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Dans le document Rapport annuel 2012 Document de référence (Page 39-110)

manuela Carneiro da Cunha nasceu em Cascais, Portugal, no dia 16 de julho de 1943. os pais eram judeus húngaros que deixaram o país natal por causa da guerra. Depois disso, moraram em vários países. a falta de raízes da família em Portugal foi marcante na vida da antropóloga, desde o jardim de infância, onde estudou em um colégio inglês, depois na escola francesa, Liceu Francês, até a vinda para o Brasil, com 11 anos (PinHeiRos, 2009).

Chegando ao país, o pai da antropóloga conseguiu se estabelecer e progre- dir financeiramente. ao escolher a escola para matricular as filhas, optou pelo Colégio Roosevelt: a família achava que a manuela e as irmãs deveriam deixar os colégios estrangeiros e tentar criar raízes no Brasil. manuela Carneiro da Cunha detestou este colégio, assim como o próximo no qual estudou, Colégio mackenzie.

aos quatorze anos, a antropóloga mudou para um colégio do qual gos- tou, a escola de freiras Des Oiseaux, colégio da elite para mulheres de são Paulo. os pais da antropóloga, apesar de judeus, não eram praticantes e precisaram casar no religioso para que ela pudesse ingressar nessa instituição. Lá, manuela Carnei- ro da Cunha teve aula com renomados professores, como o arqueólogo Ulpiano Bezerra de menezes e a professora de Português Leonor Fávero (CaRneiRo Da CUnHa, 2007).

“meu pai queria que eu fosse médica – dizem que toda família judia gosta de ter médicos na família. então, eu me preparei para faculdade de medicina” (CaRneiRo Da CUnHa, 2007, p. 245). manuela Carneiro da Cunha nunca chegou a ingressar na faculdade de medicina. Junto com o terceiro colegial, a antropóloga fez o curso pré-vestibular e tentou o vestibular de medicina. Ficou como excedente, mas não foi chamada. Um ano depois se inscreveu para Física e foi aprovada em primeiro lugar. Por causa do grande número de greves na univer- sidade, o pai preferiu mandar manuela Carneiro da Cunha para França. Foi então que cursou matemática.

Lá, as disciplinas de Física e matemática eram ensinadas juntas, no primei- ro ano, e a estudante acabou se interessando mais por matemática e a partir deste interesse resolveu fazer matemática pura. Gostava, principalmente, de Lógica e de álgebra. essa trajetória de interesse entre as diferentes áreas do conhecimento continuou ao longo de sua carreira, e, no início da década de 1960, a antropóloga começou a se interessar pelo estruturalismo (CaRneiRo Da CUnHa, 2007b).

ainda na França, em 1963, a antropóloga se casou com seu primeiro ma- rido, marianno Carneiro da Cunha. o casal já namorava no Brasil e ele estava lá fazendo uma tese de assiriologia na École des Hautes Études.

Foi por ter feito matemática que a antropóloga foi aceita por seu grande incentivador, Lévi-strauss. Primeiramente, manuela Carneiro da Cunha teve que apresentar, em um seminário do professor, a tese de um canadense que aplicava ál- gebra no livro “as estruturas elementares do Parentesco”, clássico do Lévi-strauss. a antropóloga assistiu aos seminários por três anos, de 1967 a 1970. na École des

Hautes Études seguiu, também, outros cursos, como o ministrado pelo etnólogo

Hans Dietschy e o de Julian Pitt-Rivers (CaRneiRo Da CUnHa, 2007). em 1970, por pressão financeira dos pais, a antropóloga retornou, com o marido e filho, ao Brasil. Lévi-strauss contribuiu, ainda, com uma carta de apre- sentação que foi o passaporte da antropóloga. Chegando ao país, soube de um mestrado em antropologia na UniCamP. manuela Carneiro da Cunha foi da primeira turma de pós-graduação, que tinha como professores/as Peter Fry, Vere- na stolcke, antônio augusto arantes, Francisca Keller e Roberto Da matta (CaR- neiRo Da CUnHa, 2007).

Foi durante o mestrado que escreveu seu primeiro artigo, “Lógica do mito e da ação. o movimento messiânico canela”, enviado para Lévi-strauss que gos- tou e entregou para a revista L’Homme, onde foi publicado em destaque. no ano seguinte, manuela Carneiro da Cunha foi convidada para dar aula na UniCamP (LiUDViK, 2009).

inicialmente, o envolvimento da antropóloga com a etnografia aconteceu mais no campo bibliográfico, com ajuda do trabalho de Julio César melatti e de outras etnografias disponíveis. nessa fase, manuela Carneiro da Cunha ficou pou- quíssimo tempo fazendo pesquisa de campo, apenas três semanas na primeira experiência. em consequência desses estudos, escreveu Os Mortos e os Outros, oriundo de tese de doutorado, onde defendia que a lógica dos grupos amazônicos das terras baixas era diferente das sociedades africanas no que dizia respeito à morte (LiUDViK, 2007).

nos anos de 1975 e 1976, a antropóloga foi, com o marido e dois filhos, para a nigéria. a princípio, manuela Carneiro da Cunha foi acompanhar o cônjuge, mas resolveu desenvolver uma pesquisa própria sobre descendentes de escravos que re- tornaram à nigéria. Resultou desse trabalho o livro Negros estrangeiros (1985).

em 1980, o marido marianno faleceu, e a antropóloga abandonou este as- sunto por um tempo, voltando a retomá-lo no ano em que esteve na Universidade de Cambridge, de 1981 a 1982, resultando na tese de livre-docência da antropó- loga na UsP.

em 1978, a antropóloga foi presidente cofundadora da Comissão Pró-Índio em, são Paulo. nessa época, várias comissões pró-índio emergiram, houve uma

Teoria feminista e produção de conhecimento situado

grande mobilização popular por causa de uma proposta de lei encaminhada pelo ministro que propunha a emancipação dos chamados índios aculturados. a partir daí, a questão de identidade étnica, estudada por manuela, tornou-se uma ques- tão política central (PinHeiRo, 2009).

as décadas de 1980 e 1990 foram de intenso trabalho e reconhecimento para a antropóloga. De 1982 a 1984, manuela foi Chefe do departamento de antropolo- gia na Universidade estadual de Campinas – UniCamP. em 1982 foi, também, di- retora de estudos visitante na École des Hautes Études en Sciences Sociales. em 1985, foi professora visitante no museu nacional do Rio de Janeiro-mn/RJ e Presidente da associação Brasileira de antropologia – aBa, de 1986 a 1988.

em 1988, a professora fundou o núcleo de História indígena e do indige- nismo, na UsP, que dirigiu até 1994. De 1988 a 1990, foi representante da comu- nidade científica no Conselho Deliberativo do Conselho nacional de Desenvolvi- mento Científico e Tecnológico – CnPq. em 1990, foi Tinker Visiting Professor na Universidade de Chicago. De 1991 a 1993, a professora foi chefe de departamento de antropologia na Universidade de são Paulo – UsP. ainda em 1991 foi Diretora de estudos visitante no Laboratoire d‘Anthropologie Sociale do Collège de France. De 1993 a 2000 codirigiu o projeto coletivo intitulado “É possível populações tra- dicionais gerenciarem áreas de conservação? Um projeto piloto na Reserva extra- tivista do alto Juruá” (aCaDemia BRasiLeiRa De CiênCia). este projeto re- sultou na obra “enciclopédia da Floresta - o alto Juruá: práticas e conhecimentos das populações” (2002), organizado por Carneiro da Cunha e mauro Barbosa de almeida, seu companheiro atualmente.

a antropóloga ainda é membro do Conselho Diretor do Programa de Di- reitos Humanos na Universidade de Chicago desde 1997. Professora visitante na Universidade Pablo de olavide, sevilha, em 2000. Fellow do Center for Advanced

Study in the Behavioral Sciences, stanford, no período de 2001/2002. em 2001, foi

eleita para a academia Brasileira de Ciências. Recebeu, ainda, vários prêmios e homenagens nacionais e internacionais (CURRiCULUm LaTTes, 2013).

atualmente, manuela Carneiro da Cunha é leitura obrigatória não só para os pesquisadores do campo da etnologia, mas para todos os antropólogos. a pesquisadora continua politicamente atuante na defesa os direitos das popu- lações indígenas, nesse momento considerado por Carneiro da Cunha como um momento de “uma ofensiva sem precedentes no Congresso contra os índios”. Comprometimento político e a pesquisa acadêmica ética voltada para assegurar os direitos das populações pesquisadas mostram-se um importante legado dei- xado pela autora.

marilyn strathern: o nome que perdura na Antropologia

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