Para a concepção do Salmo 49 como um texto sapiencial do período final da realeza judaíta, é necessário redesenhar o processo em que o Reino do Sul tornou-se o locus de alta produção literária. Uma das dificuldades de exegetas para aceitar a produção de textos como o Salmo 49 em Israel na época do primeiro templo está no questionamento se havia escolas de escribas capazes de produzir literatura como aquela encontrada na Bíblia Hebraica.895
890SCOTT, 1971, p. 191.
891DELL, 2004b, p. 265: a influência sapiencial “pode ser considerada formativa, e não simplesmente uma etapa
editorial em relação a esses textos [bíblicos] com os quais pode ser comparada”.
892 GOULDER, 1982, p. 183. 893JACOBSON, 2014, p. 152, 154.
894SNEED, 2011, p. 64, apresenta uma observação bastante pertinente em um artigo instigante: “Todos os livros
bíblicos são produtos dos escribas eruditos. Não importa que posição social eles tivessem (sacerdote, profeta, sábio e assim por diante), todos os autores bíblicos estavam unidos em seu papel como escribas e em seu treinamento escribal em comum. Com relação à cosmovisão dos autores bíblicos, seu papel como escribas deveria receber mais importância do que a questão se eram ao mesmo tempo sacerdotes, profetas e sábios”.
895
O período do século VIII A.E.C. — em que houve um processo de rápida urbanização em Judá como resultado da expansão do império assírio e do influxo de pessoas do Reino do Norte para o Sul com a queda de Samaria em 722 A.E.C. — parece ter contribuído para a produção e preservação literária de diversos textos do antigo Israel, sob a liderança de Ezequias e de seus escribas.896
Na parte final do Ferro II (séculos VIII e VII A.E.C.), Jerusalém se expandiu, sua população cresceu, e uma grande área se formou ao redor da cidade, sendo o limite da parte fortificada de Jerusalém definido, em especial, pelas muitas sepulturas que a cercavam. Aldeias vizinhas sem fortificações foram construídas ao norte da cidade, e havia propriedades agrícolas, ao derredor dela, com grandes vilas constituindo a parte mais remota do raio do território conhecido como “grande Jerusalém”, atingindo um tamanho entre 900 e 1.000 dunans.897
Esse processo de crescimento da Judá do fim do século VIII A.E.C. e a consequente intensificação da burocracia em Jerusalém demandou a ampliação da atividade literária na capital e nas principais cidades associadas a ela, conforme a pesquisa arqueológica revela: “deve-se observar que todos os sete sítios nos séculos VIII e VII contendo direta evidência de escrita têm sido analisados em diversas conexões da perspectiva de sua dependência de Jerusalém”, o que implica as demandas da realeza na administração da rede político- econômica da região.898 Como Schniedewind sintetizou bem:
A urbanização seria o catalisador necessário para uma atividade literária mais disseminada [...] as condições sociais favoreceram o florescimento da literatura
896Ver descrição em QUICK, 2014, p. 14, 23-24.
897MAZAR, 1990, p. 416-424; LIPSCHITS, 2005, p. 215. Ver também as descobertas de uma fortificação ao
norte da cidade que “testemunham um intenso assentamento nesse período [Idade do Ferro]” (BARKAY; FANTALKIN, 2002, p. 49-71). Dados de uma pesquisa arqueológica realizada na Sefelá desde 1979 complementam o quadro apresentado pelas escavações arqueológicas. Durante os séculos VIII e IX, a Sefelá experimentou um florescimento populacional, com crescimento de seus habitantes, muitos novos assentamentos (especialmente, pequenas propriedades agrícolas) e uma ampliação das regiões habitadas. A campanha de Senaqueribe, em 701 A.E.C., provocou uma diminuição da população, que, todavia, voltou a crescer ao longo do século VII, experimentando um processo de refortificação e somando, ao final do século, uma área de construção de cerca de 800 dunans nas principais cidades (FINKELSTEIN, 1994, p. 172-173; LIPSCHITS, 2005, p. 220- 221.).
898JAMIESON-DRAKE, 1991, p. 147-8. Isso também é confirmado por William Schniedewind: “No importante
aparato de um rei estavam incluídos seu escriba e a biblioteca real. Até mesmo aspirantes a reis como Abdi- Heba, prefeito de Jerusalém no século XIV a.C., ou Mesá, chefe de Moabe no século IX a.C., tinham escribas. Não é de surpreender que o florescimento da escrita e das artes escribais não fosse um fenômeno exclusivamente judeu.” (SCHNIEDEWIND, 2011, p. 107). André Lemaire também observa que “escolas nas culturas vizinhas [de Israel] parecem ter originado-se da necessidade de treinar escribas para o trabalho nas burocracias governamentais. Com toda probabilidade houve escolas em Israel para o mesmo propósito de treinar futuros membros da administração real...” (LEMAIRE, 1990, p. 169).
hebraica no séculos VIII e VII a.C. Essas mudanças na vida social do povo judeu foram especialmente perceptíveis na cidade de Jerusalém. [...]899
O crescimento de Jerusalém foi um subproduto da ascensão do Império Assírio. Antes de mais nada, a Assíria destruiu o reino setentrional de Israel, o que resultou na imigração de israelitas para Jerusalém e outras cidades do Sul. [...] Em 722 a.C., Ezequias enfrentava um afluxo de imigrantes vindos do reino do norte derrotado. Em vez de entricheirar suas fronteiras, Ezequias procurou integrar esses refugiados em seu domínio, almejando assim restaurar a época de ouro de Israel, o rei Davi e Salomão. [...] Uma burocracia real floresceu junto com a população de Jerusalém.900 Os dados da Bíblia Hebraica parecem confirmar a presença desse aparato real. Em Provérbios 25.1, ocorre a menção aos escribas de Ezequias: “São também estes provérbios de Salomão, os quais transcreveram os homens de Ezequias, rei de Judá” (ARA, itálico acrescentado).901 Segundo James Crenshaw, durante o reinado de Ezequias, houve o patronato monárquico que possibilitou a atividade escribal dos “homens de Ezequias”. Como este rei buscou seguir Salomão em vários aspectos, parece que a referência aos “homens de Ezequias” reflete a menção na história deuteronomista aos “teus homens”, em um elogio da rainha de Sabá a Salomão, como uma expressão para os escribas que trabalhavam na corte em 1Rs 10.8.902
Schniedewind também observou que, embora o foco de Provérbios 25.1 seja indicar que os provérbios ali contidos são de Salomão, a expressão “os homens de Ezequias” é secundária, portanto, consiste no tipo de referência desinteressada que pode ser a chave para a pesquisa histórica de que esses homens foram de fato responsáveis por registrar as máximas de Provérbios 25—29, e não somente isso, mas também foram responsáveis pela primeira etapa da composição da história deuteronomista.903 Halpern e Lemaire apresentam diversas razões para uma história protodeuteronômica do livro de Reis produzida na época de Ezequias.904
Além disso, a menção casual a Sebna em 1Reis 18.18, “escriba de estado” ou “secretário do rei” (רֵפֹס),905
é significativa. A função do רֵפֹס ou “escriba” era muito importante
899
SCHNIEDEWIND, 2011, p. 98.
900SCHNIEDEWIND, 2011, p. 99, 101.
901WHYBRAY, 1972, p. 146: “A referência aos homens de Ezequias, rei de Judá (cerca de 715-687 a.C), que
eram evidentemente escribas na corte real, revela que a literatura sapiencial, já associada com Salomão, ainda era uma preocupação da corte judaíta dois séculos depois” (o primeiro itálico é do original; segundo itálico foi acrescentado).
902CRENSHAW, 1985, p. 613-4. Em outra obra, Crenshaw faz observações semelhantes e conclui dizando: “a
posterior [depois dos conselheiros de Davi] aparição dos ‘homens de Ezequiel’ sugere que uma classe distintiva de sábios existia no século VIII” (CRENSHAW, 1981, p. 29)
903SCHNIEDEWIND, 2011, p. 108-115. 904HALPERN; LEMAIRE, 2010, p. 143-5. 905
no Antigo Oriente Próximo. As antigas tradições de escribas remontam aos centros da cultura em cada um dos extremos do Crescente Fértil: Mesopotâmia e Egito — ambos com uma vigorosa tradição sapiencial, com sábios profissionais que produziam extensas obras literárias.906 Na Babilônia, a arte do escriba é bastante antiga e foi reforçada pelo estabelecimento de escolas de escribas, cujas atividades estavam associadas a todas as etapas da sociedade da Mesopotâmia.907 Do mesmo modo, no Egito, as escolas e seus ensinamentos eram organizados, desde o Reino Médio, em uma proporção bem ampla, a ponto de todo egípcio poder levar seu filho à escola no período do Reino Médio.908 A arte de escriba tornou- se fundamental para a sociedade faraônica, tanto que, na famosa “Sátira sobre os Negócios”, a profissão de escriba é designada, de modo eloquente, como “o maior de todos os chamados”.909
Portanto, 2Reis 18.18 testemunha a presença de um escriba (talvez o chefe de um grupo maior de “homens de Ezequias”) no palácio de Ezequias.910 Como Roland de Vaux indica:
O secretário Sebna é um dos três ministros que discutem com o mensageiro de Senaqueribe (2Rs 18.18,37; 19.2; Is 36.3,11,22) [...] esse funcionário era, ao mesmo tempo, secretário particular do rei e secretário de Estado. Ele redige a correspondência externa e interna, anota a soma das contribuições (2Rs 12.11); desempenha um papel importante nos negócios públicos. É inferior ao administrador do palácio: mas ele vem imediatamente depois do administrador do palácio em 2Reis 18.18s; Isaías 36.3s, e a missão que ambos realizam em conjunto põe em jogo a sorte do reino.911
906CRENSHAW, 1981, p. 55. 907
PATTERSON, רַפָס, in: HARRIS; ARCHER; WALTKE, 1999, p. 632.
908LEMAIRE, 1984, p. 275.
909PATTERSON, רַפָס, in: HARRIS; ARCHER; WALTKE, 1999, p. 632. “No Egito do Novo Império, o título
“escriba real” é freqüente, seja só, seja unido a outras funções. Mas, acima dos inumeráveis dedicados à escrita, alguns escribas reais ocupam funções de primeiro plano e participam em todos os negócios do Estado” (DE VAUX, 2004, p. 162).
910Rollston afirma: “O fato de um escriba estar presente, juntamente com outros oficiais, nas negociações com a
delegação de Senaqueribe, é também indicativo do poder e da proeminência alcançados às vezes por um escriba real (2Rs 18.18)” (ROLLSTON, 2010, p. 89). Lester Grabbe faz a interessante síntese: “A Bíblia hebraica pressupõe que os escribas foram empregados na administração dos reinos de Israel e Judá: os escribas de Davi (2Sm 8.17; 20.25; 1Cr 18.16; 24.6); escriba de Salomão (1 Kgs 4.3); um escriba real no tempo de Jeoás (2Rs 12.11; 2Cr 24.11); Sebna, o escriba (2Rs 18.18,37; 19.2); Safã, o escriba (2Rs 22.3,8-10, 12; 2 Cr 34.15,18,20); o escriba do comandante do exército (2Rs 25.19; Jr 52:25). Jeremias tem uma série de referências aos escribas: a câmara de Gemarias, filho de Safã, o escriba no templo (36.10); câmara do escriba no palácio do rei (36.12); Elisama, o escriba (36.12,20,21); Baruque, o escriba, desempenha um papel proeminente (36.26,32); Jeremias foi preso na casa de Jônata, o escriba (3715.20).” (Ver GRABBE, 2014, p. 107)
911
Como os escribas não estavam limitados ao palácio do rei, mas poderiam estar associados ao templo ou ao ofício profético,912 observa-se o desenvolvimento do trabalho de escribas no templo de Jerusalém, ocorrendo décadas depois de Ezequias, na segunda metade do século VI A.E.C. O processo de urbanização do século VII A.E.C. gerou, ao que tudo indica, uma “democratização” da escrita muito mais ampla do que David W. Jamieson-Drake havia defendido,913 conforme a obserção de Alan Millard sobre a Judá a partir de 750 A.E.C., depois de uma análise das evidências arqueológicas e epigráficas:
A variedade de inscrições antigas — desde textos monumentais em prédios, tumbas e obras públicas até cartas, selos, listas e nomes riscados em potes — certamente indicam um difundido uso da escrita, especialmente quando se considera que a vasta maioria dos documentos foi escrita em papiro, que não teria sobrevivido ao clima úmido de Israel.914
Assim como ocorria no antigo Egito, em que o templo era uma extensão funcional da instituição real,915 os escribas no templo de Jerusalém passaram a ter uma importância central e o santuário tornou-se um dos principais loci de escrita na época de Josias:
Para compreender de que maneira o lugar social da escrita havia se modificado, retornemos à famosa descoberta do pergaminho: “O sumo sacerdote Helcias disse ao secretário Safan: ‘Encontrei na casa de YHWH o pergaminho da lei’” [2Rs 22.8]. O fato de que tenha sido o sumo sacerdote que encontrou o pergaminho no templo é crucial para compreender o novo lugar social da escrita: os sacerdotes e o templo.916 Antes de Schniedewind, André Lemaire já havia chamado a atenção para o fato de que a famosa descoberta do “livro da lei/instrução” (ה ָרוֹתַהַ רֶפֵס) na “casa de YHWH” (2Rs 22.8) pelo sacerdote Hilquias (22.23) poderia ser uma indicação da existência de uma biblioteca em uma sala no templo de Jerusalém, em que os arquivos e textos eram armazenados.917 Em sua análise sobre a relação dos sábios do templo com o livro de Deuteronômio, Lemaire indica que o papel principal na história da descoberta do livro da lei em 2Reis 22 foi desempenhado por “Safã, filho de Azalias, filho de Mesulão, o escriba [רֵפֹס]”.
912SNEED, 2011, p. 62. James Crenshaw observa: “O locus da tradição sapiencial no Egito era faraônico,
enquanto na Mesopotâmia, os sábios atuavam primariamente no templo [...] Enquanto a sabedoria egípicia se concentrava em fornecer instrução para uma vida bem sucedida na corte real, o seu correspondente mesopotâmico dava especial atenção em garantir o bem estar por meio de práticas cultuais” (CRENSHAW, 1981, p. 56). Christopher Ansberry observa que os textos sapienciais egípcios também estavam ligados ao templo e aos sacerdotes (ver ANSBERRY, 2011, p. 18-19). No outro espectro, Tremper Longman chama a atenção para o fato de que “os escribas profissionais” atuavam “nas várias partes da sociedade, particularmente a corte real e o templo”, indicando que a E.DUB.BA.A (escola mesopotâmica) não servia apenas ao templo, mas ao palácio também (LONGMAN III, 2017, p. 192 [edição kindle]).
913JAMIESON-DRAKE, 1991, p. 148. 914MILLARD, 1987, p. 27.
915ANSBERRY, 2011, p. 34.
916SCHNIEDEWIND, 2011, p. 153-4. 917LEMAIRE, 1990, p. 176.
Ele foi enviado pelo rei Josias ao templo (v. 3), recebeu a mensagem e o livro de Hilquias, o
sumo sacerdote (v. 8), leu o livro para o rei (v. 10) e foi consultar a profetisa Hulda (v. 14).
Posteriormente, membros da família de Safã também tiveram um papel importante em relação a outro livro, que continha os oráculos de Jeremias: “Leu, pois, Baruque naquele livro as
palavras de Jeremias na Casa do SENHOR, na câmara [תַכ ְשִלְב] de Gemarias, filho de Safã, o
escriba, no átrio superior, à entrada da Porta Nova da Casa do SENHOR, diante de todo o povo” (Jr 36.10, ARA). Depois disso, o rolo de Jeremias foi depositado em outra “câmara” ou “sala” (תַכְשִלְב) no palácio (36.20).918
O HALOT define הָכ ְשִל como uma sala geralmente em um prédio religioso com bancos de pedra dos três lados.919 A referência à הָכ ְשִל associada a um descendente de um “escriba” (רֵפֹס) e à leitura pública de um “livro” (רֶפֵס) no templo parece indicar uma sala em que a atividade escribal era exercida, ao menos, em seu papel de ensino.920 O relato do Cronista parece sugerir, fortemente, a presença de salas anexas (תוֹכ ְשִל) no entorno do templo, que tinham vários propósitos: armazéns, locais para os levitas ficarem (1Cr 9.33; 28.12; 2Cr 31.11)921 e, conforme Jeremias 36.10, o ambiente em que escribas desempenhavam suas funções. Tendo em vista essa ligação entre o templo e a atividade escribal nos dias de Josias e de Jeremias, parece bastante razoável a tese de Moshe Weinfeld de que o movimento deuteronomista estava associado a um grupo de sábios do templo de Jerusalém nos dias de Josias.922
Nessa relação entre o templo e o movimento sapiencial, haveria grande possibilidade de que salmos sapienciais fossem compostos para celebrações do culto em Jerusalém no período final do século VII a.C., pois a sabedoria era vista como “parte da mais antiga
918LEMAIRE, 1990, p. 177.
919KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 536-7.
920KAISER, ךשל, in: HARRIS; ARCHER; WALTKE, 1999, p. 483; LEMAIRE, 1990, p. 177-8. 921KELLERMAN, Diether, הָכ ְשִל. In: BOTTERWECK, 1997, v. 8, p. 35-6.
922WEINFELD, 1972, p. 244-281, apresenta diversos paralelos entre Provérbios e Deuteronômio, indicando que
a literatura sapiencial precede à deuteronômica. Christopher Ansberry também estabelece várias ligações temáticas entre os dois livros e diz: “A visão moral do livro de Provérbios procura reforçar o paradigma deuteronômico de liderança. Semelhante ao programa deuterônico, o material sapiencial fornece aos jovens nobres e inexperientes os valores fundamentais e as atitudes formativas da existência social: delineia o ethos tradicional que devem incorporar para liderar os encarregados dos seus cuidados. As coleções individuais incluem preocupações convencionais com material cortesão para inculcar valores estabelecidos e conselhos práticos em seu público. Ao fazê-lo, o livro não só cultiva virtudes que coincidem com os interesses da comunidade, mas também identifica certos valores que correspondem aos interesses, aspirações e tentações de seu nobre destinatário. Esse programa ético complementa o modelo paradigmático de liderança apresentado no Deuteronômio. Na visão deuterônica, os líderes das instituições sociais deveriam incorporar os valores da comunidade e promover a justiça dentro de suas respectivas esferas sociais.” (ANSBERRY, 2011, p. 188)
autoexpressão de Israel em suas festas de adoração, bem como em outras áreas da vida, a ponto de se manifestar em alguns salmos que revelam a influência sapiencial”.923 Assim, Martin J. Buss parece estar correto em indicar que o Salmo 49 corresponde com toda probabilidade à Judá pré-exílica.924 Markus Saur também entende que esse salmo é anterior ao exílio, remontando a um período em que a realeza ainda não havia sido afetada pela destruição babilônica.925
O desenvolvimento da análise anterior sobre o desenvolvimento histórico pré-exílico da literatura sapiencial, leva à conclusão que se deve datar o Salmo 49 no final do século VII A.E.C., provavelmente posterior a Josias. Existem elementos linguísticos que favorecem essa datação, além do fato de que a coleção dos “filhos de Corá” geralmente é atribuída ao pré- exílio.926 Por questão de limites deste projeto, exporemos a seguir somente alguns aspectos linguísticos que parecem apoiar uma data no final do período pré-exílico.
Primeiramente, uma palavra significativa do Salmo 49 relacionada à crítica socioeconômica — tema predominante dessa poesia sapiencial — ocorre nos profetas pré- exílicos e em Ezequiel, mas não nos pós-exílicos.927 O substantivo ןוֹיְב ֶא (v. 3: “pobre”) não aparece em nenhum profeta considerado pós-exílico pela crítica bíblica (Ag, Ml, Zc, Is 56- 66),928 mas ocorre cinco vezes em Amós (2.6; 4.1; 5.12; 8.4,6),929 três vezes na primeira parte do livro de Isaías (14.30; 29.19; 32.7; uma vez no chamado “Pequeno Apocalipse”930: Is 25.4),931 quatro vezes na seção reconhecida como dominantemente pré-exílica de Jeremias (Jr
923DELL, 2004a, p. 458; LEMAIRE, 1990, p. 179: “[Os salmos] parecem refletir a variedade de tradições no
antigo Israel, e alguns deles dão evidência de que a sabedoria também estava presente no templo”.
924BUSS, 1963, p. 387. Embora discorde-se aqui da classificação feita por Buss de que o salmo é “quase secular”
e de natureza “não deuteronômica”.
925SAUR, 2015, p. 199, 201. Embora discordemos de Saur de que os salmos 49 e 73 remontem à época dos
antigos reinos de Israel e Judá. Parece melhor um período em que apenas o Reino do Sul ainda mantinha-se firme (ver adiante). Como Goulder observou, não há nada no texto que indique uma data tardia para o salmo, a não ser o “consenso” de que a literatura sapiencial é tardia (GOULDER, 1982, p. 182-3).
926Ver análise da epígrafe do Salmo 49.
927Nesta parte, não faremos comparação com os livros sapienciais, embora haja muitos vocábulos que ocorram
em Provérbios (texto basicamente pré-exílico), outros aparecem em Jó e em Eclesiastes, que são considerados pós-exílicos pela crítica bíblica. Nesses casos, as palavras características da literatura sapiencial (esp. Pv, Jó, Ec) não indicam diacronia (fenômenos antigos ou tardios), mas sincronia (aspectos linguísticos sapienciais ou não sapienciais) (ver HURVITZ, 1988, p. 43-4, esp. nota 12)
928Na narrativa claramente pós-exílica de Ester, ןוֹיְב ֶא aparece somente uma vez (Et 9.22).
929Para a redação final de Amós no período pré-exílico, ver SCHNIEDEWIND, 2011, p. 119,122-3; FINLEY,
2003, p. 102-5.
930PLEINS, 2001, p. 237.
2.34; 5.28; 20.13; 22.16)932 e três vezes em Ezequiel (Ez 18.12; 16.49; 22.25ss.).933 Os profetas pós-exílicos usam outros termos paralelos a ןוֹיְב ֶא, por exemplo, יִנָע (“pobre”, “miserável”, “carente”, “sem posses”)934
(Zc 7.10; 9.9; 11.7,11) ou םוֹתָי (“órfão”, com o sentido de indefeso)935 (Zc 7.10; Ml 3.5).936
A crítica que impera no Salmo 49 em favor do pobre (ןוֹיְב ֶא), contra o rico (רי ִשָע) (v. 3), que é capaz de provocar temor (Sl 49.6,7) nos menos favorecidos por suas prováveis ameaças e opressão, está presente também em Amós (2.6; 4.1; 5.12; 8.4,6) e em Jeremias (e.g., 2.34; 5.28).937 Em Jeremias 20.13, o próprio profeta se identifica como ןוֹיְב ֶא a quem YHWH salva (Jr 20.13),938 o que remete à perspectiva do Salmo 49, em que o autor começa com uma pergunta retórica na primeira pessoa, colocando-se como um desfavorecido ameaçado pelos ricos ímpios: “Por que temerei [...] a maldade dos que me atacam [...] os que confiam em suas riquezas” (v. 6,7).
Chama a atenção o uso de דֶלֶח (“tempo de vida”; “mundo”)939 no versículo 2, um substantivo que ocorre na literatura sapiencial (Sl 49.2; Jó 10.12,20; 11.17), no texto pré- exílico Isaías 38.11940 e em um salmo que parece ser exílico (Sl 89.48; cf. v. 38-45).941 Assim, a princípio, o terminus ad quem do uso do vocábulo favorece a produção do Salmo 49 até o período exílico, pois דֶלֶח não ocorre em textos claramente pós-exílicos (e.g., Ag; Ml; Ne, Et).
Há também paralelos verbais entre o Salmo 49 e a primeira parte do livro de Jeremias que reforçam certa contemporaneidade com o profeta e expressam uma preocupação semelhante com as desigualdades socioeconômicas na Judá do final do século VI, embora não sejam argumentos definitivos de datação. Enquanto o salmista menciona o rico (רי ִשָע) (Sl 49.3) e critica aqueles que “se gloriam” ( ַָלַהְתִיוּל ) em “seus bens” ( ַָרְשָעם ) (Sl 49.7), o profeta Jeremias exorta “o rico” (ריִשָע) a não “gloriar-se” ( ֵַלַהְתִיל ) no “seu bem” ( רְשָעְבוֹ )ַ (Jr 9.23).
932WESTERMANN, 1967, p. 155-63, atribui o primeiro estrato do livro aos capítulos 1—25, com exceção do
cap. 19. Ver também TOV, 1985, p. 211-37; LIPSCHITS, 2005, p. 305-7, que entendem ser o texto da LXX bem próximo do primeiro estrato de Jeremias (mantendo basicamente o texto de 1—25, com alguns acréscimos de um editor posterior). Cf. PLEINS, 2001, p. 278.
933BOTTERWECK, G. Johannes, ןוֹיְב ֶא, in: BOTTERWECK, 1977, v. 1, p. 29-33. 934KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 856. 935BROWN; DRIVER; BRIGGS, 1977, p. 450
936Observe-se que esses dois substantivos hebraicos também estão presentes em textos pré-exílicos, mas o fato de
ןוֹיְבֶא ser usado de forma quase exclusiva no período pré-exílico favorece a autoria antiga do Salmo 49.
937BOTTERWECK, ןוֹיְב ֶא, in: BOTTERWECK, 1977, v. 1, p. 31-3. 938PLEINS, 2001, p. 290.
939BRENSINGEN, Terry L., דֶלֶח, in: VANGEMEREN, 2011, p. 137, verbete 2689; HOLLADAY; KÖHLER,
2000, p. 104; KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 316
940FREEDMAN, 1987, p. 21-2; SCHNIEDEWIND, 2011, p. 121-2.