No caminho de conceituação, uma das hipóteses levantadas sobre o estranho direciona sua origem à incerteza intelectual (Ibidem, p. 239). O estranhamento poderia ser pensado como uma espécie de sentimento que emerge de uma relação com o ambiente em que este começa a apresentar aspectos desorientadores, isto é, suas transformações poderiam afetar a imagem de segurança do lugar, de modo que a insegurança é sentida como queda de proteção. De maneira correlativa, Winnicott (1971) pensa o ambiente composto por um meio externo e os relacionamentos estabelecidos entre os indivíduos. A sustentação que o ambiente fornece é da qualidade de uma continuidade, tanto que este autor pensa
o trauma como uma descontinuidade dessa experiência de sustentação – como uma
experiência de insustentabilidade, uma falha no suporte esperado, suporte este representado como uma característica ambiental. Pondé (2011) pontua que este entendimento em relação ao ambiente é o que caracteriza no pensamento winnicottiano a ideia do medo como uma defesa. É a partir da compreensão de que o medo é reação frente a uma descontinuidade em um ambiente que perdeu a qualidade de sustentador que se torna possível pensar na “importância da ‘previsibilidade’ e da ‘confiança’ no ambiente para uma experiência de sua
continuidade da existência” (SANTOS, 2009, p. 19). O medo seria então uma defesa contra a possibilidade de finitude, de desmoronamento do ser. Neste ponto nos parece interessante retomar os apontamentos dos teóricos do risco mundial já que a previsibilidade e a confiança são elementos importantes para a caracterização desse conceito.
Giddens (1991) menciona que “riscos e confiança se entrelaçam” (Ibidem, p. 42), ao passo que para Beck (2010, p. 93), na sociedade de risco, torna-se crucial a antecipação de perigos para a sobrevivência. As incertezas fabricadas que esses autores discutem as colocam como parte do próprio processo de produção da existência, em que a tecnociência é sua fábrica. Nesse sentido, a gramática técnica ao encerrar o mundo à sua lógica torna-se o próprio tecido de produção do estranho, se o pensamos como sentimento gerado diante de incertezas. Poderíamos relacionar os conceitos de estranho, como Freud o descreve desde sua característica de incerteza intelectual, às incertezas fabricadas descritas por Beck, ou seja, como a aplicação de um saber que produz um não saber que passa a ser percebido como assustador ou ameaçador. A relação estabelecida com as incertezas fabricadas é assim da ordem da estranheza. O medo, núcleo dessa sociedade de risco, é o extrato da instalação técnica cuja aplicação produz estranhamento, porque se a gramática técnica se estrutura como “monopólio operacional da certeza da representação” (SILVA JÚNIOR, 2017), a incerteza poderia ser pensada como o que deveria permanecer oculto mas veio à luz, o que insiste em não se inscrever, uma espécie de déficit dessa totalização do mundo a retornar em forma de perturbação. A análise de Beck, no entanto, vai além e refere que esse processo gira em torno de si mesmo, produz uma repetição sobre sua própria lógica para incorporar as incertezas e operacionalizá-las como certeza. Essas características que o autor agrupa sobre a concepção de reflexividade também podem ser pensadas desde o ponto de vista psicanalítico relacionado a esse tipo especial de sentimento de estranhamento: a compulsão à repetição.
O tema da repetição na obra freudiana tem várias incidências até ser elaborado de maneira a provocar uma redefinição de conceitos, por tocar naquilo que era entendido como o princípio organizador do funcionamento psíquico: o princípio do prazer. Para o autor, o que está além do princípio do prazer é a pulsão de morte, um tipo de satisfação mórbida. A repetição seria uma tentativa de retorno a um estado anterior, e em última instância, o estado animado tenderia a retornar ao
estado inanimado, isto é, à morte. O autor se refere a essa tendência como o princípio do nirvana (FREUD, 1920/2006).
Como já mencionamos no capítulo anterior, esse é o entendimento presente em sua resposta a Einstein de que temos de lidar com forças que levam à união e crescimento e com forças que levam à destruição, embora ambas não sejam facilmente discerníveis porque enquanto as “manifestações de Eros eram visíveis e bastante ruidosas [...] o instinto de morte operava silenciosamente” (FREUD, 1930/2006, p. 123). Segundo o autor, uma das maneiras de marcar a presença dessa agressividade é por meio das repetições. Na clínica psicanalítica, em grande medida, os sofrimentos se manifestam como formas de repetição, fator importante a se considerar também para a análise social do mal-estar como o que se repete em sua presença apenas percebida como não inscrição simbólica. Poderíamos dizer, diante do que foi colocado, que Beck consegue capturar por meio de seu conceito uma lógica de repetição dentro dessa gramática técnica, quando o processo de produção libera riscos que passam a ser enfrentados como algo estranho a si, mas que, na verdade, são fabricados na mesma fábrica técnica. Os riscos são os perigos traduzidos pela lógica de produção da existência em uma relação de cálculo que confere ou não confiança nas ações. Lembremos que Giddens (1991) não pensa o risco como sinônimo de perigo, mas como o cálculo do perigo, risco é distância que pode ser (ou espera-se que possa ser) calculada entre o estado de proteção e o estado de insegurança. A repetição, portanto, está na busca por reincorporar por meio do cálculo o que surge como incalculado na relação, o que é estranho ao cálculo. É uma lógica de retorno a si indefinidamente, a busca a um estado anterior de diminuição do perigo mediante o cálculo do risco com o objetivo de conseguir alguma garantia para a ação. Não se trata de eliminá-lo necessariamente, senão de administrá-lo, embora mantenha a crença de um ideal de risco zero por meio do controle.
A atenção de Beck, no entanto, foi na direção de mostrar a falha presente nesse processo, pois o estranho que surgia ganhava uma dimensão que transcendia o tempo e o espaço e se distanciava das possibilidades antecipatórias de cálculo. Medidas como as empreendidas pelas Nações Unidas com relação aos riscos ambientais, como a própria ideia de Desenvolvimento Sustentável, nos parece funcionarem nessa mesma lógica de repetição, mas em uma ordem global porque o cálculo do risco já não pode deixar de ser mundial. O estranho se alastrou por todo o
globo ao mesmo tempo em que as relações de reconhecimento se tornaram globais; nossa morada comum (Heim) se tornou uma enorme casa assombrada (Unheim) já que povoada por riscos mundiais difusos (BECK, 2010).