Med Phys (2015) submitted
II. C Emission- and transmission-based AC methods
Abordo, aqui, conceitos que são caros ao desenvolvimento da pesquisa, entendendo que o objetivo é alinhavá-los a partir de uma das tessituras possíveis na estruturação das reflexões que se desdobram - para mim e por quem está lendo - tendo como centralidade suas articulações com a criança. As muitas possibilidades de abordagens não se encerram aqui, tarefa quase impossível frente a complexidade que representam.
O processo criativo vivido durante a pesquisa é alimentado, ademais, pelas autoras e autores que motivaram a escrita. A “aventura pensada” que é uma pesquisa acadêmica envolve pensar as bases e as formas de construção do nosso mundo, ou dos mundos que gostaríamos de contribuir na construção buscando uma escolha com coerência. Ela se dá principalmente na perspectiva de trazer às vistas autoras e autores que somam nas reflexões importantes e comprometidas politicamente com a construção de uma educação e um mundo liberto das várias violências. Assim, talvez com uma bibliografia peculiar e diversificada, sigo desenhando as reflexões que movimentaram a pesquisa.
A educação e culturas populares são termos que permeiam o trabalho e orbitam na centralidade que são os processos vividos junto às crianças do Alto das Pombas, fazem conexões com suas vozes e aprendizados despertados. O fundo para o contexto e desenvolvimento da pesquisa está pintado e colorido, com a luz e a sombra dos caminhos vividos por pesquisadora e junto ao campo. Ambos afetaram os caminhos da pesquisa.
No campo dos referenciais teóricos para tratar de educação e dos saberes mobilizados pelas culturas populares, me valho do campo da sociologia e da antropologia na área da infância6 e a abordagem multirreferencial como definida por Macedo (2004),
Portanto, a epistemologia multirreferncial abre-se à pluralidade das referências, à alteridade, ao multiculturalismo, às contradições, ao dinamismo semântico das práxis, às insuficiências e emergências, para não perder o homem e sua complexidade, anulados na deificação da norma científica lapidante. ( MACEDO, 2004, p.94)
6 Um histórico do percursos dessas áreas do conhecimento é apresentado no Anexo I da Tese de Adriana Friedmann, 2011.
Reconhecendo a pluralidade e heterogeneidade dos campos de saber e dos sujeitos que dele fazem parte. Nesse sentido, o pensamento decolonial, é outra importante base teórico- metodológica no desenvolvimento do trabalho. Sendo definido como um movimento de dimensões teórica, epistêmica, cultural, prática e política que busca a resistência frente à lógica da Modernidade/Colonialidade7. Composto por intelectuais de diferentes países das América Latina, de diversas áreas do conhecimento, o grupo entende que a colonialidade é constitutiva da modernidade (Mignolo,2005).
É pensamento que é base crítica para desconstruir uma epistemologia eurocêntrica, congregando a possibilidade de encaminhar questionamentos sobre a colonialidade do poder, do saber (Quijano, 2007) e do ser (Torres, 2007) empreendendo uma desobediência epistêmica (Mignolo, 2010) frente as mesmas.
Cabe salientar que colonialidade é diferente de colonialismo, apesar de serem termos que se relacionam. O colonialismo tem ligação com uma dominação político-econômica e que já é finda em formato tradicional, porém as estruturas subjetivas construídas pelo mesmo continuam ativas em nossas vivências e produções de conhecimentos. Como demarca Nelson Maldonado-Torres
Assim, apesar do colonialismo preceder a colonialidade, a colonialidade sobrevive ao colonialismo. Ela se mantém viva em textos didáticos, nos critérios para o bom trabalho acadêmico, na cultura, no sentido comum, na auto-imagem dos povos, nas aspirações dos sujeitos e em muitos outros aspectos de nossa experiência moderna. Neste sentido, respiramos a colonialidade na modernidade cotidianamente. (MALDONADO-TORRES, 2007, p. 131).
Houve uma invasão do território que ultrapassou as limitações físicas, se tornando também uma invasão aos sonhos, aos modos de ser e pertencer das pessoas afetadas pelo sistema colonial. Assim, todas as construções colocadas pelo invasor europeu foram entendidas como naturais e as demais - todas as aquelas que correspondem ao não-europeu - foram subalternizadas. Colocando, por exemplo, todo o conhecimento produzido pelos legados históricos africanos e indígenas como primitivos e irracionais. Como salienta Candau e Oliveira
Podemos afirmar, concordando com Mignolo (2003), que o discurso da história do pensamento europeu é, de um lado, a história da modernidade europeia e, de outro, a história silenciada da colonialidade europeia. Pois, enquanto a primeira é uma história de autoafirmação e de celebração dos sucessos intelectuais e epistêmicos, a segunda é uma história de negações e de rejeição de outras formas de racionalidade e história. (OLIVEIRA E CANDAU, 2010, p.22)
A colonialidade do ser, desumaniza o “outro”, inviabilizando a existência de seus 7 Para saber mais ver: Castro-Gómez Ramón Grosfoguel, 2007
conhecimentos, memórias, saberes, linguagens e cultura, dando invisibilidade ou tornando-os mero objetos. O uso do termo “outro” dentro do pensamento decolonial tem ligação com a construção de uma mudança na perspectiva, no modo de ver, de receber as lógicas, que não aquelas correspondentes as introjetadas pelo colonizador. Olhando-as como meio de transformar, emancipar, criar uma realidade e uma racionalidade outra possível, que não a eurocêntrica. Propondo que isso se dê por meio de uma troca de experiências, um intercâmbio dos saberes a partir de novos posicionamentos que não hierarquizantes. Somando esforços na criação da possibilidade de uma emancipação epistêmica, fortalecendo a coexistência como forma de garantir que a produção de conhecimentos possa ser reconhecida como mais plural e não subalternizando as formas de fazê-las a partir de uma ótica e lógica hierarquizantes e restrita.
Ressalto, ainda, que um engajamento com a decolonialidade significa não meramente desfazer as problemáticas trazidas pelo poder colonial e sim fomentar um ação de transgressão e de insurgência sobre o mesmo. Como nos coloca Walsh(2005) o decolonial exige um olhar para as lutas dos povos subalternizados para que possamos construir outras formas de viver, conhecer, saber e poder, ela é uma luta constante que se viabiliza a partir das pessoas que empreendem essas outras formas.
Neste trabalho busco juntamente reconhecer o papel das culturas populares como práticas de fruição de saberes que questionam, resistem e transformam as bases eurocêntricas impostas, correspondendo a uma lógica e forma de vida com ligações muito mais próximas às afro-ameríndia, ao mesmo tempo que reafirmo o protagonismo da criança, sujeitos subalternizados. Sendo assim, o pensamento decolonial se torna uma importante ferramenta para possibilitar que os conhecimentos, saberes e formas desses sujeitos tenham existência digna e suas lógicas possam frutificar novas perspectivas.