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Uma perspectiva para abordar os movimentos sociais brasileiros, desde suas origens históricas, é a partir de sua cronologia:

Fonte: Autoria própria Fonte: Autoria própria

Outra perspectiva é a partir de quatro momentos históricos importantes que marcaram o Brasil no âmbito de manifestações por um país mais democrático, são eles:

Fonte: Autoria própria

Ou ainda, mais especificamente, a partir de eixos temáticos, conforme veremos no tópico seguinte.

3.4.1 Eixos temáticos dos movimentos sociais brasileiros

Tomando por base a realidade brasileira, Cicilia Peruzzo (2014, p.52-53) recentemente revê a tipologia aplicada anteriormente às análises dos movimentos sociais brasileiros. A autora sintetiza o universo dos movimentos sociais em quatro grandes áreas,35 e os identifica a partir de fatores que os estimulam ou orientam sua razão de existir. São eles:

1. Movimentos vinculados a melhorias nas condições de trabalho e de remuneração (movimento de professores e outras categorias profissionais).

35 Em “Comunicação nos movimentos Populares” Peruzzo (2004) agrupava os movimentos sociais da seguinte forma: ligados aos bens de consumo coletivo; envolvidos na questão da terra; relacionados com as condições gerais de vida; motivados por desigualdades culturais; dedicados à questão trabalhista; voltados à defesa dos direitos humanos; vinculados a problemas específicos.

2. Os que defendem os direitos humanos relativos a segmentos sociais a partir de determinadas características de natureza humana (gênero, idade, raça, cor – como, por exemplo, o movimento de mulheres, dos índios, dos negros, dos homossexuais, das crianças etc. Exemplos: Movimento de Mulheres, Meninos e Meninos de Rua etc.). 3. Aqueles voltados a resolver problemas decorrentes das desigualdades que afetam

grandes contingentes populacionais (movimentos de transporte, moradia, terra, saúde, lazer, meio ambiente, paz, contra a violência, defesa dos animais etc. Exemplos, Movimento Nacional pela Moradia, Movimento Passe Livre e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Alguns são apoiados por instituições que os incentivam ou os abrigam, tais como igreja, partido político, escola e universidades, a exemplo da Pastoral da Terra e do Movimento Fé e Política.

4. Movimentos político-ideológicos (lutas por participação política, protestos por antagonismos políticos, reivindicações por democracia, mudança de regime etc.).

Já Maria da Glória Gohn (2013, p.44) mapeia o cenário dos movimentos sociais na atualidade brasileira da seguinte forma:

1. Movimentos sociais ao redor da questão urbana.

2. Movimentos em torno da questão do meio ambiente: urbano e rural. 3. Movimentos identitários e culturais: gênero, etnia, gerações.

4. Movimentos de demandas na área do direito. 5. Movimentos ao redor da questão da fome.

6. Mobilizações e movimentos sociais – área do trabalho. 7. Movimentos decorrentes de questões religiosas. 8. Mobilizações e movimentos rurais.

9. Movimentos sociais no setor de comunicações. 10. Movimentos sociais globais.

Ambas as autoras tratam da grande diversidade dos movimentos sociais e afirmam que tais tipologias ou eixos temáticos podem ser compreendidos de forma ocasional e pode haver também imbricações entre um e outro movimento. Realizamos o exercício de correlacionar as autoras a fim de identificar as confluências existentes no pensamento de ambas, o que está sistematizado no quadro a seguir:

Quadro 4 – Eixos temáticos dos movimentos sociais

Peruzzo (2014) Gohn (2013)

Movimentos vinculados a melhorias nas condições de trabalho e de remuneração (movimento de professores e outras categorias profissionais).

Movimentos de demandas na área do direito

Mobilizações e movimentos sociais – área do trabalho.

Os que defendem os direitos humanos relativos a segmentos sociais a partir de determinadas características de natureza humana (gênero, idade, raça, cor – como, por exemplo, o movimento de mulheres, dos índios, dos negros, dos homossexuais, das crianças etc. Exemplos: Movimento de Mulheres, Meninos e Meninos de Rua etc.).

Movimentos identitários e culturais: gênero, etnia, gerações.

Movimentos de demandas na área do direito

Aqueles voltados a resolver problemas decorrentes das desigualdades que afetam grandes contingentes populacionais (movimentos de transporte, moradia, terra, saúde, lazer, meio ambiente, paz, contra a violência, defesa dos animais etc. Exemplos, Movimento Nacional pela Moradia, Movimento Passe Livre e Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra). Alguns são apoiados por instituições que os incentivam ou os abrigam, tais como igreja, partido político, escola e universidades, a exemplo da Pastoral da Terra e do Movimento Fé e Política.

Movimentos sociais ao redor da questão urbana

Movimentos em torno da questão do meio ambiente: urbano e rural.

Movimentos ao redor da questão da fome. Movimentos decorrentes de questões religiosas.

Mobilizações e movimentos rurais.

Movimentos sociais no setor de comunicações.

movimentos político-ideológicos (lutas por participação política, protestos por antagonismos políticos, reivindicações por democracia, mudança de regime etc.).

Mobilizações e movimentos rurais.

Movimentos sociais no setor de comunicações.

Movimentos sociais globais. Fonte: autoria própria

Os movimentos identificados por Gohn (2013) negritados, estão assim sinalizados por se enquadrarem em mais de uma categoria definida por Peruzzo. Para a realização do nosso mapeamento apoiamo-nos nas categorias descritas por Gohn. Assim, os 10 eixos temáticos categorizados por esta autora nos permitem uma visão mais ampla e didática do cenário, além de conter novas abordagens teóricas a respeito da categoria movimento social. Especialmente, ao incluir os estudos de Hardt e Negri (2000; 2005), que tratam sobre a temática da democracia em escala global e resgatam o conceito de multidão, pensando por David Riesman, sociólogo americano, na década de 1950, que veremos em tópicos seguintes.

Cabe demonstrar na atualidade a importância crescente entre movimentos sociais e as redes, particularmente, atrelada à democracia e à noção de multidão. No entanto, com encurtamento entre tempo espaço provocado pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte faz-se necessário refletir sobre as novas configurações acerca de redes. Conforme adverte Bauman (2016), a rede faz parte de nós, contudo, resta-nos saber qual o significado corrente e quais os usos que são feitos deste termo tão antigo, e ao mesmo tempo tão contemporâneo.

Em contrapartida, antes de abordarmos as categorias de análises sobre os movimentos sociais brasileiros na contemporaneidade, faremos um breve resumo dos processos que marcaram sua ascensão ou transformação ocorridos nas últimas décadas do século XX até o momento. Sumariamente, vejamos:

A partir da década de 1960 eclode no Brasil movimentos operários e sindicais, com grande influência de partidos políticos de esquerda. Surge também o movimento de mulheres, e em seu interior, o movimento feminista.

Nas décadas de 1970 e 1980 o debate teórico sobre os movimentos sociais os apresenta enquanto forças propulsoras capazes de realizar transformações sociais.

A partir da década de 1990 os movimentos sociais, inclusive, os populares, tornaram- se mais culturais e menos políticos, devido às alterações de suas práticas cotidianas e em detrimento da nova conjuntura econômica, política e cultural, oriunda do neoliberalismo adotado pelo governo do presidente Fernando Henrique Cardoso à época.

Com a chegada dos anos 2000 as práticas cotidianas dos movimentos giram em torno da manutenção de suas identidades e de novas lutas, também globais. Outro ponto importante é a chegada da internet, promovendo inicialmente, uma releitura da relação verticalizada entre emissor e receptor. Inclusive do plano econômico, pois o Brasil começa a sofrer às consequências da crise europeia de 2008.

No ano de 2013 o acesso à internet por meio de dispositivos móveis aumentou expressivamente36, em paralelo aos protestos ocorridos no Brasil em 2013, desencadeado pelo Movimento Passe Livre (MPL).

No entanto, um fator que vai transcorrer quase 40 décadas na teoria e prática concreta dos movimentos sociais é a sua relação com a trabalho. Montãno e Duriguetto (2011, p.127) apontam a questão da luta de classes, em sua centralidade, não por serem mais importantes que

36 É o que demonstra a pesquisa da 13ª edição do F/Radar sobre internet realizado pela F/Nazca Saatchi & Saatchi

outras lutas tais como as identitárias, étnicas, de gênero etc., mas no sentido de que tais lutas não são caracterizadas pelo sistema que comanda o capital, pois o capitalismo pode “se perpetuar mesmo resolvendo a discriminação racial, de orientação sexual, de gênero”. Neste aspecto, recorremos a Hardt e Negri (2014) ao apontarem a riqueza do trabalho, unívoco de potencialidade criativa humana.

Por ventura, todos os movimentos sociais são importantes e desempenham papel específico na sociedade civil, entretanto, pensá-los a partir da perspectiva do trabalho - econômico, alienante, filosófico, criativo, imaterial etc.- é ter um olhar que busca as condições de possibilidade do próprio surgimento de cada movimento social em sua historicidade no Brasil.

Adiante discutiremos acerca de algumas categorias que perpassam a dimensão das ações coletivas no Brasil neste último século, úteis para a nossa reflexão. Inclusive, para evidenciar que é a própria dinâmica cultural dos grupos sociais no decurso da história que vai alterando percepções, práticas e modos de atuação dos grupos sociais. E que, consequentemente os possibilita retroceder, avançar ou permanecer em suas posições (BOURDIEU, 2004). A compreensão do estado de coisas passa por este reconhecimento das transformações realidade vivida por estes grupos ao longo da história.

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