Para Delory-Momberger (2008, p. 114, grifos da autora), a escola traz para as crianças uma nova experiência “naquilo que constitui sua razão social, a transmissão de saberes ‘comuns’, reconhecidos além de uma esfera familiar ou local, que são os saberes instituídos e objetivados de uma sociedade e de uma cultura”. A criança é introduzida na cultura escolar, trazendo toda a diversidade cultural presente em seus diversos contextos de vida. Em função dessa diversidade, a escola, pensada a partir de uma filosofia da homogeneidade, se situa em meio a
124 um paradoxo, entre a própria cultura escolar (organização e estruturação do trabalho pedagógico) e a necessidade de diversificar o ensino.
Barroso (2012) problematiza o fato de as crianças serem submetidas a um tipo de organização pedagógica do ensino coletivo, que influencia a produção de uma “cultura da homogeneidade” dentro da escola. O que tira a flexibilidade do currículo, dificultando a introdução de mudanças que venham a garantir o reconhecimento e valorização da diversidade presente na escola. Essa “cultura da homogeneidade” que as instituições escolares propagam leva as crianças a adentrarem e absorverem uma cultura escolar distante de suas experiências de vida cotidiana fora da escola.
Sobre o comportamento na escola, mais uma vez as crianças narram o que se pode interpretar como “regras sociais”. Em suas narrativas, elas fazem muitas referências a um comportamento normativamente adequado. Com isso, entende-se que quando as crianças dizem para o Alien que na escola ele precisará “Estudar”, “Ler”, “Trazer caderno, lápis, borracha, livro”, ou ainda, “Ficar bem quietinho”, “Não dar trabalho”, “Não sair do canto”, “Prestar atenção”, elas expressam e reproduzem uma cultura escolar que se constitui de regras, atividades e objetos específicos desse espaço social que é a escola.
Como o Alien teria que se comportar na escola? [pesquisadora] - Estudar, ler. Ficar bem quietinho.
Hum, ele tem que ficar quietinho. E essas asas do Alien serviriam para quê aqui na escola? [pesquisadora]
- Pra ele voar!
E dá pra voar na escola? [pesquisadora] - Não! Não! Porque tem vento! E é proibido!
Vocês conseguem ficar bem quietinhos? [pesquisadora] - Eu fico bem quietinho!
- E eu!
(Carlos, Eduardo, Robson - Grupo 1 – Tabela 3)
O que é ser um bom aluno? [pesquisadora] - Se comportar bem.
- Não brigar. - Fazer as lições.
- Obedecer ao professor.
125 -Tem que ser um aluno educado.
- Não responder o professor.
- É... Um aluno que faz as tarefas todo dia e não responde o professor, e estuda muito.
(Larissa, Edina - Grupo 6 – Tabela 3)
As crianças projetam na conversa com o Alien o que elas internalizam como ações e atitudes mais aceitas na escola. A escola é lugar para estudar e aprender a ler. Essa é a definição social e culturalmente construída e disseminada pela própria organização dos sistemas escolares. É um lugar onde “voar não é permitido”, pois a ação de voar é interpretada como um comportamento transgressor. As normas de comportamentos aos quais tanto se reportam as narrativas das crianças, elas são organizadas e ensinadas no âmbito escolar pelos próprios atores organizacionais, em relação uns com os outros, com o espaço e com os saberes.
As crianças não hesitam em dizer que conseguem ficar bem quietinhas na escola. Talvez porque narrar o bom comportamento causa boa impressão. Comportar-se bem significa ser um bom aluno, educado, que não briga, obedece ao professor e realiza as tarefas propostas. Então, elas dizem ao Alien que são crianças bem comportadas e estudiosas. E é assim que o Alien deve ser também. Mas para isso, ele não pode voar na escola, deve sentar e estudar. Quando sair, ele poderá voar, mas na escola não, ela é fechada e, além disso, é proibido voar.
E o Alien poderia voar na escola? [pesquisadora] - Não!
- Pode porque ele tem asas. - Não! Porque a escola é fechada.
- Ele ia ter que sentar, e quando sair, voar. Porque na escola tem que estudar.
E o que ele vai fazer com essas asas se não vai poder voar? [pesquisadora]
- Cortar! (sorriem).
(Wigna, Lilian, Vera - Grupo 5 – Tabela 3)
É importante destacar na narrativa das crianças o quanto as regras de comportamento são marcantes nos processos de enculturação e aprendizagem na
126 escola. Observamos o quanto a escola se mostra como um sistema complexo de comportamentos humanos organizados, que são submetidos a regras de natureza impessoal, definindo a especificidade da forma de socialização escolar, cuja organização se volta prioritariamente para modos de ensino simultâneos: um professor, uma classe. Como afirma Canário (2008), ao fazer a crítica sobre a forma e organização da escola, ele salienta que a instituição escolar é uma invenção histórica que veio contribuir para a integração social, funcionando como uma fábrica de cidadãos, cujo objetivo assume a perspectiva de Durkheim para prevenir a anomia e preparar para a inserção na divisão social do trabalho. Nesse sentido, faz a crítica sobre a necessidade de repensar e problematizar a escola, cuja organização e forma “aparecem feridas de uma irreversível obsolescência”.
A escola rompe com os processos de continuidade de experiências vivenciadas fora da escola, para pensar a liberdade da criança, quando privada de qualquer realização independente. O Alien não pode voar na escola, porque a escola é lugar para estudar. A alternativa que resta ao Alien é a de cortar suas próprias asas, já que ele não pode usá-las na escola. Nessa perspectiva, a cultura escolar desconsidera as experiências vividas pelas crianças fora da escola, e que elas trazem consigo ao adentrarem no cotidiano escolar. As crianças são orientadas a seguir as regras da escola com objetivos de projetos futuros, negando a vivência do tempo da infância em sua plenitude.
A sobreposição do estatuto de aluno ao estatuto de criança (PASSEGGI
et. al., 2014b) decorre dessa cultura do universo escolar conservador, que faz a
brincadeira e a liberdade serem percebidas na escola como atos de indisciplina pela própria criança: “E à medida que a infância vai se distanciando, cada vez mais, elas vão organizando o enredo da história em que aprender e brincar são atividades diferentes, que acontecem em lugares e tempos diferentes, na escola... e, portanto, na vida”. (PASSEGGI et. al., 2014b, p. 96).
Diante do contexto apresentado nas narrativas das crianças, compreendemos que a brincadeira, a “zoada” (o barulho), o movimento das crianças nos momentos de recreios, ou nas ausências do professor, em sala de aula, são atitudes que fazem parte do ser criança. Dessa forma, entendemos esses momentos como expressivos de táticas “invisíveis” (CERTEAU, 2013) realizadas pelas crianças
127 e de seus despropósitos, que vão lhes permitir agir e, às vezes, impor as marcas das infâncias no espaço institucionalizado da escola.
Em suas narrativas, elas vão autobiografando como aprendem, sem jamais dizer que aprendem, o que lhes ensinam suas silenciosas táticas na arte de se manter crianças; tecer amizades; conviver com o outro; por em uso sua reflexão nos jogos entre eles e nos jogos de poder que experienciam nas brincadeiras, na reinvenção dos espaços escolares, movimentos nos quais se reinventam ao reinventar o tempo que passam na escola. (PASSEGGI et. al., 2014b, p. 98).
As táticas invisíveis e improvisadas das crianças, frente à cultura escolar, nos permitem percebê-las como partícipe do processo educativo, e não como mero observador, resultado ou produto. Consideramos que a experiência humana e individual passa pela vivência e aquisição de culturas, interferindo e jogando com as maneiras de utilizar a ordem imposta pelas regras sociais, instaurando pluralidade e criatividade num cotidiano educacional conservador.
5.3 Professores e amigos – as relações afetivas que marcam o processo