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par Gilbert Lascault

Dans le document Hiver 2017 (Page 55-58)

Em um caminho inverso do que fez Erikson, ancorado na sociologia enquanto buscava na psicanálise uma ferramenta útil para seus propósitos hermenêuticos, um proeminente estudioso e político britânico encontrou no psicanalista de origem vienense o fundamento teórico para abordar sua inquietação acerca das vicissitudes do que chamou de “modernidade tardia”. Anthony Giddens, especialmente em virtude de suas obras As consequências da modernidade (1990) e Modernidade e autoidentidade (1991), convida- nos a um breve resgate de seu ideário tanto por sua influente reflexão acerca da importância da autoidentidade quanto pelo uso particular que faz de Winnicott.

Em As consequências da modernidade, Giddens (1990) reflete acerca dos mecanismos da formação do self, gravitando em torno do conceito de confiança (trust), a saber, a convicção na continuidade do self e na constância do mundo social circundante.

123 A confiança no mundo social é – em termos sociológicos e psicológicos – intimamente articulada com a confiança em um nível pessoal, estruturante do que o autor chama de autoidentidade (self-identity), a qual, por sua vez, é a base essencial para o envolvimento criativo nos contextos mais amplos e inquietantemente fluidos da modernidade.

Distintamente da fé (confidence)35, a confiança (trust) é tida pelo autor como um

fenômeno especificamente moderno; é de praxe considerar, conforme vimos, que o indivíduo neste determinado contexto histórico e a partir do Ocidente, passa a ser o fiel da balança em um cálculo em que antes pesava mais a natureza ou o coletivo. A noção de confiança (trust), escreve Giddens (1990),

originou-se com a compreensão de que resultados não-previstos podem ser uma consequência de nossas próprias atividades ou decisões, ao invés de expressões de sentidos ocultos da natureza ou das intenções inefáveis do Divino. (p. 30, grifos nossos)

Frente às vicissitudes do Destino e do inefável, o indivíduo pré-moderno, com efeito, não estava sujeito ao risco – visto que o campo imaginário em que o risco está envolvido não era sequer constituinte do indivíduo, assim como sua própria subjetividade não era organizada individualmente da mesma forma que a de um sujeito moderno –, mas à fortuna, ao acaso. “A confiança (trust) pressupõe uma consciência das circunstâncias de risco, algo que não é necessário à fé (confidence)” (p. 30), segundo Giddens (1990).

O sociólogo concordaria com Marshall Berman (1988), um dos grandes narradores da aventura da modernidade, quando este afirma em Tudo que é sólido se desmancha no ar que a modernidade é “luta por mantermo-nos em casa em um mundo que muda constantemente” (p. 6). O homem moderno, aos olhos de ambos os estudiosos, é como um indigente sem sustentáculos fixos em entidades transcendentais, que deve encontrar (e aqui se localiza a normatividade mais específica a Giddens que a Berman) na reflexividade característica dos sistemas especializados e de sua própria autoconsciência a oportunidade de “se sentir em casa”. Nesse sentido, o conforto da previsibilidade e a segurança da continuidade e dos fenômenos asseguram o sentimento de pertença e rotina estilhaçados pelo domínio antropocêntrico do mundo. Como sintetizou Cunha (2009),

35 O leitor deve notar que optamos por traduzir confidence, cuja versão mais imediata seria “confiança”,

que causaria confusão conceitual, pelo sentido secular de “fé”, de um engajamento solene não necessariamente em uma deidade.

124 O indivíduo, perdido nesse espaço vazio, sem pontos de ancoragem ou um sistema absoluto de organização do real (como era a religião para as sociedades tradicionais), precisa estabelecer novos contextos de confiança, bem como novas modalidades de relação com o tempo, além de definir estratégias para encontrar e afirmar seu posicionamento no mundo, frente ao outro e a si mesmo. (p. 32)

A confiança é tanto uma particularidade da modernidade quanto o risco e a consciência do mesmo. O risco advém do fato de que a maioria das contingências que afetam a atividade humana, com o crescente estabelecimento do domínio da natureza pelo homem, são também criados por estas mesmas atividades humanas. Deus e a natureza saem de cena, e os efeitos do domínio antropocêntrico invadem inclusive o que era antes ameaçador e imprevisível, abarcando-o na promessa da rotina e previsibilidade dos sistemas abstratos.

Ligada também à contingência, no caso particular da confiança em pessoas – e especialmente na atitude de previsibilidade das primeiras figuras de cuidado e o estabelecimento da presunção da honra ou do amor –, assim, a confiança pode ser definida como

a confiabilidade (reliability) de uma pessoa ou sistema, relativo a um conjunto de consequências ou eventos, nos quais a confiança expressa uma expectativa na probidade ou no amor de um outro, ou na exatidão de princípios abstratos (conhecimento técnico). (Giddens, 1990, p. 33, grifos nossos)

É justamente apoiado nesta compreensão da confiança que emerge, em Giddens (1990, 1991), seu conceito de autoidentidade – junto ao acréscimo do conceito de “segurança ontológica”, originalmente tributário de Ronald Laing (1973). O sociólogo compreende a autoidentidade como uma narrativa estruturada do Eu, capaz de estabelecer a continuidade entre passado, presente e futuro com base na contínua experiência da confiança em um cuidador primário, à presunção do amor que vimos acima. Neste movimento, Giddens (1990) se apropria do conceito de identidade conforme compreendido por Erikson. “O trabalho de Erik Erikson”, escreve o autor,

oferece uma grande fonte de insights acerca da importância da confiança no contexto do desenvolvimento infantil. O que Erikson chama de “confiança básica” (basic trust), ele demonstra, está no âmago de uma identidade do ego duradoura. Ao discutir a confiança na infância, Erikson

125 chama a atenção para aquele elemento necessário da convicção que aludi anteriormente. (p. 94)

Em suma, a confiança estabelecida na primeira relação de amor é crucial para enraizar no sujeito a segurança ontológica, a qual predomina sobre a angústia tanto no suporte à fragilidade do infante quanto na posterior confiança nos sistemas abstratos e na autoidentidade.

Winnicott é referenciado em As consequências da modernidade muito brevemente, justamente no contexto em que Giddens (1990) disserta sobre a importância de Erikson para da autoidentidade. Assimilado sem muita diferenciação ao grupo dos teóricos das relações de objeto, o psicanalista inglês parece importante ao sociólogo justamente na composição de sua noção de confiança, dado que para ele o espaço potencial winnicottiano (Winnicott, 1971/2005b) “se refere à capacidade do infante de tolerar a ausência do cuidador tanto no tempo quanto no espaço” (Giddens, 1990, p. 96), ou seja, de confiar que ele irá voltar em algum momento. Mesmo que, conforme veremos mais à frente, trate-se de uma leitura unidimensional do espaço potencial, ela harmoniza bastante bem com a sugestão de Giddens de que a gênese de uma confiança duradoura é relacionada ao atravessamento do primeiro cenário de imprevisibilidade e transparência, sob o pano de fundo do amor.

Em Modernidade e autoidentidade, o tratado central de Giddens (1991) sobre a importância da narrativa de si coerente em face dos perigos da modernidade tardia, o sociólogo novamente se voltará a Winnicott para buscar os fundamentos de sua conceituação. Sua leitura do psicanalista inglês, nesta obra, é ainda mais indissociável da tríade que este compõe com Erikson e Laing, cujo ponto fulcral segue sendo o estabelecimento da confiança tanto em si mesmo e na continuidade da experiência do self quanto na confiança nas relações primárias, que pagam com cooperação e amor o tributo que impõe a necessidade do infante de repetidamente encontrar o objeto de satisfação de suas necessidades. “Quero argumentar que a confiança que a criança, em circunstâncias normais, escreve Giddens (1991),

investe em seus cuidadores, pode ser vista como uma espécie de inoculação emocional contra as angústias existenciais – uma proteção contra ameaças futuras e perigos que permitem ao indivíduo sustentar a esperança e a coragem face a qualquer circunstância debilitante que ele possa vir a confrontar. A confiança básica é um dispositivo de triagem em relação aos riscos e perigos nos cenários circundantes de ação e interação.

126 É o suporte emocional principal de uma carapaça defensiva ou um casulo protetor que todos os indivíduos normais carregam com eles como as formas de lidar com as tarefas do dia-a-dia. (p. 39)

Na apropriação que Giddens faz da psicanálise winnicottiana, a confiança e os fenômenos transicionais ao operarem como “dispositivos de triagem” contra a angústia, funcionam por meio da rotinização do cuidado para sustentar o chamado “casulo protetor” (protective cocoon) para o self em sua relação com o mundo. Uma triagem contrária aos movimentos do inconsciente, através de um reforçamento da autoidentidade que funciona, finalmente, como um obturador de angústia (bracketing of anxiety). Novamente, para Elliott (2015), em Giddens,

o postulado de um self relativamente estável, ancorado em sua reflexividade, é uma precondição para qualquer engajamento duradouro e significativo com a cultura contemporânea. Quer dizer, um sentido de identidade pessoal coerente é essencial para navegar entre os riscos vertiginosos e as oportunidades da modernidade tardia. Esta posição coloca Giddens em oposição às correntes teóricas do pós-estruturalismo e do pós-modernismo, as quais, ao contrário, teorizam um “sujeito descentrado”, profundamente fragmentado na e através da linguagem. (p. 72)

Eduardo Leal Cunha (2009), atento às correntes teóricas supracitadas, aponta que, no sociólogo britânico, é patente a marca da vontade de domínio sobre si mesmo e sobre a natureza de modo a garantir, através da razão, a previsão e o controle – o que se desnuda através da obturação da angústia (bracketing of anxiety). Tal vontade de domínio sobre si e sobre a natureza é, para o autor, colonizadora, na medida em que tenta imprimir sobre o Outro e sobre o mundo a coerência e a previsibilidade que se pressupõe ser fundamental para o domínio de si e as garantias ortopédicas da autoidentidade.

Ainda segundo Cunha (2009), o efeito disso é que o risco, característico da dita fluidez da modernidade, deve ser domesticado, na medida em que se vincula a uma perda de controle e uma falha nos sistemas desenvolvidos para controlar a natureza. Eticamente falando, implica no “controle sobre o saber [como] uma forma privilegiada de domínio do outro”, efetuando-se sempre “em alguma medida, um ato de submissão” (p. 36). Em termos intrapsíquicos, pressupõe-se aquilo que vimos sinalizando há algum tempo: a possibilidade da domesticação daquilo que Winnicott chamou de “dúvidas sobre o self” (Winnicott, 1991), priorizando a integridade e coerência da narrativa autoidentitária de si e o afastamento da angústia que, para Giddens (1990; 1991), associa-se ao próprio risco

127 que a modernidade oferece a estas pressuposições normalizantes. “Inteiramente circunscrita à racionalidade moderna de fundo iluminista”, escreve Cunha (2009),

tal leitura da experiência subjetiva acaba por colocar como matriz da insegurança, e portanto da angústia, a dúvida, a incerteza, o desconhecimento e, porque não dizer, a inconsciência. (p. 39)

Voltando à linguagem e às noções que desenvolvemos nos capítulos anteriores, é possível dizer que a apropriação de Winnicott feita por Giddens (1990, 1991) se volta contra as características que atribuímos ao núcleo do self, quais sejam, a recusa do princípio de realidade, a comunicação silenciosa com objetos subjetivos e a ausência de forma. A maneira com que o sociólogo inglês se apropria das noções winnicottianas parece reduzir as ideias do psicanalista à valorização da estabilidade egoica e da adaptatividade harmônica e transparente característica do pensamento de Erikson.

Na opinião do próprio Elliott (2015) a leitura que faz Giddens da psicanálise se mostra unilateral na medida em que ela, na maioria de suas versões, não dispõe uma versão assim tão demasiadamente “normalizada” do self. Mesmo que Winnicott não represente imediatamente a posição daqueles que teorizem “um ‘sujeito descentrado’, profundamente fragmentado na e através da linguagem” (p. 72), sua teoria do sujeito se adequaria à proposição giddensiana de caracteres imunizadores tais como a “obturação da angústia”, “inoculação emocional” e o “casulo protetor”? O juízo do próprio Elliott é de que não.

Para ele, a teoria psicanalítica, “incluindo a versão winnicottiana da teoria das relações objetais [grifos nossos]”, radicalmente questiona se o self pode ser normalizado dessa maneira. Ao contrário, na visão do autor, “Winnicott frisa a natureza fraturada e dividida da experiência do self”, este que, em seus termos, nunca está livre da tarefa de relacionar os mundos interno e externo, significativamente “sempre sujeito à dissolução através da fragmentação e do medo inconsciente” (Elliott, 2015, p. 73, grifos nossos). Mesmo assim, Giddens (1990; 1991) não oferece nenhuma consideração sobre isso.

O efeito dessa apropriação de Winnicott no pensamento ético-político faz um autor como Cunha (2009) classificar o psicanalista inglês como oponente no debate contemporâneo acerca da desconstrução das identidades, como se ele próprio fosse partidário da obturação da angústia (bracketing of anxiety), termo que usa Elliott (2015)

128 para resumir o afastamento da angústia e da indeterminação na teorização da identidade em Giddens.

Dado o percurso da subjetivação em Winnicott e a cisão generalizada no self, quando da entrada do sujeito na relação com a externalidade enquanto objetos objetivos e o estatuto do self nuclear que apresentamos nas partes anteriores desta pesquisa, como poderíamos repensar a questão da identidade junto ao psicanalista? Antes de propormos nossa própria resposta a esta questão, sigamos pensando em outra vertente de apropriação contemporânea das ideias do psicanalista inglês, qual seja, o conceito de reconhecimento.

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