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Os meninos sempre demonstravam grande interesse no fazer coisas. Desde a minha observação na escola tinha visto o quanto as crianças se interessavam em saber fazer coisas. Elas perguntavam como eram feitas algumas coisas e, sempre que sabiam fazer algo, gostavam de falar. Quando nos sentamos para construir nossas atividades só no segundo semestre trouxeram essa demanda de aprender a fazer coisas.

Nossa primeira produção foi de bicudas21, busquei algo que pudesse ser aprendido por ele com outras crianças ensinando e que já tivessem demostrado interesse. As pipas, ou as arraias sempre surgiam como assunto. Escolhi, então, para a atividade passar um dos vídeos da série do Territórios do Brincar que mostra os brinquedos e as brincadeiras das crianças e elas ensinando como reproduzi-las. O vídeo escolhido era feito com crianças de Acupe -BA ensinando a fazer bicudas, pipas de papel sulfite. Assistimos ao vídeo uma vez inteiro e depois seguimos vendo e parando a cada etapa para fazer nossas bicudas. Todo mundo concentrado em suas produções e quando um tinha muita dificuldade para alguma das etapas pedia ajuda ao outro para que pudéssemos seguir para a próxima etapa. Depois de pronto eles propuseram que a gente fosse para fora, na ladeira, para soltá-las. Enquanto eu buscava solucionar o problema de não ter um rolo de linha para cada um, eles pegaram gravetos que encontraram para enrolar parte da linha e assim dividiram os rolos. A primeira bicuda que subiu teve euforia geral e subiam e desciam ladeira pra fazê-las subirem.

Acharam muito bom fazer as bicudas e falaram que seria muito bom aprender a fazer arraias, espécie de pipa em formato retangular bastante comum entre os meninos do Alto das 21https://territoriodobrincar.com.br/videos/bicudas/

Pombas. Na atividade de passeio pelo bairro eles já tinham mostrado a casa do “Coroa da Arraia”, onde compravam as suas normalmente. Propus que a gente fosse conversar com o “Coroa da Arraia” para que ele nos ensinasse a fazer o tipo de pipa, eles gostaram muito da ideia e no mesmo dia fomos até a casa dele fazer o pedido. Foi após o período da atividade e Alceu, Bule Bule, Lumumba e Didi me acompanharam. O Coroa, que agora sabíamos que se chamava Edvaldo, aceitou o convite, me passou a lista de materiais que precisaria e combinamos a data da oficina. No dia da oficina, primeiro começamos com uma conversa com o Edvaldo que foi acompanhado de sua esposa, os dois tinham nos recebido no dia que fomos fazer o convite. Ele contou um pouco de sua história de vida e Didi, perguntou como ele tinha começado a fazer arraias. Ele contou que seu irmão mais velho fazia arraias, ensinou o pai dele e depois ele começou a fazer, virando um negócio de família. Depois aproveitou o momento para falar para os meninos sobre os perigos de usar linha chilena, uma linha com capacidade cortante muito grande e que muitas pessoas estavam procurando, mas que era muito perigosa.

Os meninos pareciam bem inteirados sobre os perigos daquela linha e falaram que preferiam usar cerol e foram alertados para o cuidado com a utilização do mesmo. Os meninos contribuíram contando história de acidentes com a linha chilena que tinham visto na televisão ou incidentes que ocorreram com eles mesmo com a utilização de cerol. Seguimos para a produção das arraias, cortando os papeis de seda no tamanho certo. Tudo era acompanhado com muita atenção pelos meninos e o Edvaldo tinha bastante paciência fazendo questão de que os meninos botassem a mão em todo o processo. A produção das arraias durou duas atividades, uma com a presença de Edvaldo e outra sem ele, mas já com tudo cortado, só faltando colar algumas e fazer as rabadas ou rabiola, que ele ensinou como eram feitas para que pudéssemos seguir sem ele. No dia da continuidade da montagem das arraias sem ele, os meninos tomaram a frente das produções solucionando as dúvidas como podíamos. Todos saíram com suas arraias prontas. Com as arraias não tivemos o momento de soltar juntos, o tempo estava chuvoso, mas eles deram notícias sobre elas na atividade posterior e todos não tinham mais as arraias por motivos diversos: perdida no ar, rasgada antes de empinar, tomada por algum familiar ou tinha esquecido ali no espaço mesmo. Mas a sensação de que sabiam fazer as arraias permanecia, então nenhum achou um grande problema não ter mais aquelas arraias. Ailton Krenak em entrevista no ano de 1989 problematizou o que é considerado educação em determinado contexto, tratando sobre o papel e posição

hierarquicamente superior que a leitura e escrita tem em na nossa sociedade comparando com a que tem para os Krenak, diz:

Para mim e para meu povo, ler e escrever é uma técnica, da mesma maneira que alguém pode aprender a dirigir um carro ou a operar uma máquina. Então a gente opera essas coisas, mas nós damos a elas a exata dimensão que têm. Escrever e ler para mim não é uma virtude maior do que andar, nadar, subir em árvores, correr, caçar, fazer um balaio, um arco, uma flecha ou uma canoa. (KRENAK, 1989)

As crianças dentro das vivências que tivemos em conjunto também demostraram a importância do saber fazer, salientando que esse era um tipo de saber que gostariam de vivenciar no espaço educativo.

Nas nossas últimas atividades trouxe a proposta de que registrassem em um pequeno livreto feito artesanalmente sobre os momentos que tinham sido importantes para eles durante nossos encontros, um diário onde podiam registrar momentos que marcaram durante nossos encontros, dentre a diversidade dos registros todos escolheram registrar a experiência com a as arraias.