Na segunda visita ao NeuroMat, reparei que a lousa da sala onde ficavam alguns membros da equipe técnica havia uma frase na forma de uma pergunta “Como disponibilizar
o conhecimento para todos?”
Aquela frase ali, já meio apagada, era o resquício de uma reunião ocorrida dias antes, na qual a equipe havia discutido a estratégia de Ciência Aberta do centro, explicou, um tempo depois, um dos membros da equipe. A pergunta dava margem a várias respostas. Fiquei curioso em saber quais teriam sido as respostas das pessoas que participado da reunião e se haviam chegado a alguma solução para aquele questionamento.
Ao colocar essa pergunta para um dos técnicos, ele disse que uma das “respostas” que chegaram era que eles deveriam “espalhar” os princípios de Ciência Aberta e que “era
necessário disponibilizar a produção interna o mais rápido possível” com a utilização de
licenças Creative Commons (CC). Seriam produzidos também vídeos tutoriais para explicar o funcionamento das licenças e um outro explicando a importância da Ciência Aberta. Ele aproveitou para mostrar um vídeo, ainda em processo de produção, com depoimentos dos principais pesquisadores e alguns membros da equipe técnica para fins de divulgação do centro. Enquanto falava do vídeo, o técnico relatava que o grupo tinha decidido que todos os vídeos e outros materiais produzidos seriam disponibilizados em CC como forma de assumir o comprometimento de todos ali com o compartilhamento aberto.
Não se pode deixar de mencionar que, no contexto do NeuroMat, atribui-se um grande valor à utilização de licenças Creative Commons para a disponibilização de alguns materiais em acesso aberto, como o conteúdo do site, relatórios de atividades, apresentações, tutoriais, artigos científicos, vídeos, imagens e códigos.
A importância atribuída ao licenciamento dos conteúdos em Creative Commons como parte da iniciativa de Ciência Aberta ficou evidente quando o coordenador apontou em diversos momentos de nossas conversas, com certo tom de orgulho, que o site do centro de pesquisa era o “único dos CEPIDs que estava disponibilizado em Creative Commons”81.
81 O site está disponibilizado com em licença Copyleft Creative Commons (CC BY 4.0), que permite copiar e redistribuir o material em qualquer meio e formato e permite adaptar e construir sobre o material para qualquer formato, mesmo que comercialmente. As licenças Creative Commons são instrumentos importantes no debate sobre abertura e “cultura livre” e estão bastante vinculadas à ideia de reutilização/remixagem de
O site82 possui um papel significativo na produção e no entendimento da Ciência Aberta nesse espaço83. A atualização do site ocorre com bastante frequência com divulgação de eventos, publicação dos relatórios de atividades, relatos da participação dos pesquisadores em encontros acadêmicos, divulgação de publicações científicas e links para alguns dos projetos, apresentações, tutoriais e notícias. O site passou a registrar as atividades de forma detalhada, produzindo conteúdos extensos como newsletter, entrevistas e resumos dos eventos.
A produção científica do centro, majoritariamente composta por artigos de periódicos e papers em conferências, é divulgada de maneira sistemática no site e no Facebook, frequentemente acompanhados do link, abstract, um breve comentário sobre o conteúdo do artigo e breve perfil dos autores. Entretanto, B1 explicou que o foco das ações não era o acesso aberto aos artigos científicos, embora existisse interesse de alguns pesquisadores em criar um repositório em que todas as publicações estejam reunidas. Assim, os esforços se direcionavam para a disponibilização do que estava “à mão” ou disponibilizar conteúdos que não demandam negociações mais complexas, como slides utilizados em apresentações, mesmo porque muitos artigos publicados pelos pesquisadores já estão em acesso aberto.
A disponibilização dos slides utilizados em apresentações passo a ser tratada como uma parte importante da disponibilização de conteúdo, representando um processo de documentação das atividades. Durante os eventos internos, o coordenador muitas vezes assumia a função de pedir autorização aos palestrantes ou lembrá-los de disponibilizarem os
slides para serem disponibilizados no site, segundo ele porque os arquivos das apresentações
eram “úteis para outros pesquisadores e professores”.
O tema dos direitos autorais é uma das questões que frequentemente emergia das discussões sobre disponibilização e produção de conteúdo. O copyright é tratado pela equipe de difusão em vários momentos como um obstáculo ou um problema para a produção de materiais, especialmente quando envolve a reutilização de conteúdos produzidos por terceiros. Durante as discussões sobre a produção e disponibilização de materiais educacionais, muitas conteúdo. Em busca realizada nos sites dos outros 16 CEPIDS, verificou-se que além do NeuroMat, havia mais dois sites estavam centros de pesquisa também licenciados com CC.
82 Cf. F6
83 Os sites mantidos pela equipe têm um papel importante nas atividades do centro, funcionando como uma das principais vias de transferência e difusão de informação. Foram criados alguns portais com a função de disponibilizar informações para diferentes públicos como o site da iniciativa ABRAÇO e AMPARO e um blog da equipe de difusão científica.
vezes os sujeitos recaíam no dilema dos direitos autores sobre determinados conteúdos. Cada vez que alguém propunha alguma atividade utilizando imagens ou vídeos produzidos por terceiros, outra pessoa chamava a atenção para a questão de violação dos direitos autorais. Isso pode ser ilustrado quando o coordenador relatou, durante uma reunião com a equipe de difusão, que uma das alunas de doutorado “fez um sucesso estrondoso (sic) em uma
apresentação para professores e estudantes sobre matemática e neurobiologia” em uma
atividade realizada em uma escola de ensino básico e, por conta disso, ele recomendava que os slides da aluna fossem disponibilizados no site de maneira que pudessem ser utilizados por outros interessados.
Naquele momento, sua empolgação deu lugar a uma expressão de frustração quando B1 informou que não era possível disponibilizar as apresentações, pois as “imagens
usadas pela aluna não estavam abertas” e isso poderia gerar problemas com direitos autorais.
A preocupação com a autoria é algo que permeia também a produção de software, que é uma das principais atividades do centro e possui algumas dinâmicas e questões próprias. Uma delas diz respeito aos direitos autorais na produção do código. O desenvolvedor B2 trouxe algumas vezes esse aspecto. A apropriação do código por outros programadores é algo recorrente entre quem trabalha com desenvolvimento de software e banco de dados. “Em
alguns casos, o desenvolvedor copia o código de alguém e não se sabe onde ele pegou o código ou qual licença ele utilizou”. Em outro momento B2 explicou que com essa prática: “Pode-se incorrer contra os direitos autorais, em violação dos direitos autorais”. Perguntei
como ele lidava com essas questões no cotidiano do trabalho no NeuroMat e ele enfatizou que
“O NeuroMat tem a prática de não copiar o código alheio e por isso se passou a ter uma grande preocupação com os aspectos jurídicos e até se consultou um advogado”.
B2 demonstrava bastante familiaridade com as ferramentas de licenciamento livre, de maneira que em suas formulações sobre seu trabalho de desenvolvimento, ele descrevia o processo de escolha das licenças, ressaltando a importância desses instrumentos para as atividades de desenvolvimento dos sistemas. Mas, como ele mesmo afirmou, sua preocupação com as licenças livres devia-se ao seu trabalho no NeuroMat: “em anos trabalhando com TI
nunca atentei muito para essa coisa de licenças nos sites. Passei a entender o significado das licenças livres, no sentido do simbolismo que têm, com a equipe do CEPID, com A13 e B1”.
Em sua maioria, os profissionais que integram a equipe técnica assumem papéis essenciais na implementação e circulação dos instrumentos e conhecimentos sobre Ciência Aberta e estão familiarizados, ou diretamente envolvidos, com temas relacionados. Por essa razão, eles também são treinados dentro de uma abordagem que busca desenvolver habilidades necessárias para implementar as iniciativas de Ciência Aberta do NeuroMat de uma forma mais ampla.
Alguns dos principais membros da equipe técnica têm um histórico de atuação com projetos de conhecimento aberto anterior ao trabalho no centro. Esta “expertise” os torna atores fundamentais não somente para a forma como determinados temas são inseridos na agenda de atividades do centro como também os autoriza a treinar os outros membros da equipe técnica e pesquisadores acerca desses temas. Um desses profissionais é o cientista social B1, que possui um histórico como membro do grupo de editores da Wikipédia, e atua promovendo a ferramenta em diferentes espaços. Ele é responsável por operacionalizar uma série de atividades do gênero dentro do centro e, muitas vezes, assume a liderança na condução de projetos que envolvem difusão científica e projetos de extensão. Ele, inclusive, possui uma interlocução direta com os pesquisadores, e por meio disso ele envolve muitos deles nas atividades que envolvem o assunto.
Parte do trabalho de convencimento e também de operacionalização das atividades em torno da estratégia de Ciência Aberta é exercida pelos cientistas da computação e desenvolvedores. Nota-se que o papel assumido pelos indivíduos dessas áreas de “espalhar
os princípios de Ciência Aberta” relaciona-se ao fato de que esse grupo está inteirado de
alguma maneira acerca dos principais conceitos de Ciência Aberta, sobretudo na sua interface com o movimento de Software Livre e de Código Aberto.
Os cientistas da computação detêm conhecimentos e técnicas específicos da modelagem computacional e normalmente estão familiarizados com o movimento FLOSS, com ferramentas de código aberto, licenças abertas, entre outros. Por essa razão, aparecem também como responsáveis por operacionalizar as iniciativas de Ciência Aberta do centro. Os cientistas da computação atuam sobretudo na circulação de conceitos, disponibilização de ferramentas e oferecimento de oficinas e palestras, além de explorarem esses conceitos no
Torna-se central nesse processo da operacionalização da iniciativa de Ciência Aberta a proximidade do NeuroMat com pesquisadores ligados ao Centro de Competência em Software Livre (CCSL)84. Essa proximidade é também física, já que os prédios dos dois centros se encontram lado a lado. A colaboração entre os dois centros ocorre por meio do treinamento oferecido pelo CCSL para os desenvolvedores e no desenvolvimento das ferramentas computacionais. Alguns pesquisadores do CCSL também participavam dos workshops por meio de oficinas em que algumas ferramentas que auxiliem na disponibilização de conteúdo, como licenças e bases de dados de acesso aberto.