7.2 Security aspects of 5G System - Phase 1 (5GS_Ph1-SEC) (Rel-15)
7.2.10 Interworking
As desigualdades sociais geram abismos entre os sujeitos e muitos vivem marginalizados de direitos. Quando tomam consciência desses marcos desiguais em que se encontram, produzem resistência para construir novos rumos históricos pautados na diversidade e na justiça social. A tomada de consciência proporciona aos sujeitos a produção de práticas sociais coletivas que os inserem em um campo de disputas, ao passo que os colocam presentes, que em outra medida não seriam vistos.
No Lagoas do Norte, pra quem? a discussão sobre como criar estratégias de atuação comunicativa para gerar visibilidade ao movimento de resistência é recorrente. Os sujeitos compreendem que sem esses mecanismos não é possível atingir determinados objetivos, muito menos manter a esperança de que poderão seguir vivendo no território urbano que sempre lhes
pertenceu. Como vimos, o coletivo utiliza estratégias comunicativas de resistência que consolidam suas práticas, os inserem no campo das disputas políticas e que engendram mecanismos de visibilidade que de outra maneira não seriam possíveis. E por que os movimentos buscam a visibilidade? “É para difundir suas posições, reivindicar, protestar, expressar sua própria visão da realidade e dos acontecimentos, exercer um direito (de comunicar), participar do debate político e pressionar para ter as reivindicações atendidas”. (PERUZZO, 2015, p. 42).
O uso das redes sociais, a partilha, as oficinas de formação, o alimento, o picho, o mapeamento, os protestos são estratégias que organizam o movimento de resistência, que sistematizam as experiências, mas que tem como pano de fundo central gerar visibilidade para o problema que essas pessoas estão enfrentando, com a retirada das casas e dos seus terrenos.
Dessa forma, há uma articulação consciente para que o movimento se organize no sentido de construir e ordenar a recorrência dessas estratégias para que a visibilidade do movimento de resistência permanente seja constante. Os sujeitos do Lagoas do Norte, pra quem desafiam o coro, organizando mecanismos que os colocam em diversos setores da sociedade civil para que não percam os rumos da luta e para que possam alcançar múltiplos espaços e apresentar suas vozes e suas lutas. Quando participam de eventos universitários, quando publicam artigos, quando produzem documentários, a intencionalidade dessas estratégias é ampliar ao máximo a visibilidade do movimento de resistência.
Dá visibilidade, porque agora eu parei uns dias, mas eu tava fazendo uns vídeos que eu vou até continuar por conta de que eu passei um tempo sem trabalhar, mas eu precisava trabalhar e arranjei esse trabalho, vai fazer um mês. E eu assim tô me organizando para continuar o que eu tava fazendo, mais que eu tenho o projeto do museu. Mas eu fazia assim, eu ia nas casas e eu filmava as mulheres dizendo o que você, eu dizia assim, fulano o que que você tem a dizer pro prefeito? Então, elas iam dizendo. As meninas elas iam dizendo, aí eu colocava e isso chega lá na prefeitura e aí eu via que isso daí incomodava demais eles (OLIVEIRA, 2018, entrevista).
A visibilidade dos sujeitos que tradicionalmente são invisibilizados gera incômodo, por isso arquitetar mecanismos para que sejam vistos é tão necessário. Mafra (2006, p. 46) sugere que “[...] tornar um tema visível é, antes de tudo, conferir-lhe existência. E essa é uma das condições para que um processo comunicativo seja estabelecido”, ou seja, quando os vídeos que Lúcia grava com o seu próprio celular circulam pelas redes sociais, ou quando os protestos virão pauta nos meios tradicionais de comunicação, eles incomodam porque atingem a esfera
pública midiática apontando um problema que parecia ser inexistente para sujeitos em condição de privilégio e para o poder público.
Tornar-se visível é um dos objetivos mais contundentes dos movimentos de resistência e do Lagoas do Norte, pra quem?, porque procuram o reconhecimento da situação desigual em que se encontram e fomentam a exigência de permanência e atenção às suas reivindicações emancipatórias. Dessa forma, ativam os mecanismos comunicativos da sociedade que fazem parte. Os múltiplos meios e ferramentas de comunicação têm se mostrado fundamentais e funcionais para a promoção da visibilidade dos integrantes do tecido social, corroborando para a construção de novos sentidos da visibilidade midiática.
A exibição discursiva na dimensão social gera repercussão, coloca as reivindicações do movimento de resistência na esfera pública, ao passo que corroboram para que os fluxos comunicativos sejam outros, além daqueles que dominam a esfera midiática tradicional. Além disso, a proposição de estratégias comunicativas alternativas corroboram para a construção de sentidos e práticas transformadoras que também geram a formação política e cidadã dos sujeitos que resistem.
Essas ações buscam reflexões sistemáticas para a promoção de uma vida cidadã comunicativa que “permite superar, quebrar a vivência e a concepção unidimensional que só reconhece os sistemas midiáticos comerciais, capitalistas, como melhore possibilidade de estruturação e realização social comunicativa” (MALDONADO, 2012, p. 25). Essa quebra de fluxo proposta pela visibilidade dos movimentos de resistência faz com que compreendamos as múltiplas possibilidades da produção comunicativa no âmbito da cultura midiatizada. Ela problematiza e pensa esses ordenamentos culturais tradicionais e percebe novas ordens comunicativas e políticas que rompem com os silenciamentos dos sujeitos que vivem nas periferias, nos guetos, culminando em outras condições de produção simbólica.
A visibilidade é a metáfora da face (rosto) na metodologia da resistência. Ela é o mecanismo que coloca a tomada de consciência na esfera pública, que insere o movimento de resistência Lagoas do Norte, pra quem? no campo midiático e que faz com que as estratégias comunicativas impliquem a produção de sentidos e práticas sociais junto aos resistentes. A visibilidade é mais que o ato de ser visto, é a possibilidade de produzir dispositivos comunicativos que coloquem as demandas dos movimentos sociais na esfera pública que ou o ignorava ou não conhecia a existência de tais reivindicações.
Assim, por meio de estratégias comunicativas que geram visibilidade, o movimento de resistência assume uma institucionalidade que de outra maneira lhe seria negada. Construir essa esfera midiática alternativa de forma consciente e racional é resultante da intersecção com a
tomada de consciência sobre resistir e que lugar se ocupa como cidadão em uma sociedade desigual e excludente.
A visibilidade é construída e constituída nos movimentos de resistência na tentativa de romper com a lógica capitalista que subalterniza sujeitos e os explora. Ao tornar-se visível, o Lagoas do Norte, pra quem? se institucionaliza como uma organização social e passa a ser trincheira no enfrentamento da política pública do PLN, da forma como está sendo aplicada no território da avenida Boa Esperança. Portanto, a visibilidade é a face do processo social que constitui a militância em resistência. Ela projeta para a esfera pública a organização social, as estratégias de atuação política, as habilidades comunicativas e de mobilização, as reivindicações e os sujeitos que se encontram em vulnerabilidade. Como vimos, essas estratégias para a visibilidade são arquitetadas racionalmente no cotidiano do exercício da práxis e construídas no efetivo fazer prático dos sujeitos e sujeitas.