Quando perguntadas sobre o que gostam na escola, mais uma vez narram sobre as brincadeiras e as atividades lúdicas. O que mais gostam na escola é de brincar, pintar, desenhar e da hora do recreio, mas também incluem como brincadeiras escrever, aprender a ler. A partir dos objetivos e propósitos, ditados pela escola e reforçados pela família, nas narrativas das crianças o sentido de estudar é se preparar para o futuro. Mas é importante levar em conta a necessidade de a escola garantir às crianças momentos lúdicos no cotidiano escolar. Comungamos com Snyders (1993, p. 29), quando diz: “Eu gostaria de uma escola onde a criança não tivesse que saltar as alegrias da infância, apressando-se, em
135 fatos e pensamentos, rumo à idade adulta, mas onde pudesse apreciar em sua especificidade os diferentes momentos de suas idades”. As crianças gostam de brincar na escola, e como vimos, anteriormente, elas brincam num ato de “despropósito” em relação às injunções das normas da escola, aproveitando o espaço da sala para brincar quando a professora se ausente da sala de aula.
E o que vocês mais gostam na escola? [pesquisadora] - De brincar, de escrever.
- De brincar de esconde-esconde. De aprender a ler.
- Quando a gente fica em casa, sem vir pra escola, é ruim porque não tem nada pra fazer.
(Cláudia, Kely, Gaspar - Grupo 2 – Tabela 4)
O recorrente absenteísmo das crianças às aulas, especialmente, das crianças da comunidade do Arrojado, é relatado pelos professores e a direção da escola. Essa ausência surge em suas narrativas sobre a escola associada, de imediato, ao gostar da escola. A necessidade de dizer que não faltam às aulas, mesmo faltando, pode ser justificada como forma de amenizar o paradoxo entre a afirmação de que gostam de ir à escola e a ação de faltar aula com frequência. Embora, percebamos a estratégia utilizada por elas para justificar esse paradoxo, observamos nessas justificativas situações sérias: doença e perda do horário do transporte escolar.
Vocês gostam da escola? [pesquisadora] - Gosto! Não falto um dia.
- Eu faltei só um.
- Eu só falto quando tou doente ou, às vezes, quando eu viajo. - Eu faltei aula na escola duas vezes.
- Esse aí faltou 16 dias (aponta para H.).
- Ele faltou 16 dias porque a mãe dele, a avó dele tava doente, aí a mãe dele foi pro Riacho. Bem um mês.
- É que eu tava doente do joelho. A minha avó tava dormindo lá no hospital de Riacho.
- Eu só faltei duas vezes porque um dia tava com dor de barriga e o outro dia porque tava frio demais, e minha mãe esqueceu de lavar minha farda. Agora, quando eu tou aqui, eu não falto nenhuma vez.
136 As situações narradas sobre suas faltas são de fato denúncias que as crianças fazem sobre a ausência de assistência à saúde para o povo do campo, que, muitas vezes, necessitam buscar atendimento em outras cidades. Elas denunciam igualmente que não existe acompanhamento nem por parte da escola, nem por parte do poder público, suscetíveis de providenciar condições mínimas de atendimento e acompanhamento de saúde das crianças que adoecem e se ausentam das aulas.
De maneira geral, entendemos que as crianças desejam que o pesquisador e o Alien compreendam que quando faltam às aulas não significa que elas não gostem da escola, mas que motivos alheios à sua vontade incidem sobre sua assiduidade. Dizem gostar tanto de ir à escola, que quando os professores fizeram greve, elas não gostavam de ficar em casa por não poder ir à escola. Afirmam que estavam dispostas a aceitarem a transferência de suas matrículas para escola da cidade, como forma de não parar de estudar e nem de ir à escola. Nesse sentido, podemos inferir que a confissão do gosto pela escola está atrelada ainda à performance de ser bom aluno, que não falta aula, revelando o quanto incorporaram a sobreposição do estatuto de aluno ao de criança.
- No dia que tava em greve, eu não gostei. Minha mãe ia me botar pra rua, só que não tinha mais vaga.
- Também. Eu só falto quando tou doente.
- Eu também. Eu só faltei cinco dias porque eu tava com dor na barriga, inchada, aí fui pra Pau dos Ferros.
(Duda, Jean, Marta, Raul - Grupo 4 – Tabela 4)
Encontramos ainda outro tipo de denúncia nas narrativas de Sandro,
Hudson, Márcio, Tainá, Valéria, William, Lilian e Vera, crianças da comunidade do
Arrojado. Elas justificam suas faltas recorrentes às aulas por perderem o transporte escolar. O ônibus não vai até a comunidade, pois as ladeiras de acesso dificultam o acesso até lá. De modo que, conforme já dissemos anteriormente, as crianças do Arrojado para ter acesso ao transporte escolar, sobem e descem ladeiras de aproximadamente dois quilômetros e por essa razão, arriscam-se a perder o horário de saída do carro. O tempo e as condições de percurso residência-escola-residência
137 das crianças do Arrojado se diferenciam daqueles das demais crianças, colocando- as na condição de crianças faltosas.
- Às vezes eu perco o carro.
- Tem vez que perco o carro também.
(Sandro, Hudson, Márcio - Grupo 2 – Tabela 3) Vocês faltam aula? [pesquisadora]
- Nunca faltei! Valéria já faltou!
- Porque perdi o carro, e já faltei também porque estava doente.
(Tainá, Valéria - Grupo 3 – Tabela 3) - Eu já faltei!
- Eu só faltei no primeiro bimestre.
- Às vezes a gente perde o carro, e às vezes, a gente tá doente.
- Eu faltei o primeiro bimestre porque perdi duas vezes o carro, e uma vez, eu tava doente.
- Eu nunca perdi o carro.
(Willian, Lilian, Vera - Grupo 5 – Tabela 3)
As crianças também sinalizam, hesitantes, que “às vezes” faltam aula por não sentirem vontade de ir à escola e que desejam ficar em casa brincando. Mas avaliam que faltar aula é “ruim”, pois não aprendem nada quando não vão à escola. Dizer que é “ruim” faltar à escola pode ser interpretado de pelo menos três maneiras: seja como estratégia de (auto)convencimento, que enaltece e reproduz o discurso socialmente construído sobre a importância de frequentar a escola seja como a emergência de sua inserção social na cultura escolar e a “promessa” de garantia de um futuro melhor e exitoso; seja pela perda do convívio e das brincadeiras com os amigos e as amigas.
- Ah, às vezes vocês perdem o carro, aí não vêm. Então faltam por isso? [pesquisadora] (Acenam que sim). Só quando perdem o carro ou tem dia que vocês dizem assim “Não, hoje eu não vou pra escola. Hoje vou ficar em casa, vou brincar.” (Ficam se olhando). Tem dia que é assim? (Acenam que sim). - É ruim.
Por que é ruim? [pesquisadora] - Ah, porque eu não aprendo nada.
138 Essa narrativa nos leva a pensar sobre o paradoxo que permeia a imagem que transmitem as narrativas das crianças sobre a escola: a escola é um lugar “chato” e enfadonho, mas necessário para quem quer mudar de vida, importante para a mobilidade social. Assim, a escola não se apresenta somente como obrigação, mas também, e especialmente, como necessidade.
Por último, ressaltamos que não identificamos, nas narrativas das crianças sobre o cotidiano escolar, nenhum elemento que apontasse alguma diferença, ou algo específico da prática pedagógica, relacionado à particularidade de uma escola do campo. Destacamos apenas o fato objetivo de existir uma turma multisseriada, e que não apresenta nada de específico que atenda essa realidade no que se refere à dinâmica pedagógica. A escola do campo pesquisada segue o modelo de cultura escolar e dos padrões de organização pedagógica institucionalizados pelos sistemas de ensino na zona urbana e na cultura escolar de modo geral.