Partirei de meu ingresso, em 2008, no núcleo de identidades de Gêne- ro e subjetividades (niGs), vinculado ao Laboratório de antropologia social (Las) da UFsC, para rastrear o caminho entre as epistemologias feministas e a
história da antropologia na Índia. inicialmente, tentarei mostrar que esses rastros me conduzem ao que considero ser um dos eixos fundamentais de minha forma- ção durante a graduação: a constituição do campo da antropologia no Brasil.
na segunda fase do curso de graduação em Ciências sociais, quando pas- sei a integrar o niGs, ingressei em um grupo de estudos sobre Gênero e Ciên-
cia, no qual iniciei leituras acerca da crítica feminista à ciência e à antropologia
(CoRRêa, 2003; GRossi et al., 2006; sCHieBinGeR, 2001). Compreendi, ali, que os estudos feministas sobre ciência não se restringiam à condição das mulhe- res nesse campo (como poderíamos pensar, à presença de mulheres na ciência, ou aos saberes produzidos pelas ou sobre as mulheres etc.), pois falar de androcen- trismo na produção científica implica falar sobre etnocentrismo, racismo, colo- nialismo, entre outros aspectos que se expandem e se correlacionam de diversas formas. Compreendi, também, que a problemática das relações de gênero que permeiam a dinâmica própria ao campo científico não é apenas um desdobra- mento de alguma discussão epistemológica central, genérica, pois as questões de gênero são tão centrais na constituição da ciência quanto o debate sobre objeti- vidade, racionalidade e realidade, por exemplo. Compreendi que essa noção de generalidade na epistemologia, essa ideia de que haveria questões “universais” em oposição a questões secundárias (como gênero e raça) é, em si, um meio de marginalizar discussões que são fundamentais, como as relações de gênero, na produção do saber científico.
esse grupo de estudos se inscrevia num projeto mais amplo, intitulado Di-
cionário de Antropólogas2, que tinha como objetivo resgatar a trajetória de mu-
lheres antropólogas que, reconhecidas ou não, dedicaram-se a importantes pes- quisas e discussões teóricas em antropologia, além de terem realizado trabalhos inovadores em museus e instituições diversas. Latino-americanas, estadunidenses e europeias, eram muitas delas: negras, indígenas, pesquisadoras pioneiras que tiveram seus trabalhos ofuscados ou deslegitimados por diversas razões: por se- rem esposas de pesquisadores renomados (e, portanto, sendo sempre lembradas como “a esposa de...”, ou “a sra. ...”), por abordarem temáticas de pouco prestígio (como relações de gênero, às vezes), ou, que, mesmo vindo de uma condição so- cial confortável, eram discriminadas pelo fato de serem mulheres num espaço predominantemente masculino. nesse momento, fui bastante afetado por leituras
2 o projeto Dicionário de antropólogas surgiu através da participação do niGs na publicação da obra Dictionnaire des Femmes Créatrices, organizada pela Edition des Femmes de Paris. nesse con- texto, o niGs ficou responsável pela redação das biografias intelectuais de mulheres antropólogas a serem publicadas nessa obra. o lançamento do dicionário, com suas 4800 páginas, foi realizado em novembro de 2013.
Teoria feminista e produção de conhecimento situado
de autoras feministas que me ajudaram a teorizar sobre as histórias que estávamos recontando.
Cito, especialmente, a antropóloga brasileira mariza Corrêa (2003), que trata de jogar luz sobre a trajetória de algumas mulheres que contribuíram signi- ficativamente com a antropologia brasileira. Corrêa está preocupada em refletir sobre o que significou “ser mulher” no campo antropológico da primeira metade do século XX. Um dos capítulos de seu livro Antropólogas e Antropologia é intitu- lado “a natureza imaginária do gênero na história da antropologia”, onde a autora explora a ideia do “andrógino” para aludir ao modo como eram vistas as mulhe- res que rompiam com as expectativas socialmente atribuídas a elas no mundo do trabalho. ao borrarem as “separações simbólicas do que deveria estar unido, ou as uniões simbólicas do que deveria estar separado”, essas mulheres poluíam (DoUGLas, 1976) as definições de masculino/feminino.
Também, através das pesquisas das antropólogas brasileiras miriam Gros- si e Carmen Rial (2002; 2006; 2008), tive conhecimento das etnografias pioneiras que mulheres francesas, alunas de marcel mauss, realizaram no norte da áfrica em meados do século XX. além de etnógrafas, várias dessas mulheres desempenharam importantes funções em museus e universidades. Dentre essas mulheres, cito Ger- maine Tillion, que escreveu diários de campo sobre sua experiência nos campos de concentração nazistas dos anos 1940 (TiLLion, 1997), mas, também, textos pio- neiros sobre a condição das mulheres áfrica-mediterrâneas (TiLLion, 1970).
Por fim, evoco minha leitura da filósofa estadunidense da ciência Londa schiebienger (2001), que busca responder se a crítica feminista à ciência refletiu em mudanças significativas na constituição do campo científico e na produção de seus conhecimentos. ela realiza uma análise sistemática das transformações ocorridas em cinco campos da ciência (medicina, primatologia, arqueologia, físi- ca e matemática) a fim de evidenciar o alijamento das mulheres de laboratórios e projetos de pesquisa. Paralelamente, ela retraça os caminhos da crítica feminista nos estudos sobre a ciência ao longo do século XX. ao empregar o termo “cultura científica”, a filósofa denuncia a falsa separação entre público e privado, que cria as condições de produção de uma ciência androcêntrica, na medida em que essa separação dissimula o fato que atribuições associadas ao âmbito privado (ou seja, ao espaço supostamente “feminino”) são fundantes da produção científica.
Desse panorama emerge minha entrada no campo da história da antropo- logia e da epistemologia, em articulação com a crítica feminista. mas esses dois eixos, histórico e epistemológico, confluem, em seguida, num olhar um pouco mais etnográfico.
no ano de 2009, fui contemplado com uma bolsa de pesquisa que tinha por objetivo mapear a presença dos estudos de gênero nos cursos de graduação de santa Catarina. esta pesquisa, baseada em entrevistas com professorxs e alunxs de todo o estado, permitiu que eu cunhasse um saber sobre o campo dos estudos de gênero em santa Catarina, vivenciando a dinâmica acadêmica (teórica, políti- ca, burocrática etc.) das instituições que visitei. nesse momento, minhas leituras estavam voltadas para o ensino de antropologia e dos estudos de gênero (GRossi et al., 2006), além de me manter atento às questões referentes à constituição das Ciências sociais no Brasil (PRanDi, 1980; VeLHo, 2008).
Foi nesse ínterim, desde a perspectiva de gênero, que comecei a me interes- sar pela discussão sobre ciência e saber num sentido mais amplo. Comecei a me questionar sobre minha fala enquanto pesquisador, em suas implicações sociais e políticas. essa postura foi especialmente catalisada pela minha formação em antropologia, pois entendia que ela é a disciplina que requer e permite, por exce- lência, um diálogo efetivo entre distintos saberes, acompanhado de uma atitude autocrítica e reflexiva.
Portanto, meu interesse por questões epistemológicas, ou gnosiológicas – na falta de termos menos carregados por uma filosofia universalista e euro- cêntrica para pensar o conhecimento, apesar de haver tentativas interessantes de ressignificar esses termos (nUnes, 2010) – sempre se manteve vivo em minhas reflexões. Contudo, apesar de, desde cedo, ter visualizado na antropologia possi- bilidades palpáveis de praticar uma ciência mais autocrítica e de reconhecer seu engajamento em discussões acerca de metodologias mais simétricas e diálogos internacionais menos provincianos, minhas inquietações sobre o conhecimento antropológico continuavam. afinal, parecia-me que ele permanecia atrelado aos resquícios da história de uma ciência colonialista, androcêntrica e eurocêntrica (HaRDinG, 1996).
esta era também a perspectiva do projeto do qual participava como bolsista entre 2009 e 2011, intitulado Um olhar de gênero sobre a história e a transmissão
das antropologias contemporâneas em diferentes países do mundo (GRossi, 2010),
que teve por objetivo estudar a formação da antropologia em diferentes contextos nacionais, bem como a organização das instituições e políticas acadêmicas asso- ciadas a elas.
enfim, minha aproximação com a teoria pós-colonial foi decisiva para con- ceber novas possibilidades de fazer antropologia. Foi a partir da leitura da filó- sofa americana sandra Harding (2006), que, através da crítica feminista à ciência, mostra como as diferentes vertentes da teoria pós-colonial surgem para pensar a condição de inúmeros povos e sujeitxs sociais, que iniciei uma exploração mais sistemática dessa corrente. a autora esboça um interessante panorama do desen- volvimento das várias epistemologias feministas contemporâneas, de diferentes
Teoria feminista e produção de conhecimento situado
lugares, evidenciando as mútuas contribuições, críticas, divergências e heranças existentes entre elas. segundo ela, os estudos pós-coloniais, sendo orientados para a compreensão e o desenvolvimento de populações vulneráveis, dispensam grande importância às experiências de grupos inseridos em diferentes culturas. os estudos pós-coloniais contribuem à compreensão das relações entre o nível lo- cal e o nível global e, portanto, da inserção de pequenas comunidades na estrutura das instituições supranacionais e da economia política global.
além de minha formação teórica, remeto-me, também, à minha partici- pação como representante discente no Colegiado de antropologia desta univer- sidade, iniciada em 2010, que tem se mostrado um espaço privilegiado para a compreensão sobre como teoria antropológica, política, linhagens, subjetividades (até mesmo biografias) e performances se articulam de modo bastante refinado na constituição da disciplina e de um campo teórico. essa experiência me fez olhar com mais atenção para o que considero uma lacuna teórica do campo: a ausência de uma antropologia da Política que se volte à política antropológica, isto é, uma análise antropológica da constituição cotidiana, contingente e negociada do cam- po antropológico. Considero que seria um avanço significativo termos condições de realizar uma etnografia dos departamentos de antropologia, de modo seme- lhante ao que o francês Bruno Latour (2000) e o estadunidense Paul Rabinow (1996) têm feito nos laboratórios de ciências, ao seguir cientistas e engenheirxs na fabricação cotidiana dos “fatos científicos”. mas essa é outra conversa.
seguir xs cientistas em laboratório, bem como em reuniões departamen- tais, em suas universidades, em sala de aula e em eventos científicos tem me mos- trado que a constituição de uma disciplina não se dá apenas no plano abstrato do debate teórico – como usualmente aprendemos nas cadeiras de teoria antropo- lógica –, mas é, também, cotidiana, contingente, subjetiva, negociada e retórica. e, sobretudo, enfatizar que essa compreensão surge de minha formação nos estu- dos feministas. Resgatando minha trajetória acadêmica, pretendo sustentar mi- nha posição de que é através da articulação entre teoria, pesquisa, vivência de debates (políticos, acadêmicos e subjetivos) de pesquisadorxs e a experimentação da dinâmica acadêmica que pude construir um olhar próprio – mas dialogado – sobre o que considero as instâncias constitutivas de qualquer disciplina científica.