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Fisiologicamente, as ameaças percebidas às imagens desejadas ativam o sistema de autopreservação, também chamado de resposta ao estresse de luta-ou-fuga (HENRY & WANG, 1998). Esse sistema motivacional é evolutivamente muito antigo, permitindo que os organismos mobilizem recursos em resposta a ameaças de vida-ou-morte à sobrevivência (DICKERSON & KEMENY, 2004), as quais ativam o eixo hipotálamo- pituitária-adrenocortical (hypothalamic–pituitary–adrenocortical – HPA), elevando os

níveis do hormônio cortisol, que mobilizam a energia e modulam outros sistemas fisiológicos para responder eficazmente às demandas metabólicas de curto prazo de fugir ou combater a ameaça (CROCKER & GARCIA, 2009).

Também ameaças ao eu-social ou à autoimagem desejada ativam o sistema de autopreservação, aumentando os níveis de cortisol e a mobilização de energia para responder à ameaça (DICKERSON & KEMENY, 2004). Sabendo-se que a ativação desse sistema fisiológico prepara a pessoa para lutar ou fugir, pessoas cujas identidades sociais são ameaçadas talvez possam usar seu processo de autorregulação consciente para substituir essas respostas.

2.3.3.2.2 Respostas de luta

Outra das respostas para ameaças à imagem desejada é a agressão. O eu ameaçado torna-se agressivo e violento (BAUMEISTER, SMART & BODEN, 1996). Pessoas com autoestima elevada, mas instáveis, que presumivelmente experienciam ameaças à autoimagem, tendem a ter elevada defensividade, raiva e hostilidade (KERNIS, GRANNEMANN & BARCLAY, 1989).

Um clichê anedótico da sabedoria popular sugere que alguns crimes de ódio são motivados por ameaças à autoimagem, como por exemplo, a violência contra os gays praticada por homens heterossexuais seria desencadeada por ameaças presumidas à sua masculinidade.

2.3.3.2.3 Respostas emocionais

Mackie, Devos e Smith (2000) têm sido capazes de mostrar o papel dos fatores sociais na emergência de reações emocionais (DUMONT, YZERBYT, WIGBOLDUS & GORDIJN, 2003; GORDIJN, WIGBOLDUS & YZERBYT, 2001; YZERBYT, DUMONT, MATHIEU, GORDIJN et al., 2006; YZERBYT, DUMONT, WIGBOLDUS & GORDIJN, 2003), uma vez que os fenômenos cognitivos e emocionais têm suas raízes nas motivações sociais das pessoas, tanto quanto em seu aparato cognitivo (YZERBYT, 2006).

As reações emocionais à ameaça são quase sempre negativas. Elas incluem medo, ansiedade, raiva e ressentimento (RENFRO, DURAN, STEPHAN & CLASON, 2006; STEPHAN, RENFRO & DAVIS, 2008); desprezo e repugnância (MACKIE,

DEVOS & SMITH, 2000); vulnerabilidade (MACLEOD & HAGAN, 1992); vergonha, culpa, raiva e fúria narcisista (BAUMEISTER et al., 1996); culpa coletiva (DOOSJE, BRANSCOMBE, SPEARS & MANSTEAD, 1998); e outras probabilidades, tais como ódio, raiva, humilhação, terror, desamparo, desespero, indignação e pânico (STEPHAN, YBARRA & MORRISON, 2009). A emoção pode ser dirigida contra o eu, como na vergonha, culpa e baixa autoestima; ou contra os outros, como na indignação, raiva14 ou fúria, a depender da percepção do evento como justo e merecido ou injusto e imerecido (SHAVER, SCHWRATZ, KIRSON & O’CONNOR, 1987).

Além disso, a ameaça pode comprometer a empatia emocional com os membros do outgroup e, inversamente, aumentá-la para com os membros do ingroup. A relação entre a ameaça e a (falta de) empatia por grupos externos é corroborada por um conjunto de estudos mostrando que as ameaças a um grupo de status levam membros do grupo a sentir alegria ou prazer com o sofrimento de alguém de um outgroup (LEACH, SPEARS, BRANSCOMBE & DOOSJE, 2003). Todavia, expressar emoções ou necessidades de modo vulnerável, ao invés de uma forma exigente, defensiva ou raivosa, pode provocar empatia e ausência de defensividade no outro (ROSENBERG, 2003).

2.3.3.2.4 Respostas cognitivas

Ameaças ao eu afetam os processos e a capacidade cognitiva. A excitação intensa, associada à ameaça percebida, pode perturbar o pensamento e o comportamento. A percepção da autoameaça ativa a resposta de luta ou fuga nas partes "inferiores" do cérebro, reduzindo as funções cognitivas "superiores" do pensamento abstrato e autorreflexão (SIEGEL, 1999). Respostas flexíveis, incluindo criatividade, integração, planejamento e empatia, ficam prejudicadas (CROCKER & GARCIA, 2009). A rejeição social, que ameaça a necessidade humana fundamental de pertencer, constitui ameaça ao eu para quase todos e prejudica o pensamento inteligente (BAUMEISTER, TWENGE & NUSS, 2002), distorce a percepção do tempo e autoconhecimento, e desenvolve sentimentos de que a vida é sem sentido (TWENGE, CATANESE & BAUMEISTER, 2003), aumenta o armadilhamento dispendioso na

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Note-se que raiva, como reação emocional à ameça dos estereótipos à autoimagem, é recorrente em vários autores.

perda dos cursos de ação (ZHANG & BAUMEISTER, 2006) e diminui a empatia para a dor física e emocional dos outros (DEWALL & BAUMEISTER, 2006).

Já as respostas cognitivas à ameaça intergrupal incluem mudanças nas percepções de outgroup e estereótipos (QUIST & RESENDEZ, 2003); na homogeneidade percebida no outgroup (ROTHGERBER, 1997); nas atribuições para o comportamento do outgroup (COSTARELLI, 2005); etnocentrismo, intolerância, ódio e desumanização do outgroup (SHAMIR & SAGIV-SCHIFTER, 2006; SKITKA, BAUMAN & MULLEN, 2004); e uma maior probabilidade de perceber em outros as emoções relacionadas à ameaça (MANER, KENRICK, BECKER, ROBERTSON et al., 2005).

2.3.3.2.5 Respostas comportamentais

Respostas comportamentais à ameaça variam da retirada, submissão e negociação, à agressão (direta ou deslocada), discriminação, mentira, enganação, roubo, assédio, retaliação, sabotagem, protesto, greve, guerra e outras formas de conflito aberto intergrupo (STEPHAN et al., 2009). Em alguns casos, a ameaça leva à hostilidade direta contra o outgroup, que está intimamente relacionada à sua fonte. Maass, Cadinu, Guarnieri e Grasselli (2003) mostraram que homens que sofreram uma ameaça à sua identidade de gênero são particularmente susceptíveis de molestar sexualmente alguém do sexo oposto.

Em outros casos, a ameaça pode levar à hostilidade deslocada contra um outgroup que não está relacionado à fonte da ameaça. Em um experimento ilustrativo deste ponto, estudantes de psicologia cujo status estava ameaçado por um outgroup composto por estudantes de medicina, posteriormente, discriminaram um outro grupo de menor status consensual: estudantes de serviço social (CADINU & REGGIORI, 2002).

Em suma, as pessoas reagem à ameaça de uma grande variedade de maneiras. Suas respostas cognitivas provavelmente lhes tornarão mais difícil pensar com clareza, cuidadosamente, ou com precisão sobre o outgroup e como responder a ele. Suas reações emocionais internas tendem a ser negativas, o que pode interferir em suas respostas pensadas às ameaças existentes, reais ou imaginárias. Suas reações comportamentais ao outgroup tendem a ser orientadas para abordagem (como a

agressão) ou evitação (como a retirada ou o apaziguamento), mas também é possível que a ameaça imobilize o ingroup, levando-o à inação.

Ameaças podem provocar uma gama de reações de distress. Na maioria dos casos, a ameaça não é responsável em si mesma por criar essas respostas, mas as amplifica. Um grande corpo de pesquisas indica, por exemplo, que a mera categorização das pessoas em grupos provoca preconceitos intergrupais (ELLEMERS, SPEARS & DOOSJE, 2002), mas adicionar a ameaça ao processo de categorização seria ampliar esses vieses (BRANSCOMBE, SCHMITT & HARVEY, 1999).

2.3.3.3 Desenvolvimento intergrupal

A Teoria do Desenvolvimento Intergrupal (Developmental Intergroup Theory – DIT) (BIGLER & LIBEN, 2006) é uma abordagem que combina teoria da identidade social, teoria do desenvolvimento cognitivo e outras descobertas empíricas. De acordo com a DIT, vieses intergrupais se desenvolvem em uma dimensão social e adquirem relevância psicológica, traduzida em relevância perceptual de grupos, tamanho de grupo desigual, rotulagem explícita de membros do grupo e segregação implícita. De acordo com a DIT, a conjunção de fatores exógenos (como modelos ambientais estereotípicos) e fatores endógenos (como autoestima e desenvolvimento cognitivo) contribuem para a manutenção de preconceitos e estereótipos (PATTERSON & BIGLER, 2006). Pesquisas em DIT demonstram que a rotulagem e outros marcadores ambientais de membros do grupo aumentam a relevância dos grupos e levam à formação de preconceitos intergrupais (LEVY & HUGHES, 2009).

2.3.3.4 Ameaça intergrupal

Na Teoria da Ameaça Intergrupal (Intergroup Threat Theory – ITT) (STEPHAN & RENFRO, 2002; STEPHAN & STEPHAN, 2000), os estereótipos negativos foram um preditor significativo de ameaças (STEPHAN, BONIECKI, YBARRA, BETTENCOURT et al., 2002), envolvendo características do outgroup que poderiam ter um impacto negativo sobre o ingroup, como a agressividade (STEPHAN et al., 2009). Apreensões surgem a partir de preocupações de o outgroup explorar o ingroup, de o outgroup perceber o ingroup como preconceituoso, e de o outgroup desafiar os valores do ingroup (STEPHAN & STEPHAN, 1985). Relações intergrupais são

notoriamente difíceis porque, quando as pessoas com diferentes identidades sociais interagem, tensão e emoção negativa, muitas vezes, advêm (CROCKER & GARCIA, 2009).