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Aldir Blanc, certamente, foi um personagem de suma importância para a trajetória musical de Guinga. Um dos mais importantes letristas da Música Popular Brasileira, pode ser considerado um dos responsáveis, ao lado de Paulinho Albuquerque, Vitor Martins e Ivan Lins, pela guinada na carreira musical do violonista no começo dos anos 1990. Foge aos propósitos deste trabalho tecer detalhes da biografia de Aldir Blanc, inclusive, porque já existe um amplo material disponível a esse respeito. O objeto principal neste momento é destacar de que forma se estabelece a parceria entre Vitor Martins, Aldir Blanc e Paulinho Albuquerque, assim como investigar em quais pontos a conexão entre Guinga e Aldir Blanc foi relevante para que a carreira do compositor pudesse obter a projeção que se conhece hoje. Depreende-se, baseado na verificação da produção que foi gerada com essa parceria, que esse encontro significou uma grande injeção de ânimo para ambos. Guinga, nesse período, encontrava-se desanimado com sua carreira musical, pois, depois de tantos anos acompanhando artistas, tocando e compondo, nesse cenário ainda não havia alcançado resultados realmente expressivos em termos de reconhecimento. Já Aldir Blanc buscava uma nova parceria musical, após ter rompido com

João Bosco por volta de 1983. Segundo CABRAL(2003), o violonista Raphael Rabello foi o responsável por aproximar os dois, na década de 1980, embora Guinga e Aldir já tivessem se encontrado antes, nos anos 1960, na casa de Aluisio Portocarrero, avô do compositor Daniel Gonzaga, apesar de não terem se falado com maior profundidade nesta época. Ressalta-se, aqui, a ocasião em que Rabello apresentou Aldir Blanc a Guinga, conforme CABRAL(2003):

Guinga e Paulo César estavam presentes no último LP de Clara Nunes, Nação, gravado em 1982, com a música Cinto Cruzado. Na festa de lançamento do disco, Guinga seria apresentado pelo violonista Raphael Rabello a Aldir Blanc, com quem comporia grande parte da sua obra e que seria um dos principais responsáveis pela gravação do primeiro disco inteiramente dedicado a ele. Aldir já estava alerta em relação ao talento do futuro parceiro, desde a advertência feita pelo próprio Raphael: “Você precisa conhecer o Guinga” (CABRAL, 2003: 13).

A parceria entre os dois não se estabeleceu de maneira imediata, embora Aldir já estivesse provavelmente observando o trabalho do violonista. Foi somente em meados de 1988, em uma noite do verão carioca, que Guinga finalizou os atendimentos mais cedo, em seu consultório de odontologia no bairro do Grajaú, e foi para a Tijuca, onde Aldir o esperava em seu apartamento. Com esse encontro entre os dois, definitivamente, a parceria começaria a acontecer. É importante citar que:

Durante cinco horas ininterruptas Guinga tratou de mostrar seu Moët et Chandon, deixando transbordar cerca de 30 canções. Tocou choros e valsas de sua autoria, sob o olhar aturdido de Aldir. O poeta da Muda conhecia Bolero de Satã e Punhal, esta gravada por Clara Nunes, e só. Guinga desfiou uma sequência que Aldir batizaria de “derruba-letrista”. Guinga soluçou e sorriu de soslaio. Estava consumado o encontro que viria a ser uma das mais aplaudidas parcerias da música brasileira (MARQUES, 2002: 51).

Assim, após esse encontro, no final da década de 1980, Guinga passou a trabalhar de maneira sistemática com Aldir Blanc. Entretanto os primeiros resultados parecem não ter sido muito animadores, já que a primeira composição não agradou a dupla. MARQUES(2002) evidencia que Aldir teria escrito a história de uma doméstica da Rua Santa Clara, em Copacabana, que costumava presenciar fenômenos sobrenaturais. Embora tenham ficado incomodados com o resultado irregular, continuaram insistindo. Posteriormente, fizeram Esconjuro, que foi gravada por Leila Pinheiro em seu disco Outras Caras, de 1991, que traz também a composição Noturna. A faixa Esconjuro também foi gravada por Sérgio Mendes, em seu disco Brasileiro, de 1992. A próxima composição foi Lendas Brasileiras, que acabou sendo gravada por Chico Buarque no disco de estreia de Guinga.

O encontro com Aldir balançou Guinga, que passou a criar desmedidamente. Aldir acompanhava. As melodias surgiam aos borbotões. De uma só vez nasceram mais de 20. Entre elas, Delírio Carioca, que acabou dando nome ao segundo disco, lançado em 93, e Vô Alfredo, que só foi registrada por Guinga em “Cine Baronesa”, em 2001. Catavento e Girassol, a música mais cantada da dupla pelo Brasil, foi também a mais ouvida, a mais curtida, a mais pensada (MARQUES, 2002: 56).

Aldir Blanc, maravilhado com as composições intrincadas com as quais estava trabalhando, passou a comentar com diversas pessoas do meio musical sobre a produção que começava a se desenhar ao lado de Guinga. Com certeza, Aldir Blanc era muito bem relacionado e mencionou o nome de Guinga para muitos contatos. A sua propaganda gerou efeitos muito positivos, a divulgação realizada pelo letrista teve um papel importante para a entrada de Guinga na gravadora Velas. Sobre este aspecto, deve-se frisar:

A entrada de Aldir Blanc na carreira de Guinga é dotada de um significado importante, injetando sangue novo nas veias do compositor. Esta parceria iniciou-se em 1988 para 89, período onde a dupla teve uma produção extremamente fértil. Fátima esclarece essa história. Segundo ela, ocorreu uma abertura, uma janela que se abriu na vida de seu marido. Aldir, encantado com Guinga, passou a falar do compositor para todo mundo, afirmando sua genialidade, o que apareceu em diversos jornais. Isso propiciou as condições para que Paulinho Albuquerque, junto com Vítor Martins e Ivan Lins, chamasse Guinga para gravar um disco. Assim, na década de 90, Guinga viabilizou sua carreira de compositor como artista de palco e de disco (CARDOSO, 2006: 52).

É fato que, nessa época, o violonista e o letrista produziram bastante. Como se nota, os dois primeiros discos de Guinga, basicamente, são compostos de parcerias assinadas pela dupla. Porém, MARQUES(2002) evidencia que como no começo da década de 1980 havia acontecido entre Aldir Blanc e João Bosco, em meados de 1999, o relacionamento entre Guinga e Aldir Blanc estremeceu bastante em razão de uma reportagem assinada pelo jornalista Luís Antônio Giron, publicada na Gazeta Mercantil, em que ele fez críticas à poesia de Aldir, o qual já havia pedido a Guinga que fosse cauteloso em suas declarações à imprensa e, por isso, teria ficado bastante magoado com o acontecido. Além disso, Aldir considerava que muitas de suas letras não eram utilizadas nos discos de Guinga. Mal-entendido semelhante havia acontecido, alguns anos antes, entre Guinga e Paulo César Pinheiro, um dos seus mais essenciais parceiros, antes da fase com Aldir Blanc, à época da divulgação do disco Simples e Absurdo:

O sucesso do disco também o levou a ser muito procurado pelos jornais e, numa das entrevistas, ocorreu aquela tragédia que costuma ser fatal para políticos e, às vezes, embaraçoso para artistas como ele: o entrevistado pensa uma coisa e diz outra. É que falando sobre a sua fase com Paulo César

Pinheiro, comparando-a com a que vivia com o novo parceiro Aldir Blanc, disse, entre outras coisas, que custara a perceber que Paulinho tinha a carreira dele e que precisava que ele, Guinga, tivesse a sua. O problema foi que, para explicar tal ponto de vista, acabou falando outras coisas que desagradaram inteiramente Paulo César Pinheiro. Resultado: fim da parceria (CABRAL, 2003: 14).

Por esse momento de tensão na relação entre os dois, nos momentos seguintes Guinga procurou ampliar o número de colaboradores, como, por exemplo Nei Lopes, Celso Viáfora e Mauro Aguiar. Contudo fica evidente que a contribuição que Aldir trouxe à carreira de Guinga teve suma importância para que o compositor tivesse o reconhecimento e prestígio que alcançou nos anos subsequentes, dado que foi um dos responsáveis por sua entrada na gravadora Velas, além de ter gerado um saldo enorme de músicas compostas. Contudo, enquanto os dois primeiros discos de Guinga foram trabalhos recheados de composições dessa dupla, a partir do terceiro trabalho, Cheio de Dedos, as parcerias foram ampliadas, trazendo novas cores para as composições de Guinga.

3. ANOS 1990: A CRISE NO MERCADO FONOGRÁFICO BRASILEIRO E

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