Mod`ele analytique de la fonction d’´etalement de point
CHAPITRE 5. MOD`ELE ANALYTIQUE DE LA FONCTION D’´ETALEMENT DE POINT
5.3. CORR´ELATIONS
Numa conferência em que participei na Europa, alguém me perguntou: o que é, para si, ser africano?
E eu perguntei, de volta: E para si, o que é ser Europeu?
COUTO, Mia (2005): p. 18
Chegar de avião a Cabo Verde é chegar a África sem nunca sair da Europa. De facto, estamos num outro país, num outro continente: perante outros aromas, uma luz coada pelas poeiras que do Saara atra-
Mesmo vivendo na mesma época, nem todos os homens vivem no mesmo tempo.
JIMÉNEZ, José (1997): p. 39
Convencer os pais da necessi- dade absoluta de os seus filhos e filhas frequentarem as escolas, mas organizar a acti- vidade dos alunos de maneira a também serem úteis nas suas casas, a ajudarem a família.
CABRAL, Amílcar (1974): p. 50
Podemos alimentar a pers- pectiva segundo a qual uma discussão suficientemente longa e exigente desembocará sistematicamente no triunfo do melhor argumento?
vessam o mar e dominam a atmosfera, um outro tempo que se afirma lentamente, o crioulo que se mantém, uma amabilidade humana cons- tante, outros corpos que se exibem, a sonoridade da morna desejada e a memória de Mestre Travadinha, misturada com novos ritmos híbridos, o mar que sempre nos rodeia, os sabores do cozinhado milho pilado e do atum, a memória das leituras de seus escritores, o mito de Cabral cedo desaparecido, … mas, no entanto também estamos em casa: nos ritmos do quotidiano, no Café Lisboa, na malha ordenada da cidade do
Mindelo, na arquitectura adaptada dos sobrados e nos reutilizados edifí- cios de ostentação do poder colonial, na familiaridade da língua portu- guesa, na fácil evocação do que se passa na Europa, testemunhada por muitos ou relatada por familiares imigrantes, na moeda indexada ao Euro, no sistema bancário e no VISA, no sistema de ensino, mimético do nosso, no acompanhamento dos resultados do futebol, na SIC sintoni- zada por todo o lado, no gosto pela retórica, pela história cruzada, … Como em qualquer outro país de África, ainda que de modo mais pecu- liar, em Cabo Verde torna-se patente a interdependência com o Ocidente. As suas histórias são inseparáveis e a partilha cultural de sempre fundou identidades relacionadas. Esta proximidade funda-se na história, pelo modo com o império colonial português usou as Ilhas de Cabo Verde, para entreposto nos trajectos de circulação de escravos, de apoio à frota inglesa a caminho da África do Sul, na administração da Guiné, na orga- nização das safras de cana em S. Tomé, nas condições administrativas especiais como representavam o poder colonial nas Ilhas e colaboravam no exercício das políticas coloniais. Funda-se no facto de o caboverdiano se expandir pelo mundo, onde residem grupos flutuantes de emigrantes, representando cerca de um terço de uma população que se cruza regu- larmente com os residentes.
O cruzamento especial de circunstâncias moldaram no caboverdiano capacidades de relacionamento cultural ímpares e invejáveis neste pequeno globo tão desfronteirizado como discriminatório e fechado para o Outro, viva ele a nosso lado, num gueto de excluídos ou afastado das centralidades da economia mundial. A facilidade de comunicação, a ver- satalidade no uso de variadas línguas, a morabeza no relacionamento interpessoal, a mestiçagem intrínseca, a ausência de fronteira simboli- zada pelo mar que é o caminho de sempre, a rectidão e a desconfiança, são algumas das modalidades que incorporam este povo, que se nos oferece para nosso deleite e aprendizagem, e que é inseparáveil de nós e de todo o mundo.
Não tenho dúvidas de que as “aprendizagens” feitas no contexto do Identidades per- tencem essencialmente ao domínio do emocional. Com o Identidades percebi que não é possível aprender ou desco- brir o “outro” sem estar dis- posta a abrir os braços e “viajar de caixa aberta”; essencialmente deixar que as coisas venham ao meu encon- tro.
VILAVERDE, Maria Jorge, Porto/Identidades.
LEITURA 2. TRANSNACIONALISMO
(…)
Mar e morada di sodadi el ta separanu pa tera lonji
el ta separanu d’nos mai nos amigos sen serteza di torna enkontra. (…)
B. Leza, letra de uma morna
Repare-se em alguns factos que coexistem na história de Cabo Verde: ilhas desertas visitadas esporadicamente por povos viajantes; povoa- mento por escravos africanos e por representantes da governação portu- guesa; gerações de portugueses residentes, de responsáveis pelos interesses coloniais e a mestiçagem daí decorrente; quadros administra- tivos que se dividem para a Guiné e para S. Tomé; levas sucessivas de emigrantes que fogem da fome e se espalham por Portugal, pela Europa e pelas Américas; emigrantes que regressam e se integram no tecido empresarial; ...
Haverá algum país no mundo onde não se encontrem caboverdianos, um povo que na sua diáspora tem mais de um terço da sua população? e haverá em Cabo Verde alguma família que não se alargue para o estran- geiro? e que não fale mais de uma língua? e onde não seja regra a mesti- çagem? e onde não domine o desejo de partida? e o controlo da sodad? Na discussão de um texto de apresentação da proposta de criação da M_EIA, onde se procuram as argumentações para a criação de uma escola internacional de arte no Mindelo, tornou-se claro para mim que neste país e nesta cidade em particular, por ser um verdadeiro centro de arte e cultura, coincidem características únicas para se entender o que pode ser uma escola internacional, no que refere à circulação de estu- dantes e de docentes, particularmente por ser aí natural o tratamento de uma consciência transnacional, sintonizada com o reconhecimento do local com o presente e o envolvimento nos dilemas do contemporâneo.
LEITURA 3. A LUZ
A nossa arte é ser cego pela verdade; a luz sobre o rosto recua.
Só isso é verdadeiro, nada mais.
KAFKA, Franz (2007): p. 14 Também eu com esta expe-
riência perdi o medo de que a cultura e a arte ‘perdessem’ ao ser usada como troca honesta e produtiva entre gentes. Só assim consigo des- mantelar o lugar estático onde me encontrava antes do Identidades me encontrar.
A luz distingue o lugar. No Mindelo o sol intenso é sempre amenizado, penso que por respeito pela personalidade amável do caboverdiano, gra- ças a uma miríade de poeiras que percorrem o ar, balançadas pela brisa que refresca os temperamentos e embala os pensamentos numa morna sem fim. As poeiras resultam da fragilidade da terra, sedenta de chuva, solta entre aglomerados rochosos esfriados depois de convulsões vulcâni- cas, vincando a presença do terreno nos ares, onde se misturam partícu- las de fina areia viajante que, pelos ares marítimos do Atlântico, encontra companhia desde que abandonou o deserto do Saara. Esta mistura, por vezes repousada nas encostas onde, envaidecida, deslumbra com seu alvor, acrescenta à luz coada o sentimento africano e a parcela internacio- nal, primeira realidade deste Arquipélago, povoado por estrangeiros que se tornam emigrantes quando dele se soltam para ganhar as suas vidas. Nesta luz especial, as colinas áridas preenchem-se de cores terrosas, inter- rompidas agressivamente por pinturas escaldantes de cores fortes, alivia- das com um sabor a pastel por quem não consegue usar a pureza das cores primárias, que contrariam a miscigenação reinante e o gosto deli- cado pela melancolia ritmado por um sol quente mas nunca abrasador.