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Foi Lacan quem deu ao termo “passagem ao ato74
” estatuto de conceito, diferenciando-o da definição de acting out, uma expressão de
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A passagem de analisante para analista é considerada uma passagem ao ato esclarecida por Lacan não apenas neste momento. Segundo Castanet (2002), nos diversos momentos em que Lacan emprega o termo “salto” ao longo do seminário já aponta para tal referência. E ainda, que o “esclarecido”, talvez, diga de um reconhecimento da identificação ao objeto que a passagem ao ato implica, percebida antecipadamente no analista, por ele ter lhe feito anteparo ao objeto a na transferência (objeto que causa horror, angústia e nojo). A questão a ser levantada aí, pelo autor e por mim mesmo, é: Como pode alguém desejar ocupar este lugar?
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Como indica Torres (2010), o contato de Lacan com a passagem ao ato ocorreu muito cedo, no caso Aimée, que foi seu objeto de estudo em sua tese de doutorado em psiquiatria, em que a paciente tenta matar a atriz Huguette Duflos a facadas. Mesmo neste caso, Torres aponta uma relação com o suicídio, uma morte do sujeito, uma suspensão temporária de sua relação ao Outro, “essa suspensão parece ter rearticulado as posições simbólicas no momento posterior do ato.”(p.136). Afirmação que vai de encontro com nossa leitura que o uso feito do termo “passagem ao ato esclarecido” remete a esta ruptura, modificação da relação do sujeito ao Outro e ao objeto. Porém, vale o lembrete deste autor: o
origem inglesa criada para se referir ao Agieren presente no discurso de Freud. Esse último alude à atuação realizada pelo analisante em oposição ao processo de recordar, em vez de falar de um determinado conteúdo, ele o repete em ato, seja dentro ou fora da análise. O colocar em ato o conteúdo inconsciente recalcado é tema do texto “Recordar, repetir e elaborar”, em que Freud (1915) aponta ser um tipo de repetição em que se pode obter notícias do recalcado, ao mesmo tempo em que é, a sua maneira, um jeito de recordar, porém, sem a elaboração pelo sujeito, sem qualquer subjetivação. Convocar o analisante a falar sobre o que repete é a oportunidade para se chegar a uma simbolização, saber disso que insiste.
Segundo Roudinesco (1998), Lacan retira o termo passagem ao
ato da terminologia psiquiátrica para diferenciá-lo do que se
convencionou como acting out em psicanálise, utilizando ambos como conceitos da psicanálise. Na psiquiatria, a passagem ao ato é uma conduta violenta ao qual o sujeito se precipita em uma ação que o ultrapassa, ele simplesmente faz sem conseguir ponderá-la. Um vocábulo geralmente aplicado aos casos de tentativa de suicídio, delito ou agressão grave.
Para Lacan (1962-63), o acting out75, é um tipo de atuação, uma encenação realizada para o outro, em especial, uma atuação que é desencadeada pela posição do analista na transferência, um modo de expressar que algo aí não vai bem: um recado para o Outro, lugar em que o analista é suposto pelo analisante. Ele consiste numa demanda de simbolização ao analista, um pedido de interpretação, de significação, frente a algo não escutado por ele. Em suas palavras, uma sacudida na posição do analista para que esse acorde, para que olhe o que não pode escutar. O que não significa que se deva interpretá-lo, mas pô-lo a trabalho pelo analisante, e principalmente, que o analista reveja o seu lugar de ação.
ato analítico distingue-se radicalmente da passagem ao ato, apesar de sua semelhança lógica.
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Segundo Harari (2001), o acting out se opunha ao termo acting in para diferenciar o que se atuava dentro e fora da análise, contudo, ele nos revela que a segunda expressão não existe em inglês. Já a primeira, afirma ser uma expressão do teatro, diferente do mero atuar em cena, remete a um atuar em resposta a uma leitura mal feita do texto. Por exemplo: após a leitura em voz alta e equivocada de uma cena de Racine, alguém, para mostrar como é a cena, a representa (acting out). Histórico muito interessante que esclarece ser um atuar em resposta ao outro, em resposta a uma deficiência de leitura do outro, no que nos cabe, do analista.
O exemplo oferecido por Lacan, tanto no texto “A direção da cura e os princípios de seu poder” (1958) como no seminário “A angústia” (1962-63), é retirado do relato de um caso de Ernst Kris, conhecido como o homem dos miolos frescos. Trata-se de um paciente cuja questão essencial era a dúvida e a certeza, ao mesmo tempo, de que era um plagiário dos trabalhos de outros colegas cientistas. O encaminhamento dado por Kris foi ler os artigos elencados pelo paciente para em seguida comunicar o parecer de que este se equivocara76, ele não era um plagiário. Em resposta, mesmo que o analista não o tenha bem compreendido, o paciente sai da sessão e vai a um restaurante onde frequentemente almoça um belo prato de miolos frescos. Como sabemos disso? Ele conta a Kris na sessão seguinte.
O que para Kris é visto como uma confirmação de sua interpretação, para Lacan constitui um acting out, como se dissesse em ato: “não me venha dizer que não sou plagiário, pois para prová-lo sou capaz até de devorar cérebros”. Um fazer, uma manifestação oral de que a questão do plágio não deveria ser tomada como um problema da realidade, mas enquanto um desejo de ser plagiário, e assim, oportunizar uma via de simbolização para isso que insistia. Segundo Lacan (1958), o erro de Kris foi apoiar sua interpretação na realidade e no imaginário, em vez de interpretar no eixo da verdade e do ser, de que o paciente rouba “nada”, isto é, remete ao objeto a como causa de seu desejo. Destaco como a questão do sujeito frente ao seu desejo utiliza de modo ferrenho a realidade para sustentar um desconhecimento, e nos serve de advertência sobre o uso do bom senso e da via compreensiva como modos de resistência do analisante, bem como, dos riscos quando o psicanalista acredita nelas.
Já a passagem ao ato, comporta algo de não simbolizável em que o sujeito produz uma ruptura, uma alienação radical. Nela, realiza-se um lugar de dejeto, uma identificação com o objeto a que exclui a relação do sujeito ao Outro. Em geral, constitui uma saída para morte, um salto para o vazio – bem comum nos casos de melancolia onde a identificação absoluta ao objeto perdido é a sua definição. O exemplo dado por Lacan (1962-63) de passagem ao ato provém do caso da Jovem homossexual atendida por Freud (1920b). Esta moça havia se jogado de uma pequena ponte que dava acesso a linha de metrô, imediatamente após ser avistada por seu pai junto de uma mulher a quem ela dedicava um grande afeto. Ao notar o olhar colérico do pai, seguido pela proposta de interrupção
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Segundo Laurent (1984), Kris teria tirado um livro de sua biblioteca e mostrado ao paciente como uma prova de que ele não era plagiário.
do relacionamento, a jovem simplesmente lança-se da ponte, ela se abandona com tal violência que isso mudará definitivamente o relacionamento com a sua amada e com seus pais. O estado de dejeto em que a jovem permanece faz com que Freud a encaminhe para uma analista mulher, confessando um impasse quanto à possibilidade de êxito no caso.
Lacan (1962-63) situa a passagem ao ato a partir da fórmula do fantasma, ($<>a), em que aí ocorre um apagamento do sujeito, ele cai fora da cena inconsciente (do Outro) para o mundo, o “lugar onde o real se comprime” (p.130). Ou seja, neste instante, o sujeito rompe com o
enquadre do fantasma, sai da relação estabelecida a partir do Outro e é
puro impulso. Podemos destacar alguns aspectos estruturais da passagem ao ato que são pertinentes ao ato psicanalítico: a suspensão da relação ao Outro, o apagamento temporário do sujeito, seu caráter de urgência, de precipitação e a queda para o objeto a.
Em “A lógica do fantasma”, Lacan (1966-67) procura explicar a passagem ao ato a partir da repetição e da definição estrita de ato. Deste modo, define o ato por quatro pontos: ele é significante, constitui-se uma repetição desse significante (a divisão, a inscrição do traço unário),
instaura o sujeito enquanto tal, em seu valor de divisão, ao mesmo
tempo em que permanece desconhecido para esse sujeito, existe uma negação (Verleugnung77): ele não se reconhece nesse ato.
Na tentativa de esclarecer o ato psicanalítico da saída de análise como uma passagem ao ato esclarecida, encontrou-se o seu inverso, o ato como suporte para definir a passagem ao ato, ponto de contato que nos permite melhor apreender esta analogia. A passagem ao ato
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A Verleugnung seria o tema do final desse seminário, porém Lacan não chega a fazê-lo. A título de breve esclarecimento: em Roudinesco & Plonn (1998), o termo é traduzido por “renegação”, “desmentido”, “recusa” para diferenciá-lo de outros conceitos, como a denegação histérica (Verneignung). A expressão surge na pena de Freud em 1923 para definir o mecanismo de defesa em que o sujeito psicótico recusa a reconhecer a realidade da ausência de pênis nas mulheres. Em 1927 é utilizada para abordar o fetichismo, em que o perverso opera uma dupla operação, de reconhecimento e recusa dessa mesma ausência, indicando uma divisão subjetiva, a mesma que será explorada em 1938, incluindo a neurose. Deste modo, a negação apresentada neste termo alemão aponta para um mecanismo que é próprio do sujeito enquanto divisão, o de ser capaz em considerar e rejeitar uma parte da realidade. Se em Freud isso estava como um caminho de pesquisa, Lacan radicaliza a questão ao definir o sujeito na divisão.
esclarecida do final de análise não é uma defenestração, isto é evidente, mas o conceito de passagem ao ato contribui para que se possa reconhecer no ato psicanalítico um deslocamento no fantasma, um rompimento da posição do sujeito em relação ao Outro e a ejeção do objeto a para o real. Saída que promove uma significativa mudança: o sair da pretensão fantasmática de encontro com o objeto, da realização do ato sexual, para um reconhecimento enquanto dividido. Uma saída que não pode ser feita a não ser como uma precipitação em ato, governada por um impensado. Ele não é fruto de uma boa reflexão, e por isso, pode-se chamá-lo, no máximo, de esclarecido: pois implica em decidir correr o risco e se jogar para fora da cena, da ordem simbólica.
Não acredito que se possa prescindir em todos os níveis do fantasma, principalmente, por ele operar como um enquadre (janela), uma proteção, anteparo ao gozo e ao real. Talvez, seja necessário considerar esse ato mais como um momento de suspensão temporária e reorganizadora do sujeito, um desfazer da fixão78 ali engendrada do que uma liquidação do fantasma no que ele é filtro, barreira ao real. A travessia do fantasma e o ato analítico final modificam o sujeito em sua alienação, remaneja suas defesas, e na sua relação ao desejo, ao objeto a e ao Outro. Libera os pontos de fixação da pulsão e abre para a construção de novos caminhos de satisfação, nem que seja o de um reconhecimento de si, no que é pertinente à satisfação. Uma via de responsabilização do sujeito com a pulsão, um “eu sou isso”.
Outro aspecto que se esclarece com o conceito de passagem ao ato é o desconhecimento do sujeito sobre o ato e que tanto Lacan insistiu ao longo do seminário, pois ao romper com a posição fantasmática ela produz um instante de apagamento do sujeito, uma saída da cena inconsciente. Este movimento promove uma mudança no sujeito que ele não pode apreender, pois apesar de estar posto no momento do ato, é pelo significante “divisão” que ele se realiza. Assim como na passagem ao ato requer um se lançar para fora da cena, aqui, mesmo sem uma necessária motricidade, o sujeito desvanece, sai e libera-se desta relação com o objeto (almejado) e reconhece em si uma ausência de ser (no sentido de substância), um não ser: ascender ao sujeito de desejo, eis a qualificação do psicanalista que o autoriza a operar com o objeto a.
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Um neologismo que permite conjugar o que há de ficção e de fixação no fantasma. Para maiores detalhes remeto o leitor ao trabalho “Fixão” (2008), publicado nas atas da VI Jornada de Cartéis da Escola da Coisa Freudiana.