Ronald Gobbi Simões
Eu descobri que poderia dizer coisas usando cores e formas para as quais eu não teria palavras. Georgia O’Keefe
E
stou certo de que vocês – caros leitores – ficaramembevecidos com esta representação luminosa e res- plandecente do sol elevando-se nesta página, jorran- do ondas de fótons que vão de encontro aos olhos de quem lê as ideias grafadas nas palavras LUZ, SL, BRILHO. É impressionante percebermos, por meio desta representação grá- fica do astro rei, o quanto é íntima – e por que não dizer mágica – nossa relação linguística com o mundo Visual-Espacial. Nessa relação, há vários desdobramentos: 1) da palavra (o signo); 2) de seu conceito (o significante); 3) da compreensão de palavras ou de expressões linguísticas (o significado); e 4) de sua imagem mental (ou imagens), por sua vez carregada de percepções senso- riais e de sentimentos (pulsação rítmica, calor, luz estonteante, vida, movimento cíclico, felicidade, alegria, paz, liberdade, ari- dez, queimadura, dor, exaustão, etc.).
Quando falamos da compreensão linguística de palavras (frases ou expressões), estamos nos referindo à associação entre a palavra, normalmente compreendido por meio da percepção
visual e/ou auditiva, e seu significado. Ao ouvirmos a palavra SOL, ao olharmos para as suas letras, ao atentarmos para a com- binação de símbolos gráficos que compõem este vocábulo, inevi- tavelmente associamos a sonoridade ou as informações visuais deste signo ao seu significado intrínseco, ou seja: O astro rei, cen- tro de nosso sistema planetário, do sistema solar; fonte de gravidade, luz, calor, brilho e vida, fundamentais para a existência do planeta Terra. Contudo, em se tratando de falantes que não são oral-auditivos, isto é, de falantes surdos ou surdos-mudos, o campo perceptivo é organizado de forma muito particular. Isto significa que para essas pessoas, quando a linguagem verbal oral não é imposta e assim não existe o som da fala enquanto “código”, a sonoridade da língua oral é substituída pela língua Visual-Espacial46. Neste
caso muito específico, para realizar o ato comunicativo, a asso- ciação visual predomina. Basta uma única alteração nas expres- sões faciais e corporais, nas configurações simbólicas expressas pelas mãos, num movimento qualquer relacionado à orientação ou ao posicionamento dos dedos e das mãos para alterar todo o sentido (significante e significado) da mensagem transmitida. Assim, na ausência do código sonoro, os surdos-mudos utili- zam-se um código Visual-Espacial, recorrendo-se no Brasil ao sistema simbólico do Língua Brasileira de Sinais – LIBRAS47.
Mas como ocorre o processo de decodificação dos dados perceptivos referentes à comunicação no cérebro? Há diferen- ças quanto à capacidade cerebral para a comunicação entre uma pessoa surda e um falante oral-auditivo? Ao que tudo indica, não. Nascemos com uma capacidade biológica surpreendente para a comunicação. Estudos realizados por Ursula Bellugi e sua equipe do Instituto Salk de Estudos Biológicos de San Diego sinalizam nesse sentido (BELLUGI et al., 2001). Os resultados
46 Para saber mais sobre língua visual-espacial, recomendamos ao leitor que leia Fer-
nandes (2003, 2006), constante das referências ao final deste capítulo. Outrossim, registramos o fato de que no Brasil existe um sistema para atender às necessidades de comunicação entre surdos e surdos-mudos: trata-se da Língua Brasileira de Si- nais – LIBRAS. Para conhecer melhor sobre tal sistema, aconselhamos acessarem o seguinte site: <www.libras.org.br>.
47 Lembramos ainda que comunidades diferentes utilizam línguas visuais diferen-
tes. Por exemplo, nos Estados Unidos, os surdos utilizam a ASL (American Sign Lan- guage – Língua Americana de Sinais), enquanto na Grã-Bretanha é utilizado a BSL
de sua pesquisa demonstram que, independentemente da lin- guagem que se utiliza, seja ela verbal (fala) ou visual (sinais), o centro de processamento e de produção comunicacional são os mesmos no cérebro. A área de Broca seria responsável pela pro- dução linguística, seja ela verbal ou visual; já a área de Wernicke, pela compreensão da fala e da língua de sinais.
6.1 O SISteMa vISUaL-eSPaCIaL
Para compreender as particularidades do código visual, é importante termos conhecimento sobre como funciona a nossa capacidade de ver, a fisiologia de nosso sistema visual. Quando olhamos para qualquer cena, imagem ou objeto, construímos uma impressão dos arredores baseados no modo como a luz é absorvida ou refletida pelas imagens ou objetos que compõem essa cena. Entretanto, é oportuno lembrar que a incidência da luz em nosso sistema visual representa apenas uma pequena parte do enorme espectro de ondas eletromagnéticas que nos cercam (STERNBERG, 2001). A radiação que denominamos de “luz”, detectável pelos nossos olhos, consiste de ondas medin- do entre 350 e 750 milionésimos de um milímetro (nanômetros – nm), enquanto o espectro como um todo engloba ondas de magnitude conforme exposição abaixo:
Quadro I – Magnitude do Espectro de Ondas Eletromagnéticas
Ao observarmos os dados contidos no quadro acima, des- cobrimos que nossos olhos conseguem detectar apenas uma parte muito limitada do amplo espectro de ondas eletromagné- ticas. O espectro do rádio, por exemplo, é constituído por ondas cujas frequências variam entre um metro e vários quilômetros, enquanto que radares e fornos de microondas têm espectro de ondas com frequências oscilando entre poucos centímetros ou apenas alguns milímetros.
Certos insetos, peixes e pássaros têm olhos que percebem ondas ultravioletas, que são invisíveis para os seres humanos. As abelhas conseguem ver as marcas ultravioletas impressas nas flores, que por sua vez atraem esses pequenos seres para sugarem o néctar de seu pólen, tornando assim possível a fecundação de vegetais da mesma espécie. E a piranha, que vive em águas muito escuras, tem olhos que captam ondas infravermelhas, permitin- do assim a sua locomoção num habitat em que o homem nada conseguiria ver48. Não obstante, mesmo quando compartilha-
mos faixa de ondas de igual frequência com os animais, a estru- tura do olho e a organização dos dados recebidos pelo cérebro produzem resultados diferentes para animais diferentes. Por exemplo, na retina do olho do sapo existem vários tipos de célu- las, cada um sensível a componentes diferentes de uma mesma cena. Algumas células reagem apenas ao que se movimenta, tan- to que um sapo não consegue ver um inseto parado perto dele, pois percebe e come somente insetos em movimento!
Nosso cérebro está organizado para receber informações sobre uma sucessão diversificada de movimentos, além de uma gama de dados sobre tamanhos diferentes de ondas e de sua res- pectiva luminosidade (em graus diversos de intensidade de bri- lho), convertendo essas informações em imagens tridimensionais e multicoloridas. Na retina do olho humano existem em torno de 130 milhões de receptores em forma de varetas e cones. Os dados recebidos por nossos olhos são codificados e organizados para em seguida serem transformados em mensagens eletroquímicas transmitidas ao cérebro. O córtex visual possui diferentes áreas de processamento que analisam informações relacionadas à intensi-