Em relação à Participação/Envolvimento e Iniciativas, como na Socialização/Interação nos grupos, as professoras utilizaram as mesmas afirmações para alunos diferentes56. O foco da avaliação esteve na participação dos alunos nas atividades, entendida como facilidade/dificuldade na resolução de atividades propostas, dependência/independência da resolução, interesse (ou não) nas atividades propostas, assiduidade ou não do(a) aluno(a), dificuldade de concentração durante as aulas ou se o aluno conversa durante as aulas, como se observa na tabela 6:
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Os termos “adequado(a)” e “inadequado(a)” aparecem entre aspas como crítica, pois referem-se a padrões de “certo” e “errado” que dependem do ponto de vista de quem os emite.
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È importante destacar que é difícil variar a redação das fichas de avaliação quando são avaliados os mesmos aspectos em diferentes alunos. Aliás, a padronização e a operacionalização são bem-vindas para evitar que sejam utilizados padrões de “certo” e “errado”.
Tabela 6 – Participação/ Envolvimento e Iniciativas
AFIRMAÇÕES PERCENTAGEM
Participa das atividades propostas 21%
Não consegue participar das atividades propostas 16%
Conversa muito/ Brinca muito durante a aula 15%
Demonstra interesse em situações de registro/ situações de escrita 9% Apresenta interesse em situações de leitura/ participa das atividades 9% Demonstra interesse em investigar, explorar e observar 6%
Interesse pelas aulas de informática 6%
Falta muito às aulas 6%
Dificuldades de concentração/ Distrai-se com facilidade/ Disperso(a) 6%
É assíduo(a) 3%
Demonstra interesse nas atividades de pintura, desenho e modelagem 2%
Demonstra apatia ao realizar atividades de escrita 1%
Fonte: Elaborada pela pesquisadora.
As professoras apenas registraram os fatos, destacando a participação ou não dos alunos nas atividades propostas. Em nenhum momento, apresentaram por escrito alguma referência à qualidade dessa participação nas atividades. Além disso, a avaliação, como no aspecto anterior, esteve baseada nos resultados visíveis da aprendizagem dos alunos, como se pode verificar nos seguintes exemplos:
- Precisa de ajuda do professor ou de um colega para realizar as atividades. - Apresenta dificuldades na resolução de certas atividades
- Realiza as atividades com independência. - Participa das atividades de leitura.
Ao descrever os resultados visíveis da aprendizagem e as dificuldades apresentadas pelos alunos, as professoras dão o aluno como responsável pela situação de sua aprendizagem e essa como individual, fruto do esforço pessoal. Desse modo, precisar de ajuda da professora ou dos colegas é considerado negativo, pois as professoras não reconhecem a relação de pares enquanto condição para produção de conhecimento. Em contraposição, Góes (1997) aponta que a construção de conhecimentos é um processo constituído nas relações
sociais. Segundo a autora: “(...) o conhecer tem gênese nas relações sociais, é produzido na intersubjetividade e é marcado por uma rede complexas de condições culturais.” (1997,p.14)
Constituída nas relações sociais, a produção de conhecimentos é atravessada por conflitos e confrontos inerentes às relações. Nesse sentido, Góes afirma que “(...) a ajuda do parceiro é, muitas vezes, acompanhada de intensas manifestações de avaliação das capacidades da criança, o que faz com que a construção de conhecimento envolva qualificações e desqualificações unilaterais ou mútuas.” (1995, p.24)
Como afirmado, as professoras tendem a “imaginar” um relacionamento harmônico entre elas e seus alunos e desses entre si. Quando isso não acontece, a avaliação é negativa. Desse modo, comportamentos como conversar muito e brincar durante a aula são vistos pelas professoras como inadequados e, segundo elas, estão relacionados ao mau desempenho dos alunos nas atividades propostas. Da mesma forma, a timidez é vista como algo que atrapalha o desempenho dos alunos. Os exemplos abaixo confirmam essas afirmações:
“Conversa muito durante as aulas e mostra-se muito inquieto, prejudicando um melhor desempenho na aprendizagem.”
“Apresenta dificuldade na resolução de certas atividades. Conversa muito e mostra-se inquieto em sala, o que vem prejudicando um melhor desenvolvimento cognitivo.”
“Apresenta dificuldades na resolução de certas atividades. Conversa muito e mostra-se inquieto durante as aulas. É alheio à aprendizagem, não tem interesse, deixa atividades incompletas, sem pretensão de concluí-las.”
“A aluna tem encontrado dificuldades para se expressar na oralidade, suas idéias e opiniões, devido à timidez.”
Dessa forma, pode-se pensar que as professoras querem que os alunos participem das aulas, mas essa participação só é considerada “adequada” quando o aluno realiza as atividades (sozinho) ou responde aos questionamentos do professor. Tanto as conversas paralelas quanto o silêncio (mesmo devido ao que consideram timidez) são tratados como influência negativa no desempenho dos alunos.
Já foi afirmado que as professoras consideram a aprendizagem como fruto do esforço individual. Ou seja, para aprender basta se esforçar e se dedicar às atividades propostas, sendo que os professores, os colegas e as condições de ensino não interferem no resultado. Como exemplo dessa crença temos:
“O aluno demonstrou grande esforço na aprendizagem, por isso o crescimento é visível. Participa das atividades propostas com dedicação.”
Ainda em relação à figura 3, as professoras apontaram o interesse do aluno em relação à leitura e à escrita, mas sem discussão sobre esse interesse. O que significa demonstrar interesse em situações de escrita e leitura? Significa deslumbrar-se com a magia da leitura e as infindáveis possibilidades da escrita ou significa realizar as atividades no tempo esperado, sem apresentar dificuldades? Significa copiar do quadro, sem refletir sobre o que se está escrevendo? Significa participar de atividades monótonas, de repetição e desvinculadas da vida? Infelizmente, as últimas perguntas parecem mais próximas da realidade, pois as atividades escolares referentes à leitura e à escrita ainda estão relacionadas à decodificação e à cópia bem como a exercícios de memorização, o que, muitas vezes, interferem na motivação e participação dos alunos.
As professoras também apontaram se os alunos eram assíduos ou se faltavam muito às aulas. Aliás, o mau desempenho de alguns alunos foi atribuído às suas inúmeras faltas. Porém, não estava registrada nas fichas de avaliação a preocupação em compreender o porquê das faltas, utilizadas simplesmente para justificar o mau desempenho. Aqui,
novamente, pode-se perceber que as professoras atribuíram ao aluno a responsabilidade por sua aprendizagem. Para aprender tem que freqüentar a escola, comportar-se bem e ter um bom relacionamento. Enfim, o aluno deve se adequar à cultura escolar.
Em relação à Participação/Interação nos grupos, as professoras tinham expectativas em relação aos alunos e, quando essas expectativas não se realizavam ou se realizaram de maneira diferente do esperado, elas avaliaram seus alunos negativamente. Mais uma vez, buscavam alunos com participação que consideravam “adequada” e os que fugiram desse padrão foram considerados “maus” alunos.