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DESCRIPTION DU CIRCUIT
Para o povo Igbo, da Nigéria, na África, a palavra “música” possui um significado bem corporal e de movimento, podendo ser traduzida como: “cantando, tocando instrumentos e dan- çando”. Para essa cultura, a música não é uma abstração, o corpo precisa estar necessariamente envolvido ativamente na produ- ção de melodias e de ritmos. A música sem a dança, por exemplo, não é considerada música verdadeira! De acordo com Ian Cross (2001, p. 4, TA), “Para a maioria das culturas do mundo e para a maior parte da existência histórica da nossa cultura, a música tem envolvido e envolve tanto movimento quanto som”.
Se considerarmos o aspecto evolutivo, a relação entre som e movimento é muito clara. Por exemplo: a reação corporal apro-
priada ao som pode significar a diferença entre a vida e a morte. Ao ouvir o rugido de uma onça na mata, a maioria das pessoas irá correr à procura de abrigo, a menos que a pessoa em ques- tão seja um caçador ou tenha tendências suicidas, nesses casos, as reações podem variar. Ao ouvir o chocalho de uma cascavel, a resposta apropriada é a imobilidade imediata, localização da ameaça e movimentos calculados para sair do raio de ataque, tendo o cuidado para que a cobra não considere esse movimento como uma ameaça à sua integridade física.
Entretanto, pensando em termos de funcionamento cere- bral, devemos considerar que o córtex auditivo, localizado nos lobos temporais e, portanto, o primeiro a ser estimulado pela música, não está diretamente ligado ao córtex motor. Em outras palavras, a música não provoca movimento ou sensação corpó- rea instantânea. As sensações físicas decorrentes da música pare- cem ser intermediadas por nossos sentimentos e personalidade, devido à ligação direta do córtex auditivo aos lobos frontais e outras partes dos lobos temporais. Os lobos frontais possuem funções cognitivas de planejamento, emotivas e de programação e preparação dos movimentos e controle da postura. É responsá- vel pela coordenação de quase toda atividade mental consciente. Já os lobos temporais, além da audição, estão relacionados com a aprendizagem, memória e emoções (KANDEL, 1991).
Os fetos e os bebês se movimentam mais quando suas mães ouvem música. Mas apenas após os seis meses de vida movimentam-se no ritmo da música (MOOG apud SILVEIRA, 2005). As ondas sonoras musicais atingem o ouvido, provocan- do reverberações. Considerando que o ouvido interno e médio do feto estão desenvolvidos por volta do quinto mês de ges- tação, conclui-se que mesmo antes de nascer estamos imersos em sons que variam em harmonia, intensidade e ritmo. Poste- riormente, a execução de sons parecidos com aqueles ouvidos na época da gestação parece exercer um efeito calmante sobre o bebê. O movimento em resposta à música, à sonoridade das palavras, é uma das primeiras formas de a criança estabelecer contato com a alteridade, o início da comunicação.
Além disso, a musicalidade se faz presente nas interações entre mães e seus bebês, na maioria das culturas, nas tradicio-
nais músicas de ninar, por exemplo. Pesquisadores nessa área, como Papousek (1996) e Cross (2001), enfatizam a forte rela- ção existente entre a música, o movimento e a vocalização du- rante os primeiros meses de vida. Os estímulos vindos de vários sentidos diferentes se unem, formando um esquema que, por meio da coordenação ou da sincronização de modelos verbais e cinestésicos, possibilita à criança pequena perceber e operar o entrecruzamento de informações. Sendo assim, é fundamental que o bebê receba informações variadas de modo natural, possi- bilitando assim a construção desse processo, ao mesmo tempo em que organiza os dados necessários para o estabelecimento da comunicação recíproca.
Stahlschmidt (2005, p. 80) trabalhou com 4 grupos de mães e bebês avaliando a relação da música com o desenvolvimento humano. A música acarreta movimentos coordenados que pare- cem surgir espontaneamente, sem que esse comportamento seja modelado por adultos ou por outras crianças. A autora apre- senta a fala de uma das mães referindo-se ao comportamento musical de seu bebê, conforme segue: “Ela vai lá e dança e olha pra mim. [...] quando dava essas músicas mais lentas, ela levan- tava os bracinhos... Mas onde que ela aprendeu? Ela levantava os bracinhos e ficava girando, assim, na pontinha dos pés. [...] Nos movimentos, ela consegue acompanhar qualquer ritmo, qualquer som”.
A dança é muito valorizada em nossa cultura, mas apenas em determinados ambientes e circunstâncias. Muitas pessoas não se sentem à vontade para dançar em uma sala de aula. Há, portanto, que se ter certo cuidado no planejamento de atividades que envol- vam não somente a dança, mas o movimento corporal de forma geral. Muitas vezes o professor só trabalha esse tipo de ativida- de com crianças, quando pretende realizar alguma apresentação pública, e, nesse caso, é o próprio professor que cria a coreogra- fia, ensinando os movimentos que ele considera apropriados. De conformidade com os PCNs (BRASIL, 1997, p. 51), “[...] o movi- mento corporal não pode ser esvaziado ou fragmentado a ponto de perder seu significado pessoal, social e cultural, e o movimento corporal deve refletir uma intenção do sujeito [ênfase nossa] e não depender exclusivamente de um estímulo externo”.
Por que não deixar os alunos livres para se expressarem da forma como consideram apropriada, apoiados pelo auxílio e su- gestões do professor, em vez de obedecendo comandos? A músi- ca tem uma linguagem própria, cabe aos alunos descobrir como expressá-la por meio dos movimentos de seus próprios corpos. Segundo Jourdain (1998, p. 407), a música representa o movi- mento físico por meio de modulações de formas musicais, o que pode ser visto, por exemplo, na música de Henry Mancini (A pan- tera cor-de-rosa): “[...] é uma linguagem na qual os objetos sônicos se movimentam juntos no tempo, da mesma forma como as par- tes do corpo se movimentam juntas [...]. Não é de espantar que a música nos faça querer dançar”.
A música, portanto, pode servir como estímulo para a aprendizagem de línguas através da exploração das característi- cas básicas que as duas áreas têm em comum, utilizando o corpo como meio de produção e percepção de ambas. Nos próximos tópicos, falaremos de melodia, ritmo, harmonia e texto musi- cal, relacionando cada um desses aspectos da música ao corpo e apresentando sugestões de atividades que podem ser desenvol- vidas em sala de aula.