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PREREQUISITES OF MAINTENANCE OPTIMIZATION

Ponciá Vicêncio (2003), romance da escritora Conceição Evaristo, aborda as idas, partidas e ausências de Ponciá Vicêncio, protagonista título da obra, de seus pais, irmão e avô, em um cenário de extrema pobreza e ausência de perspectiva de melhoria, semelhante ao vivenciado por grande maioria dos descendentes de africanos escravizados no Brasil. Ao dar voz a tais personagens, Evaristo retrata o abandono, as mutilações e o trabalho ainda ou praticamente escravo de afro-brasileiros em busca de sobrevivência por meio de um sistema social que os silencia e os torna invisíveis; desmascarando o “[...] o projeto colonial de impor silêncio, um silêncio visto como a negação de humanidade e de possibilidade de existir como sujeito”. (RIBEIRO, 2018, p. 18). Assim, como postula Evaristo, “[n]ossa fala estilhaça a

216 Histórias importam. Muitas histórias são importantes. Histórias têm sido usadas para desapropriar e difamar,

mas histórias também podem ser usadas para capacitar e humanizar. As histórias podem quebrar a dignidade de um povo, mas as histórias também podem reparar essa dignidade quebrada. [...] [Q]uando rejeitamos a história única, quando percebemos que nunca há uma única história sobre qualquer lugar, recuperamos uma espécie de paraíso. (ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

máscara do silêncio[,] [...] sendo ess[a] [o] estilhaçar, romper, desestabilizar, falar pelo orifício da máscara”. (apud RIBEIRO, 2018, p. 19).

Dentro de um panorama com poucas possibilidades de sobrevivência, fortemente estabelecido pelo silêncio e pela violência, as páginas iniciais do romance nos apresentam a protagonista Ponciá Vicêncio, suas questões identitárias, e sua busca em compreender as ausências de oportunidades de melhoria de sua condição social, bem como a inexistência de possibilidade de concretização de seus sonhos. A incapacitação em romper os lugares sociais pré-estabelecidos e não escolhidos pela população negra provoca outra ausência em Ponciá e, para sobreviver, a protagonista se ausenta do mundo exterior e se recolhe em suas memórias em busca de apreender seu papel enquanto mulher negra, pobre e marginalizada: “[e]la gastava todo o tempo com o pensar, com o recordar. Relembrava a vida passada, pensava no presente, mas não sonhava e nem inventava nada para o futuro. O amanhã de Ponciá era feito de esquecimento”. (EVARISTO, 2003, p. 16).

A respeito de sua percepção enquanto indivíduo, Ponciá se recorda que, ainda criança, gostava de ser mulher. Em seus tempos de menina, sempre teve muito medo do arco-íris, pois havia uma crença de que meninas que passassem por debaixo do arco-íris se tornariam meninos. Como vivia na roça, Ponciá utilizava o rio para retirar barro com intuito de fazer os seus objetos de cerâmica e se amedrontava quando era preciso encarar o arco-íris:

[...] [I]a buscar o barro na beira do rio e lá estava a cobra celeste bebendo água. Como passar para o outro lado? Às vezes, ficava horas e horas na beira do rio esperando a colorida cobra do ar desparecer. Qual nada! O arco-íris era teimoso! Dava uma aflição danada! Sabia que a mãe estava esperando por ela. Juntava, então, as saias entre as pernas tampando o sexo e, num pulo, com o coração aos saltos, passava por debaixo do angorô. Depois se apalpava toda. Lá estavam os seinhos, que começavam a crescer. Lá estava o púbis bem plano, sem nenhuma saliência a não ser os pêlos. Ponciá sentia um alívio imenso. Continuava menina. Passara rápido, de um pulo só. Conseguira enganar o arco e não virara menino. Naquela época Ponciá Vicêncio gostava de ser menina. Gostava de ser ela própria. (EVARISTO, 2003, p. 9).

Anos mais tarde, já na cidade e longe da roça onde crescera, Ponciá foi revisitada pelo mesmo temor antigo de sua meninez ao avistar um arco-íris. Entretanto, desvinculou o pensamento de seu medo infantil com a certeza de que não se tornaria um homem. Encarando o arco-íris, Ponciá Vicêncio, já não enxerga nenhum mal na possibilidade de virar homem: “[...] [p]or que o receio, então? Estava crescida, mulher feita! Olhou firmemente o arco-íris pensando que se virasse homem, que mal teria?” (EVARISTO, 2003, p. 10-11).

Judith Butler em Problemas de Gênero (2003) problematiza a conceituação da palavra gênero como também as atribuições de papéis fixos e específicos para as categorias “homens” e “mulheres”. As repetidas narrativas em torno da estabilidade da noção dos gêneros “masculino” e “feminino” são sustentadas, de acordo com a autora, pela hierarquia dos gêneros e a heterossexualidade compulsória exacerbadas por questões de poder:

[...] [o] poder parec[e] ser mais do que uma permuta entre sujeitos ou uma relação de inversão constante entre o sujeito e um Outro; na verdade, o poder [...] opera[...] na própria produção d[a] estrutura binária [entre homens e mulheres] em que se pensa o conceito de gênero. (BUTLER, 2003, p. 8).

Em vista disso, a atuação específica de poderes e práticas normativas, ao procurarem uma definição para a origem do gênero, empregam “[...] apostas políticas, designando como origem e causa categorias de identidades que, na verdade, são efeitos de instituições, práticas e discursos cujos pontos de origem são múltiplos e difusos[:] [...] o falocentrismo e a heteressexualidade compulsória”. (BUTLER, 2003, p. 9, grifos no original). Para a autora, é imprescindível examinar como as narrativas de gênero são constituídas e propagam, de forma equivocada, designações de fatos naturais, uma vez que “[...] a fronteira e as superfícies dos corpos são politicamente construídas”. (BUTLER. 2003, p. 11).

A necessidade de se determinar uma essência universal para a conceituação de gênero intercorre da sistematização hegemônica da dominação masculina que, para Butler (2003), conserva a ideia de que mulheres apresentam uma forma singular de representatividade, sem levar em conta, por exemplo, perspectivas culturais distintas. Além disso, a universalização do termo incorre na desconsideração de que

[...] o gênero nem sempre se constituiu de maneira coerente ou consistente nos diferentes contextos históricos, e [...] o gênero estabelece interseções com modalidades raciais, classistas, étnicas, sexuais e regionais de identidades discursivamente constituídas. Resulta que se tornou impossível separar noção de “gênero” das interseções políticas e culturais em que invariavelmente ela é produzida e mantida. (BUTLER, 2003, p. 20, grifo original).

Dessa maneira, a problematização do termo gênero deve levar em consideração o conjunto de relacionamentos de sujeitos instituídos socialmente e dentro de conjunturas distinguíveis. Segundo Butler (2003):

[...] [o]s limites da análise discursiva do gênero pressupõem e definem por antecipação as possibilidades das configurações imagináveis e realizáveis do

gênero na cultura. Isso não quer dizer que toda e qualquer possibilidade de gênero seja facultada, mas que as fronteiras analíticas sugerem os limites de uma experiência discursivamente condicionada. Tais limites se estabelecem sempre nos termos do discurso cultural hegemônico, baseado em estruturas binárias que se apresentam como a linguagem da racionalidade universal. Assim, a coerção é introduzida naquilo que a linguagem constitui como o domínio imaginável do gênero. (BUTLER, 2003, p. 28).

Nessa acepção, o condicionamento discursivo tantos dos atributos quanto das experiências do ser “feminino” categoriza-se normativamente e de maneira excludente por não examinar os pontos de privilégio de classe e de raça, mantendo-os incólumes, ou seja, “[...] a insistência sobre a coerência e unidade da categoria das mulheres rejeit[a] efetivamente a multiplicidade das interseções culturais, sociais e políticas em que é construído o espectro concreto das “mulheres””. (BUTLER, 2003, p. 34-35, grifo no original). De modo igual:

[...] [a] noção binária de masculino/feminino constitui não só a estrutura exclusiva essa especificidade [o especificamente feminino] pode ser reconhecida, mas de todo modo a “especificidade” do feminino é mais uma vez totalmente descontextualizada, analítica e politicamente separada da constituição de classe, raça, etnia, e outros eixos de relação de poder, os quais constituem a “identidade” como tornam equívoca a noção singular de identidade. (BUTLER, 2003, p. 21, grifos no original).

Assim posto, necessita-se refutar a noção de gênero com base na categoria binária e abrangente de masculino/feminino, que condiciona e unifica a categoria de “mulheres”, assim como repensá-la; levando em conta as especificidades das mulheres com vistas às circunstâncias tanto de classe quanto de raça, além de questões políticas e culturais. As críticas à classificação binária de gênero atribuem, então, a ressignificação de tal termo por meio de sua construção performativa a partir de suas relações sociais, bem como de suas conjunturas econômicas, políticas, culturais e étnicas. Portanto,

[...] o gênero não é um substantivo, mas tampouco é um conjunto de atributos flutuantes, pois [...] seu efeito substantivo é performativamente produzido e imposto pelas práticas reguladoras da coerência do gênero. Consequentemente, o gênero mostra ser performativo no interior do discurso herdado da metafísica da substância – isto é, constituinte da identidade que supostamente é. Nesse sentido, o gênero é sempre um feito, ainda que não seja obra de um sujeito tido como preexistente à obra. [...] [N]ão há identidade de gênero por trás das expressões de gênero; essa identidade é performativamente constituída, pelas próprias “expressões” tidas como seus resultados. (BUTLER, 2003, p. 48, grifos no original).

Retomando as considerações da personagem Ponciá Vicêncio acerca de seus apreços em ser mulher, percebe-se que no período de sua infância estimava o fato de ser mulher. Ao relatar suas dinâmicas familiares na roça para sobreviverem à fome e à pobreza, Ponciá novamente se lembra o quanto apreciava ser mulher, principalmente pelo fato de seu pai obedecer às determinações de sua mãe:

[n]os tempos de roça de Ponciá, nos tempos de casa de pau-a-pique, de chão de barro batido, de bonecas de espigas de milho, de arco-íris feito cobra coral bebendo água no rio, a menina gostava de ser mulher, era feliz. A mãe nunca reclamava a ausência do homem. Vivia entretida cantando com suas vasilhinhas de barro. Quando ele chegava, era ela quem determinava o que o homem faria em casa naqueles dias. O que deveria fazer quando regressasse lá para as terras dos brancos. O que deveria dizer para eles. O que deveria fazer da próxima vez que voltasse para casa. [...] O pai, às vezes, descordava de tudo. [...] A mãe repetia o que havia dito anteriormente. O pai fazia ali o que ela havia pedido e saía sem se despedir dela e da filha, puxando o filho pela mão. (EVARISTO, 2003, p. 24).

Quando criança, Ponciá parecia viver de forma destoante às configurações pré- estabelecidas pelo discurso binário relativo às atribuições das categorias “homens” e “mulheres”. Sua mãe exercia voz de poder e gerenciava não somente a casa onde ela, o marido e filhos moravam, mas também como seu esposo deveria lidar com a esfera de seu trabalho. Com efeito, a voz da mãe de Ponciá prevalecia:

[...] o pai e a mãe ficavam conversando no outro cômodo até tarde da noite. Aliás, so escutava a voz da mãe. Do pai só se ouvia uma resposta ecoando: hum, hum, hum ... Foi naquela época que Ponciá começou a achar que homem era quase mudo. Seu irmão falava, mas parece que estava ficando mudo também. (EVARISTO, 2003, p. 56).

Vendo a mãe atuar de forma assertiva e decisiva, Ponciá vislumbrava uma família assim para ela também: [...] Ponciá Vicêncio sorria. O pai era forte, o irmão quase um homem, a mãe mandava e eles obedeciam. Era tão bom ser mulher! Um dia também ela teria um homem que, mesmo brigando, haveria de fazer tudo o que ela quisesse e teria filhos também. (EVARISTO. 2003, p. 24-25).

Diferente de suas expectativas de menina, anos mais tarde, após deixar a roça e buscar melhores condições de vida na cidade, Ponciá vivencia o dissabor de ser uma mulher pobre e negra em uma grande metrópole, sobrevivendo por meio de trabalhos exaustivos e mal remunerados e morando em um barraco de favela. Tudo tão desumano e fora dos sonhos de

família que havia idealizado quando menina. Percebeu, então, que seu homem, assim como seu pai e irmão, também era escasso de palavras:

[...] Ponciá Vicêncio achava que os homens falavam pouco. O pai e o irmão haviam sido exemplos do estado da quase mudez dos homens no espaço doméstico. Agora, aquele, o dela, ali calado, confirmava tudo. Ele também só falava o necessário. Só que o necessário dele era bem pouco, bem menos do que a precisão dela. Quantas vezes quis ouvir, [...] [q]uis que o homem lhe falasse dos sonhos, dos planos, das esperanças que ele depositava na vida. Mas ele era quase mudo. Não chorava, não ria. Desde os primeiros tempos, nos momentos em que ela se abria para ele, o homem vinha emudecido, trancado de falas, sem gesto algum dizível de nada. (EVARISTO, 2003, p. 67).

As condições precárias de vida e de subsistência, o cansaço, e o trabalho descomunal e pouco valorizado haviam tirado o sorriso de Ponciá e afetado sua relação com seu marido: “[...] reduzid[a], pequen[a], mesquinh[a], em um barraco qualquer [...] [h]avia tecido uma rede de sonhos e agora via um por um dessa rede destecer e tudo se tornar um grande buraco, um grande vazio”. (EVARISTO, 2003, p. 23). Ao invés de harmonia e de um homem que a obedecesse, a personagem se ausentava em suas memórias na tentativa de aliviar sua condição sub-humana. Em resposta a uma de suas diversas ausências, Ponciá era acometida com violência:

[...] [o] homem de Ponciá [...] [a]o ver a mulher tão alheia, teve desejos de trazê-la ao mundo à força. Deu-lhe um violento soco nas costas, gritando-lhe pelo nome. Ela lhe devolveu um olhar de ódio. Pensou em sair dali, ir para o lado de fora, passar por debaixo do arco-íris e virar logo homem. Levantou- se, porém, amargurada de seu cantinho e foi preparar a janta dele. (EVARISTO, 2003, p. 17).

E, encarando uma realidade de ausência de afetos e repleta de trabalho, a personagem conclui que a vida para pessoas em condições similares, negros e pobres, tanto para mulheres e homens, se apresentava de maneira igual:

[...] [à]s vezes, ficava matutando para quem a vida se tonava mais difícil. Para mulher ou para o homem? Lembrava-se do pai, da história do pai dele, o Vô Vicêncio, do irmão dela que trabalhava desde cedo nas terras dos brancos e que nem tempo de brincadeiras tivera. E acabava achando que, pelo menos para os homens que conhecera, a vida era tão difícil quanto para a mulher. (EVARISTO, 2003, p. 54).

Ademais, dentro das inquietudes vivenciadas por Ponciá Vicêncio em torno de questões identitárias configuradas por sua condição de mulher de cor, pobre e diaspórica, o fato

de não se reconhecer em seu próprio nome a incomodava, assim como provocava angústias. Posteriormente, já morando na cidade, acometida pelas ausências da realidade em que se encontrava, em meio dos seus muitos sonhos de infância, “[...] [e]m tempos outros, havia sonhado tanto!” (EVARISTO, 2003, p. 16), a personagem desejou a possibilidade de trocar seu nome de nascimento:

[...] [q]uando mais nova, sonhara até um outro nome para si. Não gostava daquele que lhe deram. Menina, tinha o hábito de ir à beira do rio e lá, se mirando nas águas, gritava o próprio nome: Ponciá Vicêncio! Ponciá Vicêncio! Sentia-se como se estivesse chamando outra pessoa. Não ouvia o seu nome responder dentro de si. Inventava outros. Pandá, Malenga, Quieti, nenhum lhe pertencia também. Ela inominada, tremendo de medo, temia a brincadeira, mas insistia. A cabeça rodava no vazio, ela vazia se sentia sem nome. Sentia-se ninguém. (EVARISTO, 2003, p. 16).

O desconforto e a incongruência agravaram-se ainda mais depois que Ponciá Vicêncio aprendeu a ler. Morando na roça nos tempos de menina, um grupo de missionários chegou no interior onde ela e seus familiares viviam e montaram uma escola, convidando a participação de todos que quisessem aprender a ler. A mãe de Ponciá, vislumbrando melhores perspectivas de futuro para a filha, na esperança da menina seguir caminhos mais favoráveis de sobrevivência, permitiu que Ponciá frequentasse a escola. Sobre isso, a mãe de Ponciá ponderava: “[...] [q]uem sabe um dia a menina sairia da roça e iria para a cidade. Então, carecia de aprender a ler. [...] Era melhor deixar a menina aprender a ler. Quem sabe, a estrada da menina seria outra”. (EVARISTO, 2003, p. 25).

Como destacado, Ponciá Vicêncio obteve a autorização da mãe para frequentar a escola dos missionários para que, no futuro, novas oportunidades pudessem ser oferecidas a menina, talvez em direção à cidade grande, uma vez que, no interior, o letramento não era uma habilidade necessária para sobrevivência:

[...] [n]a roça, não! Outro saber se fazia necessário. O importante na roça era conhecer as fases da lua, o tempo de plantio e de colheita, o tempo das águas e das secas. A garrafada para o mau da pele, do estômago, do intestino e para as excelências das mulheres. Saber a benzedura para o cobreiro, para o osso quebrado ou rendido, para o vento virado das crianças. O saber que se precisa na roça difere em tudo do da cidade. (EVARISTO, 2003, p. 25).

Mesmo com as dificuldades encontradas por Ponciá em decorrência de seu letramento, a garota assimilou o abecedário e reconhecia as letras pelos lugares que passava. Praticava

também com o pai a leitura das letras da cartilha, quando ele retornava do trabalho na terra dos brancos. Aliás, o início do processo de alfabetização do pai de Ponciá se deu de forma peculiar:

[o] pai de Ponciá sabia ler todas as letras do alfabeto. Sabia de cor e salteado. Em qualquer lugar que visse as letras, as reconhecia. Não conseguia, porém, formar as sílabas e muito menos as palavras. Aprendera a ler as letras numa brincadeira com o sinhô-moço. Filho de ex-escravos crescera na fazenda levando a mesma vida dos pais. Era pajem do sinhô-moço. [...] Um dia o coronelzinho, que já sabia ler, ficou curioso para ver se negro aprendia os sinais, as letras de branco e começou a ensinar o pai de Ponciá. O menino respondeu logo ao ensinamento do distraído mestre. Em pouco tempo reconhecia todas as letras. Quando sinhô-moço se certificou de que o negro aprendia, parou a brincadeira. Negro aprendia sim! Mas o que o negro ia fazer com o saber de branco? O pai de Ponciá, em matéria de livros e letras, nunca foi além daquele saber. (EVARISTO, 2003, p. 14-15).

Identificado sob a concepção de desumanização do negro, em que o branco o percebe como um ser animalesco, o letramento do pai de Ponciá estagnou no reconhecimento das letras do alfabeto depois do sinhô-moço não compreender a relevância da alfabetização de negros. Já o da menina, contudo, avançava para a formação das sílabas. Porém, antes de aprender totalmente a formar palavras, os padres deixaram o povoado de Ponciá em direção a outras localidades do interior. Com a partida dos missionários, Ponciá Vicêncio termina seu processo de letramento sozinha: “[...] Ponciá logo percebeu que não poderia ficar esperando por eles para aumentar o seu saber. Foi avançando sozinha e pertinaz pelas folhas da cartilha. E em poucos meses já sabia ler”. (EVARISTO, 2003, p. 26).

Ser capaz de ler e escrever acentuou ainda mais a não identificação de Ponciá com o seu próprio nome. Enquanto crescia na roça, Ponciá não se sentia conectada com seu nome, achava-o vazio. A grafia de seu nome, então, tornou-se um suplício ao identificar o acento agudo no final da palavra Ponciá:

[...] [à]s vezes, num exercício de autoflagelo ficava a copiar o nome e a repeti- lo, na tentativa de se achar, de encontrar seu eco. E era tão doloroso quando grafava o acento. Era como se estivesse lançando sobre si mesma uma lâmina afiada a torturar-lhe o corpo. Ponciá Vicêncio sabia que o sobrenome dela tinha vindo desde antes do avô de seu avô[.] [...] O pai, a mãe, todos continuavam Vicêncio. Na assinatura dela, a reminiscência do poderio do senhor, de um tal coronel Vicêncio. O tempo passou deixando a marca daqueles que se fizeram donos das terras e dos homens. E Ponciá? De onde teria surgido Ponciá? Em que memória do tempo estaria escrito o significado do nome dela? Ponciá Vicêncio era para ela um nome que não tinha dono. (EVARISTO, 2003, p. 27).

Ter herdado o sobrenome de um sujeito branco que havia escravizado sua família, e, mesmo em tempos em que a escravidão oficial do povo negro já havia sido extinta, Ponciá carregava no sobrenome a inscrição em seu nome de nascimento da família daquele que havia escravizado seu povo e que, por outros membros da mesma família, perpetuava o mesmo sistema escravocrata ao reproduzir em suas terras e nos homens que lá viviam as condições de sobrevivência semelhante a dos escravos do passado. A personagem-título do romance de Conceição Evaristo considerava portar um fardo ao ser chamada por e grafar seu próprio nome: Ponciá Vicêncio.

Assim, anos mais tarde, já na favela da cidade, morando em um barraco com seu marido, Ponciá se entrega a um estado de ausência e distração decorrente não só da falta de identificação com seu nome, mas fruto também das frustações da não concretização de seus sonhos ao deslocar-se para a cidade grande. Diante do estado alheio e de anulação de Ponciá, seu marido sentia ódio da esposa e, ao mesmo tempo, se assustava:

[...] [a] mulher parecia lerda. Gastava horas e horas ali quieta olhando e vendo