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Os enredos diaspóricos das autoras analisadas neste estudo possuem, em sua construção, narrativas contestadoras, ao expor histórias muitas vezes esquecidas e silenciadas pelos enredos primordialmente oriundos do poder hegemônico branco, masculino e proveniente do continente europeu; sem levar em consideração as especificidades dos discursos de grupos minoritários, como negros, indígenas, LGBTI+, entre outros, assim como os das mulheres de cor, ponto de análise deste capítulo. Sobre isso, Spivak (2010) contende que

[...] [n]o contexto obliterado do sujeito subalterno, o caminho da diferença sexual é duplamente obliterado. [...] [A] construção ideológica de gênero mantém a dominação masculina. Se, no contexto da produção colonial [e pós- colonial], o sujeito subalterno não tem história e não pode falar, o sujeito subalterno feminino está ainda mais profundamente na obscuridade. (SPIVAK, 2010, p. 85).

A partir da escrita de autoras como Adichie, Alvarez, e Evaristo, há a possibilidade da quebra de estereótipos das percepções hegemônicas e restritivas de narrativas estabelecidas em espaços discursivos nos quais há chance de protagonização de falas subalternas. Com base na compreensão do posicionamento da escritora subalterna dentro de um cenário cerceador e excludente, a escrita de outras histórias torna-se ferramenta essencial para a mobilidade de lugares fixos; evidenciando olhares distintos e pautados pela diversidade.

Chimamanda Adichie, em seu discurso para o TED Global de 2009206 intitulado “The

danger of a single story” [O perigo da história única], aborda a necessidade da emergência de olhares outros em relação às histórias retratadas e perpetuadas pelo domínio daqueles possuidores do poder. De acordo com Adichie, a leitura se faz presente em sua vida desde muito pequena, quando encontravam-se em seu alcance e, em sua grande maioria, livros de literatura britânica. Em consequência, suas primeiras palavras como escritora, ainda criança, representavam personagens com os quais ela nunca havia convivido e não conseguia se identificar:

How impressive and vulnerable we are in the face of a story, particularly, as children. Because all I had read were books in which characters were foreign, I had become convinced that books, by their very nature, had to have foreigners on them, and they had to be about things with which I personally could not identify207. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

Poucos anos mais tarde, ao ter a chance de conhecer obras de autores africanos tais como Chinua Achebe, mesmo com toda a dificuldade de encontrá-los disponíveis em bibliotecas e livrarias pela Nigéria, a percepção de Chimamanda sobre literatura passa por uma mudança significativa:

I went through a mental shift in my perception of literature: I realized that people like me, girls with skin with the color of chocolate whose kinky hair could not form ponytails, could also exist in literature. I started to write about things that I recognized. […] The unintended consequence was that I did not know that people like me could exist in literature. So what the discovery of African writers did for me was this: it saved me from having a single story of what books are208. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

Ao ingressar na universidade, alguns anos depois, em sua primeira estadia fora do continente africano, Chimamanda vivenciou as primeiras consequências do perigo da história única. Sua colega de quarto se chocou com a sua figura e não compreendia como uma africana possuía a habilidade de falar inglês tão bem e permaneceu ainda mais confusa quando a escritora relatou que o inglês era a língua oficial da Nigéria. Dentre outras suposições equivocadas sobre a África e os africanos, a colega de quarto de Adichie se desapontou quando Chimamanda tocou sua fita cassete da cantora Mariah Carey ao atender o pedido da garota em conhecer a música tribal escutada por Adichie em seu país. Além disso, em relação a tal episódio, segundo a escritora,

What struck me was this: she had felt sorry for me even before she saw me. Her default position toward me, as an African, was a kind of patronizing, well- meaning pity. My roommate had a single story of Africa: a single story of catastrophe. In this single story, there was no possibility of Africans being similar to her in any way, no possibility of feelings more complex than pity,

207 Quão suscetíveis e vulneráveis nos quedamos diante de uma história, particularmente, quando crianças. Como

tudo o que eu havia lido eram livros cujos personagens eram estrangeiros, convenci-me de que os livros, por sua própria natureza, tinham que ter estrangeiros neles, e tinham que ser sobre coisas com as quais eu pessoalmente não conseguia me identificar. (ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

208Eu passei por uma mudança mental na minha percepção da literatura: percebi que pessoas como eu, garotas

com pele com a cor de chocolate, cujos cabelos crespos não podiam fazer rabos de cavalo, também poderiam existir na literatura. Comecei a escrever sobre coisas que reconhecia. […] A consequência não intencional foi que eu não sabia que pessoas como eu poderiam existir na literatura. Então, o que a descoberta dos escritores africanos fez por mim foi isto: me salvou de ter uma única história sobre o que são os livros. (ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

no possibility of a connection as human equals209. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

Depois de viver alguns anos nos Estados Unidos como uma africana, Chimamanda começa a compreender o perigo da história única exercida por meio da abordagem equivocada de sua colega de quarto em sua chegada ao país como estudante universitária. Para a escritora, se ela própria tivesse vivido somente nos Estados Unidos e tido como referência a cobertura midiática e imagens populares sobre a África, repletas de paisagens lindas e de seus animais igualmente lindos, além de pessoas incompreensíveis lutando em guerras sem sentido, morrendo de pobreza e AIDS, sem a capacidade de falar por si mesmos e “[...] waiting to be saved by a kind, white foreigner210” (ADICHIE, 2009, informação verbal); sua percepção sobre

o continente africano também seria extremamente destoante. Para ela, “[t]his single story of Africa ultimately comes [...] from Western Literature211”. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

Com efeito, a representatividade dos africanos, assim como a tradição da contação de histórias africanas, segundo Adichie (2009), tem início no ocidente. Tal representação apresenta-se por meio de lugares carregados de negatividade, de diferença, de escuridão, “[...] of people who, in the words of the wonderful poet Rudyard Kipling, are “half devil, half child212”. (ADICHIE, 2009, informação verbal). Dessa forma, a visão estereotipada da colega de

quarto de Adichie fundamenta-se aparentemente na repetição, como supõe Chimamanda, de diferentes versões dessa mesma história única sobre a África. O perigo, assim, da história única encontra-se na impossibilidade de enxergar o outro como algo mais, além das fronteiras do estereótipo, já que, como Chimamanda afirma, “[...] that is how to create a single story: show a people as one thing, as only one thing over and over again, and that is what they become213”.

(ADICHIE, 2009, informação verbal).

209 O que me impressionou foi o seguinte: ela sentiu pena de mim antes mesmo de me ver. Seu posicionamento

padrão em relação a mim, como africana, era uma espécie de piedade paternalista e bem-intencionada. Minha colega de quarto possuía uma história única sobre a África: uma história única de catástrofe. Nessa história única, não havia possibilidade de que os africanos fossem parecidos com ela de modo algum, nenhuma possibilidade de sentimentos mais complexos do que piedade, nenhuma possibilidade de uma conexão como humanos iguais. (ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

210 “[...] esperando para serem salvos por um estrangeiro branco e gentil”. (ADICHIE, 2009, informação verbal,

tradução nossa).

211 “[...] esta única história da África vem da [...] literatura ocidental”. (ADICHIE, 2009, informação verbal,

tradução nossa).

212 “[...] de pessoas que, nas palavras do maravilhoso poeta Rudyard Kipling, são “meio diabo, meio criança”.

(ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

213 “[...] é assim que se cria uma história única: mostre as pessoas como uma coisa só, como uma coisa somente

Ademais, Adichie (2009) contende que a propagação da história única se relaciona, de forma direta, com questões de poder:

It is impossible to talk about the single story without talking about power. There is a word, an Igbo word, that I think about whenever I think about the past structures of the world, and it is ‘nkali’, it is a noun that loosely translates to be ‘greater than another’. Like our economic and political world, stories too are defined by the principle of ‘nkali’: how they are told, who tells them, when they are told, how many stories are told, are really dependent on power. Power is the ability not just to tell the story of another person, but to make it the definite story of that person214. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

E, tendo em mente a relação direta do poder como fio condutor da maneira como as histórias únicas tomam contorno, são propagadas, bem como são repetidas e, também, assimiladas, Chimamanda apreende que, devido ao poder econômico e cultural exercido pelos Estados Unidos na contemporaneidade, diversas histórias sobre os EUA estiveram ao seu alcance, já que, diferente de sua colega de quarto, ela não possuía uma história única do território estadunidense. Com isso, o mecanismo de insistência da generalização da história única fomenta estereótipos; negligenciando e obliterando as tantas outras histórias e experiências que formam um indivíduo. Sendo assim, nas palavras de Adichie (2009),

The single story creates stereotypes, and the problem with stereotypes is not that they are untrue, but that they are incomplete. They make one story become the only story […]. I’ve always felt that it is impossible to engage properly with a place or a person without engaging with all of the stories of that place and that person. The consequence of the single story is this: It robs people of dignity. It makes our recognition of our equal humanity difficult. It emphasizes how we are different rather than how we are similar215. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

Assim posto, a escrita de autoras e autores subalternos e marginalizados apresenta-se como uma ferramenta de desmantelamento da rigidez e fixação de discursos provenientes das

214 É impossível falar sobre a história única sem falar de poder. Há uma palavra, uma palavra Igbo, que me vem a

mente sempre que penso sobre as estruturas do passado do mundo, e é ‘nkali’, é um substantivo que se traduz livremente como ser ‘maior que o outro’. Assim como o nosso mundo econômico e político, as histórias também são definidas pelo princípio do ‘nkali’: como elas são contadas, quem as conta, quando são contadas, quantas histórias são contadas, são realmente dependentes do poder. O poder é a capacidade não apenas de contar a história de outra pessoa, mas de torná-la a história definitiva dessa pessoa. (ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

215 A história única cria estereótipos, e o problema dos estereótipos não é que eles sejam falsos, mas são

incompletos. Eles fazem uma história se tornar a única história [...]. Eu sempre senti que é impossível se envolver adequadamente com um lugar ou uma pessoa sem se envolver com todas as histórias daquele lugar e dessa pessoa. A consequência da história única é esta: rouba as pessoas da dignidade. Torna difícil o nosso reconhecimento da nossa humanidade enquanto iguais. Enfatiza como somos diferentes e não como somos semelhantes. (ADICHIE, 2009, informação verbal, tradução nossa).

articulações de poder que silenciam os grupos minoritários em geral, e, em igual importância, os das mulheres de cor e em trânsito investigadas nesta pesquisa. Por fim, como enfatizado por Adichie,

Stories matter. Many stories matter. Stories have been used to dispossess and to malign, but stories can also be used to empower and to humanize. Stories can break the dignity of a people, but stories can also repair that broken dignity. […] [W]hen we reject the single story, when we realize that there is never a single story about any place, we regain a kind of paradise216. (ADICHIE, 2009, informação verbal).

Enfim, histórias outras, além das estabelecidas pela normatividade do poder hegemônico, empoderam e reestabelecem a voz dos subalternos a partir dos olhares e das perspectivas de seu próprio lugar de fala, propiciando, então, a possibilidade de resistir à fixação estabelecida pela história única para ter a chance de exercer o direito de existir. Percebe-se, assim, que Chimamanda Adichie, Julia Alvarez e Conceição Evaristo, por meio da escrita de Americanah, How the García Girls Lost their Accents e ¡Yo!, e Ponciá Vicêncio, respectivamente, narram a existência de mulheres em trânsito e à margem do cânone literário a fim de exercer resistência à tradição da história única. Tais tessituras serão observadas nas seções a seguir.