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Figura 22– Corpos hierárquicos

a) b) c)

d) e) f)

Fonte: a autora (2018).

A relação hierárquica foi apreendida como traço nos anúncios observados através da percepção da disposição das figuras femininas e masculinas e os tamanhos de suas imagens quanto à diferença de estatura – homens são mais altos do que as mulheres. Se isso ocorre na composição entre os elementos gráficos da representação imagética, tal fato sugere hierarquia porque, na encenação, a altura pode conotar relações de poder. De acordo com Goffman (1987, p. 28, tradução da autora), “uma maneira pela qual o peso social, poder, autoridade, hierarquia, cargo, renome é propagado expressivamente na situação social é através do tamanho relativo, especialmente da altura”.

No anúncio da Studio Ideare (Figura 22a), o enunciador traz à esquerda o texto “Não fique aí sonhando, chegou a hora de planejar sua casa!”, e à direita a figura de um casal, em plano médio, enquadramento por trás, da cintura à cabeça, com ângulo mais baixo em relação ao assunto. A mulher está abraçando o homem, apoiando a sua cabeça nele, ambos estão com os braços e mãos erguidas sugerindo a projeção de um ambiente. A personagem tem cabelos louros e lisos, cor de pele branca e corpo magro, usa camiseta branca e presilha nos cabelos.

Essa posição é semelhante àquela imagem do anúncio de um evento no Teatro Riachuelo, em que a personagem feminina está atrás do homem, apoiando-se nele com os braços, em plano médio, com a diferença de que o enquadramento é frontal, da cabeça à cintura,

ângulo igual em relação ao assunto e olhando para o observador da imagem. Em seguida, do lado direito, o enunciador diz “Teresa Cristina canta Noel. Batuque é um privilégio”, seguido do contato do teatro. No dois anúncios, as cores predominantes são a branca, a cinza e o vermelho, com diferença nas tonalidades. O branco possui associação afetiva com simplicidade, nesses casos seu uso pode representar um espaço dando destaque para os personagens e para a mensagem textual. Enquanto o vermelho é mais conotado, pois é uma cor considerada “quente e bastante excitante para o olhar, impulsionando a atenção e adesão dos elementos em destaque. O vermelho ainda remete à festividade, no sentido da comemoração popular” (FARINA et al., 2006, p. 99).

De acordo com Goffman (1987), quando um anúncio publicitário traz um homem junto com uma mulher, no geral eles são mais altos do que elas também por causa das características físicas e biológicas dos corpos, considerando que em algumas sociedades a mulher tem menor estatura do que o homem. Quando se quer retratar a superioridade do homem e a inferioridade da mulher nos anúncios, é possível dispor suas figuras em cena pelas relações de altura – o que pode retratar tanto diferenças de gêneros como de classes sociais, por exemplo, patrão e empregado. Isso significa que esse recurso é usado para a distinção entre dominante e dominado.

Nesse sentido, a posição de apoiar o corpo no outro também é predominante, cabendo à mulher fazê-lo, com o seu corpo menor do que o do homem. De acordo com Goffman (1987, p. 55, tradução da autora), “o ombro seguro tem configurações assimétricas, mais ou menos exigindo que a pessoa segurando seja mais alta do que a pessoa segura, e que a pessoa segura aceite a direção e restrição”. Ainda, segundo o autor, o arranjo parece ser irreversível, já que “quando empregado por um par adulto cruzado, o sinal parece ser usado para indicar a capacidade proprietária sexualmente potencial” (GOFFMAN, 1987, p. 55, tradução da autora).

Noutros anúncios (figuras 22c, 22d e 22f), observa-se outra configuração, em que a hierarquia está associada também às relações de trabalho. No anúncio da Uninassau, o enunciador traz os personagens no lado esquerdo da imagem, com a mulher sendo a primeira na ordem de leitura, mas não no primeiro plano. Ela está olhando para o observador, atrás de um homem, mãos em posição de zíper enguiçado, em plano médio com enquadramento frontal mais oblíquo, da cabeça à cintura, ângulo igual em relação ao assunto e usando jaleco branco.

O anúncio posiciona à direito o enunciado “Medicina é na Uninassau”, seguido de descrições da infraestrutura e datas das provas do vestibular, publicizando a oferta de vagas para o curso de Medicina. Os médicos retratados na imagem, que chancelam a instituição, são identificados por legendas próximas aos seus corpos: a mulher, uma radiologista; os homens,

um coordenador do curso de Medicina e um cardiologista. Nesse anúncio, a figura feminina foi visibilizada dentro de um contexto profissional, porém ela não se destaca entre as demais figuras masculinas.

No anúncio do Centro de Ensino de Tecnologias – CENTEC, o enunciador traz, à esquerda da imagem, o texto “Escolha sua área e torne-se um profissional de sucesso”. A palavra “sucesso”, que está grifada, significa, segundo o Dicionário Aurélio (FERREIRA, 1993), acontecimento, ocorrência, resultado, conclusão, resultado feliz, que alcança grande êxito, de largo prestígio e popularidade. Em seguida, há um homem em primeiro plano, usando uniforme azul escuro, capacete e segurando uma corda. Em segundo plano, há uma mulher que usa o mesmo traje, enquadrada em plano médio, lateralmente, da cabeça à cintura, em ângulo igual em relação ao assunto, olhando e segurando um objeto em um cenário que aparenta ser o local de trabalho deles.

O enunciador procura vender os cursos diversos, nas áreas de elétrica, mecânica, eletrônica, edificações, informática, refrigeração, gestão de negócios, segurança do trabalho, meio ambiente e saúde. Essas áreas são, geralmente, ocupadas por homens, ou seja, são profissões que, culturalmente, podem ser vistas como masculinas. Desse modo, nota-se uma relação que representa um discurso vigente. Na sociedade, há padrões de discriminação e estigmas que se refletem nas instituições de ensino. Para combater isso, formam-se organizações como a ONU Mulheres, que combate desigualdades e promove a equidade de gênero, incentivando escolas e universidades a atuarem em favor das estudantes, ampliando oportunidades para as mulheres em áreas tecnológicas e de exatas. Assim, esse cenário tem mudado, pois, segundo o Censo da Educação Superior14, houve um aumento no percentual de mulheres nos cursos de superiores de Engenharia Civil. Em 2015, as mulheres representavam 30,3% das matriculas no curso, e 26,9% dos profissionais no mercado.

Na publicidade do Curso Mauhel, o enunciador diz “Seja sargento do Exército. 1000 vagas. Ambos os sexos. Edital publicado”. Os dez personagens, expostos em sequência, estão abaixo do texto, sendo duas figuras femininas, uma na extrema esquerda e a outra na extrema direita da imagem – duas mulheres e oito homens. As personagens usam camisetas em tom azul escuro, com a sigla ESA (Escola de Sargento das Armas) do exército brasileiro na cor vermelha. A primeira personagem, da esquerda, está séria e com a boca fechada, a segunda, da direita, está sorrindo. Quanto ao posicionamento, ambas estão em plano médio, com enquadramento

frontal mais oblíquo, da cabeça aos seios, ângulo igual em relação ao assunto, em um cenário artificial, com bandeiras do Brasil, que ilustra um campo de batalha.

O anúncio do Curso Mauhel, como o do Centec, representou as mulheres em situação de minoria, dessa vez na área das Forças Armadas15. Como foi observado, de dez personagens, apenas duas mulheres compõem a peça, refletindo as situações sociais em que esses espaços continuam dominados por homens. Associa-se também o estigma cultural amplamente repercutido de que a mulher é o sexo frágil e, por isso, deve restringir suas atividades a ocupações consideradas leves.

Nos anúncios, observa-se uma incongruência no tamanho das personagens, em que os homens são, naturalmente, maiores do que as mulheres. Isso é percebido, por exemplo, no anúncio da Escola Preparatória para o Enem, da Universidade Potiguar (figura 22f). Do lado direito da peça há o dizer “Você com tudo no Enem”, no centro dois personagens, um masculino e outro feminino, além de uma ilustração de outro homem. Há, ainda, o enunciado “7 aprovados em Medicina. Mais de 35 no SISU”, à direita do anúncio. Em geral, sabe-se que os homens são fisicamente maiores do que as mulheres – 13 centímetros em média16 –, e o anúncio em questão segue essa tendência, representando o homem com mais altura. Porém, pode-se questionar: foi uma escolha do enunciador trazer a mais baixa? E se ela fosse mais alta do que ele, que sentido teria? Passaria ileso ao olhar do observador? Acredito que não, visto que, como aponta Goffman (1987), em algumas situações sociais o tamanho pode ser uma influência, como na interação entre pais e filhos em que a própria biologia assegura que o peso social seja indexado pelo físico.

Para o autor, na interação entre os sexos, a possibilidade biologicamente fundamentada é de que todo participante masculino será maior do que a participante do sexo feminino (GOFFMAN, 1987). Dessa maneira, entende-se que o tamanho relativo foi empregado como base para simbolizar status e diferença hierárquica entre o homem dominador e a mulher subordinada, dado pela seleção social de função em que cada um representa em cena e pela seleção biológica por causa da altura natural.

15 Ministério da Defesa criou, em 2014, a Comissão de Gênero da Defesa (portaria nº 893), com o objetivo de propor e estudar ações para efetivar os direitos das mulheres e a igualdade nas Forças Armadas.

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