Chapitre 3. Les figures du déploiement des Tic dans l’espace rural
A. Politiques publiques de déploiement des Tic
de políticas feministas progressistas e da emancipação feminina, ao longo da história e atualmente. Tendo em vista A Acumulação
do Capital de Luxemburgo e a sua forte ênfase na dinâmica vi-
brante entre o espaço capitalista e o não-capitalista, tentamos levar a teoria de Luxemburgo um passo adiante. É possível falar de um “feminismo luxemburguiano”? É possível estabelecer uma conexão entre a “dialética da espacialidade” luxemburguiana e a teoria da reprodução social? Pode o enquadramento da crítica lu- xemburguiana sobre a economia política ser usado para a análise feminista do trabalho reprodutivo das mulheres e o seu papel eco- nómico na reprodução da acumulação? Neste artigo, as questões acima serão analisadas mais detalhadamente através de: a) uma apresentação da crítica de Luxemburgo ao feminismo burguês e, subsequentemente, b) uma conexão estabelecida entre elementos cruciais n’A Acumulação do Capital de Luxemburgo e a teoria da reprodução social. Antes de passarmos à análise feminista da teo- ria da acumulação de Luxemburgo, seja-nos permitido fazer al- gumas breves e poucas observações introdutórias sobre A
Acumulação do Capital e o seu contexto histórico.
Nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, após cerca de quinze anos de preparação, Rosa Luxemburgo publicou A Acumu-
lação do Capital (Berlim, 1913), o seu trabalho teórico mais
abrangente e uma das obras clássicas mais relevantes e originais da economia marxista. A Acumulação do Capital: Uma Contri-
buição para uma Explicação Económica do Imperialismo3 foi a
continuação do livro Introdução à Economia Política4, que Luxem-
burgo escreveu enquanto preparava as suas palestras sobre eco- nomia política, realizadas entre 1906 e 1916, na Escola do Partido Social-Democrata Alemão.
Resumidamente, A Acumulação do Capital procurou uma ma- neira de estudar e explicar cientificamente as condições da mo- nopolização, reprodução alargada e imperialismo capitalistas, ao mesmo tempo que levava em linha de conta a relação dinâmica entre espacialidade capitalista e não-capitalista. Rosa Luxem- burgo defendia que Marx havia negligenciado a determinação es-
3 Luxemburgo 2015a.
4 Em Hudis (ed.) 2013. Também traduzido como a Introdução à Economia Nacional
pacial do capital, enquanto que a sua crítica ao capital se havia centrado exclusivamente no “tempo”, ou seja, na dimensão tem- poral da dinâmica interna da reprodução capitalista. Em contra- partida, Luxemburgo “procurou mostrar que o núcleo interno do capital consiste no impulso de consumir o que lhe é exterior — estratos não capitalistas.”5 O objetivo de Luxemburgo era articu-
lar a sua própria teoria de reprodução alargada e a crítica da eco- nomia clássica, que conteria não apenas uma dimensão temporal, mas também uma “dimensão espacial analítica”. Esta determi- nação espacial da acumulação capitalista foi denominada, por Peter Hudis, de “dialética da espacialidade”.6
Tanto amigos como inimigos teceram severas críticas a Lu- xemburgo por notar as “incoerências gritantes” de Marx, como ela acreditava, os “defeitos” da sua abordagem ao problema da acu- mulação e reprodução alargada, no segundo volume do Capital.7
Numa carta a Franz Mehring, referindo-se a críticas a A Acumu-
lação de Capital, escreveu:
Em geral, eu estava bem consciente de que o livro seria alvo de resistência a curto prazo; infelizmente, o nosso “marxismo” pre- valecente, como um tio velho e repleto de gota, tem medo de qualquer brisa fresca de pensamento, e eu tive em conta que teria que lutar bastante no início.8
Lenine afirmou que a autora “distorceu Marx”9, e o seu traba-
lho foi interpretado como uma revisão de Marx, apesar do facto de ter sido Luxemburgo quem lançou um veemente ataque às ten- dências revisionistas no SPD10 alemão. Em oposição aos social-de-
5 Hudis 2014. 6 Ibid.
7 Vejam-se as críticas de Anton Pannekoek, Gustav Eckstein, Otto Bauer e Karl
Kautsky em Day and Gaido (eds.) 2012. Por outro lado, também houve respostas positivas; veja-se a resenha de Franz Mehring, onde este afirma: “Enquanto alguns rejeitam o trabalho como um completo fracasso, denunciando-o como uma compi- lação sem valor, outros consideram-no como o fenómeno mais significativo na lite- ratura socialista desde que Marx e Engels tomaram a caneta. Este revisor pertence completamente ao segundo grupo.” (Dia e Gaido (eds.) 2012, p. 746.)
8 Adler, Hudis e Laschitza (eds.) 2011, p. 324. 9 Citado em Day and Gaido (eds.) 2012, p. 677. 10 N.T. Partido Social-Democrata alemão.
mocratas que se agruparam em torno de “epígonos”, e a uma cor- rente oportunista da prática política que “corrigiu” Marx levando a um afastamento gradual de princípios, ação revolucionária e in- ternacionalismo socialistas, Luxemburgo insistiu em aproveitar um pensamento marxista vivo para oferecer respostas e explica- ções mais precisas acerca da crescente crise económica e de factos recém-surgidos na vida económica.
Enquanto os trabalhos de Luxemburgo sobre organização po- lítica, filosofia revolucionária, nacionalismo ou militarismo são fre- quentemente analisados por estudiosos do seu pensamento, poucos autores tentaram fornecer uma retrospetiva sistemática da teoria económica de Luxemburgo e do seu legado, ou oferecer uma análise luxemburguiana contemporânea da economia política.11 Nas pala-
vras de Ingo Schmidt: “Esquerdistas interessados no trabalho de Luxemburgo olhavam para a sua política, mas tinham pouco tempo para a economia”.12 Também se deve levar em linha de conta que o
livro A Acumulação do Capital foi só apenas traduzido para o inglês 38 anos depois da publicação original (Routledge e Kegan Paul 1951, traduzida por Agnes Schwarzschild),13 com numerosas omis-
sões, conforme observado por Raya Dunayevskaya, entre outros14.
11 Certamente as exceções são Kowalik 2014; Hudis 2014; Bellofiore, Karwowski e To-
porowski (eds.) 2014; Ping 2014; e Bellofiore 2010. Além disso, podemos falar de vários tipos de aplicações da dialética da espacialidade de Rosa Luxemburgo em diferentes teorias do “novo imperialismo” que definitivamente não são análises sistemáticas da teoria do imperialismo de Rosa Luxemburgo (abster-nos-emos de discutir aqui a qua- lidade de cada uma delas), compare-se: Harvey 2001, 2003, 2005, 2006, 2014; Federici 2004; Sassen 2010; Arrighi 2004; Panitch e Gindin 2003; Cox 1983. A questão do im- perialismo é parte integrante das novas teorias críticas e tem uma longa história, desde Hobson e Lenin passando por Luxemburgo, Bukharin e Guevara, até Fanon.
12 Schmidt 2014.
13 Uma nova tradução foi publicada pela Verso em 2015, com Peter Hudis e Paul Le
Blanc como editores.
14 Veja-se Dunayevskaya 1981, p. 48. Dunayevskaya enfatiza que os editores “des-
cartaram” o subtítulo do livro (Uma Contribuição para uma Explicação Económica do Imperialismo) e a introdução de Rosa Luxemburgo, na qual ela explicou o seu método científico e a sua conexão com a prática. Outras partes do texto original foram, também, omitidas, particularmente o notório episódio com o imaginário “Nikolayon” criado, descartando-se o hífen no nome “Nikolaj-on” (Nikolai Daniel- son). O erro foi corrigido pela Verso em 2015. Deve-se observar que a edição jugos- lava de 1955, publicada por Belgrade Kultura e traduzida por Milan Gavri , supera em muito a qualidade da tradução de Schwarzschild.
Embora A Acumulação do Capital tenha recebido fortes críti- cas após a sua publicação, por elementos oportunistas-reformistas e revisionistas do SPD, bem como pelos marxistas ortodoxos lide- rados por Karl Kautsky, não foi apenas o seu trabalho que foi cri- ticado como sendo ostensivamente suspeito no seu marxismo. Tais críticos usavam, com frequência, argumentos psicológicos de baixo nível, conservadores e naturalizantes, com o objetivo de minar a credibilidade do trabalho de Luxemburgo e expô-lo como inepto e insuficientemente familiarizado com os textos marxistas. Um bom exemplo deste tipo de crítica proveio de Werner Sombart, que afirmou no seu Der Proletarische Sozialismus:
Os socialistas mais furiosos são aqueles que estão sobrecarre- gados com o ressentimento mais forte. Isso é típico: a alma san- guinária e venenosa de Rosa Luxemburgo foi sobrecarregada com um ressentimento quádruplo: como mulher, como estran- geira, como judia e como aleijada.15
Mesmo no interior do Partido Comunista Alemão, ela foi apeli- dada de “a sífilis do Comintern”, e Weber “avaliou” Rosa Luxem- burgo como alguém que “[pertence] a um zoológico”16. Dunayevskaya
escreve:
O chauvinismo machista virulento permeou todo o partido, in- cluindo August Bebel, autor de Woman and Socialism — que criara um mito sobre si mesmo como um verdadeiro feminista — e Karl Kautsky, o principal teórico de toda a Internacional.17
As análises social e de género de Dunayevskaya também citam parte de uma carta na qual Victor Adler escreve a August Bebel sobre o tema de Luxemburgo:
A cadela venenosa ainda causará muitos danos, ainda mais por- que ela é tão esperta quanto um macaco [blitzgescheit] en- quanto, por outro lado, o seu sentido de responsabilidade está totalmente ausente e a sua única motivação é um desejo quase quase omnipresente de autojustificação.18
15 Citado em Bulaji 1954, p. VIII. 16 Citado em Thomas 2006, p. 154. 17 Dunayevskaya 1981, p. 27. 18 Ibid.
Em questão estava, evidentemente, um certo tipo de tática política conservadora que consistia em atacar mulheres proemi- nentes, que, neste caso, incluiu uma séria desvalorização do tra- balho de Rosa Luxemburgo baseado na biologia — o facto de ela ser uma mulher. Embora este aspeto importante da história social e de género não seja mais discutido aqui, a sua omnipresença pre- cisa de ser considerada quando se discutem as críticas teóricas e as numerosas críticas quase teóricas de A Acumulação do Capital e da experiência de Luxemburgo como uma mulher teórica, pro- fessora e revolucionária.
Tendo em mente que os textos que abordam a dimensão femi- nista da teoria de Luxemburgo são poucos e distantes entre si, 19
aqui tentaremos dar uma contribuição para o feminismo de Rosa Luxemburgo ou para o chamado “feminismo luxemburguiano”.
Se são raras as análises feministas das obras de Luxemburgo em geral, mais raros são os comprometimentos feministas com o seu A Acumulação do Capital.20 Se há algum interesse na inter-
pretação feminista do trabalho de Luxemburgo, este é, geral- mente, determinado pela sua vida pessoal e, ocasionalmente, pela sua teoria. O facto de Rosa Luxemburgo não ter escrito muito sobre o tema da “questão da mulher” contribuiu certamente para o facto de o tema da maioria das interpretações do seu feminismo estar associado a episódios da sua vida e intimidade. Estes são, naturalmente, assuntos muito importantes, particularmente tendo em consideração que os estudos históricos têm tradicional- mente evitado as mulheres e as suas experiências; no entanto, aqui estamos com o objetivo de afastar esse tipo de interpretação,
19 Outras “complicações” são adicionadas porque tais análises existem, como a que
foi desenvolvida por Hannah Arendt, mas não se realizam dentro da tradição mar- xista. A sua interpretação é focada principalmente na vida pessoal de Rosa Lu- xemburgo, retratando uma mulher que encontra uma série de barreiras sexistas na camada superior do partido. Mesmo se concordássemos com a afirmação indis- cutível de Arendt de que a vida de Luxemburgo, como mulher, no mundo mas cu- lino da política era extremamente difícil (uma afirmação que está de acordo com nossas observações introdutórias a este artigo), ainda estamos diante da questio- nável conclusão metodológica de Arendt, sugerindo que Luxemburgo não deveria ser interpretada na tradição marxista e que até se pode “duvidar que ela fosse marxista”. Veja-se Arendt 1968, p. 38.
a fim de contribuir para um feminismo de reprodução social ba- seado na crítica da economia política de Luxemburgo.
O que podem alguns textos e discursos escritos de Rosa Lu- xemburgo que abordam a “questão da mulher” dizer-nos sobre o seu feminismo? Podemos utilizar estes trabalhos para identificar pontos de entrada discursivos que podem ser usados para esta- belecer uma conexão com a sua crítica da economia política? Na secção seguinte, tentaremos identificar a posição subjacente de Luxemburgo vis-à-vis à chamada “questão da mulher”, para po- dermos passar para a segunda parte do artigo, onde estabelece- remos uma conexão com as suas teses sobre a acumulação de capital e o papel da espacialidade não capitalista, em processos de multinível de reprodução social.