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As normatividades técnicas referentes ao plano, os conceitos do espaço “flexível” e “aberto”, o homem e o funcionário padrão são expressões de uma ideia absorvida do Movimento Moderno e diz respeito à divisão técnica do trabalho. Essa divisão é manifestada pela crença de os técnicos serem os protagonistas da produção do espaço. No início da década de 70, o filósofo austro-francês André Gorz, pseudônimo de Gerhard Horst, revela a ideologia da “tecnificação” e da “cientificação” do processo de produção, bem como a função técnico-científica na reprodução das formas de dominação do capital sobre o trabalho. Desse modo, os trabalhadores supervisores, de posse de conhecimento especializado advindo de anos de desenvolvimento de ciências e técnicas de produção, tornam-se técnicos especialistas a serviço do capital, ao planejar o trabalho e manter as relações sociais capitalistas (Gorz, 1996 [1974]).

Nas indústrias de mão de obra, a função dos trabalhadores técnicos-científicos é ao mesmo tempo técnica e ideológica. Não estão apenas encarregados de planificar o processo de trabalho, de organizá-lo e de verificar a conformidade dos produtos parciais às normas técnicas preestabelecidas; têm também por função perpetuar a estrutura hierárquica da empresa e reproduzir as relações sociais capitalistas: isto é, perpetuar a separação (a alienação) dos produtores em relação ao produto “comum” e ao processo de trabalho (Gorz, 1996 [1974], 226).

Os técnicos especialistas, a exemplo dos arquitetos, ao perpetuarem a alienação dos produtores em relação ao processo de trabalho e de seu produto, alienam-se em si

mesmos. Essa alienação decorre de sua posição na relação hierárquica da divisão social do trabalho. Em relação ao capitalista, os trabalhadores técnico-científicos são membros do “trabalho coletivo produtivo” e, portanto, realizam atividades parciais fundamentadas em saberes alienados, no sentido do técnico não ter capacidade de determinar o uso que será feito dos conhecimentos produzidos por ele, pois é o capitalista quem determina. Em relação aos produtores de trabalho material, ou aos operários, os técnicos estão em uma posição paralela mas separada, em uma relação hierárquica: “o fato é que os trabalhadores técnico- científicos produzem meios de exploração e de opressão dos operários e devem aparecer a estes como agentes do capital; porém os operários não produzem meios de exploração dos trabalhadores técnico-científicos” (Gorz, 1996 [1974], 225).

Duas situações são apontadas por Gorz (1996 [1974]), em referência ao papel dos trabalhadores técnico-científicos nas relações de produção capitalistas. Na primeira situação, os técnicos exercem as funções de fiscalização, controle ou comando de um grupo de trabalhadores manuais em uma situação inferior na hierarquia industrial. Na segunda situação, os técnicos desempenham atividades parceladas no processo de trabalho, sem nenhuma autoridade ou privilégio hierárquico sobre os outros tipos de trabalhadores empregados na mesma unidade de produção (Gorz, 1996 [1974]). Embora as análises de Gorz sejam válidas em situações de supervisão do trabalho na fábrica, os dois tipos de função de atuação técnica podem ser observados no processo dos arquitetos na produção de espaços. Nas experiências históricas do proto Modernismo e do Movimento Moderno, relatadas anteriormente, prevalece a primeira situação: o arquiteto coordenador dos processos de produção do espaço. Nesses casos, ele mantém uma relação de hierarquia direta com os trabalhadores manuais da construção civil ao planejar o espaço; e indireta com os operários da fábrica ao reforçar a organização racional do trabalho de produção de produtos. Assim, o arquiteto reproduz os processos capitalistas convencionais de produção. Em experiências mais recentes, predomina a segunda situação, em que o arquiteto é mais um membro do trabalho coletivo da etapa de concepção do espaço. De qualquer modo, é possível encontrar as duas funções na produção de locais de trabalho.

Realizei quatro entrevistas, no mês de setembro de 2013, com arquitetos atuantes em Belo Horizonte na elaboração de projetos industriais. O objetivo das entrevistas era de compreender o processo de trabalho do arquiteto e sua relação com o sistema de produção capitalista. Assim, foi possível identificar as duas funções do trabalhador técnico-científico, citadas por Gorz (1996 [1974]): os parâmetros projetuais comprometidos com a eficácia técnica e econômica da produção fabril, além do discurso ideológico da humanização dos espaços de trabalho.

Foram entrevistados um arquiteto e professor universitário com 40 anos de experiência em elaboração de projetos industriais, com escritório próprio; um arquiteto e professor universitário com 20 anos de experiência em projetos residenciais e comerciais, que eventualmente projeta espaços industriais e trabalha em um escritório de engenharia; uma arquiteta e seu filho também arquiteto, respectivamente com 35 anos e 3 anos de experiência na elaboração de projetos industriais, os dois como prestadores de serviço para uma empresa de projetos interdisciplinares, também prestadora de serviços para uma empresa global cuja principal atividade é a mineração. Infelizmente, dado o porte das empresas que contratam os profissionais, nenhum deles disponibilizou imagens para ilustrar a análise das entrevistas.

Dos quatro arquitetos entrevistados, o primeiro é o único que desempenha a função de arquiteto coordenador. Dessa forma, ele demonstrou vasto conhecimento do processo de produção do produto a ser processado na fábrica, como também do processo de produção do espaço fabril. Pela tela do computador, o arquiteto mostra os projetos industriais que desenvolveu. À medida que os apresenta, explica as etapas sequenciais de produção, seja de um frigorífico de abate de suínos, de uma fábrica de biscoitos ou de uma de autopeças, revelando que o fluxo do produto a ser processado é que determina a implantação das instalações no terreno. Outra premissa projetual é o transporte de fluidos como água, ar comprimido, vapor, água gelada e vácuo. A compatibilização dessas tubulações entre elas e entre a estrutura é fundamental para o funcionamento da linha de produção, além da manutenção dessas instalações determinarem que elas fiquem aparentes. A expedição, destinação e o tratamento de resíduos industriais também são estudados para evitar a contaminação do produto processado e do meio ambiente. Materiais termoacústicos são necessários para garantir a temperatura adequada à conservação do produto. Refeitório, vestiário, escritório, ou seja, espaços destinados a atividades exclusivamente humanas são apresentados por último pelo arquiteto, indicando que tais ambientes são acessórios ao espaço de produção.

Além das diretrizes projetuais serem determinadas pelas demandas da produção, o espaço concebido também precisa atender às exigências da fiscalização e vigilância sanitária do município, da Prefeitura, do Corpo de Bombeiros, da Federação Estadual do Meio Ambiente e do Ministério da Agricultura. Como arquiteto coordenador, ele participa de todas as etapas de produção do espaço, desde a concepção à execução. O arquiteto explica que o processo inicia-se com a demanda de produção, verbalizada através de quantidades de unidades produzidas em um dia de trabalho. Essa demanda é definida a partir de um estudo de

mercado, realizado por consultoria especializada, que quantifica a existência de demanda solvável pelo produto no mercado, ou seja, a existência de determinada quantidade de compradores dispostos a adquirir determinado bem. A partir desse número, os fornecedores de equipamentos definem o porte do maquinário, a linha de produção e as “utilidades” que o processo de produção exige, como ar comprimido, frigorífico etc. A capacidade produtiva diária define o número de trabalhadores da fábrica, o que possibilita ao arquiteto dimensionar refeitório, vestiários, escritórios e entradas. O dimensionamento do espaço produtivo, o galpão de fábrica, é definido em função do leiaute determinado pelo fabricante de equipamentos, que indica a área e o pé direito necessários para a produção. Outra informação importante para o arquiteto é a sondagem do solo, que indica a capacidade de carga do terreno e a presença ou não de água, além do relevo do terreno. As informações acima são reunidas em um projeto denominado “projeto conceitual”, que agrega todos os parâmetros projetuais determinados pelos vários técnicos envolvidos com o processo produtivo da fábrica, desde os fornecedores de equipamentos até o técnico engenheiro de solos.

A partir do projeto conceitual, o arquiteto desenvolve o projeto básico que em princípio contempla todos os parâmetros projetuais. O plano básico é enviado para todos os técnicos envolvidos, de modo que eles possam realizar os ajustes necessários. Após as interferências entre as áreas técnicas serem solucionadas no âmbito do projeto, o arquiteto inicia a última fase: o detalhamento das instalações prediais. Ele explica que o técnico que coordena um projeto industrial pode desempenhar três atividades. A primeira, projetar a forma que atende às necessidades funcionais da indústria. A segunda, coordenar o processo de produção do espaço, e para isso mantém um escritório dentro da obra. Essa coordenação é diferente da administração da obra. Essa última é de responsabilidade do engenheiro, que trabalha com planilhas de compras de material etc. A terceira, compatibilizar os projetos complementares ao da arquitetura, como o estrutural, elétrico, hidrossanitário etc. Cada atividade pode ou não ser contratada pelo cliente.

Os próximos arquitetos entrevistados executam a função denominada por Gorz (1996 [1974]) de segundo tipo, em que eles mesmos estão submetidos ao regime de controle hierárquico e de parcelamento de tarefas, tal qual o regime de trabalho de operários manuais.

Quando eles não exercem mais funções de chefia, mas tornam-se eles próprios produtores de mercadorias imateriais – planos e projetos, sistemas, procedimentos, etc.[sic.] – ou supervisores de processos autorreguladores, os trabalhadores

intelectuais parecem por sua vez proletarizados e alienados pela divisão parcelada de seu trabalho (Gorz, 1996 [1974]).

O segundo arquiteto projetou um galpão de armazenamento e expedição do produto acabado de uma indústria de cosméticos, numa área total de 5.000 metros quadrados e pé direito de 15 metros, localizado em Alvinopólis, município localizado há cerca de 150 km de Belo Horizonte O galpão foi executado em estrutura de aço, com vão livre de 40 metros entre os pilares e piso industrial de concreto protendito, que suporta uma carga de 12 toneladas por metro quadrado. Os parâmetros projetuais fundamentavam-se na agilidade de identificação da mercadoria, seu carregamento e descarregamento realizados por paleteiras e empilhadeiras e seu transporte até o setor de expedição, onde os caminhoneiros realizam o carregamento de sua carreta. O arquiteto trabalha na empresa de engenharia localizada em Belo Horizonte, que recebeu a encomenda de ampliação da indústria e realização das obras. A demanda de ampliação consistia de uma área de estocagem para abrigar os produtos, com as dimensões das ilhas de estocagem e dos corredores também definidas pelo setor de logística da indústria. De modo a possibilitar o livre trânsito de paleteiras e de empilhadeiras, a empresa solicitou que o galpão tivesse uma linha central de pilares. E a fim de agilizar o carregamento, a empresa definiu quatro portas, para atender dez carretas de uma única vez. Embora fosse mais rápido realizar o carregamento de produtos pela lateral, o objetivo da indústria era atender a maior quantidade de carretas, visando diminuir o tempo de espera na fila. Desse modo, a indústria optou pelo carregamento pela parte traseira da carreta.

Com o tamanho do galpão predimensionado pelo setor de logística, a atividade do arquiteto restringiu-se a estudar a implantação do galpão no terreno, a localização da portaria, as dimensões do pátio de manobra para possibilitar o estacionamento a 45 graus, além de projetar o escritório de expedição, os vestiários para os caminhoneiros, a sala de descanso e o refeitório. Nesse caso, diferentemente da revolta e da contestação que trabalhadores técnico-científicos expressam ao perceber que o seu trabalho tornou-se parcial (Gorz, 1996 [1974]), o arquiteto não verbalizou frustração por realizar a simples tarefa de elaboração do projeto de galpão, próxima do trabalho de um desenhista, por exemplo. Talvez, a ausência de contestação deve-se à dimensão político-ideológica embutida na função aparentemente técnica de projetar um espaço fabril, o que encobre a divisão hierárquica do trabalho e impede de ele reconhecer sua função na manutenção dessa divisão (Gorz, 1996 [1974]).

A última entrevista foi realizada simultanteamente com dois arquitetos, mãe e filho, que chamarei aqui de arquiteta sênior e arquiteto júnior. Os dois também desempenham a

segunda função do trabalhador técnico-científico, apontada por Gorz (1996 [1974]), que se resume à confecção de plantas e procedimentos técnicos parciais. A estratégia da mineradora que contrata a empresa que os recruta é a de fracionar o próprio espaço industrial, atribuindo a diferentes equipes de projeto o trabalho de conceber e desenhar espaços parciais. Além da parcialização das tarefas, há um novo componente no regime de trabalho, em relação aos arquitetos anteriores: a flexibilização dos direitos trabalhistas. A terceirização das relações de trabalho é um subproduto dessa flexibilização, própria do sistema de acumulação flexível, em que prevalece a tendência de grandes e médias empresas em concentrar suas atividades-fim e transferir suas atividades-meio para empresas menores, prestadoras de serviço. Portanto, os dois arquitetos atuam como prestadores de serviços, em conformidade com a tendência contemporânea de terceirização das relações de trabalho.

A demanda por produção de espaços nas usinas da mineradora surge a partir de uma carta- convite para participar de concorrência de prestação de serviços em projetos de arquitetura e de outros projetos afins. O que contempla todo o escopo de trabalho identificado pela empresa que realizou o estudo de viabilidade técnica e econômica para exploração de determinada matéria-prima, como o minério de ferro ou um sal mineral, por exemplo. Os projetos de arquitetura normalmente contemplam áreas administrativas, como escritórios, vestiários, restaurantes; áreas industriais, como oficina mecânica, almoxarifado, subestações, salas de controle etc.; além de áreas de controle ambiental, como os Depósitos Intermediários de Resíduos (DIR) recicláveis como metal, papel, plástico, PVC, lata de óleo, bateria, pneu, lâmpada etc e a Central de Materiais Descartáveis (CMD). Após o término do processo de licitação, é elaborado o documento denominado “dados básicos e critérios de projeto”, com o objetivo de ajustar o escopo de atividades iniciais e nortear as decisões projetuais de todos os profissionais envolvidos. Tal documento é denominado de projeto conceitual e contém a quantidade de edificações a serem projetadas; o dimensionamento de cada edificação, em função da quantidade de pessoas que irão trabalhar no local; o revestimento a ser empregado; as diretrizes das normas de segurança, de trabalho, de acessibilidade, de meio ambiente, bem como as diretrizes da normatização interna da mineradora, aplicáveis aos espaços em consideração; e os recursos necessários para o bom funcionamento das atividades, como o ar comprimido, ar-condicionado etc. O projeto conceitual é textual, contém poucos desenhos, em sua maioria, croquis que mostram o predimensionamento das edificações ou ilustram alguma diretriz projetual. De posse das informações, a equipe de arquitetos elabora o projeto básico, quando inicia a fase de compatibilização entre os projetos. Essa etapa é realizada pela equipe multidisciplinar e, segundo a arquiteta sênior, há o interesse de a empresa contratada empregar a ferramenta

REVIT para minimizar os retrabalhos. Esse software é uma ferramenta desenvolvida para a Modelagem de Informação da Construção (BIM), de modo que vários usuários podem atuar simultaneamente no mesmo modelo de construção, o que permite a “completa associatividade bidirecional, ou seja, qualquer modificação no projeto é atualizada instantaneamente, sem a necessidade de outro usuário realizar novamente a modificação, pois trata-se do mesmo modelo (Autodesk, 2013). Após a compatibilização, o projeto é detalhado pela mesma equipe ou por outra equipe de arquitetos. A etapa de acompanhamento de obras pode ou não ser contratada. Há situações em que os arquitetos podem ser contratados para prestar alguma consultoria, como por exemplo, para definição de área para construção de determinado alojamento; para prestar assessoria técnica para realização de auditoria de avaliação de projeto realizado por outra empresa contratada; para realizar uma pesquisa de obra análoga, de modo a conhecer o espaço similar a ser projetado. Essa sequência parcelada de atividades do arquiteto e seu desdobramento em tarefas executadas por equipes separadas, no tempo e no espaço, expressam a alienação do técnico e a necessidade de controle pela mineradora do processo de produção do espaço, com o objetivo de a usina “funcionar”. Ou seja, é imprescindível garantir a produção ininterrupta da usina, de modo a evitar “paradas” em função de possíveis “acidentes de trabalho” ou de “normas não atendidas por órgãos fiscalizadores”.

Por exemplo, tem vários projetos rolando, então eles escolhem... auditor geralmente já é pessoal de nível sênior que faz. E essa auditoria pode ser com um foco, por exemplo, numa edificação ‘eu quero que o escritório administrativo seja auditado’, ou ‘eu quero que o restaurante seja auditado, porque teve uma consulta prévia na Anvisa e a Anvisa fez uma série de comentários que não tá bom, ou não tá pertinente em alguns pontos, então eu quero que faça uma auditoria lá’, ou ‘eu quero que faça na oficina mecânica, quero ver se o que tá lá atende a demanda de número de operadores, de funcionários, de mecânicos e não sei o quê’. Então, tem muitas atividades que acontecem dentro de um projeto (Arquiteta sênior, 2013).

No entanto, os arquitetos entrevistados atribuem a parcialização dos projetos ao tamanho dos empreendimentos, que devido à escala enorme determina a separação em vários grupos de trabalho. Por exemplo, o atual projeto no qual a arquiteta trabalha exige uma equipe de dez profissionais de arquitetura e, até o momento da entrevista, planejou 70 prédios para um único empreendimento da mineradora. Apesar da parcialização das tarefas ser atribuída a uma questão puramente técnica, os arquitetos estão alienados do processo de produção do espaço e dos homens que trabalham nesse local, os usuários finais. No primeiro caso, a estrutura organizacional é fortemente hierárquica. Todo projeto tem uma gerência que administra uma equipe de engenheiros de projeto. Subordinados aos

engenheiros há os supervisores, que administram o trabalho da “força de trabalho mesmo”, termo empregado pela arquiteta sênior para se referir aos projetistas arquitetos e engenheiros e, em uma escala inferior, aos desenhistas. No segundo caso, os arquitetos desconhecem a “população” do espaço, termo empregado por eles. Importa saber se a edificação abrigará trabalho humano. “Esse prédio vai ter trabalho humano? Vai. Então, tem janela? Tem ventilação? Tem ar-condicionado? Como é que ele vai trabalhar? Como é que são as condições pro cara trabalhar?” (Arquiteta sênior, 2013); e a quantidade de pessoas que irão usar o espaço para fins de predimensionamento. Nesse sentido, os arquitetos adotam um discurso “pseudo-humanista”, a fim de justificar a função de sua profissão na produção do espaço da usina.

A "humanização" refere-se à melhoria das condições de trabalho, em que o arquiteto emprega recursos para iluminação natural, como a implantação da edificação no terreno em função da orientação solar, a ventilação cruzada, o sombreamento da fachada com o uso de brises, o acesso a vistas quando existem e isso é permitido, o sombreamento e a proteção de chuva do percurso de um prédio ao outro, a escolha de mobiliários com medidas ergonômicas, a especificação de materiais recicláveis e equipamentos com o uso econômico de água e energia, a criação de áreas de descanso e repouso etc. Nesse último caso, esses espaços surgiram do descompasso entre o tempo da norma da legislação trabalhista, que prevê uma hora de almoço para o trabalhador, e o tempo da norma da mineradora, que determina 20 minutos de almoço dentro do refeitório, para permitir o rodízio nas mesas entre os trabalhadores. Assim, além dos locais de permanência como salas de TV, jogos, leitura ou simples descanso, os arquitetos criaram praças nas áreas de entorno do refeitório para usufruto do trabalhador nos 40 minutos restantes de sua hora de almoço. No entanto, é o próprio arquiteto júnior quem revela a questão central por trás do discurso humanista, a despeito da sua necessidade de valorizar a profissão. “E o respeito tem aumentado cada vez mais, porque a fiscalização, as normas do trabalho estão cada vez mais presentes neste tipo de empreendimento. Então a preocupação tem vindo muito nesse sentido, e recai sobre o arquiteto e o engenheiro de Segurança” (Arquiteto júnior, 2013). Ou seja, a ideologia da humanização encobre a real questão por trás das decisões projetuais dos arquitetos, o planejamento das atividades dos trabalhadores, de modo que a produção de mineração não seja interrompida. A produção do espaço da usina fundamenta-se na lógica da produtividade capitalista e na exploração do trabalho material. A exemplo do