Os processos de comunicação desenvolvidos por alguns movimentos sociais na internet de um lado são produzidos para circular na própria rede e causar repercussão e adesão dos sujeitos e ou militantes que se identificam com a causa. No intuito de ocupar o espaço híbrido da internet, e por vezes, pautar o noticiário dos veículos hegemônicos de comunicação. E por outro, alguns movimentos utilizam a internet, apenas como mais um dispositivo de comunicação. Em outras palavras, esses processos vão depender de algumas configurações do movimento social em questão, por exemplo, da fase em que se encontra, da bandeira de luta e do nível de organização.
Paralelamente, os movimentos sociais constroem alianças com outras organizações, coletivos, associações, cooperativas no intuito de articular demandas específicas, de construir projetos coletivos, ou simplesmente, para dar força e ampliar a luta coletiva. Ao juntar as tecnologias a estes processos emancipatórios e de reivindicações cidadãs a participação é ampliada e ecoada para outras instâncias, além da sociedade civil. Para Sodré (2012, p.175) na prática, as tecnologias se entrelaçam com movimentos sociais, e mesmo com influências externas, que se relevam amadurecidos num determinado momento histórico.
Assim é que as revoltas contra os governos de longa duração no mundo árabe (monarquias e ditaduras militares) tinham no centro da movimentação grupos islâmicos (como era bem o caso da Irmandade Mulçumana no Egito) – mas principalmente uma classe média de considerável amplitude, com residências próprias e participação importante no consumo tecnológico. No Brasil, por sua vez, a campanha “ficha limpa” era de iniciativa da Confederação Nacional dos Bispos do Brasil e de mais de 44 organizações da sociedade civil (SODRÉ, 2012, p.175).
No Brasil, são vários os exemplos das possibilidades de participação coletiva por meio da “democracia eletrônica”, Sodré contextualiza a campanha popular pela exigência de “ficha limpa” para candidatos ao parlamento no país no ano de 2010. De acordo com as explanações, a partir das praças virtuais, milhões de assinaturas e mensagens levaram o Congresso a votar a lei que proíbe o registro eleitoral a políticos condenados por crime grave. “A Lei da Ficha Limpa, a despeito das eventuais dificuldades para sua completa aplicação, é provavelmente a mais notável conquista da sociedade civil brasileira na primeira década deste século” (SODRÉ, 2012, p.173). Neste viés, Sodré (2012) acredita ser possível a aliança entre a imaterialidade do espaço virtual à noção de uma territorialidade cultural. Em outras palavras, o campo cultural é
também o campo das diferenças sociais, que implicam uma redefinição do jogo de poder, que é, sobretudo, político.
Em momento posterior, Peruzzo (2010) considera que as novas práticas possibilitadas pelas TICCS atualizam as formas de comunicação de segmentos subalternizados da sociedade. A pesquisadora salienta que essas práticas vêm do interesse social presente nos cidadãos e nas organizações civis em interferir nos sistemas geradores e mantenedores da desigualdade, além das possibilidades inovadoras, como a interatividade, criação de conteúdos apropriativos, entre outras proporcionadas pelas tecnologias.
Na atualidade e na efemeridade do estado de coisas, quais armas os movimentos sociais podem utilizar para perceber as idiossincrasias do poder no espaço de fluxos?
É preciso considerar o uso social da internet. Apesar dela faz parte da base que estrutura as tendências mercadológicas, como a financeirização do capital alinhadas à comunicação e a informação, pode servir aos movimentos sociais, a partir dos processos comunitários de comunicação como ferramenta de articulação e mobilização cidadã. A sociedade em rede apresenta-se de forma tão ambígua, que existe possibilidades participativas através da criação de conteúdos autênticos que sejam relativos aos próprios setores subalternizados. A mesma tecnologia que oprime, também liberta. É neste contexto de ambivalência que a internet está circunscrita. Silveira (2017), apesar de criticar a sociedade informacional afirma que inúmeras possibilidades de resistência a lógica do capital já estão em curso.
Entretanto, a internet, expressão da sociedade informacional, é uma rede de compartilhamento de informações, sejam sinais ou produtos imateriais. As possibilidades de criação e compartilhamento são utilizadas por indivíduos e coletivos que, intencionalmente ou não, praticam também uma economia da dádiva e de trocas sem finalidade econômica. Resistências à mercantilização extrema e ao domínio das interações em rede pelo domínio do mercado existem inúmeros processos de colaboração e compartilhamento de iniciativas, conhecimentos e desejo de realização de trocas solidárias. Expressão da ambivalência que podem adquirir algumas tecnologias (SILVEIRA, 2017, p. 23-24).
Os movimentos sociais nascem desejantes de comunicação, e por si, já comunicam. Parte desta natureza comunicante está alicerçada na vontade coletiva expressa por melhorias em condições específicas (demandas de bairros, associações) ou em alterações estruturais na sociedade, do ponto de vista das relações de produção estabelecidas em determinado momento histórico. A exemplo, o movimento francês, datado de 1789, conhecido como a Queda da Bastilha que foi motivado devido às péssimas condições de vida expressas pela fome, alto preço dos alimentos e dos impostos sob os auspícios da nobreza.
Assim, protestos, mobilizações, saques, foram diferentes maneiras utilizadas pelas camadas populares, com forte influência da burguesia para que tivessem participação política. Foi um movimento de grande repercussão que origina a Revolução Francesa e a Declaração dos Direitos dos Homens e dos Cidadãos. Este breve comentário, evidencia a natureza comunicativa de um movimento social, independente de meio técnico ou tecnológico de comunicação, regime político ou momento histórico.
Mas há que se observar o oposto à precarização da vida. Há que se observar práticas que sustentam e alimentam a dimensão coletiva de compartilhamento de saberes, fora das amarras tecnologizantes que tendem a esgaçar os laços sociais e anular o outro. Para Sodré (2012, p.185),
Do vazio da existência - que o mercado hoje tenta preencher pela disseminação infinita de artefatos técnicos - emerge a reivindicação coletiva de novos modos de inteligibilidade do fenômeno humano, dos, envie um pensamento capaz de amenizar a distância em que o perspectivismo da tecnociência nos coloca frente ao mundo um pensamento menos de econômico menos para hoje e mais afinado com que na razão há, concretamente, de sensível. A dimensão humana dos modos de transmissão do saber e do relacionamento social não depende da natureza técnica dos dispositivos.
Um pé fora das redes é possível, desde que essa existência seja implicada de “responsabilidade (obrigação) e parceria (ser junto a outro), mas principalmente a injunção de se assumir, por sensibilidade, o destino da experiência do mundo como abertura para outros mundos possíveis” (SODRÉ, 2012, p.185).