em pensamento e ação. Nosso sistema conceitual, em termos de como nós pensamos e agimos, tem sua natureza fundamentalmente metafórica (LAKOFF; JOHNSON, 2003, p. 3).

Isso significa que as metáforas são elementos figurativos que atuam como mecanismos que proporcionam o entendimento de uma realidade específica por meio do discurso que vigora. Elas são representações mentais de organizações verbais e de mecanismos que produzem sentidos e práticas sociais. Segundo Sardinha (2007, p. 143), a Teoria da Metáfora Conceptual “prega que a metáfora é, acima de tudo, uma figura de pensamento[...]. Por figura de pensamento, entende-se um modelo cognitivo que guia nosso entendimento do mundo em

geral”. Ou seja, as metáforas conceituais são mecanismos para a organização do mundo por meio de analogias que se utilizam para gerar significações.

A metáfora da metodologia de resistência como um corpo ressalta as representações mentais das organizações verbais nos movimentos de resistência, enfaticamente do coletivo Lagoas do Norte, pra quem?, expressando uma organização sociocultural que constrói sentidos e práticas a partir dos sujeitos, das suas mobilizações e ações comunicativas cidadãs. Isso quer dizer que parto de uma noção metafórica que entende essa figura de pensamento como capaz de processar experiências individuais, sociais e culturais, não da noção literária tradicional que atende aos mecanismos da retórica. A compreensão da metáfora a partir de uma perspectiva linguística dá ferramentas para compreender a linguagem como forma de significação do mundo; a linguagem como ação comunicativa.

“A sociedade é concebida na perspectiva participante dos sujeitos que agem, isto é, do ponto de vista do mundo da vida de um grupo social” (HABERMAS, 2012, p. 215). O autor explica que essa ação é orientada pelo entendimento (ação comunicativa) e nutre uma relação de dependência entre a interpretação cooperativa dos participantes da sociedade e as referências que estes possuem no mundo subjetivo, social e objetivo. Essa relação interpretativa decorre do sistema de referência articulado nos grupos sociais.

Ora, as ações comunicativas são decorrentes das formas que os sujeitos assumem para a compreensão e entendimento do mundo da vida, ou seja, como eles negociam a sistematização de seus discursos e práticas sociais. Diante disso, podemos dizer que a metáfora do corpo da metodologia da resistência consiste em uma organização desses sistemas de referência ordenados pela linguagem, numa representação do mundo da vida. “Podemos representar racionalmente o mundo da vida como uma reserva de padrões de interpretação, organizados linguisticamente e transmitidos culturalmente” (HABERMAS, 2012, p. 228), ou seja, a organização da metodologia da resistência como uma racionalidade das estratégias comunicativas para a práxis cidadã, por meio de uma metáfora do corpo é um exemplo desses padrões interpretativos. Pelo menos, uma representação deles.

Por isso é necessário entender a metáfora conceitual como um processo da cultura, mediado pela linguagem, pelo agir comunicativo. É por meio dos conceitos, da representação e da simbologia deles que os grupos sociais vão articulando suas formas de entendimento. “Seria mais correto dizer que toda experiência é totalmente cultural, e que nós experimentamos nosso ‘mundo’ de tal maneira que a nossa cultura está presente na própria experiência diária” (LAKOFF; JOHNSON, 2003, p. 57). Isso significa dizer que a representação metafórica é

possível porque os sujeitos reconhecem culturalmente os elementos que formam essas significações, sentidos e práticas.

Lakoff e Johnson (2003) argumentam que a relação dos sujeitos com o mundo físico influencia o modo como as sociedades realizam a conceitualização das suas práticas. Em outras palavras, o que se está dizendo é que a socialização faz com que nós tenhamos a necessidade de caracterizar o mundo físico por meio de conceitos que se constituem como padrões sociais de entendimento – as metáforas são formas de representar o mundo – das relações entre os sujeitos e suas práticas. Todavia, é necessário salientar que o propósito não é dar maior importância às relações físicas em relação às interações em seus distintos domínios, tais como social e emocional. A premissa essencial é que nós “tipicamente conceituamos o não físico em termos do físico” (LAKOFF; JOHNSON, 2003, p 58). Essa é uma justificativa de que a metodologia da resistência é um corpo, afinal, o que estou propondo é uma compreensão de um modelo metodológico que inter-relaciona os processos teóricos com os atos de experiência.

O corpo da metodologia da resistência representa uma sistematização das experiências comunicativas nos movimentos sociais que resistem e se constrói via sentidos epistemológicos que intercalam as referências em produção científica de comunicação e cidadania com as formas de organização dos sujeitos sociais que produzem a resistência. O corpo metafórico metodológico é um agir comunicativo que figurativamente expressa os caminhos percorridos, os processos dimensionais da compreensão da práxis cidadã e demonstra como é articulado um sistema social de legitimação de práticas sociais comunicativas de resistência.

Esse corpo metodológico é constituído por figuras que se intercalam de forma sistemática, explicando porque é possível pensar a aceitação das lógicas de conhecimento formais e não formais por meio de representações metafóricas. Essas figuras organizam essa sistemática e constituem dimensões de entendimento metodológico para a práxis cidadã comunicativa fomentada nos movimentos de resistência sociocultural.

Cada uma das figuras metodológicas de resistência é um elemento da práxis cidadã comunicativa, constitui e constrói os mecanismos de organização dos movimentos sociais em resistência e, de maneira integralizada, se legitima através da autoconstrução da cidadania. As figuras metodológicas de resistência são elementos autônomos da ação nos movimentos de resistência, porém são multidimensionais, multicontextuais e pontos estruturantes do todo. Elas se organizam de forma relacional, seus sentidos operam em conjunto, em circuito. As figuras podem ser compreendidas de forma isolada, podem estar presentes no movimento de resistência em maior ou menor grau, mas é em sentido integralizado que dão conta da sistematização da metodologia da resistência. Em outras palavras, as figuras explicam partes das práticas

comunicativas de resistência e, integradas, formam um corpo metodológico complexo que sistematiza experiências de cidadania comunicativa em movimentos de resistência, especificamente no coletivo Lagoas do Norte, pra quem?.