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5.1. Overview
Dando prosseguimento à tarefa de estabelecer de modo lógico a questão do sujeito na análise, Lacan retoma nesta lição sua aproximação com a lógica de Frege, para avançar na seguinte afirmativa: a neurose é
essencialmente feita da referência do desejo à demanda, de modos
distintos na neurose obsessiva e na histeria. Ele procura esclarecer esse efeito de desconhecimento, de negação do sujeito frente a sua determinação nessas duas estruturas clínicas.
Numa primeira etapa ele elabora as fórmulas que demonstram a posição do sujeito na estrutura, ele é o que um significante representa para outro significante. Este primeiro significante que representa o sujeito é um significante recalcado, equivalente ao traço unário, até ligar-se a um segundo significante, que é representado por SA. O “A” atrelado a este significante serve para lembrar sua relação com o Outro, representa todo o conjunto de significantes que podem se ligar àquele que representa o sujeito. É frente ao Outro que o sujeito se reconhece, a partir de Seu desejo, e ao mesmo tempo, em que passa a se desconhecer, por se alienar nos significantes do Outro, fixando uma determinada posição. Pode-se expressar esta condição ambivalente do sujeito na estrutura por uma representação algébrica, a fórmula: ̅ .
Uma fórmula em que o sujeito do inconsciente tem por predicado uma disjunção (ou... ou...) entre a negação de S (o traço sobrescrito representa a negação e indica que ele está recalcado) e o S com o índice do Outro – remete ao inconsciente e ao saber, S2. Um sujeito dividido
entre dois significantes, do mesmo modo que se pode na lição anterior representar esta divisão por meio da sentença “todo homem é sábio”, sob a fórmula de uma relação disjuntiva entre “não homem” e “ser sábio”: ̅ .
Lacan identifica na histeria a autenticidade da primeira fórmula, por ser uma estrutura clínica em que o significante primeiro não está apenas no esquecimento, mas também na ignorância de esquecer, pois ele se faz cena, realiza o teatro da histérica. Por outro lado, na segunda fórmula, o obsessivo extrai este significante primário enquanto a sua verdade, sua definição, contudo, ele o faz sob uma negação (Verneinung), ao anunciar ele não “ser” justamente o que diz, sustentando uma pretensão de ser outra coisa. Por isso, no obsessivo o sujeito ($) não se institui por uma relação com o predicado, ficando oculto, como na fórmula do “todo homem é sábio”: ̅ . Ou seja, ele se desconhece enquanto sujeito ao denegar o que é, posição que Lacan
considera sincera por parte do neurótico obsessivo, porém, que comporta um engano do sujeito em tentar se sustentar no primeiro significante, ele se confunde com o significante “homem”.
Para agregar um passo nesta elaboração lógica, Lacan opera com a Conceitografia (Begriffsswchrift),o sistema de notação criado por Frege para apresentar expressões lógicas e suas relações. Lacan, como não podia deixar de ser, é o seu estilo, toma esse modelo de escritura ao seu modo, de tal maneira, que a edição francesa considerou fazer um anexo noticiando suas diferenças. Desta vez Lacan explica à sua plateia o sistema de notação fregeana, podendo ser claramente compreendida ao longo da lição, no entanto, incluiremos, neste momento, a tabela comparativa entre a lógica de Frege e a de Lacan para que o leitor possa notar o que o último acrescenta:
Lacan não pretende ser fregeano, e por isso pode se permitir utilizar de seu sistema como lhe convém, a fim de atender os seus interesses em definir a qualificação do psicanalista. Acima, temos os itens básicos deste sistema de notação em Frege, cuja explicação pode ser acompanhada no artigo “Sobre a finalidade da conceitografia” (1882-83), que traremos agora. A primeira imagem, na primeira linha, diz que uma proposição “p” com certo conteúdo se representa por um
traço horizontal. Para dizer que esta proposição é correta precisamos
introduzir um sinal que indique a presença do julgamento de “verdadeiro”, “asserível”, por meio do traço de juízo (Urteilsstrich), o traço vertical no início do horizontal. Assim, pode-se dizer a asserção “p”, pois é uma proposição válida, categórica.
Na terceira linha, aparece um traço sob a linha horizontal, que representa a negação do conteúdo expresso pela asserção “p”, um modo de expressar a negação de “p”. Não apenas isto, nos traços horizontais que possuam uma concavidade, a posição do traço de negação modifica a sentença, permitindo produzir todas as posições criadas por Aristóteles, àquelas que conjugam o universal ou o particular, com a afirmação ou a negação.
Quando se quer relacionar dois conteúdos corretos, ou seja, duas asserções, isto é feito pelo acréscimo de uma linha horizontal paralela que representa a segunda proposição, como na quarta linha da tabela acima: “se q então p”. O que significa que “p” apenas é válido caso “q” também o seja, o traço de implicação é o que conecta as duas sentenças, expressando a relação causal entre elas. A validade da segunda asserção determina a validade da primeira, por isso, “se q então p”.
E ainda, como vemos na segunda linha das representações lacanianas, pode-se introduzir a negação em diversos pontos de uma sentença, marcando por meio da referencia a um elemento novo (no caso, “x”), ou mesmo, estabelecer uma negação entre sentenças como um todo, ou ligada a um determinado elemento. Deste modo, é possível expressar uma relação de negação entre partes de uma sentença em relação à outra, ou mesmo, negar as duas sentenças.
O último elemento do sistema de notação fregeana é o uso da
concavidade (Höhlung) na linha horizontal e que serve para “confinar a
generalidade a uma parte do juízo” (Frege, 1882-83, p.78), ela contém uma letra qualquer que serva para indicar, representar o conteúdo a que se limita a generalidade, o valor universal. Frege utiliza letras góticas em seu interior para definir qual parte do “conteúdo” é abrangido na fórmula entre duas proposições, demonstrando como emerge a subordinação entre os conceitos. O uso da concavidade é essencial nos
juízos com múltiplas generalizações em que é necessário identificar apenas uma delas, destacar na relação entre proposições apenas um único conteúdo.
Retornemos a lição, na página 231, em que Lacan estende as explicações sobre a lógica fregeana, apresentando dois tipos de relação entre sentenças, uma chamada de condicional (conditionelle) e o seu contrário:
Nota-se que a diferença no modo de representar as relações é apenas o ponto de início da relação entre sentenças, a posição do traço de implicação em referência a concavidade, ao que Lacan diz: “não é a mesma coisa dizer que, se alguma coisa é verdadeiro, nós enunciamos que o homem é sábio, ou que. se uma outra coisa é verdadeira, é verdadeiro que todo homem é sábio. Há um mundo entre as duas coisas” (p.231). No primeiro raciocínio, a validade de uma primeira sentença condiciona uma sentença particular; no segundo, a validade de uma sentença condiciona a verdade de uma asserção universal. Então, segundo Lacan, a concavidade acima contém o termo “todo” que possibilita expressar relações de modo particular ou universal, conforme o local em que incide o traço de implicação.
Mas é a introdução da dupla negação que interessa a Lacan, do mesmo modo que, na lição anterior, ele demonstrou como sua introdução numa proposição de existência, ou seja, particular, produz uma sentença universal. Apenas para recordarmos: de “há homem tal que seja sábio” para “não há homem tal que não seja sábio”, como equivalente a “todo homem é sábio”. Ou seja, por meio da dupla negação pode-se extrair, de uma expressão existencial, uma afirmação
universal.
Do mesmo modo, Lacan considera importante observarmos as variações que a palavra “todo” conserva, pois serve tanto para expressar uma ideia de número, de unidade (omnis), como também para expressar algo inteiro (totus), integro. Esta diferença notável nos termos em latim
se perde tanto no francês como no português, o que produz uma sensação de se estar falando da mesma coisa ao se dizer “todo”, causando uma impressão de inteireza ao que é da ordem do contável. Quando a confusão ocorre com o sujeito, isso tem consequências, como se verifica no exemplo: “todo sujeito” – expressão que pode significar o
conjunto dos sujeitos, no sentido de qualquer sujeito; como também, um
sujeito pego em sua totalidade, permitindo que “ele possa se pensar como sujeito do conhecimento, como suporte eventual, por si só, de alguma coisa que é todo” (p.233). Em outras palavras, dizer “todo sujeito” recai no mesmo engodo presente em “penso, logo sou”, um engodo essencial do sujeito, pois mostra que ele se afirma em ser todo.
Preparado o terreno lógico, chega à sentença:
O sujeito só se institui como representado por um significante para outro significante (S e S1) e que entre os dois, ao nível da repetição primitiva que se opera esta perda, esta função do objeto perdido, ao redor do qual, precisamente, gira a primeira tentativa operatória do significante, aquela que se institui na repetição fundamental (p. 233-34). Isto é, a introdução de um significante para o sujeito vem a ser uma resposta ao traumático encontro com o sexual e, no deslizamento para um segundo significante, acaba instaurando a repetição, assim deixando entrever como uma perda, na passagem de um para o outro, o objeto a. A insistência em situar o sujeito por meio dos significantes reitera a função do objeto a, mas que se sustenta como uma falta a ser recuperada no trajeto, sentença que Lacan expressa “fregeanamente” do seguinte modo:
O objeto a está aqui no mesmo lugar e no mesmo sentido do “todo” da afirmativa universal “todo homem é sábio”. A confusão entre a acepção “qualquer sujeito” e “o sujeito inteiro” aponta o movimento de busca de completude do sujeito, em encontrar o objeto a, a partir do qual ele se tornaria “um” na relação sexual, seria “todo”: “é o princípio pelo qual se institui a ilusão de busca pelo objeto perdido, na função intermediária do objeto a, entre o significante original enquanto um
significante recalcado, e o significante que o representa numa substituição que instaura a repetição” (p. 234).
Então, a confusão que o “todo” induz encontra apoio e expressa a relação do sujeito com o objeto a. A fórmula do fantasma expressa a cilada para o sujeito (e do sujeito) em almejar uma fusão com a para se tornar inteiro, o que a clínica psicanalítica resgata como anseio de complementação entre macho e fêmea na relação sexual.
Lacan ainda nota como a questão do todo parasita a teoria psicanalítica, referindo-se ao mito da fusão entre mãe-bebê introduzida por Otto Rank, sobre a ideia do trauma do nascimento. Porém, Lacan reconhece neste erro um valor exemplar, pois revela a origem da função do “todo” no sujeito e nos permite retomar a questão do sujeito em relação à demanda e ao desejo. Dissemos que na histeria, “ou ele só se reconhece autenticamente ao se esquecer, ou [no neurótico obsessivo] ele só se reconhece sinceramente ao se desconhecer” (p.235). Trata-se sempre de uma posição forjada diante do desejo do Outro, e nesse sentido sim, a partir da relação do bebê com uma demanda dirigida à mãe, porém em seu valor simbólico. Com uma importante diferença: nesta demanda à mãe não é ela em si o pretendido, e sim o seio, enquanto um objeto parcial de satisfação. Ele é o revestimento do que permanece inarticulável nesta demanda, chamado de objeto a. Em suma, O mito do trauma do nascimento é exemplar por escamotear e revelar o valor do objeto a para o sujeito.
Lacan (1967a) diz que para determinar a função desejo do analista é preciso localizar o seu “x”, isto é, a sua variável. Aqui afirma que Frege reconheceria o objeto a como a variável na instauração de uma função qualquer, o que pode ser quantificado como universal. No sentido de que ele possui uma constância e pode, portanto, ser preenchido pelos objetos parciais.
Então, o que temos é que o objeto a forja, em diversos níveis, este mito do “todo” ao qual a pesquisa psicanalítica contradiz, objeto que possui uma função pivô na produção desta miragem de “ser inteiro”, e por isso, ele adquire um valor central na análise de um sujeito. O trabalho de uma psicanálise tende para uma redução que exponha a questão do “todo” para o sujeito, ao ponto que no ato seja possível liberá-lo dessa ilusão, fazendo o objeto a retornar ao real, como um resto sempre inapreensível.
Quanto ao estatuto do psicanalista, ele não se qualifica como sujeito da análise, contudo, Lacan também afirma que jamais se poderá dizer que o a é o predicado do psicanalista, pois este objeto é real e, portanto, não pode sofrer uma negação lógica, ele já é pura
negatividade. Então, o que qualificaria o psicanalista, considerando que apesar de ser como uma função relacionada ao objeto a, este objeto não poder ser seu predicado? Questão que ele diz guardar para a próxima lição, quando também tentaremos esclarecer o que se afirma como
desejo do analista. O que me ocorre é a necessidade de se considerar a
distância entre dizer que o psicanalista é o objeto a, e de que o analista se faz passar por ele, se empresta a isso. O analista toma o a como referência, serve-se dele para se situar na análise, em causar a via analisante.
Então, mesmo tendo afirmado, ao final da segunda parte dessa lição, que ascender como sujeito do desejo autoriza ao praticante a
operar como objeto a79, ainda, pergunto com Lacan: qual é a
qualificação do psicanalista?
79
Uma conclusão antecipada ao término do seminário, porém, confirmada em Fingermann (2008) ao afirmar: é a análise do analista o que o qualifica para suportar a experiência da análise (vetorizada pela transferência) na medida em que nela o desejo do analista emerge como uma função lógica e ética que capacita o praticante a ser operador na análise de outros.
Lição XIV 20 de Março de 1968