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7.4 Fully-Bayesian unfolding

7.4.2 Application of Bayesian inference

Quando se descrevem os comportamentos de outros, podem-se escolher diferentes palavras e formulações. Pode-se, por exemplo, descrever alguém como “Luís é estúpido” ou “Luís não é inteligente”. A descrição que se escolhe parece arbitrária, à primeira vista, pois ambas as frases, supõe-se, descrevem adequadamente o evento, e as pessoas não parecem perceber o pensamento subjacente à escolha de palavras. Contudo, pesquisas mostram que, ao invés de arbitrária, a escolha das palavras e o uso da linguagem são impulsionados por processos cognitivos e sociais implícitos e sistemáticos.

Pesquisas sobre preconceitos linguísticos, por exemplo, mostram que as expectativas das pessoas e os estereótipos influenciam sua escolha de palavras ao descrever os outros. Usam-se mais predicados abstratos para descrever estereótipos de comportamentos consistentes/compatíveis do que estereótipos de comportamentos inconsistentes/incompatíveis. Este uso da linguagem tendenciosa não apenas reflete um falante com expectativas estereotípicas sobre uma pessoa, como também transmite essas expectativas para o destinatário. Desta forma, usar uma linguagem tendenciosa é um meio predominante de manutenção de um nível de estereótipos interpessoais (MAASS, 1999; MAASS et al., 1989; SEKAQUAPTEWA et al., 2003; WIGBOLDUS, SEMIN & SPEARS, 2000).

Ao descrever um homem que demonstra um comportamento inconsistente com o estereótipo do sexo masculino, como o choro, as pessoas usam relativa linguagem concreta, como por exemplo, “ele tem lágrimas nos olhos”. Em contraste, ao descrever

uma mulher com o mesmo comportamento, tende-se a usar uma linguagem mais abstrata para descrever o estereótipo consistente com o evento, como “ela é emotiva” (WIGBOLDUS et al., 2000). Da mesma forma, o viés estereotípico explicativo mostra que as descrições do estereótipo incompatível com o comportamento tendem a conter explicações mais destinadas a esclarecer a aparente inconsistência do que descrições de estereótipo compatível com o comportamento (SEKAQUAPTEWA et al., 2003).

Estes vieses linguísticos desempenham um papel poderoso na manutenção do estereótipo, pois a pesquisa mostra que operam fora da conscientização das pessoas e estão relacionados a medidas implícitas de preconceito (VON HIPPEL et al., 1997). Preconceitos linguísticos em descrições de outros implicitamente comunicam a mensagem dos estereótipos a destinatários. Expectativa linguística e preconceito intergrupo fazem com que destinatários tirem conclusões a partir de descrições que são consistentes com as expectativas estereotípicas do comunicador (MAASS et al., 1989; WIGBOLDUS et al., 2000). Usar linguagem relativamente concreta de estereótipos incompatíveis faz os destinatários inferirem que o comportamento é inesperado, é uma exceção à regra, e é mais provavelmente causado por circunstâncias conjunturais do que por fatores disposicionais. Em contraste, o uso de linguagem mais abstrata em mensagens com estereótipo consistente implica que o comportamento é esperado e que o mais provável é ser causado por características inerentes ao ator do que por circunstâncias situacionais. Assim, por meio de sutis variações na utilização da abstração da linguagem, as pessoas implicitamente transmitem suas expectativas estereotípicas aos destinatários, com o efeito de o estereótipo ser compartilhado e mantido interpessoalmente (WIGBOLDUS et al., 2000) – vide item 2.3.6.5 Alguns vieses estereotípicos.

A Teoria do Nível de Interpretação (Construal-Level Theory – CLT) diz que o nível da interpretação é determinado pela distância psicológica percebida entre o eu e o evento ou objeto a ser interpretado; essa distância pode ser temporal, social, espacial ou hipotética (TROPE & LIBERMAN, 2003). Interpretam-se eventos com propostas particulares e em um contexto específico. Construtos abstratos focam a atenção em razões gerais e metas subjacentes, enquanto construtos concretos focam em ações específicas envolvidas em perceber o evento (VALLACHER & WEGNER, 1989). Fatores presentes situados em uma dada situação são também prováveis de determinar se a interpretação de um futuro evento é mais abstrata ou mais concreta (CLARK & SEMIN, 2008).

Pesquisas também indicam que as pessoas tendem a usar mais negações quando descrevem estereótipos incompatíveis com informações do que quando eles descrevem estereótipos consistentes (WIGBOLDUS, SPEARS & SEMIN, 2005). Pode-se, então, dizer que “Luís não é inteligente” quando “não ser inteligente” é estereótipo inconsistente com a categoria social a que ele pertence (por exemplo, pesquisador); por outro lado, pode-se ser mais inclinado a dizer que “Luís é estúpido” quando esta característica é compatível com sua categoria social (por exemplo, pichador, cujo comportamento é vândalo – não confundir com grafiteiro, espécie de artista plástico que, geralmente, utiliza muros como se fossem telas).

Contudo, há de se registrar que a natureza da linguagem como instrumento é pragmática: a avaliação na escala concreto-abstrato, de forma previsível e de acordo com fatores psicológicos internos, só se faz quando é pragmaticamente relevante (TYLÉN et al., 2010), ou seja, quando alguns mecanismos envolvidos na escolha das palavras podem impactar as percepções e as ações dos outros. A variação de expressões ao longo da escala de concreto-abstrato é, portanto, uma característica da linguagem que só é útil na medida em que pode exercer um efeito sobre o receptor.

Esse comportamento pode operar em um nível lexical local – como quando participantes de um quiz estrategicamente alteram sua linguagem a fim de reforçar sua aliança com o parceiro (SEMIN, GIL DE MONTES & VALENCIA, 2003) ou quando membros de um comitê universitário sutilmente alteram sua linguagem ao longo do espectro concreto-abstrato para apresentar candidatos com os quais têm conexão de modo mais favorável (RUBINI & MENEGATTI, 2008) – ou em nível de grupo – caso de clubes de equitação italianos, que sistematicamente variam sua linguagem descritiva para manter e reforçar estereótipos negativos associados ao clube rival, e positivos associados ao seu próprio grupo (MAASS et al., 1989).

No exemplo do quiz, Semin, Gil de Montes e Valência (2003) investigaram a importância do contexto comunicativo quanto ao viés linguístico. Os participantes foram solicitados a descrever ações que, segundo lhes disseram, haviam sido realizadas por outra pessoa com quem iriam cooperar ou competir em um quiz. Em alguns casos, eles foram informados de que a pessoa leria as descrições antes do jogo; em outras, a pessoa não as veria. Desta forma, os pesquisadores construíram uma situação em que os participantes teriam um propósito comunicativo para a mensagem que iriam elaborar, ou nenhum propósito comunicativo (caso em que a outra pessoa não poderia ler a mensagem). – A ausência de vieses sistemáticos quando não há um propósito

comunicativo sugere que a configuração de uma mensagem não é dirigida apenas pelas expectativas, e os vieses observados não são devidos a processos invariáveis que dão origem a expressões linguísticas fixas de tipos diferentes de conhecimento, mas, antes, que eles são influenciados por características do contexto comunicativo (SEMIN, GIL DE MONTE & VALENCIA, 2002) –. Os autores constataram que, nas condições em que os participantes tiveram uma expectativa de se exporem a seu parceiro ou adversário no quiz, eles sistematicamente variaram sua linguagem ao longo da escala de concreto-abstrato. No entanto, na condição em que eles foram informados de que a pessoa que estava sendo descrita não iria ver a mensagem, eles não variaram sua escolha de palavras de maneira sistemática.

No outro exemplo, Rubini e Menegatti (2008) coletaram dados a partir de um comitê de contratação de uma universidade. Trabalhando com um corpus de avaliações escritas de candidatos a cargos de pesquisa e professor, eles descobriram que o comitê de contratação usou sua linguagem sob medida de tal forma que as descrições positivas dos candidatos aprovados foram mais abstratas do que descrições positivas de candidatos rejeitados. Além disso, os membros individuais da comissão foram mais concretos em suas avaliações negativas de candidatos com quem tinham coautoria de artigos do que em suas avaliações de candidatos com quem não tinham interdependência de trabalho. Em outras palavras, os candidatos que tinham um relacionamento interdependente com os membros da comissão especial foram descritos mais favoravelmente de modos sutis: eles foram representados com palavras negativas mais concretas e palavras positivas mais abstratas em relação a outros candidatos (e vice-versa). Assim, os membros individuais do comitê de contratação empregaram sistematicamente a linguagem como um instrumento para melhorar ainda mais suas agendas pessoais.

Interessante registrar ser de bom alvitre que os comitês de contratação de universidades não usem artifícios escancarados para exibir suas preferências, como, por exemplo, um esgar para enfatizar suas críticas a candidatos excluídos; porém, eles podem modular o uso de sua linguagem (abstrata ou concreta) a fim de passar a mesma mensagem, poupando os sentimentos do destinatário e sua própria exposição. Ao mesmo tempo, e no mesmo texto, eles podem também alcançar um outro objetivo, destinado a outro público: justificar a sua escolha de um candidato em detrimento do outro, por sutilmente influenciar a percepção do leitor/ouvinte quanto ao candidato em questão por meio da mesma técnica linguística. Eis o aperfeiçoamento da aplicação da

máxima popular “matar dois coelhos de uma cajadada só”; neste caso, os “coelhos” foram três...

A pesquisa de Rubini e Menegatti (2008) ilustra, sem dúvida, um dos diversos contextos em que a linguagem é usada para direcionar a atenção para aspectos específicos de um evento ou pessoa em detrimento de outros: a atenção diferencial para qualidades positivas e negativas dos candidatos foi dirigida por metas implícitas e pessoais relacionadas às ligações de trabalho entre os membros individuais do comitê de seleção e o uso de linguagem tendenciosa na avaliação desses candidatos, corroborando a concepção de que a principal função da linguagem no contexto comunicativo é canalizar a direção da atenção. Clark e Semin (2008) também demonstram como a linguagem pode permitir que os participantes de uma conversação venham a convergir para uma interpretação adaptativa de eventos.

No exemplo dos clubes de equitação italianos, Maass et al. (1989) usaram uma escala concreto-abstrato para analisar as descrições dos sujeitos das ações realizadas por personagens do in e do outgroup em uma fotodescrição de equipes que competiam em um tradicional torneio italiano de corridas de cavalos. Os estímulos representavam membros da própria equipe do sujeito ou da equipe adversária (como indicado pelas cores do time na camisa do personagem) através de ações positivas ou negativas (como alguém querendo ajudar ou sujando um ambiente, respectivamente). Os indivíduos foram informados de que as cenas representavam eventos reais que aconteceram nos últimos dois anos, e lhes foram dadas quatro opções de descrição para cada imagem, correspondentes a quatro níveis de abstração, em conformidade com o Modelo de Categoria Linguística (SEMIN & FIEDLER, 1988).

Como esperado, os participantes descreveram ações negativas realizadas por membros de seu próprio grupo usando os termos mais concretos, o que implica que a ação ofensiva teria acontecido uma só vez, ou muito poucas vezes, sem comprometer o caráter da pessoa em geral. A mesma ação, entretanto, quando realizada por membros do outgroup, foi descrita em termos abstratos, o que pressupõe que o comportamento negativo era típico do adversário (comportamentos “típicos do adversário” geralmente são de caráter desagradável). A tendência inversa foi observada para ações positivas.

Estas estratégias linguísticas, como já foi dito, têm demonstrado um impacto sutil, mas poderoso, na representação construída pelos destinatários da comunicação. Wigboldus et al. (2000) mostraram que o impacto da comunicação de informações estereotípicas nas impressões dos perceptores é mediado pela abstração da linguagem da

mensagem. E preconceitos linguísticos têm operarado de uma forma implícita (SEMIN & DE POOT, 1997), relacionados com outras medidas implícitas discretas (VON HIPPEL et al., 1997).

Existem diferentes formas de se olhar para isso e relacionar estereótipos e preconceitos, questionando-se se – e, se for o caso, quais – processos psicológicos conduzem tais comportamentos preconceituosos (WIGBOLDUS & DOUGLAS, 2007), quais as consequências comunicativas de tais estereótipos e preconceitos ou que tipos de inferências se fazem quando se assiste a uma comunicação tendenciosa (WIGBOLDUS, SEMIN & SPEARS, 2000) e quais as consequências interpessoais dos preconceitos linguísticos (REITSMA-VAN ROOIJEN, SEMIN & VAN LEEUWEN, 2007).

Independentemente de como se percebem os estereótipos e preconceitos, há um aspecto constante que se lhes aplica: o uso da linguagem é essencialmente um dispositivo para conduzir a atenção para facetas específicas do mesmo evento em detrimento de outros, sendo, por isso, fundamental na criação, ativação, alteração, confirmação, transmissão e perpetuação de estereótipos, valendo ressaltar que essa disposição do agente como precipitador do evento, não raras vezes, ocorre sem passar pelo crivo da consciência. Em tudo, porém, a principal função da linguagem, conforme argumentado neste texto, continua a ser dirigir a atenção – em muitos casos, deliberadamente –, com propósitos específicos. Esta visão abre radicalmente diferentes perspectivas sobre a linguagem.