Se, por um lado, na concepção comportamentalista o aluno era considerado um ser passivo, a quem competia apenas receber os conhecimentos transmitidos para, então, reproduzi-los fielmente, conforme esperava o professor. Por outro lado, na concepção humanista, Moreira (1999, p. 16) destaca que:
O importante é a auto-realização da pessoa, seu crescimento pessoal. O aprendiz é visto como um todo ― sentimentos, pensamentos e ações ― não só intelecto. Neste enfoque, aprendizagem não se limita a um aumento de conhecimentos. Ela é penetrante, visceral, e influi nas escolhas e atitudes do indivíduo.
Nesse entender, o aluno é considerado como pessoa que pensa e sente. Intelecto e sentimentos nessa perspectiva não se separam. Na visão humanista, o importante é que o aluno desenvolva plenamente seu potencial e suas capacidades de modo que os conhecimentos que ele adquire possam influenciar nas suas escolhas.
Segundo Moreira (1999), o autor humanista mais conhecido é Carl Rogers. As ideias de Rogers sobre ensino e aprendizagem resultam da sua experiência profissional como psicólogo na “terapia centrada no cliente” (terapia não-diretiva). Moreira afirma, ainda, que a premissa básica da psicologia rogeriana é considerar que o homem tem uma propensão para o crescimento no sentido de auto-realização. Desse modo, na visão humanista acredita-se que o sujeito em condições favoráveis busca desenvolver sempre mais suas potencialidades.
Moreira (1999) nos diz que: “o ensino centrado no aluno” e as chamadas “escolas abertas” nos anos de 1970 e 1980, encontradas nos Estados Unidos, têm sua origem na psicologia de Carl Rogers. Nessas escolas, os alunos tinham ampla liberdade para escolher o
que estudar, no entanto, as mesmas não foram adiante. Moreira (p. 147) explicita que a abordagem humanista de Rogers implica em: “confiar na potencialidade do aluno para aprender, em criar condições favoráveis para o crescimento e auto-realização do aluno, em deixá-lo livre para aprender, manifestar seus sentimentos, escolher suas direções, formular seus próprios problemas”. Cabe ao aluno tomar suas próprias decisões em relação ao que quer estudar, responsabilizando-se por suas escolhas.
Nesse sentido, Moreira (1999) nos diz que, entre os princípios de aprendizagem defendidos por Carl Rogers, se encontra o da “aprendizagem significante”, a qual acontece quando o aluno percebe a matéria de ensino como relevante, e manifesta seu interesse em estudar com mais afinco para que ele possa atingir os seus objetivos. A posição de Rogers em relação ao processo educacional, de acordo com Moreira (1999, p.145) é a seguinte: “o objetivo desse sistema, desde os primeiros anos até a pós-graduação, deve ser a facilitação da mudança e da aprendizagem. A sociedade atual se caracteriza pela dinamicidade, pela mudança, não pela tradição, pela rigidez”. Nessa concepção de ensino, o professor é o facilitador, no sentido de propiciar as condições para que o aluno aprenda.
No âmbito dessa discussão, Becker (2001) afirma que o ensino centrado no aluno, cuja origem se encontra na psicologia de Rogers, fez parte da proposta pedagógica viabilizada pela Escola Nova, que na realidade, tratava-se de uma proposta liberal e, de certo modo, foi responsável pelo esvaziamento do conteúdo de ensino, sobretudo, do ensino voltado para as classes populares. Segundo Becker, a concepção humanista ao tornar o pólo da aprendizagem absoluto, desautoriza o pólo do ensino, descaracterizando a ação do professor. Para esse autor, o professor imbuído dessa visão de mundo, evita intervir no processo de aprendizagem que, muitas vezes, caminha para o fracasso com prejuízos maiores para os alunos das classes populares. De acordo com os argumentos desse autor, os alunos das classes populares, provavelmente, produzirão menos em termos de conhecimento, em relação aos alunos da classe média e alta, quando não há a interferência do professor.
Sendo assim, o poder disfarçado, que se exerce numa sala de aula, sem nenhuma diretividade é tão nocivo quanto o poder exercido numa sala de aula diretiva. Segundo Becker (2001), essa não-diretividade, é legitimada pela epistemologia apriorista. Para os defensores do apriorismo o sujeito nasce com o conhecimento programado, trazendo consigo uma bagagem hereditária que precisa apenas ser despertada. A relação entre sujeito (S) e objeto (O) é representada do seguinte modo: S → O. Acredita-se que o conhecimento se encontra no sujeito e a tradução desse modelo para a prática educacional, na relação que se estabelece entre professor (P) e aluno (A) na sala de aula, é assim representada: A → P.
Sobre o ensino centrado no aluno, Becker (2002, p. 10) afirma que:
Uma pedagogia centrada no aluno pretende enfrentar os desmandos autoritários do modelo anterior, atribuindo ao aluno qualidades que ele não tem, como: domínio do conhecimento sistematizado em determinada área, capacidade de abstração suficiente, atualmente na área de atuação específica do professor, e volume de informações devidamente organizadas, além, é claro, do domínio das didáticas. Conforme, o que nos diz esse autor, a pedagogia não-diretiva, se contrapõe a pedagogia diretiva, prega a participação ativa de todos os alunos no processo de ensino e de aprendizagem atribuindo-lhes a responsabilidade pela sua própria aprendizagem. Na verdade, o que se prega dentro da pedagogia não-diretiva legitimada pelo apriorismo é que as condições socioeconômicas do aluno não interferem diretamente no desenvolvimento cognitivo do mesmo. Ao se atribuir ao aluno a responsabilidade pela sua aprendizagem, deixa de se considerar que ele ainda não possui condições para dar conta dessa situação, sem a interferência do professor. Para esse autor, isso pode causar um enorme prejuízo para o desenvolvimento cognitivo do aluno.
Almeida (2002, p.83) argumenta que não era uma prática educacional sem nenhum critério que Rogers propunha ao se referir à não-diretividade. “Sabemos que ele estava propondo uma confiança na capacidade organísmica do indivíduo na direção da auto- realização. Mesmo isso, se as condições facilitadoras existissem”. Para essa autora, muitas escolas não possuíam essas condições, por exemplo, a disponibinilidade de amplos recursos para a aprendizagem. Almeida ressalta que a transposição da abordagem de Rogers para a prática educacional de forma equivocada levou algumas escolas a aplicá-la, naquilo que ela tinha de mais negativo, resultando numa prática sem nenhum critério.
Nesse entender, o objetivo maior da Educação, na visão humanista, é a facilitação da aprendizagem desde que a escola ofereça condições para que o aluno possa participar de forma responsável do seu processo. Essa facilitação requer a disponibilidade de uma ampla gama de recursos materiais e, requer, ainda, que a relação entre o professor e o aluno, se estabeleça com ênfase no componente afetivo. Essa relação precisa ser receptiva para que o aluno encontre na sala de aula uma atmosfera propícia que lhe desperte o interesse para aprender. Defende-se, que o aluno tem uma potencialidade natural para aprender, sendo assim, ele é livre para decidir sobre suas ações e ser responsável pela sua aprendizagem.
Dentro da visão humanista, o papel da Escola é priorizar o pólo da aprendizagem, propiciando ao aluno os recursos necessários para isso. Dessa forma, os planejamentos de ensino levam em consideração os interesses manifestados pelo aluno. A avaliação tem uma
importância secundária quando feita pelo professor, por isso, o aluno pode fazer a sua auto- avaliação. Aposta-se na maturidade do aluno para auto-dirigir sua própria aprendizagem, assim ensino e aprendizagem são pólos dicotômicos.
Na sequência passamos a discorrer sobre a concepção cognitivista que surge no inicio do século XX. Nessa corrente filosófica, as teorias cognitivistas mais antigas apresentam fortes traços do behaviorismo e, as mais recentes são as teorias cognitivista- construtivistas com muita influência no processo de ensino e de aprendizagem nas últimas décadas do século XX.