Estudar as práticas científicas nas recentes correntes teóricas dos Estudos Sociais da Ciência e da Tecnologia significa dirigir a análise para as formas de interpretação e para os aspectos relacionais e situados das práticas dentro do laboratório. Quando falamos em “formas de interpretação”, estamos desconsiderando a ciência como um empreendimento unitário no qual as mesmas estruturas e normas funcionam universalmente para todas as disciplinas e domínios científicos, tratando a ciência e o saber dos peritos em sua dimensão cultural, o que significa considerá-los como territórios de “divisões culturais” nas quais habitam grupos de peritos, delimitados por conjunto de padrões e dinâmicas que estão em jogo na prática especializada e que variam de acordo com a disposição de cada expertise (KNORR-CETINA, 1999b). A autora vai insistir na desunião da ciência e do conhecimento e na necessidade de nos defrontarmos com essa separação, reconhecendo aquilo que chama de “culturas epistêmicas”. O epistêmico é aquilo que se relaciona com a verdade, a facticidade e a objetividade na ciência.
As culturas epistêmicas referem-se às maquinarias e estratégias para estabelecer verdades, o que envolve uma diversidade de artifícios e estratégias retóricas de persuasão por meio da comunicação:
As culturas epistêmicas são culturas da criação e da confirmação do conhecimento. São as culturas dos cenários de conhecimento: os padrões agregados e as dinâmicas que se exibem na prática dos peritos e que variam consoante os diferentes cenários de saberes de peritos (KNORR-CETINA, 1999b, p. 377).
Nesse sentido, as culturas epistêmicas referem-se ao conjunto de padrões e dinâmicas que estão em jogo na prática especializada e que variam de acordo com a disposição de cada expertise, caracterizando-se em termos dos objetos que estão sendo constituídos. Portanto, podem ser entendidas como a reunião dos arranjos e mecanismos interligados pela afinidade, necessidade e coincidência histórica, que em determinado domínio formam “como sabemos o que sabemos”.
Tomando como exemplo as ciências naturais para refletir sobre o aspecto cultural da ciência, Knorr-Cetina (1999a) argumenta que essas ciências – tidas como empreendimentos homogêneos – são constituídas, na realidade, como monopólios epistêmicos diversificados e independentes que adotam múltiplos procedimentos científicos e produzem uma sucessão variada de produtos, resultados e tipos de conhecimentos unificáveis. Na prática, as diferenças entre tais monopólios ocorrem por meio da diversidade de relações estabelecidas por essas culturas com seus objetos de estudo e instrumentos, pelo significado assumido pelo empírico e as relações sociais estabelecidas na atividade científica em um determinado campo (KNORR-CETINA, 1999a). As divisões são constituídas nos diferentes níveis da formação dos peritos, por meio das organizações de pesquisa, na seleção da carreira e nos sistemas de organização e classificação que diferenciam as várias disciplinas e domínios do conhecimento científico.
Toda cultura epistêmica guarda uma relação particular com a prática. Desse modo, as divisões se tornam visíveis quando olhamos para a ciência como uma prática ou experiência e comparamos os processos de conhecimento em diferentes domínios. Essas são práticas situadas, e não necessariamente equivalentes às metodologias dos manuais, podendo mudar conforme os contextos (WOUTERS; BEAULIEU, 2006).
Ao trazer esta perspectiva para analisar a circulação do conhecimento científico, por exemplo, os contrastes em relação aos pressupostos de que existe uma norma da comunicação pública da ciência praticada por todos se mostram visíveis. O enquadramento das práticas de comunicação na ciência em termos binários, isto é, entre um pesquisador (a origem) e uma coletividade abstrata (a comunidade científica), tem sido posto em discussão pelas correntes atuais dos ESCT, sobretudo pelas correntes que buscam revelar a complexidade das redes em que a ciência contemporânea se insere.
Knorr-Cetina (1999a) afirma que a comunicação está implicada em todas as dimensões do trabalho científico e, em particular, podemos identificar a sua relevância nos processos de formação de consenso, o que inclui as formas de circulação da informação por meio de um processo de interpretação e mecanismos de persuasão e negociação através da comunicação oral ou escrita, ou, de maneira latente, nas formas de retenção seletiva da informação. A comunicação não se reduz somente a uma relação entre duas partes (cientista e sua comunidade), mas está inserida em um conjunto de relações em que há diversos atores humanos com interesses e práticas diversos, e também não-humanos que inserem dinâmicas e propriedades específicas no espaço no qual a ciência é performada.
De acordo com Hilgartner (1997), nos regimes de comunicação da ciência, as formas de assegurar a exclusividade e prioridade da pesquisa passam por um processo dialético de revelação e ocultação dos resultados da pesquisa, em outras palavras, de abertura e fechamento de tais resultados, existindo compreensões diferentes entre os cientistas não somente sobre o que abrir, mas também como, quando e com quem abrir. Além disso, há também perspectivas diversificadas do que significa de fato abrir a pesquisa. Ocorrem também relações porosas e complementares entre as categorias “aberto” e “fechado”, de maneira que tais categorias frequentemente se misturam, mesclando em momentos determinados o total secretismo e o acesso aberto seletivo aos produtos e processos da ciência (HILGARTNER; BRANDT-RAUF, 1994; HILGARTNER, 2012, 1997).
Pensemos então os dados de pesquisa. Dificilmente poderemos afirmar que os dados tornadas abertos e públicos gerados em um desenvolvimento científico representam a totalidade do que poderia ser revelado e publicado. O mesmo pode ocorrer em relação a desenvolvimentos científicos supostamente secretos ou fechados.
Hilgartner (1997) propõe um modo de captar as formas de relacionamento dos cientistas com o compartilhamento de dados é utilizar uma perspectiva atenta aos “fluxos”
desses dados. A ideia de fluxo significa algo que pode escoar de um ponto a outro, pode ser “caudaloso”, “fino” ou pode ser interrompido por diferentes razões e em momentos variados. Nesse aspecto, a função de quem estuda essas práticas é tentar identificar as partes de um determinado fluxo e como elas são normalmente distribuídas, para quem, com quais condições e como as “porções” de dados são demarcadas. Dito de outro modo, buscamos identificar como os dados, geralmente entidades “reclusas” ou “discretas”, nas palavras do autor, são extraídos dos fluxos em constante evolução da produção científica e posteriormente inseridos em relações de intercâmbio e quais as relações estabelecidas em torno deles.
Considero que esse modo de olhar permite compreender e problematizar argumentos centrais que permeiam o movimento de Ciência Aberta, como avaliações otimistas sobre a abertura de resultados de pesquisa. Ainda que avaliações que olhem para os aspectos positivos sejam parcialmente corretas sobre os potenciais da Ciência Aberta, muitas vezes essas visões perdem a noção de questões cruciais sobre a complexidade dos processos envolvidos. Um dos problemas das visões triunfalistas é que muitas vezes acabam por reforçar uma percepção de que a ciência progride em bloco e funciona a partir de mecanismos universais homogêneos, ofuscando o caráter contextual das práticas científicas.
Algumas avaliações – como a ideia reiterada de que a abertura nos termos da Ciência Aberta se traduz em benefício para sociedade e, portanto, os cientistas devem disponibilizar os resultados de pesquisa abertamente, muitas vezes a qualquer custo – parecem desconsiderar que os aspectos individuais dos pesquisadores, as amarras sociais, técnicas e organizacionais frequentemente sobrepujam o que supostamente é de interesse da sociedade (FRIESIKI et al, 2015). É importante também ponderar que a decisão por abrir a pesquisa pode ocorrer por motivações nem sempre altruístas ou de interesse coletivo, assumindo um caráter instrumental/utilitarista e circunstancial para o pesquisador (LEVIN et al, 2016).
Acerca disso, Hilgartner (1999, p. 31), em uma interlocução com Knorr-Cetina, complementa:
Cada campo científico tem suas próprias convenções sobre o que constitui um documento publicável e o que constitui um resultado interessante. Dentro de comunidades particulares de pesquisadores, essas convenções podem ser claramente compreendidas e, de fato, parecem óbvias para os participantes. No entanto, as convenções não são idênticas em todos os campos nem são totalmente estáveis. Para fornecer informações gerais sobre como os dados são compartilhados ou, de outro modo, trocados entre cientistas, não se pode simplesmente assumir que as convenções de uma única comunidade de pesquisa constituem a única maneira de conduzir a ciência; Em vez disso, as convenções de diferentes comunidades de pesquisa se tornam fenômenos para os analistas sociais explicarem.
Algo que reforça essas afirmações é que mesmo diante da proliferação de manifestos e políticas voltadas para a Ciência Aberta (e o tom muitas vezes apologético de seus entusiastas), as avaliações têm mostrado que os pesquisadores não aderem facilmente e na proporção desejada às propostas de abrir os resultados nos termos do movimento44.
Não é intenção da tese adentrar somente motivações dos pesquisadores em disponibilizar os resultados de pesquisa, até porque as razões que levam a esse cenário são bastante variadas. Mesmo as afirmações recorrentes de que a aceitação das diferentes formas de abertura (como as publicações de artigos acesso aberto) passa por reformulações do sistema de incentivos, recompensa e pela capacidade desse modelo de oferecer reputação, prestígio e capital simbólico não parecem dar conta da complexidade e da multiplicidade de relações que se estabelecem em torno das formas de circulação do conhecimento científico (DELFANTI; PITRELLI, 2015; CAULFIELD et al, 2012).
Portanto, em vez de ter um significado “incontestável”, os indivíduos diferem na maneira como interpretam a norma de abertura dos resultados de pesquisa e sobre os melhores procedimentos e formas de praticá-la. Assim, as escolhas sobre o que, como, quando e para quem tornar a pesquisa aberta é uma questão altamente situada (DASTON, 1995; LEVIN; LEONELLI, 2016).
Alguns autores dos ESCT têm se dedicado a compreender e teorizar sobre as práticas contemporâneas de compartilhamento na ciência. Esses estudos sugerem que a forma como os cientistas se relacionam com a abertura ou o compartilhamento dos seus resultados vai depender dos objetivos, preferências, restrições, configurações institucionais, dos aspectos econômicos envolvidos nos custos de manutenção de infraestruturas técnicas, da existência ou
não de incentivos para compartilhar os resultados, da incerteza em relação à confiabilidade das contribuições produzidas por colegas e interesses incongruentes, normas, conceitos, padrões tecnológicos, ou mesmo formas e níveis de conhecimento entre participantes de uma comunidade (LEVIN; LEONELLI, 2016; MILLERAND, 2011, 2012; HINE, 2006; EDWARDS et al, 2011; HILGARTNER; BRANDT-RAUF, 1994; LEONELLI, 2016; BEAULIEU, 2001; BRUYNINCKX, 2015; DASTON, 1995)45.
Sem deixar de lado tendências otimistas, inclusive porque essas abordagens otimistas também “fazem” a Ciência Aberta como fenômeno (WOUTERS; BEAULIEU, 2006), outros significados precisam ser analisados, inclusive reconhecimento a Ciência Aberta, como vários outros movimentos com propostas semelhantes, trilha seu caminho com muitas contradições (DELFANTI; PITRELLI, 2015; CAULFIELD et al, 2012).