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1.5 Excitons dans les semi-conducteurs

2.1.1 Principe

As cartas perduram muito mais do que seus conteúdos e mensagens. Quantas cartas de amor não duraram muito mais do que o próprio amor? Comte-Sponville (1997) afirma que, muitas vezes, se interessa mais pela leitura da correspondência de determinados escritores do que por sua obra, como é o caso da correspondência entre Abelardo e Heloísa17, que sobreviveram muito mais do que os tratados de Abelardo.

Uma missiva pode permanecer viva, depois da morte de quem a escreve ou a recebe. Para Comte-Sponville isso significa: “uma apreciação mais justa de sua fragilidade, de sua importância um para o outro, um pelo outro, também do peso de cada palavra” (1997, p.42). O autor utiliza uma interessante metáfora:

(...) uma pirâmide é um envelope, se quiserem, cuja múmia seria a carta, cujos hieróglifos seriam o texto. Alguma coisa se diz aí, comunica-se aí. Uma mensagem, mas sem outro mensageiro além de si. Mas imóvel. Mas que antes percorre os séculos do que os quilômetros. Tratava-se de vencer não a ausência mas a morte,

17 Piérre Abélard e Héloïse são os protagonistas de um dos romances mais famosos da história medieval do século XII. Abelardo era um teólogo e filósofo francês, importante intelectual da época, que se tornara tutor de Heloísa. Eles se apaixonaram, casaram-se às escondidas, mas, ao serem descobertos pelo tio da moça, foram separados e a Abelardo castigou castrando-o. Passaram o resto da vida separados, mas foram enterrados juntos no cemitério Pérre Lachase, na França. As cartas de amor entre os dois estão publicadas pela Martins Fontes.

não a separação mas o esquecimento, não a distância mas o tempo. Não de trocar, mas de manter (...) Escrevemos nossas cartas, não para vencer a morte, não para vencer o tempo, mas para habitarmos juntos, tanto quanto pudermos, apesar da separação, apesar do espaço, do pouco tempo que nos é dado em comum (...) para compartilhar alguma coisa, algum acontecimento ou um pensamento, uma emoção ou um sorriso, muitas vezes quase nada e esse é o essencial de nossas vidas, para compartilhar essa pobreza que somos, que vivemos, que nos faz e desfaz, antes que a morte nos pegue, para não renunciar, enquanto respiramos e sejam quais forem os quilômetros que nos separam, à doçura de viver juntos (...) (ibidem, p.36).

Antônio Cícero (1996) em seu poema “Guardar” apresenta de modo belo e sensível um sentido poético para o ato de guardar, para aquilo que se busca preservar – aspecto que podemos estender às cartas:

GUARDAR

Guardar uma coisa não é escondê-la ou trancá-la. Em cofre não se guarda coisa alguma.

Em cofre perde-se a coisa à vista.

Guardar uma coisa é olhá-la, fitá-la, mirá-la por admirá-la, isto é, iluminá-la ou ser por ela iluminado.

Guardar uma coisa é vigiá-la, isto é, fazer vigília por ela, isto é, velar por ela, isto é, estar acordado por ela, isto é, estar por ela ou ser por ela.

Por isso melhor se guarda o vôo de um pássaro do que um pássaro sem vôos. Por isso se escreve, por isso se diz, por isso se publica,

por isso se declara e declama um poema: Para guardá-lo:

Para que ele, por sua vez, guarde o que guarda: Guarde o que quer que guarda um poema: Por isso o lance do poema:

Por guardar-se o que se quer guardar.

O tempo da carta é de permanência, é também muitas vezes o de atraso. Neste sentido, relata Mindlin:

Odeio cartas (...) É que entre o receber cartas e o lê-las há, para mim, um hiato de angústia que não depende nem da natureza nem do conteúdo das cartas. É mais uma espécie de hesitação indefinida, uma quase vontade de não ler, de não tomar conhecimento, de dispensar a informação emocional ou meramente referencial que as cartas veiculam com o seu inevitável recuar no tempo, porque mesmo trazendo possíveis novidades ou informações até aí desconhecidas, as cartas chegam sempre depois... chegam sempre atrasadas... O hoje da recepção e da leitura vem sempre depois da escrita e do envio, que agora já é um ontem, e esses dois hojes, sendo defasados no tempo, contém a possibilidade quase certa e angustiante de aquilo que nas cartas se lê já não corresponder ao que está acontecendo. No amor esta dúvida, esta incerteza podem ser fatais... O hoje que leio é já um ontem do que foi escrito... É isso que me desagrada e ao mesmo tempo me atrai desagradavelmente... essa intromissão do passado que as cartas me trazem no presente que estou vivendo, enquanto fico sem nada saber do presente simultâneo de quem me escreveu... (2000, p.15)

A imprevisibilidade e mutabilidade do tempo que a carta parece revelar talvez sejam os aspectos mais angustiantes aos quais as correspondências nos remetem. Explicitar nosso descontrole, inclusive sobre o tempo, é incômodo às pessoas em geral. Sempre na busca por suprimir e controlar o tempo e o espaço é que são desenvolvidas nossas tecnologias.

O telefone, o fax e os e-mails tornaram-se as grandes invenções tecnológicas do século XX. A impossibilidade de “perder tempo”, a necessidade da velocidade para transmissão instantânea da mensagem fez com que a carta se tornasse para muitos um instrumento obsoleto. Não que um e-mail não possa demorar em ser escrito, enviado ou lido, mas nesse caso, a velocidade da informação torna-se uma opção, não se está submetido à espera do tempo de percurso da carta. É certo também que os provedores, websites ou aparelhos de fax podem nos surpreender e não enviarem a mensagem, mas trata-se de erros e imprevistos, e não de uma condição própria desse modo de se comunicar.

Nos e-mails, em geral, predominam os diálogos curtos e rápidos, além de já ser possível perceber nesse modo de comunicação uma linguagem própria, marcada por abreviações, ícones “emoticons”18, ausência ou simbologia específica para as pontuações e acentos. Um meio de comunicação em que, até pela quantidade de informações que se recebe, as mensagens podem ser facilmente suprimidas, apenas com um toque de uma única tecla, sem precisar se dar ao trabalho de rasgar, cortar, amassar, retirar o lixo, etc.

Entretanto, apesar das recentes invenções, as cartas continuam a ser escritas, mesmo por aqueles que têm acesso à internet. E por quê? O que diferencia uma carta de um e-mail? Penso que aqui nos reportamos a outra especificidade da carta: sua materialidade.