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HIPÓTESE 3 : baixo níveis de I&D, concentrado em poucas empresas e recorrendo

O Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Indústria e Energia, GEPIE, realizou um protocolo com o Centro de Investigação da Economia Portuguesa, CISEP, visando estabelecer um conjunto de acções para o estabelecimento de um Observatório de Inovações (T8), tendo como objectivos o conhecimento de:

1) estratégias tipo fundamentais face à inovação tecnológica e ao desenvolvimento de recursos humanos.

2) impacte e perspectivas de inovação tecnológica nas empresas.

3) efeitos actuais e previsíveis da inovação tecnológica na natureza e organização do trabalho.

4) relações entre inovação tecnológica e áreas de intervenção estratégica na empresa, como por exemplo o marketing e as unidades de I&D.

O universo do Observatório de Inovação do MIE é composto por um conjunto de 3276 estabelecimentos representativos da indústria portuguesa. As principais conclusões que o relatório de Abril de !992 chegou foram as seguintes:

1) as empresas portuguesas têm-se orientado para uma estratégia de especialização em tecnologias específicas e para um reduzido número de mercados num quadro de dependência tecnológica e comercial. Tal reflecte-se no reduzido número de inovações, indicando o estudo que 30% dos estabelecimentos não tinham procedido à introdução de inovações nos últimos 3 anos. Verifica-se assim um fraco nível de despesa nas actividades inovadoras e de I&D, a par de fortes assimetrias regionais e sectoriais e de uma baixa propensão ao investimento em elementos imateriais. Tal representa um bloqueio ao processo de modernização, assente fundamentalmente na aquisição de novos

equipamentos. Deste modo, o principal factor de inovação nas empresas é a «compra de equipamentos». Seguem-se factores relacionados com pressões de mercado, sendo eles o «desenvolvimento e melhoria de produtos», a «adaptação ao gosto do consumidor ou a especificações do cliente» e a «pressão da concorrência». Os factores que revelam capacidade tecnológica ou agressividade comercial (I&D, ligações a centros de I&D, universidades, desenvolvimento de equipamentos e software) revelam-se secundários, sendo as estratégias de inovação essencialmente passivas ou adaptativas. Os sectores de bens de equipamento são os que mais se preocupam com a sua capacidade tecnológica, sendo o sector de bens de consumo o que menos importância lhe dão. As principais barreiras à inovação apontadas pelos empresários dizem respeito aos trabalhadores, em particular à sua qualificação, às dificuldades de financiamento e à falta de apoio estatal.

2) do ponto de vista da inovação tecnológica, as empresas inovam mais em Processos do que em Produtos. As principais inovações de produto são as melhorias nos produtos existentes. Os resultados pretendidos com estas inovações de produtos são principalmente o «alargamento da quota do mercado nacional» e a «penetração nos mercados externos». As inovações de processo são mais numerosas do que as inovações de produto e as principais inovações de processo são as melhorias nos existentes, com destaque para a gestão da qualidade. Os seus principais resultados são a «melhoria da qualidade» e a «reciclagem e reclassificação de trabalhadores».

3) do ponto de vista da inovação social, as empresas são basicamente conservadoras, denotando uma fraquíssima penetração de práticas modernas apelando à delegação e à participação. A principal inovação de gestão verificada é a «informatização da gestão», sendo no entanto necessário mudar urgentemente a filosofia de gestão de uma boa parte das empresas. Outro factor

de referir é que, do ponto de vista dos dirigentes, a introdução de inovações tem um impacto qualitativo forte na mão-de-obra.

4) a indústria portuguesa tem fraca propensão para o registo de patentes e a venda de tecnologia.

5) o «sucesso comercial da inovação» é explicado, na óptica dos dirigentes das empresas, pelas «componentes imateriais» do desenvolvimento das empresas e fundamentalmente pela inovação do produto.

6) Os «fundos próprios» são a principal fonte de financiamento da inovação, sendo seguido pela ordem de importância pelo crédito bancário.

7) O número de estabelecimentos que realiza actividades de I&D internamente é reduzida, os montantes dispendidos são baixos, muito concentrados em poucas empresas e financiados por «fundos próprios». as principais fontes de financiamentos de I&D são os «fundos próprios», o SINPEDIP (programa 3) e os programas comunitários.

Estas conclusões vão ao encontro das conclusões do trabalho de Gonçalves e Caraça (ver Gonçalves, F., e Caraça, J.M.G., 1986, «A indústria transformadora nacional na encruzilhada: potencial inovador e competitividade», in Análise Social, vol. XXII, nº 90, p.93, referido em (Sc6)) que construiu um conjunto articulado de dados sistemáticos sobre a actividade tecnológica da indústria portuguesa, com dados referentes a 1980. Caraça refere que cerca de 70% do montante global despendido em I&DE pelo sector das empresas é feito no conjunto da indústria transformadora, atingindo no conjunto da OCDE o valor de 85%. Simultaneamente, a indústria transformadora portuguesa é responsável por 80% do total das remessas efectuadas para o exterior por força da utilização de tecnologia estrangeira. Estes valores são devidamente enquadrados pelas principais conclusões do estudo de Gonçalves e Caraça, que se apresentam em síntese:

1) era principalmente através da compra de tecnologia ao exterior que o sistema produtivo sediado no território nacional satisfazia as suas necessidades em matéria de inovação tecnológica.

2) os sectores com «maiores necessidades tecnológicas» eram os da alimentação, bebidas e tabaco (sector 31), química e produtos metálicos (sector 35), equipamento e material de transporte (sector 38).

3) os sectores de têxteis, vestuário e couro (sector 32) e produtos minerais não metálicos (sector 36), aonde as empresas de capital nacional detinham uma posição igual ou superior a 90% do mercado em 1978, verificou-se que os gastos globais com a obtenção de novos conhecimentos eram superiores aos gastos das empresas com capital estrangeiro.

4) as empresas estrangeiras detinham a primazia da compra de tecnologia ao exterior, excepto nos já referidos sectores 32 e 36, e nos sectores da química (sector 35) e (sector 37).

5) o perfil dos gastos em I&DE industrial derivava sobretudo do comportamento das empresas de capital nacional.

6) as empresas de capital estrangeiro, que possuíam um peso considerável na economia portuguesa, encontravam-se aparentemente «divorciadas» do SC&T nacional, parecendo que o esforço de inovação visava satisfazer a lógica dos sistemas produtivos de onde provinha o respectivo capital.

7) o esforço inovador «autónomo» que o SC&T nacional parecia significativamente capaz de induzir se encontrava consubstanciado em dois sectores da actividade industrial: o das indústrias químicas (sector 35), e o das indústrias de produtos metálicos, máquinas, equipamentos e material de transporte, incluindo no seu seio o material eléctrico e electrónico (sector 38).

Outras conclusões de destaque são as seguintes, pela análise dos quadros Factor

6 e Factor 7:

QUADRO FACTOR 6

Intensidade Tecnológica das Indústrias Transformadoras de 11 países desenvolvidos da OCDE (1970-1980)

Intensidade I&DE Produção Exportações

Tecnológica (%) (%) (%)

Alta 51 11 16

Média 32 32 44

Baixa 17 57 40

Fontes: Gonçalves e Caraça, 1986

QUADRO FACTOR 7

Intensidade Tecnológica da Indústria Transformadora

Portuguesa em 1982

Intensidade I&DE I&DE + T/T Produção Exportações

Tecnológica (%) (%) (%) (%)

Alta 37 25 6 9

Média 55 60 49 20

Baixa 8 15 45 71

Fontes: Gonçalves e Caraça, 1986

Assim, verificava-se que:

1) o esforço de inovação tecnológica desenvolvido na indústria portuguesa era significativamente menor no que concerne às actividades de alta intensidade tecnológica associada, mesmo em termos relativos.

2) era significativa a baixa participação de actividades de alta intensidade tecnológica no valor global da produção e das exportações.

3) 70% das nossas exportações eram suportadas por 15% do esforço de inovação tecnológica (8% dos gastos em I&DE), acentuando a vulnerabilidade do sistema económico nacional.

O quadro Factor 8 (I13) permite-nos constatar que as despesas empresariais em I&DE se concentra nas grandes empresas. Tal facto é confirmado no trabalho da Tecninvest (T9), como se pode verificar no texto seguinte:

«As actividades de I&D, já de si pouco significativas a nível nacional, e da indústria em particular, estão no essencial confinadas às grandes empresas.»

QUADRO FACTOR 8

Distribuição do I&DE por Níveis de Volume Bruto de Produção

Volume Bruto de Produção (10^9 esc) Despesa (%) Despesa Média (10^9 esc)

<0,5 9,0 5,5 0,5-1,0 5,8 5,9 1,0-5,0 22,1 13,2 5,0-10,0 22,4 51,6 >10,0 40,7 83,5 Fonte : JNICT.

O gráfico Factor 3 identifica a distribuição das empresas portuguesas por níveis de intensidade tecnológica (I13). Nele se pode constatar a concentração empresarial em níveis tecnológicos médios, baixos e muito baixos. As empresas de cada um dos níveis tecnológicos explicitados possuem as seguintes características:

 MUITO ELEVADO : empresas que têm actividades de I&D e engenharia (com departamentos próprios), que podem desenvolver novos produtos e processos e introduzir importantes alterações em produtos e processos já existentes.

 ELEVADO : empresas com departamentos de engenharia e que podem introduzir modificações importantes em produtos e processos (geralmente com tecnologia adquirida no exterior).

 MÉDIO : empresas com pouco pessoal técnico e que podem introduzir pequenas alterações em produtos e processos (co tecnologia adquirida).

 BAIXO : empresas com orientação tecnológica mas sem capacidade interna para além de operarem competentemente a tecnologia que possuem.

 MUITO BAIXO : empresas nos sectores tradicionais e sem interesse por melhoramentos tecnológicos.

GRÁFICO FACTOR 3

Distribuição dos Níveis de Intensidade Tecnológica

Muito Elev ado

Elev ado Médio Baixo Muito Baixo 0 5 10 15 20 25 30 35

Os quadros Factor 9 e Factor 10 permitem-nos avaliar a situação dos níveis sectoriais de I&DE, assim como das respectivas intensidades sectoriais.

QUADRO FACTOR 9

Estrutura do Investimento em I&DE Industrial por Sectores (%)

Sector 1982 1984 1986 1988

Alimentação, Bebida e Tabaco (31) 3,2 6,8 6,0 6,6

Têxteis, Vestuário e Couro (32) 2,3 5,6 3,4 3,9

Madeira e Cortiça (33) 0,2 2,4 0,6 0,6

Papel, Artes Gráficas e Publicações (34) 2,1 13,2 4,8 17,3 Químicas dos Derivados do Petróleo e Carvão (35) 30,4 35,1 34,8 26,8

Minerais Não Metálicos (36) 6,4 2,7 3,5 0,6

Metalurgia de Base (37) 2,7 0,9 4,8 0,9

Produtos Metálicos e de Máquinas, Equipamentos e Material de Transporte (38)

52,7 33,3 42,0 43,3

Fonte : JNICT.

QUADRO FACTOR 10

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