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A atuação do profissional na produção do espaço de fábrica, de empresa, de unidade coletiva ou individual será ilustrada por intermédio de exemplos representativos desses espaços, concebidos por arquitetos a partir da década de 70, quando as prerrogativas da acumulação flexível de capital determinaram novos espaços de trabalho. Será visto que esses técnicos reproduzem a divisão capitalista do trabalho, até mesmo em situações onde prevalece o discurso da participação.

No caso da fábrica, a organização flexível do trabalho transforma essa unidade fabril em empresa, mesmo a primeira concentrando espacialmente os recursos econômicos e não econômicos para a etapa final de produção de um automóvel – a montagem. A razão para a fábrica se tornar empresa reside no fato de, ao mesmo tempo, ela centralizar as decisões sobre a sua produção e administrar virtualmente a produção de peças de unidades dispersas. Apesar de apresentar as características de uma gestão flexível, por uma questão

didática, o exemplo a seguir de uma fábrica será classificada em um espaço fixo e de controle presencial, considerando que nesse espaço é realizada sua principal atividade produtiva.

Nos anos 70 na Suécia, a montadora de automóveis Volvo instalou na cidade de Kalmar a primeira fábrica baseada em novas formas de organização de trabalho e produção. A linha de montagem tradicional foi substituída por módulos de montagem paralelos, que interligavam equipes semiautônomas de produção responsáveis pela montagem dos automóveis. A planta de Kalmar (figura 15) ficou conhecida como a primeira fábrica de carros que implantou princípios democráticos, pois em certa medida atendeu às reivindicações dos trabalhadores por maior participação nos processos decisórios e por melhores condições de trabalho. O pesquisador e arquiteto sueco Jan Ake Granath, em publicação sobre as plantas das fábricas da Volvo, comenta que o diretor administrativo da empresa, P. G. Gyllenhammar, interferiu no projeto original do arquiteto, solicitando que a forma expressasse mais intensamente as suas ideias humanistas. O projeto final, em formato de estrela, não impediu que o conceito inicial de células de trabalho fosse abandonado, e a planta de Kalmar tornou-se uma linha de montagem bastante tradicional. A inovação ficou por conta da fábrica ser equipada com veículos guiados automatizados AGVs, que proporcionam estações de trabalho mais ergonômicas para o operário. O ritmo continuava forte, pois a linha de montagem era monitorada por computador (Granath, 1998).

As fábricas automobilísticas da Volvo na década de 1970 – Kalmar (montagem de automóveis) e Skode (fábrica de motores) – apresentavam elevados níveis de insatisfação dos trabalhadores, com altos indíces de problemas de saúde e segurança, de absentismo, de rotatividade e de dificuldades de recrutamento. A organização do trabalho baseava-se no binômio taylorismo e fordismo. Os baixos níveis de produtividade motivaram a empresa a autorizar estudos de uma nova planta de carros em Uddevalla (figura 16), na costa oeste da Suécia, que foi realizado em 1985-6 por duas equipes de técnicos especialistas da empresa, concorrentes. A equipe de designers da empresa desenvolveu uma proposta baseada nas tradicionais linhas de montagem, e outra equipe, liderada por um engenheiro de produção em cooperação com o grupo de pesquisadores da Universidade de Chalmers, da divisão de arquitetura industrial e planejamento da Escola de Arquitetura, desenvolveu uma proposta fundamentada em equipes autogeridas (Granath, 1998).

FIGURA 15 – Perspectiva isométrica da fábrica Kalmar FONTE: Granath, 1998

A fábrica de Uddevalla foi inaugurada em 1989 e, a partir de então, um novo modelo de organização de trabalho firmou-se na Europa, constituindo um modelo alternativo ao fordismo. Denominado de sistema sociotécnico, previa a adoção do sistema de produção em paralelo, no qual equipes de oito a dez operários trabalhavam simultanea e independentemente, e cada equipe era responsável pela construção integral de um veículo. Além disso, a unidade de Uddevalla era considerada uma fábrica modelo em termos de concepção ergonômica, com preocupação na proteção dos operários contra lesões musculares e esqueléticas, fadigas, trabalho repetitivo e monótono. O modelo sueco sugere que as organizações podem ser desenhadas de modo a considerar que as pessoas exercem papéis complementares aos das máquinas, em vez de serem extensões delas. Para tanto, é necessário um sistema de produção baseado em computador (Gerwin; Kolodny, 1992). Mas é preciso lembrar que apesar da autonomia relativa sobre o processo de trabalho, as equipes autogeridas atuam sob o constrangimento de imposição do método operatório e do ritmo de tempo. Além disso, a fábrica de Uddevalla é somente uma montadora, cuja força de trabalho é composta por trabalhadores qualificados. Situação que não se repete nas fábricas de peças, localizadas em outras regiões do planeta.

O grupo de design que projetou a unidade de montagem de carros em Uddevalla incorporou os princípios do sistema de produção “lean production” ou “produção enxuta” e conduziu o processo de projeto nos termos de altos níveis de produtividade e de qualidade (Granath,

1992). O que está em jogo é a capacidade de a equipe mobilizar recursos materiais e intelectuais em todas as fases da produção. “Ambos, o trabalho de design e de produção, envolvem aprendizagem e um processo pelo qual as concepções a priori são questionadas e refinadas” (Granath, 1992). A arquitetura industrial emprega o paradigma da participação, de modo a favorecer a concordância do operário à implantação de novos processos de trabalho, que possibilitam maiores níveis de produtividade. Arquitetos e profissionais responsáveis pelo reprojetamento do espaço, como engenheiros e ergonomistas, somente são contratados em situações em que há necessidade de implantar alguma mudança organizacional. Nesse sentido, a questão central desse grupo de profissionais é como o espaço pode moldar o comportamento organizacional (Sailer; Penn, 2009).

FIGURA 16 – Vista aérea da fábrica de Uddevalla FONTE: Granath, 1998

Os precedentes de estudos sobre o espaço de trabalho remontam à Revolução Industrial, quando os efeitos negativos da organização científica do trabalho começaram a surgir (Fischer, 1997). Uma primeira abordagem constituiu-se nas primeiras décadas do século XX e fundamenta-se em estudos empíricos, quando as condições materiais do espaço de trabalho, como iluminação, temperatura, barulho, fumaça etc. são consideradas as causas para a fadiga, absenteísmo e acidentes. Desse ponto de vista, acredita-se que a

performance dos trabalhadores pode ser melhorada se houver redução dos impactos desses fatores espaciais (Fisher, 1997). Uma segunda abordagem foi concebida nos anos 30, a partir de uma experiência efetuada pelo sociólogo australiano Georges Elton Mayo na fábrica de Western Electric Company, localizada nos Estados Unidos, e que deu origem à Teoria das Relações Humanas. O principal resultado de sua pesquisa demonstrou que o fator psicológico dos trabalhadores era mais preponderante do que os físicos sobre o desempenho deles na organização. A partir de então, os estudos progressivamente abandonaram o “fator físico” para considerar o “fator humano” como elemento-chave para o funcionamento e eficiência organizacional (Fisher, 1997).

Nas décadas de 60 a 80 a psicologia organizacional consolida-se como campo de estudos sobre espaços de trabalho e mostra a importância da estrutura, do fenômeno de poder, da comunicação e das relações entre grupos em uma companhia (Fisher, 1997). A partir desse campo, surge um braço de estudos denominado “psicologia ambiental”, que identificou uma variedade de fatores psicossociais determinantes para o comportamento organizacional como proximidade, densidade, visibilidade, leiaute e distribuição de mobiliário (Sailer e Penn, 2009). Os fatores psicossociais são critérios projetuais nos espaços de trabalho de empresas. É o caso da obra do arquiteto holandês Herman Hertzberger, notadamente no projeto do conjunto de edifícios do Central Beheer (figura 17), em Apeldoorn, onde os trabalhadores exercem predominantemente atividades auxiliadas por computadores. A edificação, construída em 1972, é considerada um exemplar de aplicação de novos princípios arquitetônicos, desenvolvidos no período em que o arquiteto era integrante do grupo denominado Team X. Os princípios do estruturalismo opunham-se à arquitetura racional do funcionalismo modernista, e buscavam uma arquitetura humanista a partir da adoção de escala humana e de liberdade de adaptação e modificação da forma pelo usuário no tempo. Em particular, Hertzberger (1999) critica os princípios funcionalistas da segregação das funções, da planta livre e da flexibilidade. Segundo ele, os espaços gerados mediante esses princípios se tornam facilmente obsoletos devido as soluções demasiadamente específicas. Em particular, no caso da flexibilidade, ela representa a possibilidade de se fornecer qualquer solução para qualquer momento. Mas ao contrário do que se possa conceber, essa característica do espaço não representa um avanço. Na perpectiva de Hertzberger (1999), a adoção do conceito de flexibilidade pressupõe edifícios neutros, ausentes de traços característicos (identidade) e, além disso, a certeza de que a solução correta não existe. A relatividade da mudança de uso no tempo e no espaço é compreendida pela flexibilidade funcionalista como recusa dos arquitetos em se responsabilizarem pela busca da solução adequada. Desse ponto de vista, Hertzberger (1999) sugere a forma polivalente, cujo princípio parte da mudança permanente: “Em outras

palavras, uma forma que se preste a diversos usos sem que ela própria tenha de sofrer mudanças, de maneira que uma flexibilidade mínima possa produzir uma solução ótima” (p. 147). A forma ideal é essencialmente aquela que incentiva os usuários a modificá-la, absorve os seus múltiplos significados, sem, no entanto, perder sua identidade (Hertzberger, 1999).

FIGURA 17 – Vista aérea da empresa Central Beheer FONTE: Wittenborg, 201321

Nos edifícios de escritórios da Central Beheer, a polivalência é explorada através de conceitos de “zoneamento territorial” e de “ordenamento da construção”. No primeiro caso, a própria forma espacial deve incentivar os trabalhadores a preencher as formas que deliberadamente o arquiteto deixa inacabadas. Assim, Hertzberger definiu que as alvenarias ficariam sem reboco para permitir que os trabalhadores personalizassem seus escritórios, o que de fato ocorreu após a ocupação da edificação. Outro recurso empregado pelo arquiteto, o ordenamento da construção, teve como princípio o uso de uma estrutura básica, fixa e permanente, e uma zona complementar, varíavel e interpretável. Estrutura e interpretação são conceitos de inspiração evidentemente estruturalista e significam, em sequencia, um conjunto simples de espaços essenciais e formas diferentes de preenchimento dos espaços vazios da estrutura, segundo o grau de liberdade individual de cada usuário. No caso da Central Beheer, a zona interpretável pode ser preenchida por áreas de escritório, reuniões, toaletes, espera, relaxamento e restaurante. Esse ordenamento permitiria o edifício absorver mudanças advindas da necessidade de ajustes organizacionais frequentes, como alterações constantes de tamanho dos diversos                                                                                                                          

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departamentos. “Isto significa que a adaptabilidade permanente é uma pré-condição de projeto” (Hertzberger, 1999, 133).

Embora Hertzberger tenha aplicado os princípios humanistas em outras tipologias arquitetônicas como escolas, teatros e prédios residenciais (Hertzberger, 1999), além de espaços de trabalho, as ideias do arquiteto estão em conformidade com a ideologia do plano, em que o técnico especialista é protagonista da produção do espaço, mesmo possibilitando aberturas para a participação do usuário. O arquiteto alemão pressupõe que a forma ideal existe e que deve ser alcançada pelo profissional. Mesmo que conceba a participação do usuário, as características polivalentes da forma são definidas pelo arquiteto.

No caso específico de um espaço de trabalho, o próprio arquiteto indica o limite dessa participação: a estrutura organizacional da instituição. “Pois a questão fundamental é saber quanta responsabilidade a alta direção está disposta a delegar, isto é, quanta responsabilidade será dada aos usuários individuais dos escalões mais baixos” (Hertzberger, 1999, 24). Apesar do discurso humanista do arquiteto, os conceitos espaciais de espaços polivalentes proporcionam arranjos organizacionais que promovem proximidade, densidade e visibilidade entre os trabalhadores, conforme demandas da empresa. Tratando- se de um edifício de trabalho, a ideia de espaço polivalente está de acordo com o argumento de favorecer a rápida interação entre os trabalhadores, tal como é previsto pela gerência toyotista.

A partir da década de 90, as publicações têm explorado a relação entre a configuração espacial e os resultados organizacionais, por intermédio de categorias de análise próprias do capitalismo globalizado, como fluxos de colaboração, interação e conhecimento e também a inovação, criatividade e performance (Sailer; Penn, 2007). Dessa forma, os atuais estudos sobre espaços de trabalho não consideram somente a configuração espacial, mas também a programação do espaço e as decisões estratégicas de como distribuir funções e recursos no espaço (Sailer; Penn, 2007). Um exemplo ilustrativo dessas recentes pesquisas é a contribuição do grupo de pesquisas, que desenvolveu a teoria de arquitetura e espaço denominada “Space Syntax”. Essa teoria fundamenta-se na ideia de que a configuração espacial, ou seja, o modo como as partes são colocadas juntas, desempenham um papel crucial no comportamento social (Sailer; Penn, 2007). Assim, o espaço determina padrões de movimento humano, ocupação e experiência individual (Hillier apud Sailer; Penn, 2007), tanto no espaço da fábrica, quanto no da cidade.

Espaços integrados, e sua forma, que estão bem conectados a todos os outros espaços no sistema, irão atrair movimento simplesmente como uma consequência de sua posição estratégica. Comportamentos sociais no espaço, como encontro, recolhimento e uso dos espaços públicos são definidos como um subproduto do movimento, e darão lugar à presença e copresença de pessoas como consequências de primeira ordem de configuração espacial. Estes padrões de habitat, então, agem para informar aspectos de segunda ordem, tais como a distribuição de usos do solo ou a localização de facilidades que, por sua vez, reforçam padrões de movimento novamente através da atração. Dessa forma, a configuração espacial e o habitat humano realimentam um ao outro para constituir um meio social emergente (Sailer; Penn, 2007, 2).

A partir da crença de que a organização espacial exerce papel determinante na cultura organizacional de uma empresa, arquitetos do Space Syntaxe realizaram uma pesquisa em 2005, no Museu Britânico em Londres, com o objetivo de levantar o grau de inter-relações entre os trabalhadores, de diferentes níveis hierárquicos, e entre os trabalhadores e o público do museu. Segundo Penn, Martinezz e Lemlij (2007), os problemas do local referentes à falta de gestão e de identidade e de dificuldade de comunicação poderiam ser ajustados se a teoria organizacional levasse em consideração os padrões espaciais de interação entre as diversas áreas do museu. Os padrões espaciais são traduzidos pelos autores mediante os conceitos de “acessibilidade” e “mudança de direção”. A partir da análise quantitativa desses padrões espaciais, expressos pelo movimento de cada funcionário nos ambientes do museu (figuras 18 e 19), os autores inferem a respeito da qualidade da cultura organizacional da empresa e elaboram sugestões e recomendações técnicas. O argumento básico reside na convicção de que os trabalhadores poderiam, a partir de uma reorganização do espaço, agenciá-lo de modo a promover a melhor cultura organizacional (Penn, Martinezz, Lemlij, 2007).

A liberdade de escolha dos trabalhadores ou, nos termos dos arquitetos, dos “agentes sociais" na organização do espaço do museu é restrita e constrangida pelas determinações da empresa. Os próprios profissionais identificaram conflitos de poder entre a equipe de curadores de coleções e a equipe de pesquisadores e estudantes (Penn, Martinezz, Lemlij, 2007). Mas a partir de uma perspectiva conciliadora, os arquitetos acreditam que a organização do espaço pode promover a coexistência de diferentes culturas organizacionais. A compreensão dos conflitos a partir de uma questão cultural obscurece o fato de que as decisões dos trabalhadores baseiam-se em normas impostas pelas empresas, sendo que os arquitetos desempenham o papel de traduzir essas normas em categorias espaciais.

FIGURA 18 – Mapeamento de interações espaciais FONTE: Space Sintax22, 2013

FIGURA 19 – Diagrama de dispersão de mudanças de orientação do guarda de escritório para todos os outros espaços do departamento do Antigo Egito e Sudão

FONTE: Penn, Martinezz e Lemlij, 2007

Com relação as outras modalidades de espaços de trabalho (Quadro 02), no caso de unidades dispersas móveis, quando os técnicos ocupam-se dos espaços que temporariamente abrigam a estação de trabalho móvel de um profissional autônomo, como                                                                                                                          

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a residência ou a cafeteria, a atuação ocorre por intermédio de projeto e adotam-se os mesmos critérios da arquitetura de espaços de trabalho citados anteriormente, como flexibilidade e modulação (Franceschi; Nascimento, 2009). O argumento reside no fato de esses conceitos conferirem maior liberdade ao usuário, de modo que ele possa adaptar a sua estação de trabalho às diferentes demandas. Nas estações de trabalho, em nome da flexibilidade, os técnicos desenvolvem o conceito de “mobiliário multifuncional”, de modo que o trabalhador autônomo possa ajustar o seu espaço de trabalho conforme as tarefas ao longo do dia. Nessa situação a multifuncionalidade expressa a máxima da ideologia neoliberal do trabalhador autônomo, “fazer-se por si mesmo” e ao seu espaço, mobilizando os recursos que tem à sua disposição para alcançar as metas impostas pelas empresas. Dessa forma, o próprio trabalhador é que deve ser flexível, para adaptar-se às demandas da produção. Ao que parece, o objetivo dos técnicos de produzir espaços funcionais e acolhedores é a domesticação de trabalhadores individuais nos espaços privados, reais ou virtuais, em conformidade com o programa do Movimento Moderno de promover menor sociabilidade e participação política dos indivíduos na esfera pública, como concebeu Sennett (1988 [1974]).

De modo geral, o arquiteto incorpora o conceito de flexibilidade no projeto de espaços de trabalho de diferentes formas, de modo a permitir diversos usos do espaço pelo usuário final. Na planta livre da indústria, as inovações de processo e de produto exigem a adoção de diferentes leiautes, áreas com grandes dimensões e consequentemente vãos livres maiores, para evitar que pilares interfiram nas mudanças de leiaute. Na fachada livre, a necessidade de incorporar ao longo do tempo elevadores, escadas e outros equipamentos de transporte vertical de trabalhadores e produtos demanda a construção de fachadas sem obstáculos. Na implantação da edificação no terreno, demandas de futuras ampliações exigem a destinação de áreas para acréscimos. Nos edifícios empresariais, as inovações organizacionais pedem novos arranjos espaciais e, consequentemente, novos leiautes. Nesses casos, a flexibilidade adotada pelos arquitetos favorece a organização espacial para atender demandas da gerência, haja vista que, evidentemente, os trabalhadores não atuam no processo decisório.

As unidades dispersas fixas configuram os pequenos negócios que, nos dizeres de Harvey (1998 [1989]), incluem sistemas mais antigos de trabalho doméstico, artesanal, familiar (patriarcal) e paternalista. Tais unidades compreendem também os espaços de coletivos de trabalho, pesquisados nesta tese. Devido sua relevância, esses espaços serão discutidos no próximo capítulo. Os exemplos anteriores de espaços de fábrica, empresa e unidades individuais são suficientes para indicar como os arquitetos empregam os conceitos de

espaços abertos e flexíveis para incorporar a divisão capitalista do trabalho na organização espacial. O interessante é que o arquiteto reproduz as relações hierárquicas no espaço a partir da divisão capitalista de seu próprio trabalho e, assim, não abre mão de conceber o espaço, concebendo até mesmo as aberturas que o processo de produção permitirá aos usuários trabalhadores, desde que esses últimos permaneçam no nível inferior da hierarquia social.

Antes de pesquisar os espaços de trabalho associado e de investigar se há relação entre o planejamento do espaço e a organização flexível do trabalho, discuto abaixo o modo de atuação de arquitetos industriais que trabalham em Belo Horizonte. Mediante a realização de entrevistas com quatro profissionais, constatei como as práticas dos técnicos especialistas contribuem para perpetuar relações sociais opressoras, apesar do discurso dominante de humanização dos espaços de trabalho.