Developing a GUI Application Based on a Main Window
4.4 Making the Most of the Status Bar
4.4.3 Permanent Messages
Em janeiro de 1961, o então presidente dos EUA Dwight Eisenhower pronunciou seu famoso discurso de despedida. No discurso, o presidente exortava a nação a se precaver contra a crescente influência de setores da indústria armamentista associados a setores do governo. De acordo com Eisenhower, a formação de um “complexo militar-industrial”, termo por ele cunhado, poderia ameaçar as liberdades e os processos democráticos norte- americanos (EISENHOWER, 1961). Se o alerta no discurso de Eisenhower foi, até hoje, usado como indicativo do poder de influência da indústria militar nos Estados Unidos, a data do pronunciamento é especialmente relevante para o presente estudo.
No mesmo ano em que Eisenhower prevenia os norte-americanos quanto ao perigo do surgimento do “complexo militar-industrial”, em 1961, a CEA se torna a Dynalectron Corporation. A criação da nova marca significa que a empresa também se preparava para novos tempos. O novo nome foi escolhido a partir de mais de cinco mil sugestões dos funcionários da empresa. A ideia era atualizar o nome para um conceito abrangente, que representasse o crescente número de funções desempenhadas pela empresa, envolvida em funções muito mais diversas do que serviços aéreos, e que havia crescido para muito além da Califórnia (DYNCORP, 2015). Os anos 1960 seriam especialmente proveitosos para a empresa, que se tornou um dos principais prestadores de serviços para as Forças Armadas dos Estados Unidos no Vietnã.
A Dynalectron abandonou completamente os serviços de linhas aéreas que haviam sido a base da formação das empresas do grupo no pós-II Guerra. Os aviões da empresa, a maioria em contratos de lease para outras companhias aéreas, foram vendidos até 1961 (DEAN, 2008, p.109). O setor da empresa
associado a prestação de serviços militares seria o que passaria a dominar os contratos da empresa. A escalada da Guerra do Vietnã fez com que esse mercado se tornasse ainda mais interessante. Através de seus contratos de CFT junto a Força Aérea, a Dynalectron garantiu enorme presença no conflito que se desenvolvia. A grande dependência de apoio aéreo no Vietnã, demandou também grande quantidade de engenheiros e mecânicos para manutenção de aeronaves, principalmente helicópteros. A empresa era também responsável pela manutenção de veículos e equipamentos para o exército. Além das operações dentro dos aeroportos e bases aéreas, a empresa também se instalou de maneira independente em vinte e seis localidades no Vietnã.
The U.S. Army Mobility Equipment Command also awarded a $5 million contract to Dynalectron Corporation of Fort Worth, Texas, to provide maintenance and repair parts support. In May 1969, the firm began setting up shop at twenty-six locations in Vietnam, and its employees, numbering between 125 to 200 technicians, accomplished all unit-level maintenance and ran small repair parts distribution points at job sites for the 18th and 20th Brigade units. (TRAAS, 2010, p.419)
De acordo com os documentos de contabilidade para o período de auge da Guerra do Vietnã, a Dynalectron chegou a contar com 1056 funcionários no Vietnã em 1969, e os contratos da empresa somados chegaram a mais de US$18 milhões em 1970 (JLRB, 1970, p.252). Apesar da especialização em serviços para as Forças Armadas, a Dynalectron participou de outras funções no esforço militar no Vietnã. Durante os anos da guerra a empresa manteve um contrato junto à USAID para fornecimento de partes e manutenção para os equipamentos de construção empregados no Vietnã. Isso significa que os mecânicos da empresa e os setores de aquisições e distribuição eram responsáveis por toda a gama de equipamentos utilizados pelos EUA no Vietnã, sejam de uso civil quanto de uso militar. No entanto, a Dynalectron não era a única empresa a prestar esse tipo de atividade. Embora a empresa tenha sido a única a fornecer técnicos e mecânicos na Guerra do Vietnã no ano de 1966, a partir de 1967, a Lear Siegler também passa a fazer parte do conflito. A
partir de 1968 tamém a Lockheed também se torna uma prestadora de serviços no conflito (JLBR, 1970, p.253). A Vinnell também é igualmente citada como prestadora de serviços durante o conflito (TRAAS, 2010). Já é possível perceber, para o período da Guerra do Vietnã, o crescimento de um incipiente mercado para as PMSC.
Em 1964, a Dynalectron passa a atuar também no setor de serviços de energia, através da aquisição da empresa Hydrocarbon Research, Inc (HRI). A HRI era especializada em desenvolvimento de tecnologia e projetos associados ao setor petrolífero. A HRI tem histórico também relacionado ao Brasil. A empresa havia sido a responsável pelo projeto de engenharia, aquisição de equipamentos e construção da Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão, em 1952. Apesar de ausência de dados que apontem nesse sentido particularmente, é provável que os importantes vínculos da DynCorp no Oriente Médio e no norte da África tenham se formado nesse período, provenientes das conexões da HRI. Um cabo diplomático de 1973, por exemplo, dá conta de que a HRI mantinha operações na Libéria, um dos mais importantes palcos de atuação da DynCorp na década de 2000.26 O grande
patrimônio da HRI foi a descoberta de uma tecnologia de liquefação de carvão que gerou enormes receitas para a empresa a partir da subida de preços do petróleo por conta dos embargos promovidos pelos países produtores de petróleo nos anos de 1970. A tecnologia, chamada H-Coal foi adquirida pela Texaco, em 1981 (AXELROD, 2014). A aquisição da HRI permite perceber que a prestação de serviços militares era apenas parte das atividades da
Dynalectron, que apostava, no período, em diversificação de suas funções.
Em 1976 a Dynalectron, até então sediada em Fort Worth, no Texas, muda sua sede para o município de McLean, no estado da Virginia. O município é contíguo a Washington, District of Columbia, capital dos EUA. É em McLean que estão sediadas diversas agências do governo federal, notavelmente a CIA. McLean é também sede de diversas outras grandes empresas que se beneficiam da proximidade da localidade com a capital federal. Nesse momento a Dynalectron se reorganiza em quatro grupos de operações, de
acordo com as áreas nas quais a empresa se concentrou ao longo de sua trajetória. São eles: Specialty Contracting, setor que viria a se tornar posteriormente a DynCorp International, responsável pela contratação e disponibilização de pessoal especializado, por exemplo, em funções militares;
Energy, setor concentrado principalmente ao redor da HRI, que a partir da
Crise do Petróleo havia se tornado um dos principais braços da empresa;
Government Services, setor que se tornaria o braço principal da empresa com
o avanço dos processos de construção do Estado neoliberal,27 principalmente no setor de tecnologia da informação; e Aviation Services, a tradicional área de expertise sobre a qual a empresa foi erguida (AXELROD, 2014).
Um contrato específico da Dynalectron envolve uma função que se assemelha ao que se compreende nos dias de hoje como uma PMSC contemporânea. Ao longo de um período situado entre as décadas de 1970 e 1980 (as informações quanto à duração do contrato são imprecisas) a Dynalectron manteve um contrato junto ao governo da Arábia Saudita para fornecimento de pilotos de helicóptero.28 Esse é o primeiro caso registrado, no presente estudo, de que a companhia fosse responsável por disponibilizar pilotos para tripular aeronaves de combate. Apesar dos relatos de voos para as Forças Armadas norte- americanas durante a Guerra da Coréia, esse é o primeiro relato encontrado de pilotos da empresa operando voos militares para um cliente que não seja o governo dos Estados Unidos.29 É nesse momento que a empresa começa a
demonstrar o perfil que viria a ser classificado mais recentemente como uma PMSC. Apesar de já prestar uma série de serviços militares, esse é o momento identificado como crucial, já que os registros são de que a empresa fornecesse pilotos militares veteranos para operar equipamento militar de terceiros.
27 Para mais sobre esse processo, retornar à seção 1.1.2.
28 O caso dos pilotos na Arábia Saudita será discutido com mais detalhe no capítulo 3.
29 Existem poucos registros do contrato entre a Dynalectron e o governo da Arábia Saudita. A fonte de informações mais completa é o processo judicial contra a empresa movido por um dos pilotos que trabalhou na Arábia Saudita.
Os voos de helicópteros deveriam acompanhar as peregrinações a Meca. De acordo com as leis da Arábia Saudita, apenas muçulmanos podem entrar na cidade. Isso significava que apenas pilotos muçulmanos poderiam sobrevoar a cidade. O caso de assédio se desenrolou pois a Dynalectron fazia com que seus pilotos se convertessem ao islamismo, para que pudessem desempenhar o contrato junto à Arábia Sudita.
O processo de expansão da Dynalectron, que incluiu a compra de 14 empresas desde sua formação, foi impulsionado por duas grandes vendas de ações, em 1976 e 1981. Como já discutido na introdução, a hipótese apresentada é que parte relevante da legitimidade da qual usufruem as PMSC é derivada de seu caráter corporativo. O fato das grandes empresas militares serem companhias de capital aberto garantiria uma camada de transparência que diferenciaria essas empresas de exércitos privados, ou do que alguns autores denominam neo-mercenários. Embora seja fato que as empresas de capital aberto possuem mecanismos de prestação de contas que não estão presentes em empresas limitadas, isso não significa que as informações sejam de caráter público. As informações relativas às prestações de contas da Dynalectron nos anos 1970 e 1980 não estão disponíveis. Como será discutido mais detalhadamente no capítulo 4, a ausência de instrumentos de controle democrático, de transparência e de accountability são parte relevante do caráter distintivo das PMSC. A reestruturação da Dynalectron, que mudará seu nome para DynCorp e voltará a ser uma limitada, impulsionará as atividades da empresa para o novo período de enorme crescimento do “renascente” mercado da força no período pós-Guerra Fria.
2.1.4. A DynCorp e a formação do contemporâneo “mercado da força”