3. LES ÉLÉMENTS NÉCESSAIRES À L’APPRENTISSAGE
3.4. La différentiation pédagogique pour des méthodes d’apprentissage (ré)ajustables
3.4.1. La prise en compte des styles cognitifs et styles d’apprentissage
“Natureza da gente não cabe em certeza nenhuma” Graciliano Ramos
É neste cenário que encontramos com cinco famílias, cujo perfil atendeu aos critérios desta pesquisa e que gentilmente colaboraram com informações que, somadas a outras fontes, subsidiam e ilustram os debates empreendidos.
As entrevistas ocorreram nas casas das próprias participantes, pois, como já descrito na Introdução, a metodologia “bola de neve” implicou na indicação de pares que geralmente eram vizinhas de bairro, o que nos fez percorrer as ruas e solicitar a entrevista através de visitas. Como as colaboradoras nos recebiam em suas casas, aceitando prontamente nossa presença, iniciávamos o levantamento de dados naquele mesmo local.
Atentando para os preceitos éticos em pesquisa com seres humanos, resguardaremos informações pessoais como nomes e detalhes de relato que possam identificar as participantes, as colaboradoras e suas famílias. Antes da entrevista, todas receberam as informações sobre confidencialidade e possibilidade de desistência do fornecimento das informações a qualquer tempo. Além disso, assinaram o termo de consentimento30 e receberam uma cópia em que constavam os contatos da pesquisadora.
Em todas as famílias as pessoas que nos receberam eram mulheres, quatro mães e uma avó, que sendo responsáveis pelos cuidados com as crianças, nos receberam e prestaram as
informações solicitadas. Neste sentido, denominaremos estas mulheres de colaboradoras, na condição de narradoras capazes de descrever as histórias e condições em que se encontra a criança. Esta por sua vez será chamada de participante, já que se trata de sua trajetória de vida e articulações com a política que estarão em análise e, com exceção de uma delas, todas estiveram presentes durante a entrevista.
A primeira entrevista foi concedida pela mãe do menino que chamaremos de Bento. Seu núcleo familiar é composto por ele, sua mãe, pai e irmã. Os dois primeiros frequentam a EJA, seu pai tem o Ensino Fundamental incompleto e sua irmã ainda está na escola regular, cursando o Ensino Fundamental. Moram todos na mesma residência, declarada como casa própria, com energia elétrica, em um bairro periférico, rua sem calçamento e sem saneamento básico. A renda da família é de um salário mínimo proveniente do trabalho do pai e do Benefício recebido por Bento. Aos quatro anos de idade um agente de saúde sugeriu que a mãe procurasse a Funad porque ele não falava e era muito agitado. Atendendo a recomendação, foram até a Fundação, a criança passou pela triagem e recebeu um laudo aos seis anos e para acessar o Benefício precisou da via judicial, o que levou cerca de cinco anos. Bento toma quatro medicamentos diferentes: Neuleptil, Haldol, Fluoxetina e Rivotril.
A segunda entrevista foi concedida pela mãe da menina que denominaremos Ruth. A família é composta por ela, sua mãe e seu pai, todos analfabetos. Residem em uma casa de alvenaria com tijolo aparente, declarada como casa própria, localizada em rua sem calçamento e sem saneamento básico. A renda da família é de um salário mínimo proveniente da aposentadoria da mãe e do Benefício recebido por Ruth. Seu pai trabalha com função ligada ao ciclo da cana e consegue serviços esporádicos. A colaboradora não tinha dados precisos sobre o laudo, mas afirmou que conseguiu o Benefício quando Ruth tinha sete anos de idade e garantiu que passou 15 anos sendo atendida na Funad e deixou de frequentar porque o médico disse que não ia aprender mais nada. Ela toma duas medicações, mas a caixa de remédios que
a colaboradora mostrou para comprovar o nome está ilegível. Em seu relato afirma que pega a receita com um médico do PSF que nunca viu Ruth.
A terceira entrevista aconteceu com a avó de Ana Maria, nome fictício da criança de nove anos que reside com avô, avó, tio e irmão por parte de mãe. Moram todos em casa própria, localizada em um bairro periférico, rua sem calçamento, nem saneamento básico. Os adultos possuem Ensino Fundamental incompleto e as crianças estão na escola cursando este mesmo nível. A renda da família é de um salário mínimo proveniente do emprego do avô que trabalha na construção civil e o tio, apesar de trabalhar, não colabora naquele núcleo porque atende filhos e esposa de quem se separou recentemente. Ana Maria recebeu o laudo com sete anos e a avó, para acessar o BPC, preferiu a ajuda de um advogado para mediar a relação com a mãe, que ainda é a responsável legal pela criança, e para acessar a Justiça, caso o INSS negue o pedido. A menina faz uso de Risperidona.
Chamaremos de Jorge o menino de quem se tratou na quarta entrevista. Mora em residência própria com o pai e a mãe, em bairro construído como conjunto habitacional que fica situado do lado oposto da BR 101, em relação às outras entrevistas. Neste bairro, há saneamento básico e as ruas são calçadas. Sua mãe tem o Ensino Fundamental completo e seu pai incompleto. A renda atual da família vem do Benefício recebido por Jorge, já que seu pai está desempregado. O menino foi diagnosticado na Funad com dois anos e uma nova avaliação foi realizada recentemente, quando completou sete anos. Faz uso de Neuleptil e Risperidona.
A última criança chamaremos de Joaquim. Ele mora na mesma rua pavimentada de casas do conjunto habitacional, em bairro com saneamento básico, junto ao seu pai, sua mãe e seus dois irmãos. Seus pais não concluíram o Ensino Fundamental e tanto ele quanto os irmãos estão cursando a escola regular neste nível. A casa da família é própria e a renda familiar é de um salário mínimo, proveniente do trabalho de agricultor do pai, além de
receberem o Bolsa-Família e o Benefício de Prestação Continuada. O diagnóstico de Joaquim, diferente das outras crianças não foi elaborado pela Funad, mas por um psiquiatra durante uma consulta em um Hospital público de João Pessoa. Então, com quatro anos o menino tinha seu diagnóstico. O acesso ao BPC se deu via processo judicial. Joaquim faz uso de Neuleptil.
O perfil socioeconômico destas famílias pode ser descrito da seguinte maneira: a) Renda Familiar:
No que diz respeito à renda, três famílias vivem com um salário mínimo, além de receberem o Benefício destinado à criança com deficiência.
Uma família tem como renda um salário mínimo e outra vive apenas com o Benefício porque os pais estão desempregados.
Tabela 3
Renda das famílias entrevistadas
Família Bento Família Ruth Família Ana Maria Família Jorge Família Joaquim Salário Mínimo BPC Salário mínimo BPC Salário Mínimo BPC Salário Mínimo BPC Nota: Quadro elaborado a partir das informações coletadas durante entrevista para esta pesquisa.
b) Organização familiar
No que diz respeito a este item, todos os núcleos familiares são compostos por um casal de adultos e as crianças. No quadro abaixo reproduzimos a quantidade de pessoas que compõem o núcleo:
Tabela 4
Organização das famílias entrevistadas
Família Bento Família Ruth Família Ana Maria
Família Jorge Família Joaquim
Mãe Filho 1(Bento) Filho 2 Mãe Filha (Ruth) Avó Tio Neto Neta Mãe Filho (Jorge) Mãe Filho 1 Filho 2 Filho 3 (Joaquim)
Nota: Quadro elaborado a partir das informações coletadas durante entrevista para esta pesquisa.
c) Nível de Escolaridade
O nível de escolaridade dos adultos responsáveis pelo núcleo familiar variou entre o analfabetismo e o Ensino Fundamental incompleto. Apenas uma cuidadora possuía o Ensino Fundamental completo.
Tabela 5
Nível de Escolaridade entre adultos das famílias entrevistadas Família Bento Família Ruth Família Ana
Maria
Família Jorge Família Joaquim Pai Ens. Fund. Incompleto Mãe Ens. Fund. Incompleto Pai - Analfabeto Mãe - Analfabeta
Avô Ens. Fund. Incompleto Avó Ens. Fund. Incompleto Filho Ens. Fund. Incompleto
Pai Ens. Fund. Incompleto Mãe Ens. Fund. Completo
Pai Ens. Fund. Incompleto Mãe Ens. Fund. Incompleto
Nota: Quadro elaborado a partir das informações coletadas durante entrevista para esta pesquisa.
Portanto, a organização do núcleo familiar é composta por um casal de adultos, que na sua grande maioria possui apenas o Ensino Fundamental incompleto, em que o trabalho remunerado está ligado à figura masculina, enquanto às mulheres cabe o cuidado com a casa e a família. Moram em casa própria, em bairros periféricos, a maioria sem saneamento básico. Entre as cinco crianças com diagnóstico, todas recebem medicação controlada, quatro acessaram o BPC e uma está em processo de submissão. Além disso, todas já foram ou recebem atendimento pela Funad.
Diante deste panorama, tentaremos estabelecer algumas conexões entre a realidade local, as políticas sociais, as vivências das famílias entrevistadas e os processos de patologização e medicalização que colaboram para a manutenção do que chamaremos de uma Economia da Diferença.