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Operand Syntax and Addressing Modes

681

Embora M. Smith defenda a leitura mais fácil da LXX e Peshitta, o termo ם ָרְב ִק (“a sepultura deles”) é singular e não poderia funcionar como antecedente do sufixo pronominal possessivo da 3a. pessoa do masculino plural ם ָָ, portanto, não pode ser usado como justificativa aos ancestrais falecidos.

682GOULDER, 1982, p. 189: “Eles têm chamado (וארק) as terras segundo eles mesmos, como Davi fez em

Rabat-Amon…”. Paul Raabe cita outras passagens além de 2Samuel 12 (1Rs 8.34; Is 4.1; Am 9.12) e diz: “O idiomatismo se refere à posse. Portanto, a frase significa que o rico reivindica posse de muitas terras” (RAABE, 1990, p. 73).

683KRAUS, 1993, p. 737. 684

É semelhante aos animais [que] perecem.

O refrão do salmo, na forma do versículo 13, começa com um ו adversativo685 para indicar o contraste entre as expectativas internas do rico “insensato”. Ele pensa que “suas casas” e “suas habitações” durarão “para sempre” ou “de geração em geração” (v. 12), mas, na verdade, o “ser humano em esplendor não permanece”, pois “é semelhante aos animais [que] perecem” (v. 13). Como Goulder assinalou, há uma ligação entre o último termo do versículo 12, תוֹמ ָד ֲא (“terras”), e o primeiro substantivo do versículo 13, ם ָדאָ (“ser humano”):

A palavra para terra é encontrada no plural somente aqui [v. 12]. Com frequência, ela significa terra arável, mas é usada para a terra de Israel (Ez 11.17), a terra do Egito (Gn 47.20,26), etc. O uso aqui deve-se provavelmente a םדא no versículo seguinte [v. 13] (cf. v. 2, 20), como em Gênesis 2.7, “o SENHOR Deus formou םדא do pó da המדא”.686

A ironia está no fato de que a tradição preservada em Gênesis 3.17-19 relata a condenação de ’E contra ם ָדאָ (“Adão”): ele deverá retornar à “terra” (תוֹמ ָד ֲא; cf. “até retornares à terra”, הָמ ָדֲאָה־לֶאַךְַָבוּֽׁשַדַע), isto é, experimentar a morte retornando ao “pó da terra” (“ao pó tornarás”, בוּֽׁשָתַ רָפָע־לֶאְו) como consequência de sua desobediência ao mandamento divino. Ao invocar/aclamar seu nome sobre as תוֹמ ָד ֲא, o rico insensato se esqueceu de que ele é ם ָדאָ e de que a המדא é que reivindicará posse sobre ele.

Outra ligação entre os versículos 12 e 13 ocorre por meio da raiz verbal ןיל (“pernoitar”; “alojar-se”; “permanecer”)687

(v. 13) e o substantivo תִיַב (“casa”) (v. 12),688 visto que diversos trechos da Bíblia Hebraica falam sobre “pernoitar/alojar” (ןיל) em uma “casa” (תִיַב) (Gn 19.2; 24.23; Jz 18.2; 19.15; 1Cr 9.27). A grande ironia é que o ם ָדאָ “em esplendor” (v. 13) passa boa parte de sua vida investindo em “suas casas” (וֹמי ֵתָב), pensando que elas durariam “eternamente” (םָלוֹעְל) (v. 12), porém, logo descobrirá que nela não

pernoitará/permanecerá (ןיִלָי־לַב),689 mas, assim como os animais, ם ָדאָ perecerá (cf. וּמ ְדִנ) (v.

13).

685PINTO, 1998, p. 138, 18.32; WILLIAMS, 1976, p. 71, §432; NET Bible, 2005, Psalm 49.13, translator note

23: “A construção vav (ו) + substantivo no início do versículo pode ser interpretado como contrastivo em relação ao que o precede” (cf. Gn 6.8; 1Rs 2.26; Pv 10.4).

686GOULDER, 1982, p. 189.

687KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 529; BROWN, DRIVER,

BRIGGS, 1977, p. 533; ALONSO SCHÖKEL, 2004, p. 343. Contra a proposta de Judah J. Slotki de que o verbo aqui é ןול (“murmurar”, “queixar-se”), indicando que o ser humano fica “mudo” (ןיִלָי־לַב, “não se queixa”) diante das injustiças evidentes (SLOTKI, v. 28, n. 3, p. 361-2). Ver também a crítica à proposta de Slotki em SMITH, 2011, p. 123-4.

688ALONSO SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 676. 689

O versículo 13 está estruturado em um paralelismo progressivo,690 que corresponde bem à categoria de paralelismo de especificação ou intensificação, em que a ideia geral é transformada em uma imagem concreta, mais penetrante e enfática:691 a afirmação de que o ser humano não permanece é reforçada e enfatizada com a imagem dos animais “que perecem”.

Aqui, há uma alusão à introdução do salmo pelo uso reiterado da raiz לשמ. No versículo 5, o autor diz que inclinará seu ouvido “a uma parábola/comparação” (ל ָשָמ ), e, no ְַל refrão do versículo 13, afirma que o homem “em esplendor” (רָקיִב) “é semelhante” (ל ַשְמ ) aos ִַנ animais em sua mortalidade.692

A conclusão inevitável é apresentada na forma de um ‘provérbio’. O homem, quem quer que ele seja (rico ou pobre), não pode usar a riqueza para sua vantagem diante da morte. Um único fim atinge toda a humanidade e os animais da mesma forma, isto é, a morte (cf. Ec 3.19). A própria natureza da ‘vida’ (animal e humana) é tal que ela está inserida na obsolescência.693

Keil e Delitzsch observam o uso da raiz verbal לשמ + a preposição ְַכ para estabelecer comparação dos seres humanos com elementos da natureza: por exemplo, em sua aflição, o ser humano “é semelhante” (לשמ) “ao pó e à cinza” (רֶפֵּאָוַרָפָעֶכ) (Jó 30.19).694

No grau qal, o termo לשמ pode ter o sentido de “formular ou propor uma parábola” (cf. Ez 18.2ss; 24.3),695 mas no nifal, como é o caso de Salmo 49.13, o sentido é de “representar”, “ser semelhante a” (cf. Is 14.10; 143.7).696 Portanto a relação do v. 13 com o v. 5 ocorre pelo uso de termos com a mesma raiz, em que o versículo 13 explicita a “parábola” do salmo por meio do ato de “representar” ou comparar.697

Mitchell Dahood propõe a leitura “Mansão”698 para ר ָקְי com base em um artigo de R. P. Joüon, em que este autor analisa uma estátua honorária bilíngue e propõe que o substantivo

690

OSBORNE, 2009, p. 290; KÖSTENBERGER; PATTERSON, 2014, p. 242-3.

691ALTER, 2011, p. 21. Cf. também a análise desse mesmo tipo de paralelismo no v. 10.

692ALONSO SCHÖKEL; CARNITI, 1996, p. 669-70. Observe-se esse mesmo entendimento de que o verbo לשמ

está relacionado ao substantivo ל ָש ָמ (v. 5) em DECLAISSÉ-WALFORD; TANNER; JACOBSON, 2014, p. 444.

693

VANGEMEREN, 1991, p. 369.

694KEIL; DELITZSCH, 1996, v. 5, p. 352.

695KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 647. 696BROWN; DRIVER; BRIGGS, 1977, p. 605.

697Neste sentido, o v. 13 é tanto a comparação da “parábola” mencionada anteriormente quanto o é o v. 21. Não

há uma relação em que o primeiro refrão seria um enigma, e o segundo uma solução para ele, como propõe McDaniel (MCDANIEL, 2001, p. 49), menos ainda o inverso, como defende Perdue (PERDUE, 1974, p. 538- 540).

698

palmirense ארקי tem seu correspondente no termo grego ι ή (“honra”), cujo sentido em algumas inscrições funerárias seria “monumento de honra”.699

Em seguida, Joüon afirma: Como ocorre com frequência em nossas línguas, a palavra com o sentido de “honra”, ι ή, é usada também no sentido concreto de ‘uma honra’ dada a alguém, “o que constitui sinal de honra” [...] Descobrimos ele sendo usado com um significado concreto de ‘marca, sinal ou monumento de honra’ em uma inscrição bilíngue [...]: “Este [memorial] que é um monumento de honra da sepultura”.700

Entretanto, essa tradução é muito pouco provável à luz do contexto próximo do Salmo 49 e de seu uso ao longo da Bíblia Hebraica. O HALOT reconhece dois sentidos básicos para ר ָקְי: “preciosidade” e “honra”, atribuindo o uso em Salmo 49.13 ao primeiro sentido associado a itens preciosos (em que também são alistadas as seguintes passagens: Jr 20.5; Ez 22.25; Jó 28.10; Sl 49.13,21).701 O BDB também reconhece esses dois sentidos básicos, mas entende o Salmo 49.13 no segundo sentindo de ר ָקְי: “honra” (com Et 1.4; 6.3; 8.16).702 O que chama a atenção é que não há uma associação, em nenhum dos léxicos, com o sentido de “monumento de honra” funerário como propõe Dahood.703

Ao contrário da proposta de BDB, o termo ר ָקְי parece ser melhor traduzido por “a riqueza/pompa do esplendor de sua grandeza” (וֹתָלוּדְגַת ֶר ֶאְפ ִתַר ָקְי) no texto de Ester 1.4, pois o sentido básico de ר ָקְי pode ser identificado pela expressão paralela anterior, que faz referência à “riqueza da glória de seu reinado” (וֹתוּכְלַמַדוֹבְכַרֶשֹע).

Chama a atenção o uso de sufixo pronominal possessivo ao final de וֹתָלוּדְג (“sua ַ grandeza”) e de וֹתוּכְלַמ (“seu reino”), estabelecendo-os como duas expressões paralelas na cadeia de construto, que são imediatamente precedidas por dois sinônimos no hebraico ת ֶר ֶאְפ ִת (“esplendor”) e דוֹבְכ (“glória”).704

Portanto, é provável que o texto de Ester 1.4 empregue רָקְי com o sentido semelhante a ר ֶשֹע (“riqueza”) para se referir à riqueza e objetos de valor que o rei Assuero ostentava e revelou a seus vassalos.

Em Jeremias 20.5, ר ָקְי está relacionado a termos como ןֶסֹח (“tesouro”, “suprimentos”)705

e ה ָדוּהְיַ יֵכְל ַמַ תוֹרְצוֹא (“tesouros dos reis de Judá”). Nos textos sapienciais (mesmo gênero que o Salmo 49), ר ָקְי é usado para se referir à busca do homem por “tudo [o

699JOÜON, R. P. Glanes palmyréniennes. Syria, v. 19, n. 1, 1938, p. 100. Cf. SABOURIN, 1974, p. 375. 700

JOÜON, 1938, p. 100.

701KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 432. 702BROWN; DRIVER; BRIGGS, 1977, p. 430. Cf. também GESENIUS, 2003, p. 363.

703Isso é surpreendente em relação ao HALOT, que não considera o sentido descoberto na pesquisa de R. P.

Joüon uma possibilidade a ser aplicada ao Salmo 49 como faz Dahood. Paul Raabe nota os dois sentidos básicos dos léxicos mencionados aqui e diz ser improvável a reconstrução de Dahood à luz do segundo refrão (RAABE, 1990, p. 73)

704 Ver em ALONSO SCHÖKEL, 2004, p. 707, como ת ֶר ֶאְפ ִת pode funcionar como substituto 705

que é] precioso” (ר ָקְי־לָכ) ao escavar nas rochas (Jó 28.10), em uma alusão aos metais

preciosos. Em Provérbios 20.15, ר ָקְי funciona como qualificativo e indica “objeto de valor”

(ר ָקְיַיִלְכ) em paralelo a “ouro” (בָהָז) e “pérolas de coral” (םיִניִנְפ).706 Não resta dúvida de que, à luz da discussão sobre as riquezas e sua insuficiência para redimir um ser humano porque o resgate da vida dele “é valioso” demais (v. 7-12, esp. v. 9), que רָקְי tem o sentido de “esplendor” ou “pompa”, indicando um “ser humano” (ם ָדאָ) que adquiriu muitos “objetos de valor”.707

Como já enfatizado anteriormente, há uma ironia aqui por meio de jogo de palavras: o resgate da vida de uma pessoa é tão valioso (רקי) (v. 9) que mesmo um ser humano em

esplendor (רָקְי) (v. 13) é incapaz de pagar, por isso, ele “é semelhante aos animais [que] perecem” (v. 13). Isso produz um importante impacto retórico, pois um grupo específico de

pessoas ricas e poderosas é comparado aos animais irracionais.708

2.5. Estrofe II: A realidade da morte e a confiança na redenção divina eliminam o

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