Segundo Moreira (1999), a concepção comportamentalista ou behaviorismo surgiu nos Estados Unidos no início do século XX, e se caracteriza por considerar que o comportamento humano pode ser modelado e reforçado, mediante treinamento. Seu fundador é
o norte-americano John B. Watson (1878-1958) cujas idéias foram influenciadas pelo condicionamento clássico de Ivan Pavlov (1849-1936). Essa influência levou Watson a fazer experimentos com animais e com seres humanos. Apesar das propostas de Watson não terem sido organizadas em uma teoria consistente, seu legado teve continuidade por meio de outras teorias behavioristas, com uma grande influência na psicologia e na Educação persistindo até hoje. Conforme Moreira, para Watson toda aprendizagem resulta de um condicionamento clássico e acontece à medida que o sujeito sofre a influência de estímulos externos emitindo respostas que podem ser observadas e controladas.
Moreira (1999) afirma que na visão comportamentalista ou behaviorista de mundo, a teoria de Skinner (1904-1990) é a mais influente das teorias behavioristas contemporâneas. As teorias behavioristas consideram que as respostas são eliciadas pelos estímulos externos que afetam os sentidos do sujeito, ou seja, existe uma conexão entre o estímulo (E) e a resposta (R), por isso elas são, também, chamadas conexionistas. A teoria conexionista de Skinner teve uma grande influência nos anos de 1960 e 1970, em que o ensino era organizado com ênfase nos objetivos operacionais, que definia claramente o que o aluno teria que fazer logo após a instrução. Conforme Moreira (1999, p. 59),
Na perspectiva skinneriana, o ensino se dá apenas quando o que precisa ser ensinado pode ser colocado sob controle de certas contingências de reforço. O papel do professor no processo instrucional é o de arranjar as contingências de reforço, de modo a possibilitar ou aumentar a probabilidade de que o aprendiz exiba o comportamento terminal, isto é, que ele dê a resposta desejada.
O que importa nessa perspectiva são as respostas corretas emitidas pelo aluno, não há uma preocupação com a mente do aluno no processo intermediário entre estímulo (E) e resposta (R). Segundo Moreira (1999), a resposta está associada a um condicionamento chamado operante, isto é, o processo no qual o reforçador é introduzido após a emissão da resposta correta com a finalidade de aumentar a frequência da mesma. Desse modo, quando o sujeito emite uma resposta esperada, imediatamente, ela é reforçada, pois se acredita que boa parte da conduta humana é obtida e controlada, por meio do condicionamento operante.
Segundo Moreira (1999), um exemplo da aplicação da teoria de Skinner é a Instrução Programada. Nesse tipo de instrução, o conteúdo é dividido em pequenas etapas, com bastante clareza para facilitar a emissão de respostas corretas pelos alunos. O aluno faz os exercícios de acordo com o seu ritmo e as respostas emitidas pelo mesmo são verificadas imediatamente. O professor tem a incumbência de fazer o reforço positivo sobre as respostas corretas estimulando os alunos a continuarem desenvolvendo o programa.
Esse quadro configura o que Becker (2001) denomina como prática pedagógica reprodutivista e conservadora, sustentada pela epistemologia empirista. O mesmo autor (1997, p.16) esclarece que o empirismo ”explica o funcionamento da inteligência por uma pressão que o meio exterior – físico ou social exerce sobre o organismo e, que, paulatinamente, é gravada na mente ou no espírito do sujeito independente de sua atividade”. Nessa perspectiva, não se considera a interação do sujeito com o meio físico e social. Assim sendo, acredita-se que o sujeito tem um papel passivo e, por isso, deve apenas receber o conhecimento que vem de fora, sem questioná-lo.
De acordo com Becker (2001), trabalhar nessa linha significa aceitar que na sala de aula, o professor é o único portador do conhecimento transmitindo-o para o aluno, considerado como uma “tábula rasa”, frente a todos os conteúdos que lhe são apresentados. Para esse autor (p, 17), “a ação desse professor é legitimada, ou fundada teoricamente, por uma epistemologia, segundo a qual o sujeito é totalmente determinado pelo mundo do objeto ou pelos meios físico e social”. Parte-se, portanto, do princípio de que o conhecimento está no objeto, por conseguinte, é a aquisição de algo externo ao sujeito. Para a epistemologia empirista o conhecimento entra via-sentidos e é decalcado na mente do aluno. Assim, atribui-se ao mesmo um papel passivo.
Becker (2001) apresenta a relação epistemológica entre sujeito (S) e objeto (O) do seguinte modo: S ← O. Afirma ainda, que a mesma relação epistemológica que se estabelece entre sujeito e objeto está presente na relação entre professor e aluno na sala de aula. O autor traduz esse modelo epistemológico num modelo pedagógico onde a relação entre professor (P) e o aluno (A) é estabelecida do seguinte modo: A ← P. Assim, no processo de ensino e de aprendizagem, há uma ênfase na reprodução do conhecimento, que tem como fonte as experiências sensoriais. Acredita-se que os estímulos externos afetam o sujeito e levam-no a emitir o comportamento desejado e, a manutenção do mesmo está no reforço.
Nesse entender, dentro dessa visão de mundo, parece-nos que o papel atribuído a Educação é o de reproduzir os interesses da sociedade dominante para assegurar a manutenção do poder na mão de uma minoria. O professor é o representante dessa sociedade que sabe o conteúdo e, portanto, deve transmiti-lo ao aluno considerado como alguém que nada sabe. O papel do aluno é executar as tarefas que lhe são prescritas, emitindo as respostas corretas para atingir os objetivos estabelecidos pelo professor. As decisões curriculares ficam na mão de um grupo de especialistas selecionados para garantir as finalidades da Educação, isto é, preparar o sujeito para ser subserviente a fim de se adaptar às exigências impostas pela sociedade.
Nessa visão de mundo, a Escola é o local, por excelência, que cumpre rigorosamente tudo que lhe foi repassado, assegurando a transmissão dos conteúdos prescritos com ênfase na repetição e memorização. O objetivo da Escola e do ensino, veiculado por meio dela, é modelar o comportamento do aluno. Por conseguinte, a avaliação é padronizada com a finalidade de verificar se o aluno atingiu o comportamento esperado.
As discussões que, aqui, realizamos em torno da concepção comportamentalista nos fazem repensar a prática educacional que acontece no cotidiano das escolas, hoje.
Na sequência deste estudo, passamos a tratar da concepção humanista nos mesmos moldes que discorremos sobre a concepção comportamentalista.