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Chapitre 5. Finalités

C. Le blog de village comme point d’ancrage social du réseau internet

tiating (trans) gender expressions in leisure spaces”. Leisure/Loisir, v. 35, n. 2, p. 115-132.

Introdução

Enquanto derrubava o enorme e gasto saco cheio de lenha em frente à fornalha incandescente, Stephen virou-se para a sua filha de três anos e disse: “Afasta-te, Mimi; Não quero que te queimes quando eu abrir isto”, ao que ela respondeu em alto e bom som: “Não me chames Mimi! O meu nome é Robin e eu sou um me-

nino!” Embora não fosse a primeira vez que pedia para ser cha-

mada de “Robin” naquela semana, era, no entanto, a primeira vez que ela se referia a si própria no masculino. Com um sorriso no seu rosto, Stephen voltou-se para ela e disse na sua melhor voz

1 Tradução a partir do inglês por a) Simone Rechia ([email protected]), Professora da

Universidade Federal do Paraná (UFPR). É Diretora do Grupo de Estudos e Pes- quisa em Lazer, Espaço e Cidade (GEPLEC) e investigadora e membro do Grupo de Estudos Género e Performance (GECE) do Centro de Línguas Literaturas e Cul- turas (CLLC) da Universidade de Aveiro; b) Brun Neca ([email protected]) e c) Rodrigo de França ([email protected]), Doutorandos em Educação, na linha de investigação “Linguagem, Corpo e Estética na Educação (Licores), do Programa de Pós-Graduação em Educação – PPGE, da Universidade Federal do Paraná – UFPR e membros e investigadores do GEPLEC.

7.

“Mas não é assim tão fácil”:

negociando expressões (trans)gé-

nero em espaços de lazer1

Stephen Lewis & Corey Johnson

de contar histórias para adormecer , “Ah, não! O que fez à minha preciosa menininha? Não sei o que faria sem a minha Mimi!” Ao invés das risadinhas que ele esperava provocar, Mimi rompeu em lágrimas e suplicou, “Mas eu sou um menino e tenho partes de menino!”. Duvidando sobre a “forma certa” de lidar com isto, Step- hen e a sua esposa decidiram que deveriam respeitar o pedido de “Robin”, e sentiram-se privilegiados pelas suas duas crianças mais novas estarem matriculadas numa pré-escola progressista, que adotava a mesma abordagem. Nas semanas seguintes, “Robin” foi excecionalmente seletiva na escolha das roupas e ado- tou um corte de cabelo bem curto para ficar como “os outros me- ninos da escola”. Durante este período relativamente breve, o filho mais novo foi a única pessoa que foi autorizada chamá-la “Mimi”, até ao dia em que “Robin” e “Mimi” começaram a alternar enquanto nomes preferidos, o que rapidamente se alterou para “eu sou só Mimi”. Mais tarde naquele ano, Stephen surpreendeu- se ao descobrir que o fascínio de Mimi pela performance de Robin foi inteiramente substituído por performances alternando entre Ariel, Jasmin, Bela, Cinderela e (por vezes) Branca de Neve. Em face disso, ele e a sua mulher realmente não sabiam como reagir! Três anos mais tarde, Stephen permanecia fascinado pela va- riedade, associada ao género, dos modos de vestir dos seus filhos, embora a maior parte das vezes isso fosse muito mais subtil e mais breve do que a personificação que Mimi fazia de Robin. É de notar que os seus filhos frequentemente se agarravam a noções dicotómicas culturalmente prescritas do que é ser homem ou mu- lher, especialmente porque Stephen e a sua esposa haviam feito um esforço consciente para tentar “desgenerificar” o seu modo de falar e agir acerca das cores, atividades de lazer e comportamen- tos pessoais. Como autores, sentimo-nos especialmente cientes deste esforço, por causa da dor e confusão que enfrentamos, pois como meninos frequentemente representávamos de modo inefi- ciente os nossos géneros masculinos. Há muita semelhança entre os registos de Corey sobre as suas tentativas falhadas de mascu- linidade (Johnson, 2009, no prelo; Johnson & Samdahl, 2005) e o relato de Stephen, ao escrever:

Quando criança, eu era frequentemente considerado “o mari- cas”, tanto em afirmações explícitas quanto, mais implicita- mente, em insinuações de colegas, treinadores, primos e até mesmo, às vezes, de professores e pais. Eu era desajeitado, fal- tava-me habilidade atlética, então, eu evitava as atividades desportivas e, geralmente, ficava no banco quando tentava es- quivar-me a qualquer tentativa de participação. Era muito mais fácil encontrarem-me a saltar à corda ou à macaca, ou a praticar, apaixonadamente, piano, a cantar no coro da igreja ou a fazer testes para cada peça e musical da escola e da igreja que estivessem disponíveis para mim. Quando entrei na ado- lescência, o rótulo de “maricas” foi substituído pela minha in- serção no “discurso da bicha” (Pascoe, 2005). Durante a minha infância, não me identifiquei nem como mulher nem como ho- mossexual, não obstante, fui socialmente masculinizado e ho- mossexualizado. Infelizmente, faltava-me a compleição pessoal e o apoio para lidar completamente com isso, o que me levou a rejeitar a maioria das atividades de que eu gostava e nas quais me destacava. Só muitos anos depois eu pude sentir-me confor- tável o suficiente na minha própria pele para lidar com o con- junto de estereótipos, contradições e ambiguidades que fazem parte do homem no qual continuo a tornar-me.

Autonarrativas como esta inspiraram-nos a começar a pensar e a explorar as consequências sociais resultantes da não-confor- midade de género nos espaços de brincadeiras, recreação e lazer, com maior intencionalidade na escrita, em busca de justiça social (Johnson, 2009). Embora tenhamos pessoalmente experimentado alguns modos de generificação e classificação social, racial e se- xual do espaço (Green & Singleton, 2006; Scraton & Watson, 1998; Skeggs, 1997), compreendemos que as intersecções de pri- vilégios também nos protegeram de muitas restrições espaciais que outras pessoas diariamente atravessam. Apesar do cresci- mento, nas últimas décadas, da atenção dada ao lazer, enquanto um espaço profundamente generificado que impõe diferentes sig- nificados, concessões e restrições para homens e mulheres (Green & Singleton, 2006), observámos a ausência de estudos sobre ne- gociação de espaços de lazer das pessoas que se identificam como transgéneros ou não-binários. Este silêncio é uma perigosa omis- são, considerando-se os altos índices de agressão contra os sujei- tos percebidos como transgressores das “relações normativas de

sexo/género” (Namaste, 2006, p. 585), especialmente porque o es- paço de lazer é uma “arena chave” para o risco com base no género (Green & Singleton, 2006). Portanto, o objetivo deste artigo é exa- minar a narrativa de uma pessoa trans para evidenciar tanto con- siderações práticas como implicações teóricas em relação à não-conformidade de género, diversidade de género, mudança so- cial e relações estabelecidas no espaço de lazer.

Contexto

Embora exemplos de diversidade de género fora da norma bi- nária heteronormativa estejam documentados em muitas cultu- ras ao longo da história, os estudiosos frequentemente trataram os “defeitos” biológicos ou os “desvios” na orientação sexual como o foco central, em vez de valorizar os sentimentos internos da identidade de género. Por mais de 200 anos, antropólogos e his- toriadores equipararam frequentemente as pessoas com variações de género sob o termo “hermafroditas” (agora são mais frequen- temente referidos como “intersexuais”) ou como detentoras de de- sejos sexuais atípicos (Girshick, 2008). Ainda na primeira metade do século XX, os transgéneros que se expressavam por meio de

cross-dressing eram tratados como uma “inversão”, inadequada-

mente tomada por uma orientação sexual específica, em vez de uma identidade de género (Stryker, 2006). Mesmo atualmente, após a ampla cobertura mediática da cirurgia de redesignação de sexo de Christine Jorgensen2 (ou possivelmente reforçados por

essa mesma cobertura), cientistas e académicos continuam a mas- carar construções sociais de género com constituições biológicas de sexo (Meyerowitz, 2002). Esta abordagem ambígua dos estudos transgénero está perfeitamente articulada na afirmação seguinte:

Não existe tal coisa como rutura completa, uma totalmente nova e revolucionária articulação que nos libertará de todos os grilhões do sexo/género. Mesmo quando a transexualidade de- safia as bases do género, aparece o discurso criado por sexolo-

2 Em 1952, o caso de Jorgensen ficou conhecido como o primeiro caso público de cirur-

gia de redesignação de sexo, com Jorgensen em transição de uma persona homem masculino militar para uma mulher heterossexual feminina (Vidal-Ortiz, 2008).

gistas em torno do sexo. Podemos compreender a natureza da máquina que inscreve em nós quem nós somos, mas não pode- mos escapar dela. (Nakamura,1997, p. 84)

Além disso, o desenvolvimento dos estudos transgénero tam- bém se complica pela entrada e saída de moda de múltiplos ter- mos, que se modificam em relação às noções de diversidade de género (Burdge, 2007) e deixam muitos estudiosos receosos ao pisar num novo território. Na próxima secção, ofereceremos uma terminologia que nos poderá ajudar a ter uma conversa mais con- fortável em relação a sexo, género, identidade sexual e identidade de género. Entretanto, devido à dimensão fluida e política dos usos internos/externos, é de suma importância respeitar as pre- ferências das pessoas em vez de assumir qualquer definição es- tática, “oficial” (Burdge).