Photom´etricit´e 8.1 Introduction
CHAPITRE 8. PHOTOM´ETRICIT´E
Agora, a América nada mais é, para o mundo, do que os Estados Unidos: nós habitamos, no máximo, uma sub- -América, numa América de segunda classe de nublosa identificação.
GALEANO, Eduardo (1998): p. 12
A língua portuguesa ali falada dificulta a percepção de estarmos no con- tinente americano quando nos movemos no Brasil. Iludidos pela usurpa- ção pelo norte do continente da nomeação de americanos não reparamos suficientemente no facto de estarmos num continente Latino, na
América do Sul, espaço habitado por uma diversidade de povos com per- sonalidade própria, com uma história precisa e diversificada. A plurali- dade de nações existentes consentem uma observação englobante, quer pelo passado comum de delapidação do seu património e destruição de grande parte das culturas nativas pelos invasores europeus quer pela resistência persistente contra as prepotências coloniais e contra e explo- ração imperialista de matérias primas.
Este sentido continental, cada vez mais presente no panorama político mundial, é evocado aqui para tornar evidente o reconhecimento que uma observação mais cuidada e um estudo mais intenso da arte deste conti- nente permite distinguir: a presença da crítica, do humor e mesmo da ironia perante o que muitas vezes se tomava como modelo da moderni- dade europeia ou norte-americana. Em Borges, na literatura de Gabriel García Márquez ou de Mário de Andrade, no movimento antropofágico e no tropicalismo, na música genial de Villa-Lobos e de Caetano não fal- tam exemplos dessa arte de gerar uma actividade criativa que marca o local de onde emana, afirma a sua actualidade e seu sentido universal e, em simultâneo, glosa com ironia a modernidade Ocidental, que aprecia, incorpora e usa a seu bel-prazer.
O reconhecimento dessa ironia criativa pelo Ocidente não é suficiente para romper o egocentrismo desmedido com que nele sempre se apre- ciaram as artes que lhe eram externas e que remetiam, por tradição, para um capítulo lateral na história da arte.
O ruído espalhafatoso dos grandes acontecimentos artísticos que se rea- lizam maciçamente pelo mundo e o cruzamento de presenças de todo o lado em todo o lado, se confundem a visão descrita, pouco lhe alteram o sentido, apenas pretendem o alargamento do mercado da arte, ainda que suscitem contaminações incontroláveis.
O resultado da produção do vídeo é sem dúvida uma con- quista extremamente impor- tante e que deve desencadear novas perspectivas, considero que os ajustes técnicos virão com o desenvolvimento da prática e com o exercício do olhar crítico no processo de produção.
SILVA, Delma, CCLF, Identidades/Brasil, 2005
O contacto que adquiri com a arte do Brasil e de África argumentam a esperança no poder intrínseco dos seus artistas para a perturbação do mundo da arte.
LEITURA 6 . A BELEZA
Nada tem a ver, diremos, com uma construção mental. A paisagem tem as propriedades da eternidade da natureza, um “sempre já lá”, anterior ao homem e, sem dúvida, pos- terior a ele. Numa palavra a paisagem é a substância.
CAUQUELIN, Anne (2008): p. 30
Precisamos saber afastar as inibições culturais que transportamos, for- madas no estudo erudito da arte, no afastamento crítico do naturalismo, no horror às banalizadas imagens românticas da paisagem e aos olhares embebecidos do turista, para nos abrirmos para a contemplação simples da natureza que se nos apresenta na sua completude. O crescimento sel- vagem da vegetação rasteira, dos cactos e das árvores que resistem à falta de água e ao intenso calor, o horizonte que se alarga, as cores dis- tintas desta geografia, o céu que irradia um azul inimitável, nuvens dese- nhadas e noite de estrelas luminosas. Os precisos segundos em que o sol se inclina e nos irradia com seus ultra-violetas, entre as nuvens escu- ras de trovoada anunciada, esses, destroem todas as inibições culturais e apelam para um silêncio que dá a cada um de nós a capacidade plena de saborear a emoção que a beleza nos oferece.
LEITURA 7 . ANTROPOFAGIA
Nunca fomos catequizados. Fizemos foi Carnaval. O índio vestido de Senador do Império. Fingindo de Pitt. Ou figu- rando nas óperas de Alencar cheio de bons sentimentos portugueses.
manifesto antropofágico, 1922. in http://www.puc-campinas.edu.br /centros/clc/jornalismo/projetosweb/2003/Semanade22/mani festo.htm
A partir da tese de mestrado que defendi e do estudo que me acompa- nha das artes brasileiras tornou-se mais evidente a importância do movi- mento antropofágico. Não se trata apenas de um estudo teórico de entendimento de um importante movimento do modernismo mundial,
a grande essência do Identidades é essa, a busca de uma singularidade no colectivo, isso fascinou-me muito.
GRANJO, Joana, Porto/Identidades, 2006
registado no início do século XX no Brasil, mas do aproveitamento desse estudo para a compreensão das possibilidades que o contacto com expe- riências externas ao nosso lugar fornecem para a digestão dos ‘nossos problemas’ (que afinal não serão nunca apenas os nossos problemas) e para o conhecimento do mundo.
As limitações culturais e a incapacidade de vencer o preconceito na hora de fruir a novidade, e isso é notório em todas as viagens que o IDENTIDA- DESrealiza, impedem a optimização da aprendizagem possível de efecti- var perante a intimidade com que nos relacionamos com modos
distintos de ver, de sentir, entender a arte e produzir cultura.
Muitas vantagens teríamos se soubéssemos imitar o movimento antro- pofágico, sabendo deixar irradiar a sua autonomia irónica, e deglutísse- mos as experiências existentes no outro cultural. E, sentindo o calor tropical, entendêssemos, como o fizeram os jovens irreverentes do Tropicalismo, como se podem saborear todos os paladares existentes, beber os aromas infindáveis que ignoramos, para enriquecimento da nossa capacidade de percepção do mundo e ampliação do nosso reper- tório cultural e criativo.
Será preciso acrescentar que as inibições culturalmente impostas corres- pondem à persistência de um sentimento europocêntrico, incapaz de ver no outro um igual, reconhecendo e respeitando integralmente as suas identidades.
No entanto, e o Brasil é apenas um excelente exemplo disso mesmo, a capacidade para integrar no quotidiano o que se observou é tão intensa, que nos avassala no relacionamento que lá estabelecemos e até origina situações para nós inóspitas e inesperadas, como quando nos interrom- pem com estranheza, referindo:
— Como você fala bem o português?
LEITURA 8 . PÓS-COLONIALISMO
A verdade só surge quando se renuncia a toda e qualquer ideia pré-concebida.
SHOSEKI, mestre Zen. citado em HALL, Edward (1983): p. 38
Seria bonito, neste mundo que se anuncia como do pós-colonialismo, viajar pelas antigas colónias e não esbarrar, com demasiada frequência, com a permanência das suas mais antigas e intoleráveis pechas. O racismo, em particular, tarda em desaparecer, ainda que vista hoje a camuflagem da miscigenação e do hibridismo, e se esconda em formas
Fazendo eu parte do grupo “Identidades” desde 1996, a primeira coisa que me ocorre referir é que este é um projecto cheio de “coisas boas”, com as quais me identifico bastante.
GRALHEIRO, Raquel, Identidades/Porto, 2001
mais brandas e não assumidas. Uma simples leitura estatística da dife- rença percentual entre a população negra e a sua presença em lugares de responsabilidade empresarial e institucional tornaria clara a dificuldade em se criarem relações sinceramente modernas e democráticas. É fácil para quem é branco ou está no poder referir que o racismo foi erradi- cado, sem atender à realidade que afasta os índios e os negros dos bons empregos e do acesso democrático à escolarização qualificada.
A questão da posse da terra pode ser lida ainda como um outro exemplo de como a espoliação da propriedade realizada pelos colonos invasores ainda impera, não permitindo que as populações de índios e de quilom- bos usufruam da parte das terras a que têm direito..
Se no Brasil o afastamento de um quotidiano colonial é mais acentuado que noutros países com a Independência celebrada mais tarde, é preciso ainda libertar uma vontade política mais declarada e assumida para se ultrapassarem os quadros de baixa democracia que vigoram e se estabe- lecerem relações de cidadania plena que marquem a ruptura com a situação colonial que imperou durante demasiados anos.
LEITURA 9 . VIAJAR?
Descobrir um novo mundo não é habitá-lo; mas sim alar- gar o seu horizonte e, para o artista, vir a ser convocado, talvez, para novas aventuras.
DUFRENNE, Mikel (1976) — (I Vol): p. 35
Faço a mala tantas vezes ao ano que se torna banal e sem qualquer emo- ção o gesto rápido de ensacar as poucas roupas que o calor que me espera exige. A família despede-se sem dramatismo nenhum, com um até breve. Hiberno desde que entro no aeroporto, seja ele qual for, onde posso ensanduichar sempre o mesmo menú e percorrer as mesmas roti- nas onde apenas sou um passageiro despersonalizado. Apanho o avião, onde adormeço para evitar a observação impaciente e ritualizada do per- curso virtual mapeado no ecrã que se oferece em frente a todos. As mes- mas hospedeiras desconhecidas servem-me o catering do dia ou da noite, as mesmas revistas, os mesmos imprevistos e ocorrências. Não saio da casa onde me sei enraizado, nem procuro roteiros vagabundos nem ampliar o meu léxico de turista global nem quero angariar imagens de comprovação perante os amigos. Apenas me desloco. Movo-me do lugar que deixo vazio para um outro que não ocupo e onde não pertenço. Desloco-me para encontrar a minha utilidade, para me entender, para
(…) acredito que cada um de nós é o reflexo das suas expe- riências fruto dos caminhos que foi tomando. sinto que, não foi coincidência entrar na faculdade do Porto e conse- quentemente no IDENTIDA- DES. A pessoa que sou hoje é a consequência da ‘coincidên- cia’. Não me imagino noutro lugar, noutro papel. O que significa que estou satisfeita com o caminho que tomei.
FERNANDES, Cátia. Porto/Identidades
Este tipo de acções tem vindo a desaparecer um pouco por toda a parte, engolido pela ganância e ignorância que ainda domina (e dizima) o Homem; participar nele foi, pois, um privilégio e uma forma de revitalizar laços cul- turais que, se não unem Brasil, Moçambique e Portugal, pelo menos esten- dem entre eles uma fabulosa ponte cultural prenhe de inte- resses comuns e muita ami- zade: prova de que vontade e energias para levar avante tão bela, significativa e compen- sadora missão, não faltam.
NGOMANE, Nathaniel, escritor moçambicano, Identidades/Brasil, 2001
conhecer esse desconhecimento que se me apresenta e que mobiliza a acção e o movimento. As deslocações também permitem acompanhar a tensão exercida pela geografia entre os discursos pós-coloniais proferi- dos na Europa e a narrativa local sobre a percepção da actualidade que se constrói na consolidação da independência conquistada.
À chegada há sempre uma outra exaltação, não me espera uma suite num qualquer hilton, nem sequer um serviço eficiente de transfer. Um grupo de interlocutores tornados camaradas arranca-me as bagagens das mãos e espalha abraços-de-boas-vindas, e o momento aquece mais que a temperatura exterior.
Em cada desembarque há sempre coisas novas que aguardam e coisas novas para surpreender. É sempre um reencontro não de repetição mas de movimento. E não são verdadeiramente os acontecimento exteriores que me cercam que me fascinam e me perturbam, mas é a possibilidade de reconhecer no agir e no pensar as projecções dos impulsos pessoais reprimidos e desconhecidos. Nos palcos onde actuo exponho-me, não no debitar de narrativas autoritárias mas na fragilidade de quem reco- nhece a sua incompletude e se quer orientar nas encruzilhadas. Simplesmente se procura o exercício de um diálogo transnacional.
LEITURA 10 . ARTE
(…) arte é uma palavra e uma categoria europeia, que está geralmente ausente da maioria das línguas e das culturas não-ocidentais.
DIAS, José António B. Fernandes. “Arte e Antropologia no Século XX: modos de relação”, in Etnográfica, Vol. V (1), 2001, p. 106
Desde os primeiros contactos, sempre os diversos grupos do IDENTIDADES que se deslocaram a Conceição das Crioulas se apresentaram perante a população como artistas. Não houve nenhuma estranheza perante essa particularidade até porque os projectos em que nos envolvemos instalaram- se em volta de ‘oficinas artísticas’: expressão plástica; técnicas de impres- são; cerâmica; desenho; vídeo. Conquistada ao longo dos anos a confiança entre toda a gente, as conversas desfilaram para o nosso interesse em insta- lar na comunidade um projecto de intervenção artística colectiva com a população, sendo esta parte integrante de todo o trabalho. Adquirida a cum- plicidade, o programa está a ser desenhado em conjunto com a população da pequena aldeia de Vila União e com a de Vila Centro, aglomerados urba- nos situados no território quilombola de Conceição das Crioulas.
Quer este projecto quer o programa que iniciámos com as escolas da comunidade, com a finalidade de integrar a área das expressões artísti- cas nos currículos educativos, evidenciam a ausência da arte na comuni- dade, onde o conceito (que construímos na Europa) não aparece e onde não se afirmam artistas. O artesanato ganhou expressão, como fonte de renda e como afirmação cultural identitária e as artes populares (dança, música, culinária,…) diluem-se no quotidiano.
Nesta realidade sócio-cultural aprendemos a distância que separa, per- sistentemente ampliada, a arte (no conceito erudito e cosmopolita que se utiliza nas sociedades urbanizadas) de grandes parcelas da humani- dade. E se a arte apenas faz a falta que faz, para nós, professores e estu- dantes de arte e artistas portugueses, a consciência dessa distância também significa, num elevado grau de complexidade, a dificuldade e o desinteresse que existe no estreitamento dessa separação. E é no sen- tido de melhor entender esse beco de incomunicabilidade que as deslo- cações que realizámos se tornam importantes na gestão individual da incomodidade que essa verdade causa.
LEITURA 11 . BARULHO
Na sociedade moderna, as estradas e as auto-estradas, as pontes e as ruas, as praças e os descampados transformam os nossos hábitos, regulam ou interditam a marcha, origi- nam alguns dos nossos gestos tornados habituais e conde- nam outros.
CAUQUELIN, Anne (1998): p. 58
As deslocações ao Brasil presenteiam-nos com duas atmosferas sonoras completamente contraditórias, que nos permitem entender a dificuldade que temos em lidar com o silêncio, familiarizados que estamos com a presença permanente de algum ruído de fundo.
No interior sertanejo, a contemplação dos sons da paisagem ou ineren- tes ao movimento da população mistura-se com os ruídos sonoros que distribuem a música pelo território, tentativa de ocultar a privacidade do lar (demasiado encostado para quem ainda se recorda do isolamento rural). É um contraste que não permite indiferenças, afirmando um silên- cio estranho para quem se transporta dos ambientes urbanos de ruído permanente, e também sons estridentes desconhecidos da natureza ou propagados pelas altruístas colunas de som. No Recife, na zona comer- cial da baixa da cidade, o despique promocional gritado por fortes colu-
(…) para me orientarem a nivel pessoal. Perceber e tomar consciência do acto de comunicar. Perceber e comba- ter as fronteiras que existem socialmente. Perceber e assis- tir, fazendo parte, às mudan- ças orgânicas dos vários encontros. E, perceber o exer- cicio constante de renovar constantemente aquilo que se julga que se percebeu.
FARIA, Mónica, Identidades/Porto.
Outro objectivo proposto, que ultrapassou as minhas melho- res expectativas, foi o lança- mento da “Colectânea Breve de Literatura Moçambicana”, assim como a participação dos escritores moçambica- nos, quer nos debates sobre literatura, quer no debate sobre teatro, organizado pelo Rogério Manjate, que na minha opinião, proporcionou um dos momentos mais inte- ressantes deste intercâmbio. Penso que, no geral, a recep- ção da “Colectânea” foi posi- tiva, sublinhando um vez mais o interesse em realizar um segundo volume.
ANTÃO, Natacha, Identidades/Porto, 2001
nas de som de cada casa comercial situa-nos num caos sonoro que, se irritante, apenas o é pela diferença de decibéis do ruído de fundo que sempre nos acompanha na nossa vida urbana.
A naturalidade com que apreciamos o barulho que quotidianamente nos cerca, quase nos faz esquecer a sua artificialidade e leva-nos a não estra- nhar a dificuldade que temos de lidar com o silêncio ou com a simplici- dade da natureza.
LEITURA 12 . A NARRATIVA
AMOR DAS PALAVRAS
Amo todas as palavras, mesmo as mais difíceis que só vêm no dicionário.
O dicionário ensinou-me mais um atributo para o sabor dos teus lábios.
São doces como sericaia.
Faz-me pensar ainda se a tua beleza não será comparável à de huris prometidas.
No dicionário aprendi que o meu verso é por vezes fabordão e sesquipedal. Nele existe o meu retrato moral (que não confesso) e o dos meus inimigos, rasteiros como seramelas sepícolas
e intragáveis como hidragogos destinados à camua. O dicionário, as palavras, irritam muita gente. Eu gosto das palavras com ternura
e sinto carinho pelo dicionário, macio e baixo e pelo seu casaco, azul desbotado, de modesto erudito.
KNOPFLI, Rui (1959). O País dos Outros, in Obra Poética, Imprensa Nacional Casa da Moeda (2003). p. 49
Pesem embora sucessivos adiamentos, ainda mantemos a vontade de produzir um evento que junte autores de diferentes especialidades e de diversos países, para se confrontarem os modos como a narrativa está presente nos processos criativos e nas obras de cada um. Este interesse nasceu da evidência dessa importância tornada consciente nas conver- sas cruzadas com diversos escritores, no Recife em pleno Festival Recifense de Literatura (onde constituímos pertença regular), sobre as
preocupações transversais do trabalho que o movimento IDENTIDADES promove. E, mais tarde, de modo mais intenso, nas polémicas com o poeta Pedro Américo de Farias e com a investigadora Maria Alice Amorim. Também em Maputo, conversando com Mia Couto sobre esse cruzado interesse, fomos remetidos para a exigida proximidade do tema com a arte Makonde, onde a narrativa é a realidade que se torna em objecto escultórico. São demasiadas as ligações estabelecidas com escri- tores e eventos relacionados com a literatura para que não se torne claro o espaço existente de cruzamento de experiências e saberes, neste caso concreto, em volta da presença da narrativa na arte.
Esta leitura apenas pretende registar o campo que o relacionamento interdisciplinar efectivado fornece para o desenvolvimento de novas reflexões de onde se pretendem, como sempre e apenas, retirar experiên- cias pessoais para que cada um as possa incorporar na sua personali- dade e na sua acção.