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A pesquisa constatou que os professores consideram importante o desenvolvimento de atividades práticas no ensino-aprendizagem de Ciências Naturais. Embora essas atividades sejam bem conceituadas, isso não se efetiva nas ações educacionais de, praticamente, a metade dos professores. As aulas de Ciências Naturais foram descritas pelos professores, em dois momentos distintos: no primeiro momento, fazem a exposição oral do conteúdo e, num segundo momento, realizam a atividade prática com a intenção de mostrar ao aluno o que lhe foi apresentado teoricamente. Esse modo de realizar as atividades práticas induz o aluno a aceitar o conhecimento como algo inquestionável. O ponto de partida do professor é a exposição de um determinado conteúdo que se fecha com a realização da atividade prática para confirmar a teoria.

Sobre esse modo de compreender as atividades práticas, Raboni (2005, p. 2) argumenta o seguinte:

O uso de atividades práticas, difundido nas décadas de 60 a 70, ainda predomina no ensino, mantendo o caráter de verificação, de uma lei ou regra. Ou seja, o aluno é convidado a fazer a atividade para provar que a lei ou a regra estão corretas. São inúmeros os exemplos dessa forma de uso, apesar das pesquisas e das propostas oficiais de ensino indicarem formas diferentes.

Raboni (2005) afirma que o professor, ao realizar atividades práticas somente para ilustrar o que diz a teoria, tira o interesse do aluno, pois o mesmo já sabe de antemão, que basta seguir as instruções que lhe são repassadas para chegar à resposta correta. Nessa forma de uso que se faz da atividade prática, restringem-se as possibilidades de levar o aluno às discussões mais amplas em torno dos resultados obtidos. Esse autor argumenta que para realizar as atividades práticas e manter o seu caráter aberto, possibilitando ao aluno explicitar suas ideias, requer que o professor tenha domínio dos conhecimentos específicos da área das Ciências Naturais. A falta do domínio de tais conhecimentos limita a condução das discussões

que podem ser suscitadas no desenvolvimento de tais atividades dificultando a interação do professor com os alunos.

O fato de alguns entrevistados vincularem a atividade prática ao laboratório, talvez aconteça pela não distinção entre as atividades práticas, que podem ser realizadas na escola e as atividades científicas vinculadas à construção do conhecimento científico. Borges (2002, p. 297) ressalta o caráter distinto de tais atividades:

As atividades práticas e os experimentos científicos são atividades bem distintas, com objetivos bastante diferentes. O cientista passou anos de sua vida estudando uma determinada área da ciência e quando se prepara para realizar um experimento ou conjunto de experimentos, ele o faz para resolver um problema que o interessa, e para o qual pode estar buscando uma solução há muito tempo. Assim, quando ele realiza um experimento, este vem precedido de muito estudo e reflexão, planejamento e preparação.

O modo como os professores pensam e realizam as suas atividades práticas evidenciam a intenção de levar o aluno a imitar o trabalho do cientista. Esse equívoco, em relação ao papel das atividades práticas no ensino de Ciências Naturais, contribui para que alguns professores não compreendam que essas não estão vinculadas ao uso do laboratório. O importante é que as atividades práticas, independente do local onde elas são realizadas, sejam planejadas para colocar os conteúdos de ensino como problema, para torná-los mais instigantes, desafiando os alunos a se inserirem no processo ensino-aprendizagem e a compreenderem tais conteúdos relacionando-os com a realidade concreta. Embora as escolas possuam condições de trabalho bastante diversas, ainda assim, é possível planejar e realizar atividades práticas.

Não queremos dizer com isso que precisamos aceitar de forma resignada as condições de trabalho que nos são oferecidas, as condições físicas em que se encontram as escolas. Ao contrário, precisamos lutar continuamente, reivindicando melhores condições à realização do nosso trabalho. A intenção, aqui, é apontar para a necessidade de se distinguir as atividades práticas realizadas nas escolas para ensinar-aprender Ciências, das atividades vinculadas à construção do conhecimento científico. Esse tipo de atividade, geralmente, implica no uso de um laboratório com equipamentos sofisticados, onde ocorre um trabalho intenso e persistente dos cientistas envolvidos na busca de respostas para os problemas que investigam. No ensino de Ciências Naturais, o professor pode contribuir para desmistificar a atividade científica levando o aluno a compreender que o cientista é um ser humano inconcluso como qualquer outro. Desse modo, pode cometer equívocos, incorrer em erros, ter dúvidas e sentir-se desafiado constantemente a retificar o seu trabalho.

Consideramos que ao optar por trabalhar com atividades práticas no Ensino de Ciências Naturais, é preciso que o professor busque romper com a ideia de realizá-las, somente para chamar a atenção do aluno, ou ainda, para levá-los a manipular materiais diversos, preparar reagentes, realizar a atividade seguindo as instruções de um roteiro, entre outros. As atividades práticas com essas características, segundo Bachelard (1996), são esvaziadas de significado, pois induzem as facilidades do conhecimento sensível, a sedução da experiência primeira, que não exige do aluno esforço intelectual. Esse tipo de atividade centra-se no interesse do aluno, pois, geralmente, eles gostam de ir ao laboratório. Entendemos ser necessário romper com a ideia de que a atividade realizada precisa contentar o aluno, mas, sim, compreender que a atividade prática planejada pelo professor pode desafiá-los, despertando sua curiosidade em relação ao tema que vai ser discutido para instigar a vontade dos mesmos em querer realmente aprender mais.

Acreditamos que os professores de Ciências Naturais precisam ir além da realização de atividades práticas, esvaziadas de significado no Ensino de Ciências Naturais, isto é, atividades que não desafiam o aluno a se inserir no processo ensino-aprendizagem e, por isso, não contribuem com o seu desenvolvimento cognitivo e com a busca do “ser mais”. Compreendemos, no entanto, que mesmo que o professor perceba essa necessidade, ele precisa de algum tipo de apoio para subsidiar o seu trabalho, além te ter clareza sobre o assunto, para saber onde buscar esse apoio.

Araújo e Abib (2003, p. 177) argumentam que apesar das pesquisas apresentarem uma ampla discussão sobre esse assunto “a maioria dos manuais de apoio ou livros didáticos disponíveis para o auxílio do trabalho dos professores, consiste ainda de orientações do tipo ‘livro de receitas’, associadas fortemente a uma abordagem tradicional de ensino”. Nesse entender, o professor precisa selecionar os materiais de apoio que utiliza para preparar suas aulas, além de fazer uma leitura crítica do modo como a ciência é apresentada nos documentos oficiais. Pino; Ostermann e Moreira (2005) argumentam, por exemplo, que o modo como a ciência é apresentada nos PCNs é ingênua e acrítica e isso pode contribuir para reforçar a visão empirista, que induz os professores de Ciências Naturais a acreditarem que se faz ciência por descoberta. Entendemos que as atividades práticas realizadas pelos professores de Ciências precisam ser mais discutidas, para que as mesmas possam contribuir com a inserção do aluno no processo ensino-aprendizagem.

4.1.5 Atividades práticas e atividades teórico-experimentais: possibilidades para ensinar-

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