Há algum tempo, estabeleceu-se um “consenso” de que os salmos sapienciais são por natureza pós-exílicos838 e teriam sido produzidos por escribas judeus do período do segundo templo, que se consideravam os herdeiros dos profetas e antigos salmistas.839 Essa ideia desenvolvida por Mowinckel de uma “salmografia erudita”840 com perspectiva mais racionalista e produzida por um grupo de sábios escribas de época posterior841 tem sido pressuposta nas análises de eruditos posteriores,842 embora cada vez mais se rejeite a concepção de que esses salmos sapienciais não tiveram “origem nos cantores do templo, mas eram de uma natureza realmente particular, sem mais alguma relação direta com o culto”.843
A leitura do comentário de Gerstenberger revela a aceitação da tese de Mowinckel de que os salmos de sabedoria são pós-exílicos:
Sua aparência transformada e sua mensagem diferente devem-se unicamente às condições alteradas de adoração durante o Exílio e posterior a ele. A estrutura política e social de Israel havia mudado. Temos de visualizar as comunidades de judeus espalhadas por todo o mundo, não mais desfrutando a proteção de seu estado nativo.844
No entanto, há um aspecto de outra profissão que desempenhou um papel significativo na reconstrução da época pós-exílica [...] sem a dedicação dos escribas à Lei de Moisés, Israel não teria se recuperado. O próprio Esdras era um escriba (Ed 7.1-10; Ne 8.4) e quem deveria ler a torá (Ne 8.4; v. 2 indica que ele era um
838
Sobre esse tema, ver a análise de DELL, 2004a, p. 452-3; GOULDER, 1982, p. 182-3.
839MOWINCKEL, 1969, p. 208; MOWINCKEL, 2004, p. 211-3. 840Expressão criada em MOWINCKEL, 1969, p. 208.
841MOWINCKEL, 2004, p. 93-4.
842KRAUS, 1993, p. 734-7, por exemplo, entende que o salmo é tardio (pós-exílico) e expressa uma esperança de
vida pós-morte dos pobres que sofrem sob a opressão dos ricos. O autor é um pobre que aguarda ser resgatado da morte, em contraste com o destino do ímpio. Gerhard von Rad aceita, sem uma análise crítica profunda, tanto a ideia de que os salmos são pós-exílicos quanto a visão de que eles estavam dissociados do culto: “Em qualquer caso, o ‘Sitz im Leben’ desses poemas não pode estar no culto. [...] O círculo ao qual pertencem esses salmos às vezes é mais amplo e, em outras, mais restrito, o que não deve surpreender, tendo em vista a ausência de características exatas no que diz respeito ao gênero. Claramente, estamos aqui diante de uma espécie de poesia escolar, que foi apresentada aos alunos nos tempos pós-exilicos. Também é possível que os sábios tenham escrito esse tipo de oração visando à própria edificação” (VON RAD, 1973, p. 71-2 [itálico acrescentado]). Da mesma forma, Leopold Sabourin aceita as conclusões de Mowinckel, sem questioná-las: “O problema, na exegese de salmos, [...] não são os salmos cultuais, mas os não cultuais [...] originados nos círculos dos ‘sábios’, os líderes eruditos das ‘escolas de sabedoria’. Na mais tardia salmografia, dissociada de situações claras de culto, os escritores erutidos tentaram aderir às antigas regras de composição, mas sem muito sucesso...” (SABOURIN, 1974, p. 371).
843MOWINCKEL, 1969, p. 211. Ver as críticas a essa ideia em SNEED, 2011, p. 61-4; DELL, 2004a, p. 445-51. 844
sacerdote também). Como Esdras, inúmeros escribas devem ter se ocupado em copiar e proclamar a lei nas comunidades judaicas pós-exílicas. [...] O conteúdo e a forma dos salmos de sabedoria do AT e a literatura sapiencial pós-canônica revelam o ativo envolvimento desses homens eruditos com as questões litúrgicas.845
Uma das razões para datar os salmos sapienciais, em especial o capítulo 49, no período pós-exílico é a estratificação social entre ricos e pobres refletida de modo muito claro, por exemplo, no livro de Neemias (Ne 5.1-13). Aqui, há uma discussão sobre qual seria o grupo responsável pela produção. Pleins relaciona a crítica à riqueza dos salmos sapienciais (esp. Sl 49 e 73) com um período sacerdotal pós-exílico, em que houve uma fusão dos papeis de sábios, profetas e sacerdote e em que os textos de sabedoria passaram a proclamar a mesma justiça social dos profetas pré-exílicos.846 Gerstenberger associa os salmos de sabedoria às classes mais baixas da hierarquia profética, aos levitas e aos escribas, que assumiram o papel de aconselhar indivíduos e grupos em aflição e passaram a defender a causa desses marginalizados.847
Rainer Albertz elaborou a tese, seguida por Spangenberg, de que havia dois grupos de classe alta no período pós-exílico. O primeiro grupo desfrutava de sua posição e era indiferente ao pobre, fazendo empréstimos a juros altos e tirando proveito da crise econômica (Ne 5.7; Ml 3.5). O segundo era representado por Neemias, compassivo com os pobres e buscava aliviar o sofrimento deles, mesmo que isso afetasse suas condições financeiras pessoais (Ne 5.9,15).848 Segundo os estudiosos, o autor do Salmo 49 fazia parte do segundo grupo e escreveu sua reflexão poética tanto como um encorajamento para os ricos piedosos, que não colocavam sua confiança na fortuna (v. 8,16), quanto como uma crítica aos ricos indiferentes aos pobres e que os oprimiam, colocando sua confiança nas riquezas, mostrando- lhes que a riqueza é passageira e a morte é inevitável (v. 11,18).849
845
GERSTENBERGER, 1988, cap. 1.1 (edição kindle, itálico acrescentado).
846PLEINS, 2003, p. 432-7.
847GERSTENBERGER, 1988, cap. 1.2 (edição kindle).
848ALBERTZ, 1999, p. 667-76; SPANGENBERG, 1997, p. 338-9.
849ALBERTZ, 1999, p. 675-7; SPANGENBERG, 1997, p. 338-9. Observe-se que essa tese também é seguida por
Tércio M. Siqueira em seu Comentário de Salmos (no prelo): “ [A] linguagem deste salmo é própria de uma facção da classe alta da comunidade dos judeus, no período pós-exílico. Esta classe compunha-se de dois grupos: (a) os judeus funcionários públicos ligados ao Império Persa e proprietários de terra cujas mentalidades individualista desenvolvia uma prática religiosa bastante arrogante e egoista; (b) judeus, também membros da classe alta, que expressavam uma prática piedosa voltada para os pobres e explorados. O Salmo 49 é fruto da crise social que caiu sobre a comunidade dos judeus, na segunda metade do século V aC (cf. Sl 37, 52, 62, 73, 94 e 112). A reportagem do capítulo 5 do livro de Neemias expõe o estado do conflito vivido pela sociedade judaica. Evidentemente que o autor do Salmo 49 encontra-se entre os que praticavam a lealdade para com as famílias pobres. Por isso, é muito significativo observar que na comunidade judaica existia pessoas sensíveis à situação dos pobres. A intenção do salmista era desafiar, no Templo, a posição dos bem-abastados judeus que negavam às instruções da Torá. [...] Essa crise social, do século V aC, fez produzir uma rica literatura que
Além do tema da estratificação social como razão para uma datação pós-exílica, David Pleins também elabora um quadro em que pressupõe certo desenvolvimento de crítica social da literatura de sabedoria. Ele afirma que as máximas dos mestres da elite urbana do livro de Provérbios não estabelecem uma crítica social como fizeram os profetas pré-exílicos, mas estimulam apenas a prática da caridade (Pv 14.31; 19.17; 21.13; 22.9), relacionando a pobreza com a preguiça (Pv 6.6-11; 10.4; 12.11; 19.15; 20.4) e mantendo as distinções de classes socioeconômicas (Pv 14.31; 17.5).850 Pleins argumenta, então, que é apenas no período exílico/sacerdotal, com os livros de Jó, Eclesiastes e o Salmos 49 e 73, que os sábios passam a criticar o caráter efêmero das riquezas e a defender a ideia de que justos sofrem nas mãos dos ímpios.851
Essa oposição entre a antiga tradição sapiencial e os grupos proféticos e sacerdotais pré-exílicos é bastante enfatizada por R. B. Y. Scott, que vê os sábios do período monárquico como “orientados para o indivíduo”, com um foco secular e mantendo-se indiferentes à preocupação de “sacerdotes e profetas com a ‘história da salvação’”.852
Segundo o estudioso, foi somente no período pós-exílico que as três correntes religiosas e teológicas dos profetas, sacerdotes e sábios foram combinadas em uma “simbiose” de piedade com a antiga tradição sapiencial e produziram textos como os salmos de sabedoria.853
Embora seja bastante atraente a tese elaborada por Mowinckel e desenvolvida por estudiosos posteriores acerca dos salmos de sabedoria, em especial o 49, como pós-exílicos, refletindo conflitos socioeconômicos tardios, um desenvolvimento religioso na crítica social e uma aproximação das outras tradições, ela tem várias fraquezas e não se impõe como uma tese definitiva.
Primeiramente, a estratificação social que produzia temor nas pessoas quando “um homem alcançar riquezas” (Sl 49.17) e que era fruto da “maldade” dos que “confiam” nas
representou um poderoso desafio ético-religioso em toda a comunidade. Evidentemente que foram os sábios que agiram em defesa dos explorados pela classe alta do povo judeu. Os sábios não foram os únicos que operaram em favor pobres (cf, Ne 5).” (SIQUEIRA, Salmo 49 [no prelo])
850PLEINS, 1987, p. 61-78.
851PLEINS, 2001, p. 432-7. John Day apresenta basicamente a mesma concepção que Pleins acerca da divisão de
dois tipos de literatura de sabedoria, sem uma dependência direta. Segundo ele, havia uma abrodagem mais “ortodoxa”, em que os principais representantes eram o livro de Provérbios e os Salmos 1 e 112, e uma abordagem “questionadora”, cujos textos representativos eram Jó, Eclesiastes e os Salmos 49 e 73 (ver DAY, 1990, p. 55).
852SCOTT, 1971, p. 17-20.
riquezas (49.6,7) não se constitui exclusividade da era pós-exílica, mas ocorre em vários textos da bíblia Hebraica como uma realidade pré-exílica.854
Isaías de Jerusalém, por exemplo, retrata de forma vívida o conflito socioeconômico e critica a ampliação egoísta de latifúndios na segunda metade do século VIII A.E.C:855 “Ai dos que ajuntam casa a casa, reúnem campo a campo, até que não haja mais lugar, e ficam como únicos moradores no meio da terra!” (Is 5.8, ARA). Da mesma forma, Miqueias, originário de uma aldeia do interior em Judá, expõe os problemas de corrupção e injustiça praticados pelos dirigentes da nação: “Os seus cabeças dão as sentenças por suborno, os seus sacerdotes ensinam por interesse, e os seus profetas adivinham por dinheiro; e ainda se encostam ao SENHOR, dizendo: Não está o SENHOR no meio de nós? Nenhum mal nos sobrevirá” (Mq 3.11, ARA).856
Sem dúvida, as imagens plásticas dos profetas ficaram na memória, jamais esquecidas nem perdoadas: a comparação das mulheres da elite com vacas gordas de Bashan (Am 4.1), as descrições daqueles que ficam estirados e se banqueteiam nas camas (Am 2.8; 6.4ss.; Mq 2.2), a insaciável cobiça por mais terra e mais posses (Mq 2.2s.; Is 5.8).857
O historiador deuteronomista revela que o uso da máquina pública para oprimir o povo comum já estava presente desde os primórdios da monarquia instituída em Jerusalém, com os excessivos encargos tributários sobre a nação, os trabalhos forçados858 e a concentração de construções e riqueza na capital e com a elite política (cf. 1Sm 8.10-18; Jz 9.7-15; 1Rs 4.7-19; 5.13-14; 7.1-12; 10.14-22; 11.28; 12.1-17).859 O “Estado tributário que inicialmente nascera com funções públicas de organização e defesa passa, pouco a pouco, a ser um autêntico poder de classe (a classe que se constitui nele) para manter e aumentar a exploração”.860
854GOTTWALD, 2001, p. 233-4. O próprio Gerstenberger reconhece que a estratificação econômica e a crise
social já haviam começado no período monáquico: “Por causa de seus interesses econômicos e militares centralizados, a monarquia deu oriem a um feudalismo que explorava cruelmente os pequenos proprietérios de terra e o proletariado urbano e agrário (Am 2.6-8; 5.11,12; Is 5.8-10)” (GERSTENBERGER, 1988, cap. 1.2 [edição kindle]).
855GOLDINGAY, 2001, p. 53.
856KAEFER, 2015, p. 98-9; LIVERANI, 2014, p. 201. Veja a crítica social contra o latifundiarismo proferida por
Miqueias: “Se cobiçam campos, os arrebatam; se casas, as tomam; assim, fazem violência a um homem e à sua casa, a uma pessoa e à sua herança” (Mq 2.2).
857CRÜSEMANN, 2009, p. 161. 858VAUX, 2004. p. 173-5.
859BRINDLE, 1984, p. 223-30; MERRIL, 2003, p. 338-9. 860DA SILVA, 2011, p. 24-5.
Essa opressão continuou até o fim da monarquia antes da conquista definitiva de Babilônia, como fica evidente na crítica do profeta Jeremias a Jehoaquim861 por sua “gestão de poder”, movida por ganância e expressa na prática da injustiça e opressão (Jr 22.13-19).862 Em Jeremias 5.26-27, o profeta faz referência a pessoas “perversas” (םיִע ָש ְר) que “se
enriqueceram” (וּרי ִשֲעַיַו) à custa de outros, fazendo dos homens vítimas de suas maldades e os
tratando como um caçador que persegue pássaros.863 “Os pecados eram tanto de omissão judicial quanto de ordem econômica. Apesar da posição social de poder que os perpetradores desfrutavam, eles deixaram de defender a justiça”, pois “fecharam os olhos para as decisões erradas” e nada fizeram para assegurar “direitos legais dos membros marginalizados da comunidade”.864
Portanto, não há como estabelecer uma datação pós-exílica para o Salmo 49 com base nas crises sociais da comunidade à qual o salmista se dirige, pois elas também exisitiram de forma abundante e intensa no período monárquico de Judá. Assim, resta analisar o argumento socioreligioso em favor da autoria pós-exílica.
A concepção de que o movimento sapiencial pré-exílico esteve em constante conflito com o movimento profético,865 distante do âmbito do culto,866 com um foco secular e mantendo-se distante “dos interesses e métodos das tradições proféticas e sacerdotais religiosamente dominantes”,867 tem sido questionada há algum tempo.
Em sua obra sobre a escola deuteronomista do templo de Jerusalém no século VII A.E.C., Moshe Weinfeld indicou as estreitas ligações entre a literatura sapiencial e a teologia deuteronômica, a qual ele entendia estar ligada aos sacerdotes do templo de Jerusalém e ser a base da reforma josiânica.868 André Lemaire também observa que “em Israel, assim como em outras nações do Antigo Oriente Próximo, a sabedoria não era irreligiosa. Ao contrário, o
861Aqui, em vez de seguir as traduções de ARA ou da BJ, estabeleço uma tradução/transliteração aproximada
para o nome de ִַקָיוֹהְיםי , designando-o Jehoaquim. Seu filho será traduzido/transliterado por Jehoakin.
862LIVERANI, 2014, p. 229; CRÜSEMANN, 2009, p. 172-3.
863KOEHLER; BAUMGARTNER; RICHARDSON; STAMM, 1994-2001, p. 897; ALLEN, קַשָע, in: HARRIS;
ARCHER; WALTKE, 1999, p. 705-6.
864ALLEN, 2008, p. 81. 865WHYBRAY, 1972, p. 9-10.
866VON RAD, 1973, p. 71-2; MOWINCKEL, 1969, p. 208-11. 867SCOTT, 1971, p. 17-20; ver PEINS, 2001, p. 436-7.
868WEINFELD, 1972, p. 244-281. Em um trecho do livro, após fazer várias comparações entre a textos da
tradição sapiencial e o Deuteronômio, ele conclui: “Vimos, portanto, que, em todos os casos em que as pasagens deuteronômicas tem paralelos claros e literais com a literatura de sabedoria, as prescrições sapienciais demonstram estar em um contexto original e mais natural. Portanto, podemos apenas concluir que foi o livro de Deusteronômio quem adotou o material temático específico da literatura de sabedoria, não o contrário” (p. 274).
comportamento religioso (‘o temor do Senhor’) desempenhou um papel dominante na sabedoria tradicional”.869
Por ser a obra sapiencial reconhecidamente mais antiga, remontando em grande parte ao período monárquico,870 o livro de Provérbios apresenta claros exemplos de como os sábios do período pré-exílico estavam preocupados e envolvidos com a vida cultual de Israel. Uma das máximas sapienciais critica o adorador que apresenta um sacrifício sem um caráter íntegro: “O sacrifício dos perversos é abominável ao SENHOR, mas a oração dos retos é o seu
869LEMAIRE, 1990, p. 178.
870Vários estudiosos têm reconhecido a natureza palaciana de grande parte das máximas de Provérbios e sua
identificação com obras bem antigas do Egito e da Mesopotâmia que também estavam ligadas ou à monarquia ou às escolas nos templos. Depois de um estudo profundo sobre o contexto social e teológico de Provérbios, Katharine Dell reconhece que as seções 10.1—22.16; 22.17—24.22; 25—29; 30.1-14; 31.1-9 expressam claramente um contexto palaciano (DELL, 2006, p. 88-9; 195-197) e que mesmo Provérbios 30.15-33, cujas máximas refletem uma sabedoria da natureza, remontam ao tipo de sabedoria cultivada por Salomão em 1Rs 4.31-34 (DELL, 2006, p. 89). Então, ela conclui que a seção acrescentada por último no livro (Pv 1—9) tem relação muito próxima com o movimento deuteronômico, o que indica uma coleção sapiencial editada entre o período do século VII e o exílio; ela diz: “Entretanto, eu argumentaria aqui que nenhuma parte de Provérbios 1— 9 precisa ser datada bem depois do exílio” e ainda acrescenta que o exílio seria o “terminus ad quem para a produção dessa seção e possivelmente a de todo o livro” (DELL, 2006, p. 196). Em outro texto, ela admite a possibilidade de que os capítulos 1—9 tenham sido reunidos/editados no exílio ou imediatamente posterior a ele, porém, sugere que boa parte desse trecho origine-se do período monárquico (DELL, 2009, p. 229-240) Christopher Ansberry publicou sua pesquisa de doutorado sobre o livro de Provérbios em que compara o propósito dos textos didáticos do Egito e da Síria/Mesopotâmia com os do antigo Israel. Ele mostra como as obras egípcias, bem como as mesopotâmicas, visavam à preparação daqueles que trabalhariam na corte, portanto, foram produzidos, em sua maioria no contexto da elite palaciana. Ele examina as várias seções do livro de Provérbios e conclui que, devido ao contexto do discurso, o desenvolvimento do material e as ênfases temáticas, a obra pode ser considerada o documento palaciano que servia para “prover o sensus communis ao jovem palaciano ingênuo a fim de transformar sua disposição moral, introduzi-lo aos valores básicos os valores do mundo sociorreligioso e lhe apresentar uma visão perspicaz de vida em suas várias dimensões” (ANSBERRY, 2011, p. 187). André Lemaire também defende um contexto social palaciano para o livro de Provérbios: “Embora a data final do Livro de Provérbios ainda seja tema de debate, a influência da ‘Instrução de Amenemope’ sobre Provérbios 22.17—23.12, bem como a importância de outros contatos literários com a tradição de sabedoria do Egito, poderia ser melhor explicada por um contexto tanto no período salomônico quanto no reinado de Ezequias. Ademais, em minha avaliação, esse livro é melho entendido como um ensino de sabedoria transmitido no contexto de uma escola, mais preciamente uma escola monárquica, durante o período do primeiro templo” (LEMAIRE, 1990, p. 172). Ver ainda a mesma conclusão de Bruce Waltke quanto à data pré-exílica e o contexto palaciano: “As admoestações e provérbios no texto bíblico também parecem ter originado-se nos lares cortesãos [...] Além disso, os temas de Provérbios se encaixam melhor nesse contexto. Alguns deles são mais apropriados para os reis e para aqueles associados com eles, e.g., provérbios relacionados à nação (11.14) ou ao rei (16.10; 20.2); jantares com a realeza (23.1-3); comportar-se de um modo digno de um rei (31.4)” (WALTKE, 1979, p. 231-2). J. A. Loader, embora não atribua o processo de compilação e redação de Provérbios à nobreza, reconhece que as coleções do livro foram reunidas e escritas por uma “classe de profissionais” que trabalhava na corte real: “Redatores como os ‘homens do rei’ tinham propósitos específicos com a seleção, edição e transmissão dos provérbios. Seria uma surpresa se isso [o material coletado] não demonstrasse seu trabalho, isto é, tanto na forma do livro quanto nos provérbios individuais como temos hoje. Particularmente, espera-se que o próprio Sitz im Leben e sua associação com a corte no Israel pré-exílico sejam refletidos nos Provérbios.” (LOADER, 1999, p. 233). Até mesmo R. N. Whybray, que considera a seção 1—9 um trecho tardio (pós-exílico), reconhece “que a corte judaica ainda era um centro de atividade sapiencial trezentos anos depois de Salomão, e é razoável supor que grande parte de Provérbios em sua forma atual seja produto do desenvolvimento literário sapiencial contínuo ao longo de todo o período da monarquia, ou seja, do século ao século VI a.C.” (WHYBRAY, 1972, p. 4-5).
contentamento” (Pv 15.8, ARA, itálico acrescentado).871 Observe-se que há dois elementos cultuais nesse provérbio: a oração e o sacrifício, e a preocupação do sábio é com o modo de vida do adorador,872 um tema de textos como os Salmos 15 e 24, bem como da tradição sacerdotal ligada a Levítico 19.
Outro ditado sapiencial antigo está relacionado a um voto sagrado em um ambiente cultual: “Laço é para o homem o dizer precipitadamente: É santo! E só refletir depois de fazer o voto” (Pv 20.25). A advertência para que se avalie a condição de cumprir ou não um determinado voto a YHWH está presente na literatura deuteronômica (Dt 23.21-23). A referência ao “filho dos meus votos” (Pv 31.2) parece aludir à prática cultual de uma mulher fazendo promessas a Deus em sua súplica por um filho (cf. 1Sm 1.11).873
A referência à “sorte [que] se lança no regaço” em Provérbios 16.33 parece ser uma referência à prática religiosa dos sacerdotes para descobrir a vontade divina mediante o Urim e Tumim (Êx 28.30; Dt 33.8; 1Sm 23.9-12). O sábio lembra que essa não é uma prática mágica ou mecânica, mas uma forma de dispor-se a entender a vontade de YHWH (16.33b: “mas do SENHOR procede toda decisão”, ARA).874
Esses são alguns exemplos de como o movimento sapiencial pré-exílico não era oposto ou indiferente ao culto no antigo Israel, mas estava profundamente preocupado com a forma correta de se adorar, pois a “religião cultual” era “uma parte importante e essencial tanto da herança religiosa de Israel quanto da própria devoção religiosa do sábio”.875
Também é possível identificar um relacionamento entre a tradição sapiencial e os profetas pré-exílicos, em que algumas formas e temas em comum revelam, em especial, a influência sapiencial sobre o movimento profético.
O uso da linguagem, formas e ideias de sabedoria conhecidas da própria literatura de sabedoria (Provérbios, Jó, Qoheleth, vários salmos) não demonstra que os autores ou os profetas eram sábios. Isso simplesmente revela que eles conheciam essa literatura ou tradições semelhantes a ela e compartilharam do pensamento de sabedoria geral a israelitas instruídos.876
871Observe-se a “Instrução ao rei Merikare”: “Mais aceitável é o caráter de um justo de coração do que o boi do
ímpio” (PRITCHARD, 1969, p. 417, coluna 2). WHYBRAY, 1972, p. 88.
872LUCAS, 2015, p. 118. 873DELL, 2006, p. 179-80. 874HUBBARD, 1989, p. 327 875PERDUE, 1977, p. 211. 876
Estudiosos têm notado a influência da literatura sapiencial em Amós, profeta do século VIII.877 Por exemplo, as perguntas retóricas do capítulo 3 (v. 3-8) e de 6.12 se assemelham