Segundo Devine (1989), o estereótipo intergrupal pode-se manifestar de modo automático ou controlado. Na forma controlada, é produzido por processos mentais deliberativos e intencionais da consciência, e tem-se tornado menos comum nas sociedades contemporâneas em muitos grupos sociais. Já o estereótipo automático é produzido pela ativação espontânea de associações mentais que não são necessariamente pessoalmente endossadas, mas que são encontradas de forma
onipresente na sociedade contemporânea, devido a contínuas representações culturais dos grupos minoritários que perpetuam suas associações negativas ou estereotípicas. Se membros de grupos minoritários forem consistentemente apresentados em contextos sociais negativos, então os processos de condicionamento clássicos e avaliativos certamente produzirão associações mentais estereotípicas desses grupos e de seus membros (WALTHER, NAGENGAST & TRASSELLI, 2005), e essas associações se construirão lentamente ao longo do curso de socialização (RUDMAN, 2004; RYDELL & MCCONNELL, 2006).
Na confirmação de estereótipos, Wheeler e Petty (2001) distinguiram processos ideomotores e processos de ameaça do estereótipo (que serão apresentados em Teoria da Ameaça do Estereótipo). Processos ideomotores são retratados como efeitos de priming comportamental – processo citado quando se fez alusão ao priming conceptual, em 2.3.2.4 Mecanismos e correlatos neurais de estereótipos e preconceitos implícitos –, que emergiriam automaticamente uma vez ativados, sem consciência desperta, como resultado de uma associação semântica simples entre um estereótipo e os comportamentos associados, desencadeando esse comportamento ativo, tornando-o mais provável de ser desempenhado (ZÁRATE, 2009). Basicamente, bastaria ativar os estereótipos para produzir um comportamento subsequente de maneira consistente com esse estereótipo geral.
Swim e Stangor (1998) pesquisaram estereótipos e preconceitos focados na perspectiva dos percebedores, na análise da emergência, estrutura e manutenção de representações mentais de grupos e categorias sociais. Questões tipo “como os estereótipos são comunicados?”, “a forma da comunicação influencia o receptor?”, “como as consequências são medidas?” balizaram seus estudos sobre o papel que os estereótipos e preconceitos desempenham nos processos comportamentais, cognitivos e afetivos, tanto em membros de grupos ou categorias sociais alvejados pelas crenças estereotípicas e preconceitos quanto da perspectiva de quem possui uma representação mental específica de um determinado um grupo-alvo.
Embora a grande maioria das pesquisas sobre as implicações psicológicas relativas a estereótipos, preconceito e discriminação foque na autoestima, emoções e saúde mental do alvo, outros aspectos da questão vêm emergindo: consequências interpessoais para a atribuição da discriminação decorrente de estereótipos a resultados insatisfatórios. “Pesquisas indicam que reclamar que os resultados são devidos à discriminação pode ter custos sociais danosos para a pessoa que faz isso.” (MAJOR &
SAWYER, 2009, p. 10). Estudos da década de 80 atestaram que culturas ocidentais tendem a desvalorizar os indivíduos que não assumem a responsabilidade por seus resultados (JELLISON & GREEN, 1981). Indivíduos que se queixam de que seu tratamento é resultado de discriminação (causa externa) são mais percebidos negativamente que aqueles que atribuem a si seu desempenho pífio e podem estar sujeitos à retaliação de seus pares (FEAGIN & SIKES, 1994)15.
Americanos caucasianos viram mais negativamente afro-americanos que culpam a discriminação por resultados desfavoráveis de testes do que aos afro-americanos que culpam a si mesmos – como competência insuficiente – ou a um fator externo não relacionado à discriminação – como o grau de dificuldade do próprio teste (KAISER & MILLER, 2001; 2003). Os primeiros são vistos como queixosos, hipersensíveis, emocionais, questionadores, irritantes, criadores de problemas, em comparação aos últimos, independentemente da validade da reclamação. E mesmo quando o racismo foi escancarado, os observadores avaliaram o alvo que culpou a discriminação mais negativamente do que os que culparam outros fatores (MAJOR & SAWYER, 2009).
Garcia, Reser, Amo, Redersdorff et al. (2005), que pesquisaram esse mesmo tema em relação a gêneros e seu ingroup, explicam isso como um efeito ovelha negra (black-sheep effect), no qual as pessoas são mais críticas em relação a membros do ingroup que alegam discriminação, por vê-los como alguém que desconsidera a norma socialmente desejável de se responsabilizar por suas próprias falhas.
Já Carvallo e Pelham (2006) encontraram que maiores percepções de discriminação contra o ingroup entre homens e mulheres foram associadas a uma maior necessidade de pertencimento ao grupo. Pode-se, então, especular que isso ocorreu porque a discriminação percebida contra o ingroup valida a crença fundamental de muitos de seus membros.
Portanto, se a alegação de discriminação pode ou não depreciar quem o faz, mais do que se fosse pertencente ao outgroup, depende da visão do observador. Vários estudos indicam que os custos interpessoais de culpar a discriminação pelos próprios resultados negativos, ao invés de culpar outros fatores, são mais graves quando os alvos
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É curioso, então, constatar que, no Brasil de hoje – no qual se pretende primar pelo “políticamente correto” –, o que se percebe é, paradoxalmente, o contrário: a culpa é sempre do outro, das condições sociais, “das elites”, do contexto, só não é do indivíduo, que parece ter prescindido do livre arbítrio – e, lamentavelmente, ninguém demonstra indignação quanto a isso.
são avaliados por pessoas que fortemente endossam uma visão de mundo meritocrática (JOST & BURGESS, 2000, Est. 2; KAISER, DYRENFORTH & HAGIWARA, 2006).
Assim, culpar em público a discriminação pelos resultados custa caro. Quem reclama de discriminação sujeita-se à rejeição social: é rotulado como lamuriento, ressentido, desordeiro e será provavelmente banido pelos outros, incluindo os membros de seu próprio grupo, e estará propenso a cair no ostracismo. Daí, não chega a ser surpreendente que membros de grupos desvalorizados frequentemente minimizem a extensão da discriminção da qual são alvo. Agir de modo inverso sairia demasiado caro.
Por ser a discriminação frequentemente ambígua e de difícil comprovação, fazer uma atribuição de discriminação é, na maioria das vezes, um julgamento subjetivo. Fatores pessoais, situacionais e estruturais podem aumentar ou diminuir a probabilidade de se julgar que um evento é devido à discriminação, e isso pode levar à superestimação ou subestimação do preconceito, respectivamente. Percepções de discriminação podem ser tão importantes como a exposição à discriminação real na previsão de relações interpessoais, autoestima e bem-estar psicológico.
Atribuir pessoalmente eventos ameaçadores à discriminação ao invés de às próprias qualidades internas pode proteger contra o afeto depressivo e perdas na autoestima. Também pode ser uma importante estratégia de defesa antecipatória para aqueles que estão cronicamente expostos ao preconceito (MAJOR, HENRY & KAISER, 2006; SELLERS & SHELTON, 2003).
Cronicamente a expectativa de ser um alvo de preconceito pode levar a interações interpessoais mais negativas com membros de grupos externos e evitação de domínios em que o preconceito é esperado (MENDOZA-DENTON et al., 2002; PINEL, 1999). Perceber discriminação generalizada contra si ou contra alguém de seu grupo pode fomentar o sofrimento psíquico.
Desta maneira, os membros de grupos excluídos que suspeitam terem sido alvos de discriminação enfrentam um dilema: quando não tiverem certeza, devem pesar os custos de enxergar uma discriminação que não existe contra os custos de não vê-la quando ela existe; e quando estiverem certos, ainda devem pesar os custos de reivindicar a discriminação contra os custos do silêncio – típica situação de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”...